Chris

Não conte isso a ninguém.

Abri os olhos. Pouca luz entrava em meu quarto. Me levantei e procurei pela cozinha. Meus pais estavam lá e acho que falavam algo sobre Johanna Reyes e os líderes de outras facções. Passei por eles. Olhei para meu pai. A barba, o cabelo preto, mais curto que o meu. Para a minha mãe, o cabelo preto comprido, baixa. Lembrei-me de meu irmão que nascera há alguns meses. Senti um aperto em meu peito, porque tinha certeza que deixaria a Amizade.
E aos poucos me vinha a certeza de qual facção eu escolheria também. Provavelmente a Erudição. A menos que... Nada. A menos que nada. Era a única opção plausível para mim, pois quando eu pensava na Abnegação percebia que minha arrogância e vaidade tornariam impossível que vivesse lá. E a Audácia me dava medo. Não sei exatamente o porquê. Em teoria os instintos e a necessidade me fariam ignorar a dor, mas em prática eu era covarde demais para tentar isto. Tudo que restara foi a Erudição.
Eu sempre fui inteligente. E pensando um pouco, os amigos de que eu precisava iriam para lá também. Henrique, meu primo, abandonara a Amizade também. Sarah era provavelmente a garota mais inteligente que conheço. Não acho que Yuri optaria por outra, espero não estar enganado.

– Christian! A gente precisa conversar! – Era a voz da minha mãe.
– Conversar o que? – Me sentei a mesa com um pedaço de pão.
– A gente já sabe que você vai deixar a nossa facção. – Falou o meu pai.
– Ham? É isso? – Me levantei. A resposta que viria de mim a seguir poderia ser pior. Usei o hábito da Amizade de evitar conflitos.
– Só queremos sua segurança. Escolha muito bem o lugar para onde você vai, porque, sabemos que você deve ser Divergente.
– O que? – Balancei a cabeça. – Vocês estão tratando isso com tanta naturalidade! Que eu sou uma aberração genética e de que vou abandonar minha família. Tanta naturalidade. Para quê? Poupar que um conflito? Que se foda essa mania da Amizade! Sempre vai ter um conflito, não vai?

Voltei ao meu quarto. Fechei a porta. Deitei comendo o pão, me virei após terminar e puxei o travesseiro. Fechei os olhos e tentei dormir, dormir o bastante para acordar apenas na hora de irmos para a Erudição onde seria a cerimônia.

Acho que o Sol nasceria logo. Me sentei em minha cama e comecei a pensar. Abigail havia dito para não contar a ninguém. Mas acho que sua postura, mesmo que soubesse o que é Divergente, fora de uma pessoa despreparada. Porém tanto ela quanto meus pais me passaram a mensagem de que é perigoso ser Divergente. Mas como eles poderiam saber? Só de me observar, ou seriam eles divergentes também. Então haveria algum motivo para estarem na Amizade. Segurança?
Eu não escolherei a Abnegação por segurança. Mas justamente por segurança não escolherei a Audácia. Contudo, vejo que a Erudição poderia ser uma escolha que me pusesse perto demais do perigo. As pessoas mais preparadas para lidar com os soros de nossas facções, para inventar, construir, curar e analisar estão lá. Sinto uma pontada. O medo invadindo o meu corpo com uma carga de adrenalina. Minhas veias fervem, meu corpo treme e minha cabeça começa a pesar toneladas.
Isso se tornou óbvio de repente. Meu pai veio da Erudição. É por isso que ele sabe que sou Divergente. E se ele sabe, os outros poderiam me descobrir. Se essa informação é tão perigosa eu deveria optar por outra facção ou arrumar um jeito de disfarçar isto em minha personalidade. Eu deveria decidir isso logo.
Abnegação era sem dúvidas o lugar mais seguro a qual eu poderia pertencer. Mas será que não sou egoísta demais para isso? Aliás, eu nem considerei, por um segundo escolher a Amizade.

Meus pais pegaram uma caminhonete para ir a Cerimônia de Escolha. Porém eu optei por ir de ônibus. Sabia que meus amigos iriam de ônibus. Ali próximo a um extenso gramado, Sarah se dirigiu a mim um pouco nervosa. Acho que ela não estava tão calma quanto pensei.

– Christian! Eu tenho que te contar isso. – Ela gesticulou com as mãos, como sempre faz. Olhei em seus olhos grandes e balancei a cabeça. Ela continuou: — Eu vou para a Audácia...
– O quê? Como assim, você na Audácia? Isso seria...
– Eu decidi isso na madrugada. Eu estava mesmo mal com isso, mas é que... – Ela desviou o olhar. – Diz que você vai também!

Alguém então a chamou. Ela foi ainda olhando um pouco para trás. Talvez esperasse uma resposta, mas a verdade é que eu não poderia responder. Eu não sabia o que iria escolher. Aquilo apenas aumentou o meu conflito interno. Olhei para sua silhueta magra, meus olhos desceram por seu cabelo, que quando solto, se tornava o mais lindo de nossa facção. Talvez exagero meu. Entrei no ônibus também e ao ver ela com uma de suas amigas, busquei por Yuri, ou outra pessoas que eu conheça.
Em um dos bancos avistei-o. Pele amarelada, cabelo castanho claro espetado. Ao seu lado já havia alguém. No banco da frente havia um lugar vago, ao lado de Gabriela. Tudo bem, ela era legal. Agora me perguntava o que ela escolheria. E o que eu escolheria?

– Oi! – Disse ela sorrindo pra mim assim que me sentei. Ela tinha cabelo castanho também e olhos tão grandes e escuros quanto os de Sarah. Era um pouco mais baixa, mais morena dentre outras diferenças.
– Oi...
– Ta nervoso?
– Acho que indeciso... – Olhei para ela. Depois olhei em volta, até avistar o rosto pálido de Sarah e suas poucas sardas. – Dividido.
– Divergente! – Ela riu.
– Ham? – Estremeci.
– Nada... Foi uma brincadeira. Tipo, por você estar dividido. – Gabriela me olhou com um sorriso no rosto. – Já ouviu falar deles, né?
– Já... – Tentei sorrir após esse soco no estômago. E vi que o cabelo dela caia sobre o rosto e a boca. Foi tentador, mesmo com a timidez, deslizar meus dedos para tirar os fios que caiam sobre seu olho direito e boca. Ela deu um sorriso de novo. Talvez ela fosse da Amizade. – O que você acha que eles são?
– Aaaaah, eu? – Ela olhou pela janela. O ônibus acabara de começar a se mover. – Não tenho ideia. Não sei porque as pessoas tem medo deles, mas não acho que ofereçam medo. Devem ser apenas pessoas como eu e você. – Ela me tirou um peso com isso. E me lembrei de o quão sua voz é linda e sempre foi.

Devem ser apenas pessoas como eu e você, aliás, eu sou um deles.