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16 Deusa dos fantasmas


Eu estava quase dormindo quando os gritos fizeram Annie sair correndo pela colina. Era a segunda vez em menos de meia hora. Primeiro, foram gritos surpresos e chorosos. Agora eram gritos de horror.

Não me levantei imediatamente. Qualquer coisa que fosse, se eu chegasse perto, só ia piorar. Afinal, tudo fica pior quando um filho de Éris se mete. Principalmente se o filho de Éris em questão estiver tendo uma crise emocional.

Ok, não vou exagerar. Não é uma crise emocional. A verdade é que eu simplesmente não aguentava mais aquela sensação de vazio dentro de mim. Ver Nicholas caído por outra pessoa, achando que eu o queria apenas como um amigo e que fazia brincadeiras estúpidas... foi demais.

Meus lábios ainda formigavam, lembrando o toque dos dele. Macio. Foi tudo o que pensei na hora. Quando dei por mim já o tinha beijado. E isso por si só já teria sido suficientemente ruim sem ele dizer que eu estava brincando. Quem brinca com uma coisa dessas? Quero saber, para dar um soco nessa pessoa.

Leon, não é? Certo. Nicholas ama Leon. Dá pra perceber isso pelo tom de voz, por seus olhos buscando o outro, se você prestar atenção. Ou talvez seja só paranóia minha. Espero que sim.

Ele havia ruborizado. Issoeu não ia deixar passar. Por quê? Por que não fez uma expressão de repulsa? Por que hesitou em me afastar?

Nicholas, por que você me dá esperanças em vão?

Abri os olhos, encarando o céu azul. Azul demais. Aquele dia estava com um tempo tão bonito. Não combinava nada com o que eu estava sentindo. Devia estar coberto de nuvens cinzentas que passavam rapidamente, deixando brechas quentes de sol passarem.

Se Nicholas realmente ama Leon, eu não tenho chance. Só existe um ponto: Ele ainda não percebeu isso. Essa era minha oportunidade. Impedir que ele descubra seus sentimentos, não deixar que os dois terminem juntos. É o mínimo que posso fazer.

- Afrodite — resmunguei — espero que não me odeie por isso. Sabe, eu não sou lá uma pessoa agradável. Se não posso ficar com Nicholas, vou garantir que ele não fique com Leon.

Uma brisa suave passou por meu rosto, fazendo cócegas. Algo me disse que era a resposta da deusa... uma risada. Talvez desdenhosa, talvez divertida. Nunca saberia dizer.

Pretendia continuar deitado ali a tarde toda, até que um grito em especial me chamou a atenção.

- POR ZEUS, ALGUÉM TIRE LOGO ESSES CORPOS DAQUI! NEM O FILHO DE HADES ESTÁ AGUENTANDO MAIS!

Nem o filho de Hades está aguentando mais.

Pulei imediatamente, ficando de pé e correndo em direção ao tumulto. Alguns campistas se afastaram ao me ver chegando, provavelmente porque dava pra perceber que eu ia tropeçar e cair.

Como previsto, derrubei alguém na queda. Alguém bem fácil de se reconhecer, pelo chute que levei no estômago e pelo grito de "sai de cima, babaca!".

- Di immortalis, Mike, se você fosse mais desastrado conseguia derrubar um prédio com o olhar — uma voz feminina riu, me empurrando de cima de Annie.

- Megan — fiz uma careta — não diga isso. Um dia talvez eu consiga.

- Ótimo, só tente não derrubá-lo em cima de mim — Annie me olhou nervosa — que tipo de droga você tinha tomado? Estava parecendo um louco, falando coisas desconexas.

- Estava? — perguntei. Não havia prestado a mínima atenção na nossa conversa. Só sabia que Annie estava ali e que eu queria estar sozinho.

- Mike — ouvi a voz de Nicholas chamando, baixinho. Ainda no chão, me virei e vi uma cena grotesca.

Nicholas estava de joelhos, o rosto branco como papel virado para mim, as mãos em volta de um garoto caído no chão. O garoto devia ter em torno de 14 anos, cabelos castanhos bagunçados e roupa informal antiquada. Estava caído molemente, não sabia dizer se morto ou desmaiado.

Ou os dois.

Ao seu lado, o corpo de Holly. Ela estava visivelmente morta, os braços tortos, uma última expressão de susto na face. Tentei segurar um sorriso sádico. Não era engraçado, me repreendi. Não era bonito.

Mesmo assim, tinha uma vontade absurda de rir.

Sem me dar ao trabalho de ficar de pé, me arrastei até o lado de Nicholas. Seus olhos negros e profundos me encaravam, como se nunca tivesse precisado tanto de mim.

Foi como se um interruptor ligasse dentro da minha mente. Sabia exatamente o que deveria fazer. Não era muito gentil, porém era o modo mais eficiente de conseguir o que queria.

Passei um dos braços por seus obros e segurei-o sem dizer nada, esperando ele me afastar. Entretanto, Nicholas não o fez. Em vez disso, virou o rosto triste para o garoto no chão.

Algo me disse que aquele moleque só podia ser Leon. Ninguém mais faria Nicholas ficar com uma expressão tão desolada.

Aumentei o aperto, sugerindo um abraço. Ele mordeu o lábio inferior, soltando as mãos do corpo do fantasma que agora por algum motivo dos infernos era sólido e se apoiando em mim.

Inesperado.

Meu plano era que ele me afastasse. Nicholas me afastaria e então, aproveitando a brecha, eu o levaria embora dali. Para a enfermaria ou para o chalé, mas longe de todas as outras pessoas e principalmente longe de Leon.

O rosto dele estava próximo, encostado no meu ombro, enquanto uma das mãos segurava a frente de minha camisa. Nunca imaginei o quão frágil ele podia parecer quando estava realmente triste. Esperava que ele não sentisse meus batimentos cardíacos subitamente acelerados.

- Que nojo — alguém comentou. Não me interessava. Nicholas me buscava como um apoio emocional, pensei relutante, como um amigo, e eu não conseguia ver nada além do que parecia ser uma demonstração de afeto.

Posso estar pensando isso só para me ferir, contudo aquilo me parecia ser o tanto que Nicholas estava machucado por ver Leon estirado no chão, imóvel.

- Você está bem? — perguntei estupidamente. É claro que não estava bem. E é claro que ia responder que sim.

Nicholas fez um sinal de afirmação com a cabeça e se levantou, olhando em volta. Já haviam recolhido o corpo de Holly, e um capista de Apolo fazia menção de levar o de Leon também. Outros estavam parados em volta ainda, alguns nos encarando, porém a maior parte já tinha saído dali.

- Desculpe — Nicholas murmurou, dirigindo-se a ninguém em especial — depois vou explicar tudo direito. Onde está Quíron?

- Foi tentar entrar em contato com Ares — uma garota de cabelos azuis-roxos respondeu, sorrindo com solidariedade — Era o fantasma, não era? Não imaginei que vocês já tivessem se tornado tão amigos.

- É... Amigos... — o filho de Hades cerrou o punho e começou a seguir o grupo que levava o... enfim, levava Leon para seja lá qual for o lugar que estavam indo.

Fiquei parado no lugar, ainda sentado na mesma posição de antes, enquanto observava Nicholas sair da minha vista. Imaginei como as outras pessoas estavam vendo aquilo. Só faltava eu erguer um braço na direção dele e gritar "volta" ou algo assim. Bem que eu queria fazer isso.

Olhei na direção da floresta — não tinha percebido que estávamos tão perto da orla até que ela me pareceu um bom esconderijo. Um garoto pequeno se escondia atrás de uma árvore, fitando a cena interessado.

Não.

Me fitando interessado.

Ele soltou uma exclamação quando nossos olhos se encontraram e virou as costas, correndo para o interior da floresta. Me levantei, pronto para correr atrás dele, mais só para sair dali do que para saber por que ele estava me olhando, quando uma voz suave sussurrou algo.

Não era exatamente um sussurro, pois ressoou por todos os cantos, todos pareciam ter ouvido as palavras, porém foi como se estas tivessem sido ditas baixinho, apenas para que cada um escutasse.

- Cuidado com as vontades da deusa dos fantasmas. Cuidado com Melinoe.

Depois de um breve momento de silêncio no qual os campistas entendiam o que fora dito, várias conversas foram surgindo ao mesmo tempo, um barulho infernal crescendo.

Olhei novamente para o lugar onde aquele garoto estranho estava, mas não havia mais ninguém ali. Por ter parado para ouvir a voz, perdi-o de vista. Muito oportuno.

O aviso... era para mim?

Eu deveria ter cuidado com a deusa dos fantasmas? Mas o que ela podia querer comigo?

Respirei fundo. Pare de sonhar, Mike. O mundo não gira em torno de você.

Dando de ombros, andei até a arena, sem perceber muito o que estava fazendo e ignorando todos que tentavam falar comigo. Problemas demais na minha cabeça. Já não basta estar por um triz de perder a pessoa que amo, também tenho que aturar deuses e suas ideias malucas.

Peguei uma espada de tamanho médio, consideravelmente leve. Não era adequado usar uma dessas, acabaria colocando muita força nos golpes, mas minha intenção era quebrar tudo de qualquer jeito mesmo.

Chegando perto de um dos bonecos, comecei a imaginar de quem eu tinha raiva. Quem eu deveria projetar no boneco enquanto o atacava? Leon? Não, isso não faria sentido. Imaginar que estou atacando ele seria admitir que ele está sólido, e estando sólido, ele e Nicholas poderiam...

Ah, que saco. A única pessoa que verdadeiramente atrapalhava meus planos era eu mesmo. Imaginei no boneco a minha própria imagem enquanto decepava sua cabeça com um gole rápido e forte. Mesmo assim, continuaria sendo o que sou. Mudar só me daria ainda mais trabalho.

Ia passar a espada através do peito do boneco com um corte diagonal nada prático quando senti o primeiro tremor. Ignorei, dando de ombros e voltando a atacar meu desafortunado alvo inanimado.

Não cheguei a descer a espada. Antes que pudesse fazer qualquer movimento, outra coisa desceu, ou melhor, caiu em cima de mim. As paredes da arena desabavam, com um estrondo, me enterrando em uma chuva de mármore.