Conquistar o Sensei, aceito a aposta!
8 É apenas brincadeira de criança
Capítulo 08: É apenas brincadeira de criança
(Narração do ponto de vista do Kakashi.)
— Ele não vai desistir — Gai fala, olhando para o muro, de onde vinha a presença do adolescente. — Eu o conheço, Kakashi. Esse garoto é teimoso — avisou.
Eu apenas dou de ombros, também olhando levemente para o muro. — É uma aposta de adolescente. Ele vai cansar em três dias quando perceber que não sou interessante.
Gai veio ver como eu estava, assim como fazia de tempos em tempos durante todos esses anos. Ele não mudava e a nossa amizade, mesmo que estivéssemos afastados por tanto tempo, também não.
— Você ouviu tudo, não é? — Gai me cutuca. — Na janela do refeitório, outro dia. Vi sua expressão quando passou por eles.
Não respondo. Porque, sim, eu ouvi. Estava passando na janela lateral quando escutei o grupo de adolescentes se provocando e fazendo apostas.
E eu passei por aquela porta. Vi os olhos dele se arregalarem quando me reconheceu. Vi a mesa inteira segurar o riso. Vi ele, mesmo assim, dizer que aceitava a aposta.
Na hora, pensei que fosse um incômodo.
Depois pensei que ele não teria coragem, mas... Parece que subestimei o garoto. Ou superestimei o bom senso dele.
— Vá com calma com ele — Gai diz, sério agora. — Ele é um bom menino. Só... barulhento.
— Eu sei — respondo. E sei mesmo. Li a redação dele. Tirando o fato de não ter lido o livro, o texto tinha algo. Honesto demais para a idade dele. — Vou tratar como o que é: uma brincadeira de criança. Ele tenta, eu digo não, ele cansa. Fim.
Assim que disse isso, ouvimos um barulho alto do outro lado do muro. Nós nos viramos imediatamente e vimos um monte de folhas secas voando para cima. Nos aproximamos do muro e olhamos para baixo.
Um borrão laranja com cabelo loiro, muita sujeira e uma expressão atordoada.
Naruto Uzumaki.
Gai tampa a boca, o corpo inteiro tremendo para não rir. Encosto no muro e olho para baixo. O garoto está todo arranhado, com folhas para todo lado e um olhar que saiu do atordoamento e, quando me viu, tornou-se puro pânico.
Eu sabia que ele estava nas redondezas, mas não queria acreditar que estava realmente me "observando".
— Uzumaki — mantenho a voz neutra. — Você está bem?
Ele assente, mudo. O rosto está vermelho. Não de raiva. Provavelmente de vergonha.
Uma parte de mim, a parte que tem que dar nota em redação e ser um professor responsável, quer dizer: "Isso vale detenção".
A outra parte, a que lembra como é ter dezenove anos e fazer bobagem por impulso, apenas suspira.
— Certo. — Não consigo evitar. O canto da boca puxa um pouco para cima. — Conselho profissional: da próxima vez que for espionar alguém, não escolha um galho tão fino. Eles costumam dar problema.
Gai explode de risos atrás de mim. E o Uzumaki inventa um gato. Laranja. Depois foge tropeçando, como se tivesse alguém lhe perseguindo.
— Sério, Kakashi? — Gai ainda está rindo quando o garoto some. — O menino quase se machuca para te ver.
— Ele quase se machuca porque é desastrado — corrijo. Mas não desfaço o meio sorriso. — Vá para casa, Gai. Estou bem.
***
Insônia. Outra vez. O livro novo não ajudou. Apesar de ser tarde, resolvi andar um pouco. Dobro a esquina da loja de conveniência e dou de cara com ele.
Outra vez ele... Naruto Uzumaki.
Ele congela quando me vê. Eu também paro. Por um segundo, penso em apenas acenar e passar reto, sendo o que eu deveria fazer: manter distância.
Ele é um aluno e essa é apenas uma aposta idiota.
Mas lembro do gato obviamente inventado e sinto um pouco de diversão. Ele é um garoto. Um garoto barulhento, sem filtro, que decidiu que sou o desafio da vez. É tudo o que eu normalmente não tenho na minha vida.
— Deixou o Laranja sair de novo, Uzumaki? — A piada saiu antes de eu perceber.
Ele pisca, pego de surpresa. A vergonha ainda está lá, mas agora tem confusão também. Ao ver essa confusão, percebi que nunca havia realmente conversado com esse garoto, afinal, meu foco sempre foi o trabalho. O resto é deixado de lado.
— Eu... não. Eu... — ele parece estar prestes a inventar uma mentira novamente, quando de repente parece desistir. Passa a mão no cabelo, sorrindo levemente triste, e diz: — Só não conseguia dormir.
Eu assinto. Conheço a sensação. Mas esse não é um bom momento para um passeio. Mais importante, não é uma boa hora para um aluno passear.
— Está tarde — disse a ele, olhando brevemente para o caminho vazio que leva ao dormitório masculino. — Você deveria ir para o seu quarto... Vamos, eu te acompanho.
Antes que ele diga algo, começo a andar na direção do dormitório dele. O garoto me acompanha, um passo atrás, como se não tivesse certeza se pode se aproximar.
— Não precisa me acompanhar — ele murmura. — Sei o caminho.
— Eu sei que sabe — respondo, olho levemente para ele por cima do ombro e, vendo a sua cabeça baixa, não consigo evitar uma provocação. — Mas está tarde e tem menos gente para te ajudar se você cair da árvore nesse horário.
Ele solta um som estrangulado. Metade riso, metade sofrimento. — Você não vai deixar isso para lá, não é?
— Provavelmente não — respondi honestamente.
Chegamos na frente do seu dormitório. Ele para. Eu também.
— Bem — ele enfia as mãos no bolso do moletom. Olha para o chão, depois para mim e sorri. Dessa vez o seu sorriso parece um pouco mais natural do que antes. — Obrigado... E boa noite, Hatake Sensei.
— Boa noite, Uzumaki. E tente não adotar mais gato invisível. Dá trabalho — sugeri, vendo seu sorriso envergonhado e um aceno de mão em despedida.
Olhei para cima, vendo a luz do terceiro andar acender, e fui embora.
— É apenas uma brincadeira de criança — lembrei a mim mesmo, caminhando na escuridão e na rua vazia.
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