Confrangente
4 Capítulo 4
A Abenegação continuaria ali por um tempo. Eles estavam tristes. Acho que perderam muitos filhos para outras facções. Porém não foram os únicos, só não reagiam com tanto rancor quanto a Audácia. Vi um rapaz de cabelo castanho e olhos azuis olhando feio enquanto eu saia junto do grupo da Erudição. A jaqueta de couro preta. Ficaria em dúvida sobre quem era ele, mas foi fácil. Irmão de Liz, provavelmente. Não eram muitos os transferidos da Audácia.
Ela seguira quieta, parei de olhar para ela e o rapaz enraivecido. Notariam a minha curiosidade e talvez não gostassem disso. Voltei-me para Caleb. Droga. Ele estava junto de nós e eu agora deveria separar mentalmente um grupo dentre os iniciados com quem eu poderia futuramente fazer amizade... Amizade.
Gabi andava em meio as roupas coloridas da Amizade. Então aqui, comigo, apenas Yuri. Eu teria que esquecê-los, porque a facção vinha acima de qualquer coisa. Acima do sangue, acima dos laços.
Enquanto a Erudição nos arrastava para o ônibus, pude ver Sarah junto das pessoas de preto da Audácia. Ela olhou brevemente em nossa direção, mas foi atingida por alguém que começara a correr. Ela começou também. Já podia prever a sua dificuldade em saltar em um trem, visto o quão desastrada ela era.
Não precisamos andar muito do Eixo até a sede da Erudição. A Franqueza e a Abnegação também estavam próximas de nós. Descíamos do ônibus e então alguns carros pretos se aproximaram também. Deveriam ser os líderes.
Olhei em volta e pude ver a escultura metálica em forma de feijão novamente. Olhei-a de perto assim que pude. Vi meu reflexo e percebi a aproximação de Caleb.
– Na Abnegação não podíamos olhar para espelhos ou coisas que nos dessem nosso reflexo. – Disse ele se posicionando ao meu lado e observando seu reflexo. – E agora me parece algo bom fazer isso. Talvez a inclinação para a Erudição seja mesmo vaidosa.
– Hum... – Dei alguns passos para trás. Percebi sua expressão no reflexo. A sobrancelha franzida.
– Achei que a Amizade fosse mais amigável.
– Achei que os caretas fossem mais calados. – Continuei andando até o grupo de iniciados posicionado em frente ao prédio com paredes de vidro.
As portas se abriram e adentramos o salão de recepção. Eu comecei a analisar o piso estupidamente polido onde meu reflexo surgia assim como na escultura metálica. Havia um balcão próximo dali, provavelmente havia o contato de todas as facções com a Erudição. Precisavam de sua tecnologia.
Mais a frente erguia-se uma parede com escadas nas laterais. Havia um grande retrato ali. Uma mulher loira, pálida e de olhos escuros vestindo uma roupa social azul. Percebia-se pelo seu busto. Era, de certa forma, bonita. Mas não me agradava a sua expressão.
Logo após a minha observação vi-a descer de uma das escadas com cuidado. Parar a nossa frente.
– Bem vindos. Bem vindos a Erudição. Eu... – Ela se posicionou próxima de seu retrato. – Eu sou Jeanine Mathews. Sou a atual representante da Erudição. E digo que não será fácil se pensam assim vocês que fugiram da crueldade da Audácia. – Liz levantou o rosto. Acho que isso poderia ser algo para ela. – Ou pra vocês que estão acostumados a falar tudo o que querem, pois não se revela toda a verdade. A verdade é perigosa demais para ser libertada sem cuidado. – Olha para um transferido da Franqueza. – E não será fácil também para aqueles que se esconderam tanto e não fizeram nada por si próprio, mas estes se libertarão!
Caleb levantou um leve sorriso no rosto enquanto Liz continuava irritada. Ouvi-a sussurrando alguma coisa.
– E para aqueles que vieram como produto de manter a paz, só digo que nosso método de manter a paz é diferente. – Ela sorri. – Para serem membros da Erudição vocês deverão passar por semanas de testes. Dois tipos de testes de inteligência e o teste final onde você deverá usar aquilo que alcançou com seu esforço durante os testes escritos e a simulação de lógica para criar algo. O que exatamente? Eu não sei, isso deve vir da criatividade de vocês!
Ela se virou. Subiu as escadas e então dois membros usando roupas sociais azuis se aproximaram. Um homem de cabelo castanho e uma mulher morena, tanto quanto eu.
– Novamente, bem vindos. Parabéns pela escolha de vocês. – Disse o homem. – Meu nome é Andrew.
– Andrew? – Sussurrou Caleb a si mesmo. Acho que era o nome de seu pai, o homem que nos cedeu o elevador.
– E eu sou Maria. – Ela deu um sorriso. – Nós contamos exatos seis transferidos e seis iniciados da Erudição. Ao final do teste, provavelmente quatro de vocês estarão fora. Não queremos chocá-los, mas isso é algo que vocês devem saber. Nós não aceitaremos aqueles que não forem inteligentes o suficiente para a Erudição. Cada um de vocês deve saber onde quer chegar.
– E cada um de vocês deve se esforçar para chegar. – Completou Andrew.
– Nos sigam, por favor. – Disse ela. – Os guiaremos até os dormitórios dos iniciados. Cada quarto terá dois iniciados. Os nomes já foram sorteados assim que a Cerimônia de Escolha acabou. Me esqueci de algo, Andrew?
– Só um detalhe. Transferidos terão colega de quarto transferido. Os grupos serão mistos pela falta de garotas transferidas. Ou melhor, a garota, Liz, terá que aceitar estar no quarto de um garoto.
– Mas... Como assim!? – Ela gritou. – Eu não me transferi de um lugar onde eu corria o risco de ficar nua na frente de todo mundo no dormitório para dividir o quarto com um desses maricotes!
– Maricotes? – Yuri riu. – Acho que não precisa se preocupar com isso por aqui! – Disse ele dando um tapa em meu ombro. Forcei um riso.
– Ah! Droga! – Ela serra os punhos. – Eu só não corto sua garganta porque eu não sou mais da Audácia!
– Silêncio! – Interrompeu Andrews. – Venham logo conosco!
Os seguimos pelas escadas que estavam a frente e então pegamos dois elevadores, nos dividindo ali entre transferidos e os iniciados da Erudição. Respirei fundo, pelo meu medo de altura primeiramente. Por Liz ficar me encarando em segundo. E por fim, por dividir meu oxigênio com Caleb e os dois transferidos da Franqueza. Principalmente os dois transferidos que não se calavam com seus comentários idiotas vindos de sua sinceridade absurda.
Ao sairmos do elevador recebemos, cada um, uma chave com um número. Haviam vários quartos ali, porém só usaríamos três. Meu número era o sete. Maria nos disse que agora estávamos liberados para descansar até o outro dia, quando começaríamos a nos preparar para os testes. Antes de seguir para o quarto sete, vi Caleb entrando com um dos transferidos da Franqueza em um quarto. Ah, ótimo. Sobraria pra mim a Franqueza. Digo pela minha falta de sorte.
Abri a porta do quarto sete e entrei, um vulto passou pelas minhas costas e se jogou em uma das camas. Suspirou. Também suspirei. Vi Yuri entrando em um quarto próximo, o número dez. Não vi Liz, nem o outro membro da Franqueza.
– Cara, esse perfume não é feminino? – Fechei a porta.
– Cara? Isso é o tipo de gíria da Audácia, sabia? Eu sei, nasci lá. – Um riso. – E sim, é feminino. Garotas usam perfume feminino, entende?
– Acho que eu preferia um irritante da Franqueza. – Olhei para Liz com a sobrancelha franzida.
– Acho que sou eu quem deveria ser ríspida aqui. Quem é que veio da Audácia, onde isso é normal mesmo?
– Cala a boca. – Me deitei. – Você fala tanto quanto eles.
– Você não é muito legal. – Ela se virou. – Mas é o que eu tenho por enquanto.
– O que você tem?
– Eu não quis dizer... – Ela ficou vermelha. – É só que vamos dividir o quarto e é melhor a gente não ser inimigo.
– Tudo bem. Não seremos...
Fale com o autor