Chris

– DIVERGENTE!

Me levantei confuso. Percebi minha mãos sujas de poeira acinzentada. Olhei em volta e estava na rua com as minha camiseta vermelha escura suja e meus punhos cheios de escoriações. Meu rosto formigava como se eu tivesse levado alguns socos e doía assim que eu tentava tocá-lo. Em volta uma multidão. Estavam ali as camisas brancas da Franqueza, as jaquetas pretas da Audácia, as camisetas azuis da Erudição. Eu só não via a Amizade e a Abnegação. Evitavam conflito, mas a segunda poderia o menos me ajudar, não poderia? Eu estava apavorado.

Tudo escureceu com a aproximação da multidão. Os prédios foram sugados para as sombras e então uma luz apareceu. A luz do Sol batendo em meu olhos, a minha respiração pesada e o perfume de Gabi vindo do meu lado. Adormeci por alguns minutos. Quantos? Foram poucos, pois estávamos chegando a sede da Erudição agora. Observei um feijão de metal e vários prédios refletindo o céu com suas infinitas janelas de vidro.
Não falei com ninguém aqui. Olhei para Gabi, ainda ao meu lado, encostando o rosto contra a mão e mexendo no cabelo. Me levantei assim que o ônibus parou, forcei um sorriso para ela e desci.

Estamos no Eixo. O prédio mais alto da cidade. Observo em volta e vejo um outro ônibus parando. Pelas janelas vejo se tratar de pessoas da Abnegação. Estão todos de túnica cinza. Um pouco mais a frente há pessoas da Franqueza e estão fumando. Me pergunto qual o prazer de fumar. Há algum? Isso parece um ato vaidoso. Isso me parece um ato que a Abnegação nunca faria. Eu não conseguiria ir para lá.
Quando chegamos aos elevadores junto de um grupo da Abnegação um homem de lá cede o lugar para nós. Eles iam usar a escada. Típico deles. Olho para cada um deles. São sem graça em grande parte. A maior parte deles não vai embora de lá. Mas há dois, acho que filhos do homem que nos cedeu lugar no elevador. Uma menina baixa, pálida de cabelo dourado e olhos redondos escuros e um rapaz de cabelo escuro e olhos verdes. Ela parece deslocada do grupo e ele parece o tipo egoísta. Só preciso olhar nos olhos dele uma vez para que sinta uma pontada. Uma pontada de preconceito, uma pontada de culpa por julgá-lo sem que o conheça, mas pra mim ele fede a um nojento qualquer que em pouco terá que ser chutado em algum beco.
O lugar da cerimônia era uma espécie de anfiteatro organizado em círculos concêntricos. Os membros mais velhos de cada facção se sentavam a margem. E eu ainda não era membro. E eu deveria decidir agora. Já descartara a Abnegação. Audácia ou Erudição?
Nós nos sentamos em ordem alfabética. Assim estou logo ao lado do garoto que vi antes de subir o elevador. Pelo que ouvi nos comentários ao lado, seu nome era Caleb. Caleb Prior. Não procurei notar quem estava próximo de mim e sim procurar meus amigos. Yuri estava muito longe de mim, Sarah também. O único rosto que eu pudera ver com clareza fora o de Gabi. Nos entreolhamos e falamos algo. Mas como não tinha som, ninguém entenderia. Nem os outros, nem eu, nem ela.
Olho em direção ao último círculo e há potes transparentes contendo cada um uma substância que represente a facção que poderemos escolher. Há pedra cinza para Abnegação, água para Erudição, terra para Amizade, carvão em chamas para Audácia e vidro para Franqueza.
Eu soube que Marcus, um dos líderes da Abnegação, será o responsável sobre a cerimônia este ano. Quando ele chamar meu nome eu devo me levantar, cortar minha mão e derramar o meu sangue sobre a minha escolha. Meu sangue vai se misturar a água ou vai incinerar junto do carvão?
Meus pais passam por mim antes de se sentarem e me dão um adeus. Eles já tem certeza de que vou abandonar a Amizade. Eu também tenho essa certeza. Acho que minha mãe está chorando. Meu rosto esquenta, meu punhos ficam em brasa quando os cerro com força. Meus dentes rangem e meu estômago revira. Estou em pânico.

– Bem-vindos. Bem-vindos à Cerimônia de Escolha. Bem-vindos ao dia em que nós honramos a filosofia democrática dos nossos ancestrais, que nos fala que todo homem tem o direito de escolher seu próprio caminho no mundo.

...escolher seu próprio caminho no mundo. Eu não consigo levar isso tão a sério quanto todos devem pensar que deveria. São cinco caminhos pré-determinados. Cinco caminhos com uma ideologia tão estreita.

– Nossos dependentes estão agora com dezesseis anos. Eles estão no precipício da vida adulta e agora são capazes de decidirem que tipo de pessoas eles serão — a voz de Marcus é solene e dá peso igual a cada palavra. — Décadas atrás, nossos ancestrais compreenderam que não é uma ideologia política, crença religiosa, raça ou nacionalismo que culpa um mundo beligerante. Na verdade, eles determinaram que era culpa da personalidade humana – da inclinação da humanidade para o mal, seja qual forma for. Eles se dividiram em facções que pretendiam erradicar essas qualidades que acreditavam ser responsáveis pela desorganização do mundo.

Eu olhei para os potes. Meu sangue fervia e eu estremecia. No que eu acredito afinal? Quem eu sou? Quem eu quero ser?

– Aqueles que culparam a agressão formaram a Amizade. – Minha facção, em maioria trocou sorrisos. Mas Yuri e Sarah pareciam nervosos. Passei a ter certeza de que Yuri iria para a Erudição nesse momento. Passei a ter certeza de que Sarah não se encaixaria na Audácia nesse momento.

– Aqueles que culparam a ignorância se tornaram a Erudição.
Percebi agora que eu odiava a ignorância. Mas afinal o que posso tomar como ignorância?

– Aqueles que culparam a hipocrisia criaram a Franqueza.
Não tenho comentários sobre eles. Concordo que não devemos enganar, mas talvez isso só deva se aplicar as pessoas que amamos.

– Aqueles que culparam o egoísmo fizeram a Abnegação.
Eu culpo o egoísmo. Mas eu sou egoísta. Eu descartei a Abnegação.

–Aqueles que culparam a covardia foram a Audácia.
Eu não gosto da covardia. Eu não gosto mesmo. Mas talvez eu não seja corajoso. Talvez eu não seja forte.

Estou entorpecido, minhas pernas tremem e meu corpo resfria. Eu sou fraco demais para a Audácia, egoísta demais para a Abnegação e talvez indeciso demais para a Erudição.

– Trabalhando juntas, essas cinco facções têm vivido em paz por muitos anos, cada uma contribuindo para um diferente setor da sociedade. Abnegação tem satisfeito nossa necessidade por líderes altruístas; Franqueza tem nos proporcionado dirigentes da lei fiéis e sensatos. Erudição nos tem fornecido professores e investigadores inteligentes; Amizade nos tem dado conselheiros e zeladores em entendimento; e Audácia tem nos fornecido proteção contra ameaças internas e externas. Mas o alcance de cada facção não se limita a essas áreas. Nós damos uma à outra mais do que possa ser adequadamente contabilizado. Em nossas facções, nós encontramos significados, encontramos propósitos, encontramos vida.
Me lembro de alguns livros sobre a história das facções. Vejo que a menina ao lado de Caleb também estremece. Facção antes do sangue. Isto é realmente certo?

Marcus continua:

– Afastados delas, não sobreviveríamos.
Silêncio. O silêncio imperialista, aquele que sobrepuja qualquer outro silêncio. Esse silêncio carrega um medo, um medo maior do que qualquer outro. Maior que a morte. O medo de não ter uma facção.
E Marcus finaliza.
– Portanto, esse dia marca uma ocasião feliz – o dia no qual nós recebemos nossos novos iniciados, que vão trabalhar conosco em busca de uma sociedade melhor e um mundo melhor.

Escuto os aplausos. Eles me acordam. Me ameaçam. Os aplausos lembram-me que terei que fazer minha escolha. E ela se aproxima. Aproxima-se de mim, de Yuri, Sarah e Gabi. Mas apenas um de nós está calmo.
Yuri é o primeiro nome chamado por Marcus. Ele se levanta suspirando. Desce até o centro respirando fundo enquanto seu nome é passado de boca em boca entre os membros da Amizade.

O vejo apanhar a faca e olhar para todos nós. Olhar para seus pais. Olhar para sua irmã. Ele se vira. Sei que agora é um momento em que ele queria chorar e apenas sei. Sei também que chorar não é algo que ele faça. Talvez isso seja a força que eu deveria ter para ir a Audácia.
Yuri desliza a lâmina de aço sobre sua mão, cerra o punho cortado. O sangue pinga. Ele passa pelo imenso vazio, ele afunda. A água absorve o líquido vermelho. Erudição. Me silêncio. Olho para os rostos chocados da Amizade e de qualquer outra facção. Abandonar a família é algo muito difícil para qualquer um, mas este era ele. Ele era Erudição.
Qual a distância que Y e S tem aqui? Cada nome que era chamado meu peito arfava. Cada nome e eu sentia o nó em minha garganta e suava frio. Eu não sabia quem eu era. Eu não sabia quem eu queria ser.
Cada nome de cada garoto e cada garota era chamado e a essa medida eles moviam seus pés para o centro do anfiteatro. Deslizavam facas, choravam ou sorriam. Enfim:

– Sarah Green. – Fala Marcus.
Procuro-a na multidão. Ela se levanta aparentemente com cuidado, se move para o centro e tropeça no final dos degraus. Posso ouvir seu grunhido daqui. Ela dobra o corpo e passa a mão em seu pé. Continua até o centro mancando.
Marcus lhe oferece a faca e ela estremece. Olha para os potes e então para as pessoas que então nos círculos. Olha de novo para os potes. Seu peito se expande e reduz num grande intervalo de tempo. Num último suspiro pega a faca, virando o rosto corta a palma de sua mão e a estica. Seu sangue cai.
Ela já havia avisado. Seu sangue é pulverizado. Audácia.
Mais nomes e nomes. Nada que me chamasse a atenção até:
– Marian Sands. – Noto apenas por ser da Abnegação. Quem me aplicou o teste era da Abnegação. Quem está ao meu lado também. Ela olha para eles e outros da Abnegação.
Não me forço a prestar a atenção. Apenas escuto os gritos da Audácia. Depois vejo uma mulher da Abnegação em prantos.

– Liz Hills. – A combinação de sons de seu nome e sobrenome me chamam a atenção. A Audácia grita.
Notei apenas os olhos de Liz e suas roupas pretas. Ela foi cabisbaixa. Ela não teve medo de se cortar nem indecisão. Jogou a mão sobre um pote e então. Erudição.
Aquilo me chocou. Como alguém podia estar tão decidido. Eu busquei pelo seu rosto. Ela não parecia bem, parecia infeliz. Talvez quisesse fugir da Audácia. Por que ela fugiria da Audácia. Droga, Sarah. Por que a Audácia?

– Christian Pride. – A voz de Marcus me acordou. Olhei em sua direção. O queixo quadrado, as roupas cinzentas e o cabelo já grisalho.

Levantei-me. Junto do grupo de iniciação da Erudição, Yuri acenou. Após isso fitei os olhos chorosos de Liz. Ela abaixou a cabeça. Na Audácia via a menina pela qual a mulher da Abnegação chorava. Ela não me parecia tão feliz. E próxima estava Sarah, olhei em seus olhos com as sobrancelhas franzidas e ela sorria, isso aconteceu até perceber que eu poderia estar irritado com ela ou amedrontado por ser a minha vez de escolher.
Marcus estendeu a mão com a faca. Peguei-a. Olhei em meu reflexo. Eu tinha olheiras e já nem parecia ser moreno, parecia ser cinza. Cinza como a Abenegação, cinza como uma das facções que decidi descartar. Olhei para os potes e respirei fundo.
A faca cortou a minha mão, ignorei a ardência. Movi a mão sobre os potes. Erudição ou Audácia? Eu fitava a água e a brasa. Eu ou Sarah?

Eu. Isso é egoísmo ou apenas chegou a hora de ela se defender sozinha?
Me desculpe pai. Me desculpe mãe. Me desculpe Sarah.
Meu sangue cai avermelhando ainda mais o pote de água. Eu sou Erudição!