Consequências
38 O tempo perdido
Notas iniciais
Eles caminharam em direção ao quarto de Taila, ela estava ainda de mãos dadas com o namorado. Parecia ele mais calmo agora que ela se lembrava dele. Assim que chegaram ao quarto, ela se deitou na cama e ele permaneceu em pé ao seu lado.
— Você realmente parecia revoltada com ele. Eu realmente não imaginava isso — falou ele, pegando um pouco d’água para ela, que ainda estava um pouco transtornada com o assunto Kim Tan.
Ela se virou para ele e passou a mão na cabeça, no local da cirurgia, estava se sentindo feia e tinha medo de Choi Young Do a rejeitar por sua aparência de doente. Mas uma força em seu coração a tomava, fazendo-a se lembrar que se ele havia permanecido ao seu lado, ele não a ia deixar.
Assim que pegou seu copo d’água, ela olhou para ele e com o polegar, acariciou sua mão, a fitando intensamente.
— Eu não acredito que eu me esqueci de você.
— Nem eu — ele se sentou à beira da cama. — Como pode se esquecer de um homem como eu? Olha como sou lindo e chamo atenção de tantas garotas. Se eu fosse você, eu tomaria mais cuidado.
Ela sorriu, mas logo depois lhe deu um tapinha no ombro.
— Nem pense em dar moral para outras garotas.
Ele segurou o braço dela e lhe deu um leve puxão. Seu corpo foi em direção ao dele, que passou seus braços e apertou o corpo dela suavemente. Dando um abraço que parecia mais uma forma desesperada de matar aquele sentimento ruim de perder o seu amor tantas vezes. A mão dela pousou nos cabelos dele e seus dedos começaram a brincar nos cabelos dele, se enrolando neles suavemente.
— Eu não pretendo, a única garota que eu amo é você. Sabe como foi difícil te ver nos braços do Kim Tan por todo esse tempo.
— Eu imagino...
— Mas... — ele hesitou um pouco, puxando o rosto dela para olhar em seus olhos — não fique brava com ele por não te contar. Por mais que não pareça, ele não fez isso por diversão, mas sim porque também se importa com você.
Ela respirou fundo e passou a mão pelos cabelos, sentindo falta daqueles que foram raspados durante a cirurgia.
— Young Do, eu não estava discutindo com ele por causa disso, mas apenas usei isso de desculpa para dizer tudo aquilo que eu nunca tive coragem antes. Espera, onde está meu pai? Young Do como está o câncer dele?
— Eu realmente não sei — ele respirou fundo, olhando para os lados. — Ele se deteriorou muito rompendo o tratamento para vir te visitar.
— Que? Mas o médico tinha dado tão... Ah meu Deus! — Ela se levantou imediatamente da cama e correu em direção a porta. — Onde está esse médico? Eu preciso da minha alta, eu preciso ver meu pai! Agora!
— Taila, calma — ele correu em sua direção e a segurou pela cintura. — Se você ficar desesperada agora isso vai fazer mal para a sua saúde e você vai acabar tendo que passar mais tempo aqui — ele a olhou fixamente, com a intenção de acalmá-la. — Eu vou falar com o médico.
Ela se sentou na cama e começou a chorar imediatamente, escondendo seu rosto nos travesseiros sobre a cama. Tudo o que ela mais tinha medo estava acontecendo. Já sabia desde antes de seu acidente que seu pai não tinha muito tempo de vida e agora tinha menos tempo ainda. Cada vez menos tempo para ficar ao lado dele.
O médico veio logo depois de horas, estava ocupado com diversos outros pacientes. Deu a alta de Taila e avisou-a que devia ir para casa. Jay chegou logo depois ao lado de Park Soo Yong, Yang Mi e Myung Soo. Eles estavam com uma cesta de frutas e vários presentes para ela receber. Taila embora estivesse com um olhar preocupado e desesperado, resolveu dar um pouco de atenção aos seus amigos, afinal, eles largaram seus estudos o colégio Jeguk por sua amizade e isso não era qualquer pessoa que faria por um amigo.
— Como você está baixinha? — Perguntou Jay, em inglês, se aproximando dela e entregando uma caixinha com um presente em suas mãos.
— Estou bem, eu acho.
— Nós vamos te acompanhar até em casa — Park Soo Yong se aproximou dela e tocou de leve seu ombro. O que fez Choi Young Do se levantar imediatamente, caminhar em direção a ele e retirar a mão dele de seu ombro.
— Não precisa tocar nela.
— Eu só estou conversando com minha amiga.
— Pode conversar de longe — Taila apenas sorriu ao ver a cena. Park Soo Yong se afastou incomodado. Myung Soo e Yang Mi riram de tudo.
— Quer dizer que você se lembrou de tudo? — Perguntou Yang Mi, com um sorriso nos lábios, mas a sua satisfação não era tão grande quanto parecia.
— Sim, me lembrei de tudo o que aconteceu no passado — ela sorriu, mas não era um sorriso forte e radiante. Era apenas um sorriso comum. — Ainda bem que a área do meu cérebro atingida não foi muito funda, ou talvez eu pudesse nunca mais me lembrar de nada.
— Como viveríamos sem você? — Myung Soo falou enquanto caminhava até ela, pronto para entregar a cesta de frutas.
— Eu não sei, mas será que eu posso ir agora? — Ela sorriu, embora estivesse sentada na cama de hospital, já estava vestida com sua roupa. Apenas ficou sentada ali a pedido de seu namorado, que estava muito preocupado com sua saúde.
— Mas como você é apressada — resmungou Choi Young Do. Pegando as malas de Taila.
Ela se levantou da cama e caminhou, apoiando-se no ombro de Myung Soo e Park Soo Yong, o que fez Choi Young Do sentir ciúmes. E ainda mais incomodado com Yang Mi, que estava logo ao lado dele, chamando-o de “oppa” e grudando em seu braço. Ele acabou dando uma bronca nela, quando ela o fez derrubar todas as malas. Myung Soo a tirou dali para Choi Young Do não ficar mais bravo com ela.
***
Taila chegou ao hospital horas depois de ter se instalado na casa de sua mãe e ter conseguido dispensar seus amigos da visita ao seu pai. Tudo o que ela queria naquele momento era olhar nos olhos do pai e implorar a ele para que ele não a deixe tão cedo.
Assim que entrou no quarto de hospital, seu pai estava pálido e deitado na cama. Seu queixo caiu e as lágrimas já estavam brotando em seus olhos. Caminhou em passos lentos e vagos em direção à cama.
— Taila — ele sorriu, estava pálido e seus lábios estavam brancos. Ela estava usando uma touca para tampar parte de seu cabelo raspado. Ela acariciou lentamente os cabelos do pai, que parecia estar cada vez pior e algumas mechas de cabelo dele, grudaram em seus dedos e se juntaram com eles, sem que ela fizesse esforço nenhum. As lágrimas brotaram e escorreram pelo seu rosto.
— Pai... seus... cabelos.
— É normal — ele falava de uma forma fraca, mas ainda assim, mantinha em seu rosto um sorriso sincero que havia aprendido ou recuperado após descobrir sua condição. — Eu sabia que ia ficar careca, ou talvez eu nem fique.
Ela deitou sua cabeça no peito do pai e começou a chorar como uma criança que estava perto a perder aquilo que lhe era mais amado. Choi Young Do embora não houvesse entrado com ela, estava bem ali, ouvindo a amada chorar pela doença de seu pai.
— Você passou no último teste, eu te disse que ia ser fácil.
— Eu não quero pensar em testes agora, você está morrendo... o que eu vou fazer sem você pai? — Dizia essas palavras em um tom alto de desespero.
— Você nunca precisou de mim para viver. Você sempre soube o que fazer e o tempo que eu me afastei de você, te fará superar mais rápido.
— Não! — Moveu sua cabeça de um lado para o ouro. — Só vai me fazer lembrar que meu tempo com você ficou cada vez mais curto por você me isolar de você.
— Eu sei... eu fui um pai ruim, mas saiba de uma coisa, minha filha, — ele soltou um sorriso fraco, fechando e abrindo os olhos lentamente por causa da fraqueza — eu tenho muito orgulho de você, ouviu?
— Você se orgulha de mim? — Perguntou impressionada, olhando para os olhos do pai. — Você realmente se orgulha de mim?
— De todas as pessoas no mundo, você é a melhor pessoa Taila Monteiro. Eu realmente tenho orgulho de ser pai de uma garota forte e inteligente como você. Eu realmente te amo minha filha.
— Eu também te amo pai — ela o abraçou forte e suspirou. — Eu vou cuidar de você agora, eu não vou deixar que essa doença nos vença.
— Taila esqueça a doença... agora não há mais nada a fazer. Eu esperei demais para fazer a cirurgia.
— Não! — Repetia desesperada com lágrimas nos olhos. — Você não vai morrer, eu juro que não vai!
— Eu não vou — ele a tentou confortar como uma criança pequena, desesperada porque o pai poderia fazer uma viagem para muito longe. — Eu vou sempre estar ao seu lado, está bem?
Ela respirou fundo e deitou sua cabeça novamente no peito de seu pai, deixando que as lagrimas caíssem sem medo de seus olhos.
— Papai! Por favor...
Roberto não aguentou os chamados da filha, embora parecesse calmo por fora, estava em pânico por dentro. Queria ter vivido mais ao lado dela, cuidado dela e compartilhado coisas com ela. Queria não ter colocado a filha em perigo por seus caprichos de preparar sua filha para o futuro, mas de certa forma, ele sentia que havia concluído seu dever de transformar a filha em uma mulher.
Começou a chorar, gastando o que havia lhe restado de suas forças. Acariciando lentamente os cabelos da filha com sua mão esquerda. Ela olhou fixamente para o pai, que parecia estar aos poucos desmaiando de fraqueza.
Taila percebeu que agora ele parecia estar apenas descansando. Não quis acordá-lo, ele parecia tão fraco e magro recentemente. Toda aquela beleza masculina que Roberto possuía estava sendo levada por seu câncer e isso cortava o coração da filha de uma forma avassaladora que a deixava desesperada apenas de pensar no possível futuro de seu pai.
Choi Young Do a esperava do lado de fora, encostado na parede com as mãos nos bolsos. Assim que a viu, ele respirou fundo, caminhando em direção a ela e pousando seu braço no ombro de Taila, que estava segurando suas lágrimas.
— Young Do... eu perdi meu tempo de estar com ele — ela encostou sua cabeça no peito de Choi Young Do.
Ele apenas passou sua mão pelos cabelos longos dela, de forma calma e tranquila.
— Aproveite com ele o tempo que ainda resta.
— Young Do... ele vai morrer, meu pai vai morrer — ela não conseguia de maneira alguma segurar as lágrimas, que escorriam por seus olhos de forma ligeira e astuta, percorrendo toda aquela superfície.
Eles caminharam lentamente em direção a saída do hospital, de lá pegando um taxi e indo em direção a casa de Taila. Onde Marcela e sua mãe estavam arrumando o quarto da filha que estava pronta para voltar para a casa da mãe.
Quando os dois chegaram, a mãe de Taila estava preparando um banquete para a filha que precisava recuperar suas forças após o acidente, mas tudo o que Taila estava sentindo era apenas vontade de chorar, por não estar com seu pai por mais tempo e por não poder ficar com ele naquele exato momento. Estava sentindo uma dor tão forte em seu coração que mal conseguia controlar o que estava sentindo.
Tudo o que Taila queria naquele momento era subir e ficar sozinha. Seus amigos não estavam lá, estavam se preparando para viajar de volta para a Coreia do Sul. Choi Young Do não queria deixar a namorada sozinha, ela estava muito abalada por estar com medo de seu pai morrer. Ele resolveu ir para o hotel, porque querendo ou não, ele não ia poder ficar no Brasil por muito tempo.
***
Quando deram onze da noite, Taila se levantou de sua cama. Aquele quarto lhe trazia memórias boas de sua infância e tudo o que ela queria fazer era chorar. Caminhou para fora de casa e foi em direção à praia. Não levou nada consigo e estava pouco se importando se fosse assaltada. Estava apenas andando por aí com um olhar vago e perdido.
Uma pessoa parou a sua frente, não era aquela que costumava aparecer sempre que ela estava precisando, mas sim aquela que sempre esteve lá quando ela precisou. Levantou sua cabeça lentamente e olhou nos olhos castanhos dele.
— Kim Tan? — Ele retirou seu casaco imediatamente e colocou em seus ombros. Ela olhou para o casaco e depois para ele, um pouco confusa. — O que você está fazendo aqui?
— Passeando — ele tocou seus ombros para ajeitar o casaco, para que ele não caísse.
— Passeando? A essa hora?
— Acho que nós dois temos que conversar agora.
— Não... eu quero apenas ficar sozinha agora — ela começou a caminhar, mas seu braço foi segurado com a mão quente e o toque firme dele.
— Me deixe apenas te fazer companhia, já que o Choi Young Do não está aqui.
— Kim Tan, eu não quero falar do nosso passado agora, eu já cansei de tocar nesse assunto.
— Eu apenas quero que você saiba que... acho que eu estava errado. Eu não devia ter ficado para trás na época, então, devo pedir desculpas a você por tudo o que aconteceu.
— Isso é passado.
— Mas você não esqueceu. Se tivesse esquecido, você já teria me perdoado, mas você ainda joga isso na minha cara, significa então que eu devo pelo menos um pedido de desculpas.
— Você está estranho.
— Eu amadureci. Agora eu sou um outro Kim Tan.
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