Conselho Estudantil
3 Dois: Perdidos, Acabados
Notas iniciais
Esse capítulo vai ser mais para mostrar pro leitor o que tá rolando na cabeça do Sasuke e da Sakura. Mas, vai por mim, tem muita coisa por aí. Haha.
Capítulo 3: DOIS: PERDIDOS, ACABADOS
O tumulto nos corredores fez com que Sakura procurasse entrar mais ainda no meio das pessoas, grudadas feito azulejos de banheiro. Achou Ino, que começou a choramingar assim que a viu, lembrando-se do que estava a deixando abatida.
– Sakura... – chamou, em tom de criancinha birrenta – vão mudar as salas! Por que você fez isso? – emendou o “isso” em um “ô” sem fim.
Sakura rodou o rosto, tentando adsorver a informação. Quando conseguiu, deu um estalo. Mudar as salas? Ignorou o que Ino resmungava e foi até a porta da sua – 103 – na medida do possível, pedindo licença para os outros alunos. Viu o antigo mapa, com um carimbo grande de tinta vermelha em cima: “HAVERÃO MUDANÇAS/TRANSFERÊNCIA DE ALGUNS ALUNOS”, grudado exatamente no meio da porta. E, novamente, ela rodou a cabeça.
Era do Conselho Estudantil. Como não sabia disso? E, para quê tudo aquilo?
– Sakura-chan, Sakura-chan! – Naruto gritou, chegando perto da rosada, que endireitou o pescoço para recebê-lo – Você que fez isso, de mudar as salas?
– Ah, olá, Naruto. E, não. Não estava nem sabendo – Sakura olhou em volta, não muito interessada. Foi a vez de Naruto rodar o rosto, exatamente como Sakura.
– O que foi?
– Ah, nada... – os olhos verdes buscavam insaciavelmente por Sasuke. Desde que ele saíra daquela sala, no dia anterior, ele não a tinha deixado em paz nem por um segundo: não saia de seu pensamento, de sua mente e parecia querer se alojar em todas as páginas de seu diário mental, no qual escrevia o tempo todo, com sua caneta dourada da imaginação.
Sakura balançou a cabeça, jogando o tal diário na superfície dos pensamentos, junto com as coisas abandonadas, como o casamento da tia, no fim do ano. Escreveria mais tarde. Naquele momento, precisava falar com Tsunade.
A loira estava atendendo um pai. Mas já estava no fim da conversa, então não demorou para atender Sakura. A menina de cabelos cor-de-rosa – naquele dia, presos em um longo e alto rabo de cavalo – entrou na sala, séria. Tsunade tagarelou sobre o estresse que passara na noite anterior, enquanto bagunçava mais ainda sua mesa – um completo caos – procurando qualquer coisa. Uma caneta.
Ao achar, olhou para Sakura.
– Ei... puxa – recuou um pouco a cabeça e se esparramou na poltrona que sentava – está radiantemente bonita hoje, Sakura. Passou maquiagem ou alguma coisa? – Sakura lançou para ela aquele olhar de “Pare de bobeira, quero falar com você” acompanhado de um sorrisinho envergonhado – Não, é sério! Haha, estou falando sério. Você fica bem de cabelo preso. Sem brincadeira.
– Tsunade-sama, vim aqui para perguntar sobre as mudanças de sala – Sakura exclareceu, vendo que a diretora não ia parar de falar.
– Oh, sim. Besteirinhas, querida – Tsunade balançou as mãos. Sakura sorriu; aquela frase era a cara de Tsunade – Só tirar um aluno bagunceiro daqui e passar para lá, onde o amiguinho de bagunça não está. Talvez fiquem quietos assim. Ah, e soube que o Conselho teve uma reunião ontem. Muito bom, Sakura. Até Shikamaru foi, não é? Trouxe o relatório? Já, já eu leio. Sobre aquela reescrita do Manual do Aluno, eu queria deixar para lá. – a diretora suspirou – Acho que é muito para vocês, estava abusando da ajuda. Mas obrigada por se dispor a fazer isso. Pode deixar agora, que eu posso fazer na sexta que... – Sakura arregalou os olhos.
– O que? Não, não, Tsunade-sama. – Sakura futricou na mochila, apressada e tirou um pequeno livrinho de lá – Mandei imprimir ainda ontem, disseram que hoje já estava pronto. Passei lá para pegar hoje de manhãzinha, antes de vir para cá. Bem, esse é o Manual do Aluno do ano que vem, caso a senhora concorde com as mudanças e assine no “ciente da impressão e distribuição”.
Tsunade se levantou, estupefata. Segurou o Manual com as mãos trêmulas, confirmou se haviam mudanças, viu o nome de Sakura e do grupo do Conselho Estudantil no “Elaborado/Editado por” e o novo ano na capa. Caiu para trás. Sakura levou um susto.
– Tsunade-sa...
– Você terminou ele inteiro ontem? – Ela indagou, segurando o vão entre os seios, como se fosse ter um ataque cardíaco – Tem quase 200 páginas de Arial 11!
Sakura sorriu, divertida.
– Não precisa mais se preocupar. Só queria que lesse, certo? – Tsunade recuperou a dignidade e se levantou do chão, finalizando o drama.
– Certo, Sakura. Continue assim – pigarreou. Sakura soltou um risinho. Tsunade a analisou por um segundo e deu um estalo – Ah, sim. Na semana que vem, depois do simulado, que acaba ao meio-dia, o Conselho Estudantil vai organizar o festival de boas vindas ao Diretor do Colégio Hisuha.
– Espere. Hisuha? Aquele da avenida?
– Sim. Bem, o diretor de lá, descobri eu, como te contei quando chegou, – Tsunade explicou, irônica, como se mostrasse a Sakura como era horrível ela não ter prestado atenção – foi um colega meu de faculdade.
–... colega? – Sakura fechou um dos olhos.
– Sim. Algum problema? – Sakura balançou a cabeça negativamente, estremecendo – Pois bem. Vamos fazer uma festa com os alunos do Ensino Médio de lá também, para manter as duas instituições ligadas. Quero que você coordene essas coisas.
Sakura estreitou os olhos.
– O quê? – prolongou o “ê” – mas e as provas, Tsunade-sam...
– Pare com isso, Sakura. Parece uma adulta falando – a diretora fechou os olhos, em reprovação – Você tem 24 horas para fazer qualquer coisa. E, isso tudo, em um dia só. Aposto que em uma única semana até já terminou de estudar os livros do ano todo. Afinal, o que você faz da uma às cinco da manhã? – Suspirou. Sakura quase se sentou, completamente perplexa ao ouvir aquilo – E, jovem como você é...
– Mas, Tsuna...
– Por favor – a diretora choramingou – eu te imploro. Também estou lotada de afazeres. E, eu sei, é seu futuro; mas posso assegurar que isso trará grande consciência de responsabilidade, Sakura. Sim?
Foi a vez de Sakura suspirar. Mas, não. Não iria se deixar abater.
– Que cor será a decoração? – perguntou, simplesmente, dando um sorriso previamente cansado. Tsunade sorriu de canto, orgulhosa.
– A mais barata. Dinheiro não cresce em árvores, querida. Oh, sim.
Sakura esperou.
– Tem que ir deslumbrante, certo? Afinal, vai representar o Colégio. – Sakura assentiu, engolindo em seco. Grande resposabilidade, menina pequena. Mas guardava um poder imenso dentro de si, Tsunade sabia. Então, não haveria erro, nem problema.
Sakura pensou se Sasuke iria e, caso fosse, com que roupa ia. Mal lembrou de Ino, Hinata ou qualquer amiga. A primeira pessoa que pensou foi o dono dos olhos negros profundos e arrepiantes. E, falando nele, ao olhar para porta, conseguiu vê-lo entrando na sala de aula em um meio tempo. E, notou mais tarde, Sasuke não estava sozinho. Estava com Neji. Este comentou alguma coisa que fez o moreno rir. Sakura ficou se perguntando no que estava pensando naquele momento. Ficou com medo de Gaara estar por perto. Mas não o viu. Sasuke rindo era um espetáculo: os dentes brancos, caninos afiados brilhando, rosto iluminado. No que pensava, ao parar de rir e sorrir, simplesmente? O rosto continuava iluminado. Mas, agora, estava terno. Feliz. No que pensava...?
“Ora, Sakura. Provavelmente no jantar; qualquer coisa...”, ela argumentava, irritada, contra si mesma, quebrando completamente o clima meloso que criara. Mas não parou de olhar. E, em um meio segundo, Sasuke a viu. Ela ficou estática. O que fazer? O encarou, usando todas as forças que tinha para unir os lábios. Ele estava de costas para ela. A viu. Seus olhos a ignoraram e se fecharam, em irritação, virando direto para dentro da sala. Entrou.
Sakura odiava quando aquilo acontecia: lembrar de alguém que, provavelmente, nem lembrava de sua existência. Lembrar tanto ao ponto de fazer sua cabeça doer.
♜
Sasuke acordou com uma daquelas ressacas. Pela primeira vez, não era de bebida. Ressaca de tanto pensar, caso isso existisse, era sua doença. Ele se levantou preguiçosamente, tardado a abrir os olhos.
Pensara em Sakura. A noite toda. E isso, 1) o estava deixando viciado; 2) o estava deixando muito, muito irritado.
Viciado em pensar no cheiro de perfume feminino que parecia tão incrivelmente diferente do dos outros, só por estar conectado ao corpo daquela moça. Viciado em lembrar dos longos e sedosos cabelos róseos que, em sua imaginação, estavam sempre tão próximos, implorando para serem cheirados; e, nossa, que cheiro. Sasuke estava viciado em olhar aqueles olhos enormes e expressivos, de cílios longos e sedutores, que abriam as portas da felicidade. Sasuke nunca se sentira tão leve como quando via Sakura. Parecia que, só de vê-la ali, presente, sorrindo, viva, aquilo já o deixava extremamente satisfeito. Era como se tivesse ganhado um prêmio ou até uma bênção só por ela existir.
Sasuke queria aqueles lábios, queria aquele corpo. Sem porquê.
Aliás, era isso que o estava deixando tão irritado. Sasuke a queria demais. Era até como se precisasse dela. E por que não parava de pensar nela? Sakura não saía de sua mente. Estava sempre ali, sorrindo, com aqueles dentes alinhados e quase tão brancos quanto a pele. O nariz arrebitado se movendo em uma careta quando ele falava algo que a irritava.
E tudo isso, claro, na cabeça dele. Porque, na verdade, Sasuke sabia, estava sentindo algo desconhecido por alguém que mal conhecia. Talvez só fosse algum tipo de luxuria por ela ser a única que ele ainda não havia possuído – além de Hinata – misturada com curiosidade, para saber como é o beijo da cerejeira. Ele rezava para que fosse isso. Sasuke Uchiha estava, no fundo, com medo, com muito medo. Porque ele podia desconhecer o amor, mas não era estúpido. E só de pensar em estar se apaixonando por qualquer uma, quem quer que fosse, já o deixava irado de raiva.
Por que não podia odiá-la, como a todos os outros?
Por que falara com ela, no dia anterior? Nunca fizera questão nenhuma de falar com ninguém. Por que com ela? Sakura não passava de mais uma das garotinhas que tinham uma queda por ele no maternal. Por que agora, no Ensino Médio, ela o despertou tanto interesse? Talvez nunca tivesse reparado nela. Ele não sabia ao certo. Mas ela tinha algo. Alguma coisa. Uma espécie de droga, em todo o corpo.
Chegou ao colégio com enxaqueca, vontade de vomitar a vida e dar descarga em tudo. Era o que merecia, ele pensava, por ter pensado por um único segundo em usar aquela droga abençoada que Sakura parecia ser. Havia uma multidão no pátio do Ensino Médio. Ele não fez questão nenhuma de ver o porquê do tumulto, ainda mais porque viu que Sakura não estava ali. “Como se fizesse diferença ela estar ali ou não...”, ele ergueu o olhar. E foi, minutos mais tarde, ao lembrar de Sakura, que ao espiar – pelo canto do olho – um par de olhos que chamou-lhe atenção e que lhe observavam o riso, viu a moça. Os lábios e bochechas rosadas, olhos ativos e expressivos. Os mesmos olhos que cercavam seu pensamento. Ela o olhava, curisa com algo. Aquilo fez Sasuke sorrir, esquecendo-se completamente do comentário que Neji fizera e que acabara de provocar uma risada espontânea da parte dele. “Não”, foi só o que conseguiu pensar. “Não, Sasuke. Não dê esperanças, não alimente roteiros. Vamos, não olhe. Não olhe.”
Mas olhou.
E, quase sem chance de voltar à real, quase afogado pelas águas daqueles olhos, ele, sem poder fazer mais nada, só conseguiu mover suas pálpebras, quebrando a ligação imediata que sempre surgia quando ele a olhava, fechando os olhos e virando o rosto diretamente para dentro da sala. Aquilo o corroeu.
Lembrou-se do dia anterior. O que havia sido aquilo? Ele mentira para protegê-la? Foi isso? Sasuke não entendia. Só o que sabia era que só de pensar em Gaara tocando Sakura, onde quer que fosse, aquilo já o deixava irritado. Mas ela nunca poderia saber disso. Já podia estar tirando conclusões erradas pelo que ele fizera por ela no dia anterior, que conclusões tiraria caso ele dissesse isso a ela?
“As corretas, talvez”, Sasuke suspirou ao ouvir a voz que mais odiava ouvir e a mais difícil de lutar contra – a voz da verdade – sussurrar, em seu ouvido. Estava ficando louco. “Louco pela moça, talvez”.
– Cale a boca – ele gritou, de repente, no meio da aula de Álgebra.
– Desculpe, Sr. Uchiha, mas eu sou o professor. Não posso. Mas, caso queira, posso tirar o senhor da sala. Com certeza o pátio está bem silencioso – o professor sorriu, irônico, e os alunos riram. Sasuke se desculpou.
“O que está acontecendo comigo...?” Sasuke não prestava muita atenção na aula, realmente. Se levantou. A sala parou de rir e olhou diretamente para ele, que se retirou em passos erguidos com um incômodo irritante.
“Sakura... você está me deixando maluco”.
O professor arregalou os olhos e, mesmo chamando o nome do Uchiha três vezes, nada fez com que ele parasse.
– Bem, deixe-o ir – o professor deu de ombros – os exames bimestrais estão aí e o simulado de domingo que vem também. O problema é dele. Voltando à aula...
Mal sabia o professor que Sasuke iria gabaritar o simulado e tiraria 9,3 no exame bimestral de Álgebra. Não havia problema algum nas aulas. O problema estava em Sasuke. Este, aliás, não querendo admitir isso para ninguém – muito menos para si mesmo –, jogava a culpa em Sakura. Realmente...
“Está afim dela? Haha, ainda não a beijou, não é? Quer finalizar o colégio com chave de ouro.”
As palavras tão infelizes de Gaara não saiam de sua mente. E aquelas não eram nem mesmo as que mais o incomodavam. O que mais irritava Sasuke era o fato de até Gaara ter percebido que ele estava diferente, sem nem ele, por si mesmo, ter sacado o que estava acontecendo.
“... Ou o quê? Veio salvá-la? Hilário, Sasuke. O que deu em você, agora?”
Salvá-la...?
Sim...
Ele a salvara. Do trouxa do Gaara, mas a salvara de qualquer jeito. E Sasuke faria de novo, caso necessário. Sem pensar duas vezes. Por que aquilo?
“O que deu em você, agora?” – a frase se repetia, deixando Sasuke tonto.
Tinha que parar com isso. Imediatamente. Iria esquecê-la, antes que as coisas piorassem. Francamente, Sasuke... o que deu em você agora?
O que você está fazendo? Cabulando aula para pensar em garotas? Haha, que divertido. Sasuke se sentou, apoiando as costas em uma das paredes de um dos corredores daquela escola imensa. “Não é qualquer garota” – a voz dizia – “É Sakura Haruno”.
Sakura Haruno...? Sim, era ela mesma.
“Sim”, ela dissera, horas mais tarde, naquela voz docemente irritante, que tirava a paz de Sasuke haviam tantos torturantes minutos. “103. E você?”
Dizem que a mente é poderosa. Nisso Sasuke concordava plenamente. Poderia fazer o que quisesse em seu pensamento. Um mundo que ele controlava, onde Sakura provavelmente não existia para atrapalhá-lo ou deixá-lo idiota. Mas Sasuke estava fraco; Sakura o deixava fraco, meigo e sorrindo pelos cantos. Por isso, até naquele lugar mais obscuro, no fundo da mente do Uchiha, Sakura estava presente. Sentada, olhando para ele, ela sorriu. “Sasuke...”, chamava, com sua voz doce. “Sasuke, venha aqui. Venha aqui, pertinho de mim”. Sinos tocavam, ao fundo, formando um som leve e hipnotizante – o que, para Sasuke, era com certeza – que unia a voz angelical de Sakura com a melodia que anunciava a entrada ao Paraíso.
– Sasuke... – ouviu uma voz, ao longe. Parecia muito distante, realmente.
– Hmm...? – Foi o que ele respondeu, ainda de olhos fechados, desesperando-se ao constatar que se distanciava cada vez mais da moça. Ao abrir os olhos, ela já virara névoa. Ao ver Gaara, olhando para ele confuso – só não mais do que o Uchiha –, se levantou do chão – Desculpe. O que foi?
Estava perdido. Agora, estava sonhando com ela.
– Estava sonhando com uma playboy, cara? – Gaara arqueou o cenho – Quer dizer, o jeito que você me olhou quando eu te acordei... foi tipo “Ah, merda...” – Sasuke olhou para os lados e passou os dedos no cabelo – Ah, não. Não faz isso.
– O que?
– Não vai tentar me enrolar agora, não é? – Sasuke revirou os olhos.
– O que você quer, Gaara? – perguntou, de uma vez.
– Vim beber água e quase tropecei em você, cara. Levanta – ele estendeu a mão. Sasuke suspirou e se levantou.
– Certo, certo. Obrigado – murmurou.
Gaara analisou Sasuke por alguns instantes. Sorriu, travesso.
– O que tem nela que meche tanto conosco, hm? – o ruivo alfinetou, soltando um sorriso malandro de lado. Sasuke arqueou o cenho.
– Não sei do que está falando.
– Haha – Gaara soltou um riso sem humor – Bem, não é todo dia que Uchiha Sasuke se interessa por alguém. Tenho que aproveitar oportunidades, Sasuke. – o moreno só suspirou.
– Não estou interessado em ninguém, Gaara. Não sei de onde tirou isso e, se está se referindo à Sakura e ao que aconteceu ontem, já expliquei que ela é filha de uma das amigas mais próximas da minha mãe. Eu não ia te deixar fazer nada com ela. – Gaara sorriu mais ainda.
– Ótimo. Quer dizer, então o problema era só eu estar fisicamente atraído por ela em uma questão de minuto...? Porque, sabe, fui dormir atraído por ela do mesmo jeito, e isso é raro de acontecer. – Deu de ombros – Então, por que não vou à sua casa e você convence a sua mãe a, no mesmo dia, chamar a mãe da Sakura e, claro, a Sakura? Vou poder ficar sozinho com ela assim. Podia me dar uma mão, não é, cara? Ainda mais se você não se importa...
Sasuke ficou tenso e rígido. Gaara fingiu não notar.
– Por que não a chama para sair, por si mesmo? – Sasuke perguntou, sério. Gaara lançou um olhar estilo “Ah, mentira, né?” em resposta.
– Depois de eu quase atacá-la ontem, aposto que ela nem por um milhão de dólares aceitaria sair comigo. Ainda mais porque, agora, provavelmente, o herói dela é você. Você tem bem mais chances com ela do que eu. Mas, não se preocupe. Pego ela em um segundo e... plim. Seus problemas estão resolvidos. Assim como os meus.
Sasuke olhou para o lado, um tanto indiferente.
– Vou ver o que posso fazer – disse. Gaara sorriu, como se estivesse fazendo propaganda de creme dental. Mas, claro, com um toque maligno estilo Gaara.
– Me ligue, cara. Vou voltar para a aula – e se foi.
Sasuke, assim que viu o rapaz se distanciando, voltou a se jogar no chão, exatamente como estava antes do ruivo irritante aparecer, passando os dedos na parte da frente do cabelo, com uma expressão indignada que, mais tarde, se transformou em uma de cansaço expresso daquele jeito meio pesado, meio dramático de Sasuke.
Ouviu passos vindos do corredor. Subiu os olhos, pensando em Gaara novamente. Teria o ruivo esquecido de algo?
Não. O destino ria de seu belo boneco, orgulhoso e mau-humorado.
Quem acabara de passar pelo corredor, chegando no mesmo ambiente de Sasuke, era simplesmente a dona de suas crises. Sasuke estava no limite sem ela, imagine como se sentiu tendo a moça ali, em sua frente, olhando para ele...!
Mesmo assim, sua expressão de descaso não mudou. Diferente da de Sakura, que mudou nos olhos – que se arregalaram de leve devido ao susto de vê-lo ali (além de ser Sasuke, o que já era o suficiente para assustá-la, estava jogado no chão como um mendigo) –, nas bochechas – que coraram delicadamente, de impacto – e na boca – que se entreabriu, necessitando que uma palavra qualquer fosse dita ou pronunciada.
– Ern – foi só o que conseguiu dizer. Sasuke a olhava fixamente. Aquilo a fez fechar os olhos com força, abaixando o rosto e logo levantando, abrindo as esmeraldas com uma estranha decisão – você... ontem... Ah. Sasuke Uchiha, não é? – Ele não disse nada. Se movesse qualquer parte do corpo ali, corria o risco psicológico (que o próprio Uchiha criara) de desabar – Bem, eu queria agradecê-lo. Quer dizer, não precisava ter feito aquilo e... – ela passou a mão na parte de trás do cabelo – de qualquer forma, muito obrigada. – Arriscou olhar para ele. Sasuke piscou e desviou o olhar. Sakura quase caiu de joelhos com tal reação. “O que ele está fazendo...? Não me ignore, droga”. – O que faz aí?
Ele voltou a fitá-la. Quando Sakura pensava que ele fosse dizer algo como “Não é da sua conta”, ele simplesmente disse:
– Estou pensando. – Deu uma pausa – E você, o que faz aí?
Sakura deixou um riso sorrateiro escapar, mas olhou para baixo para abafa-lo. Mesmo assim, não conseguiu esconder o tom risonho em sua voz:
– Ahn, definitivamente, não vim aqui para pensar – o Uchiha passou por cima da resposta – vou... beber água. – Ela apontou para o bebedouro. Sasuke não se pronunciou, mas não tirou os olhos dela que, envergonhada, não conseguiu se mover. Notando que estava parada, como naquela primeira vez que ficou encarando Sasuke no dia anterior, abriu a boca para falar, acordando a si mesma – Ahn, ah... haha, vou lá – e apontou novamente para o bebedouro, grudado na parede próxima a Sasuke, bem na frente de onde ele estava. Ela caminhou tensamente até lá e bebeu um pouco de água.
Quando terminou, Sasuke não deixou de notar o brilho aguado que dominou seus lábios, deixando-os bem mais tentadores, como se possível. Sakura olhou para ele imediatamente, assim que terminou de beber a água.
– Ahn, está mesmo pensando? Quer dizer... era para estar em aula, não era? – Sasuke deu de ombros. Ela mordeu o lábio, estreitando os olhos – Você está bem?
Sasuke se surpreendeu com a pergunta.
– Ah – Sakura soltou um risinho envergonhado – desculpe perguntar. É que... – ela parou de sorrir e o olhou, atingindo-o bem no ponto franco: usou o olhar. Aquele olhar – você não parece bem. Aconteceu alguma coisa? – e, vendo a surpresa e confusão evidentes no olhar de Sasuke, ela sorriu novamente, tentando diminuir a tensão do clima – Sei lá. Acho que... ah, você sabe, Conselho Estudantil. Não gostamos de alunos cabisbaixos. Fazemos o possível para... – Sakura procurava a palavra certa e, mesmo não encontrando, usou a primeira que veio a mente, só para finalizar a frase com alguma – ajudá-los.
“Cabisbaixos?”, Sasuke pensou “Com que cara eu estou? Estou parecendo cabisbaixo?”, ele se perguntava. E fez uma nota mental de ir ao banheiro antes de voltar para a sala.
– Então... só para... – Sakura mexia nos dedos que, de repente, pareceram-lhe muito interessantes. Mas logo parou e o olhou novamente – Se estiver com algum problema, qualquer um, pode vir me procurar.
Sasuke se assustou mais ainda com aquilo. Sakura deu um sorrisinho amarelo e foi saindo, até a sua sala.
Sasuke ficou ali, estático.
Só se levantou minutos depois, antes que outra alma passasse pelo corredor e o visse em um estado que nem ele mesmo sabia o quanto era deplorável. Mas ele não raciocinava bem, e só começou a sentir a mente funcionar quando o tédio começou a consumi-lo, na aula de Biologia. “Ele disse... aí eu falei... Mas, e ela...?”
Jogou uma praga aos ares por não ter prestado atenção ao se olhar no espelho do banheiro masculino. Naquele horário os banheiros, corredores e bebedouros nunca estavam cheios ou com mais de duas pessoas. Isso permitiu que Sasuke lavasse o rosto, passasse a mão na testa, levasse os fios de cabelo para baixo – embora, rebeldes, eles sempre voltassem para a posição original – e alongasse o pescoço. Mesmo assim, ao se olhar no espelho, viu o mesmo Sasuke de sempre. Só isso. A única conclusão que tirou dali foi que o problema não era externo. Devia ter observado mais, pensava ele. Achava que, até o intervalo, sua expressão já teria mudado. Sakura, por outro lado, podia jurar que ia ficar rubra – ficara vermelha assim que virara as costas para Sasuke – até os últimos segundos de sua vida.
Estavam perdidos. Acabados.
E completamente loucos, um pelo outro.
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