Abri meus olhos. Acho que fora um barulho. Alguém batendo na porta.
Me movi lentamente para não acordar Liz. Aliás, alguém que tivera que saltar de um trem nesta manhã, certamente estaria mais cansado que eu. E ela tivera que fazer isto. Abri a porta e era Yuri e um garoto loiro de olhos castanhos vestindo uma camisa branca da Franqueza. Um dos transferidos.
– A gente vai procurar um lugar para comprar roupas, já que as antigas não vão servir mais. – Disse Yuri. – E comer. Faz mó tempão que não como nada. Você vem?
– Err... – Olhei para o transferido da Franqueza. – Certo. Vamos.

Algum tempo depois eu já havia trocado minhas roupas antigas. Agora vestia calça Jeans escura e um moletom azul escuro com capuz e sem zíper. Fora a única blusa que gostei, pois as outras eram claras demais. Não estava frio, mas eu também não estava suando, pois o clima não era quente por aqui, então eu usava a blusa sem problemas, até porque achava que ficava melhor com ela do que sem.
Yuri vestia uma camiseta branca um pouco justa – então acho que sou o único que gosta de usar roupas maiores que eu – com uma jaqueta azul sobre. O transferido da Franqueza se vestia bem parecido com ele, mudando que sua jaqueta também era moletom, a de Yuri não.
Estávamos em um dos refeitórios da Erudição. Soube que haviam outros para os cientistas graduados. Queria saber quando é que alguém se gradua como cientista ou professor. Deve haver uma grande variedade do que se pode fazer por aqui e eu tinha certeza que me adequaria melhor as pesquisas. Não teria paciência para ensinar.
– A garota, Liz, ta no seu quarto, né? – Disse o transferido da Franqueza, moreno de cabelo castanho. Acho que seu nome é Jhonatan, e Yuri o chamou de Jhona algumas vezes. Mexi a cabeça dizendo que sim. – Ela é bonita não é?
– Deve ser... – Mordi um pedaço de batata.
– Como assim, deve ser? – Ele riu. – Ela está tão perto de você que agarrá-la não vai ser difícil.
– Não vou agarrá-la... – Franzi as sobrancelhas.
– Você tem 16 anos, não é?
– E daí? Não vim aqui pra procurar calcinhas de uma problemática da Audácia. – Cerrei os punhos e me deslizei para a ponta da cadeira como se fosse uma estratégia para saltar dela assim que precisasse.
– Mas com 16 anos procurar as calcinhas de alguém é algo que fazemos. E ela está bem mais perto caso você queira.
– Que droga. Ninguém ensina a Franqueza a calar a boca?! Agora entendo porque é que não gostam de vocês. – Me levantei. – Yuri, falou!
– Mas já? – Ele levantou as sobrancelhas. – Vai pra onde.
– Sei lá... Procurar alguma coisa para passar o dia, já que hoje a gente não faz nada.
– Talvez calcinhas ajudem a passar o dia. – Jhona riu.

No corredor dos dormitórios eu encontrei Liz. Ela vestia uma calça preta e uma camiseta azul larga caída em um dos ombros. Procurei não olhar muito por ter percebido a sua pele manchada exposta ali e seu sutiã também. Ela estava agachada e encostada na porta, suspirava.
Talvez eu devesse perguntar se ela estava bem. Mas não sei se é o que eu faria. Aliás, não é mesmo, me virei e comecei a andar de volta na direção do elevador. Então escutei-a bocejando e se espreguiçando.
– Qual é o problema? – Virei o rosto em sua direção. – Se ficar fugindo de mim vou pensar que você está afim de mim e está com vergonha.
– Cala a boca. – Apertei o botão para abrir o elevador. Em segundos ele se abriu.
– Quer fazer uma coisa legal? Inclui enfrentar os medos. – Percebi um sorriso crescendo em seu rosto. – E eu ainda saberia se você tem medo de mim.
– Medo de você? – Dei um risinho. – Todos na Audácia tem essa sensação de imponência?
– A grande maioria. – Suas mãos tocaram o meu pescoço. Senti um arrepio, ela desceu as mãos até minhas costas e me empurrou para dentro do elevador. Entrou e com o rosto quase se encostando ao meu, continuou. – E advinha. A maioria também sabe como provocar os outros.
– Você não é tão bonita quanto o Jhon pensou. – Ela afastou o rosto. Na verdade ela era bonita. Mais do que a Gabi e mais do que a Sarah. Tive que admitir isso a mim mesmo pelo contorno perfeito de seu rosto fino e maçãs levemente arredondadas, mas não admitiria a mais ninguém. – Realmente vocês tem a sensação de imponência. E acham que isso é capaz de atrair a todos. Mas você é só uma garota problemática.
– Problemática? E o que mais, sabichão?
– E covarde. Você fugiu da Audácia. – Vi seu rosto ficar vermelho como se ela estivesse fervendo. As sobrancelhas franziram. Eu sabia que não havia nada mais afiado para o ego da Audácia do que chamá-los de covardes. – Mas esse negócio ai dos medos, o que é?
– Idiota. – Ela se encostou na parede metálica e cruzou os braços. – É que... Tem uma paisagem do medo abandonada por ai... E não está estragada porque meu pai usava aquele lugar para me treinar. Fica entre a área de uso geral e a área dos sem-facção. A gente vai de trem.

Foi um pouco difícil sair do complexo da Erudição sem que ninguém nos percebesse. Mas o pior viria agora. Eu imaginava que andar de trem não incluía entrar nele em movimento e nem saltar dele em movimento. Ela começara a correr próxima ao trilho enquanto o trem passava. Suas mãos agarraram barras laterais e ela puxou o corpo para dentro do vagão e acenou.
Eu me esforcei para não perder o vagão. Minhas pernas ferveram e meus pulmões também. Agarrei a barra e dobrei meu braço. Senti o meu bíceps e costas puxando. Me joguei no vagão e cai de lado. Minhas costelas e músculos doíam.
– Achei que agora era a parte que você virava panqueca. – Ela riu.
– Acho que tive que te decepcionar dessa vez... Mas acho que posso fazer isso na hora de saltar.

Vi a paisagem passar. Prédios de vários tamanhos, brancos, cinzentos e negros. Passamos próximos ao complexo da Audácia. Acho que eu podia escutar a gritaria. Estávamos no primeiro dia. O que poderia estar acontecendo lá? Fiquei olhando para os prédios que já passavam um pouco abaixo de nossos pés.

– O primeiro teste é sobreviver ao salto do trem ao prédio e depois saltar no escuro. – Ela chega perto da porta do vagão. – Alguma pessoa importante para você está lá?
– Talvez... – Sinto o vento batendo em meu rosto e fazendo o meu cabelo serpentear. – Até onde eu sei, até morte é uma opção para eles. Não é?
– É... As vezes morre alguém no começo da iniciação. Mas não é em saltar de um trem que está a crueldade da qual eu fugi. – Ela deu alguns passos para trás e se sentou.

Alguns minutos depois ela bateu em meu ombro. Acho que havíamos chegado. Ao menos não estávamos mais tão longe do chão. Ela saltou primeiro e correu um pouco para se equilibrar. Eu tropecei no meu salto e me estabilizei com um rolamento. O resultado foi uma dor no pescoço e os joelhos ardendo.
Agora eu tinha a curiosidade sobre a fuga de Liz da Audácia para lidar, a qual eu sei que poderia descobrir com o que ela queria fazer naquele lugar. E também a ardência nos joelhos, as quais eu teria que aguentar até estar novamente na Erudição.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.