Confissão

1 Confissão


Notas iniciais
Este é um conto que escrevi inspirada no estilo de escrita de Edgar Allan Poe, um de meus autores favoritos. Boa Leitura.

Saibam que sou uma pessoa completamente contraditória e todos nós temos nosso direito à contradição. Não seria essa uma marca do ser humano? Se não, perdoem-me. Mesmo assim estou disposta a deixar registrado o que realmente fiz.

O mal é um pensamento cruel e perseguidor e nossa essência humana muitas vezes não resiste em usá-lo. Ele é a arma perfeita e para crimes que representam vingança, ocultar, se preocupar com detalhes, ter medo de ser pego, nada disso interessa. Na prisão, sozinho em casa, o que importa é que a pessoa conseguiu. Depois fica aquele vazio, a sensação de que nada mais faz sentido e não se sabe o que fazer.

Mas ninguém pensa nisso a priori, embora saiba muito bem que é isso que virá depois. Eu não fui exceção.

A vingança, como dizem, é um prato que se come frio. Mas eu posso esquentá-lo, embora não tenha o mesmo sabor gostoso. De qualquer jeito eu já não me importo. Já não me importava antes.

Eis o que fiz cavalheiros; não perco tempo, sou rápida, sempre estive pronta para por um fim ao motivo de meu desassossego. Ouvir as mesmas palavras todos os dias, acusações falsas contra mim todos os dias, horrores todos os dias, já é mais do que suficiente para despertar uma raiva enorme, e conforme isso vai se estendendo por meses, anos, o que desperta é o ódio. Esse ódio se torna incontrolável conforme o tempo passa e qualquer esperança de perdão se torna mais difícil do que já é. Não direi impossível, pois não o é, mas é mais difícil porque aquele ódio se enraíza de tal forma que a pessoa já não quer mais perdoar. É questão de seu querer e nesse momento seu querer é apenas acabar com a raiz do mal. Era esse o meu desejo. Cortar o mal pela raiz.

Estava pronta para isso naquele dia que não me recordo qual era. Estava totalmente preparada. O que fiz foi arrumar minhas coisas e preparar minhas ferramentas.

Um caminhão chegou no momento exato e três homens levaram todas as minhas coisas para dentro dele. A casa ficou completamente vazia. Levei minha caixa de ferramentas na mão.

Retornei na mesma noite, pois, como já disse, queria arrancar o mal pela raiz. Caixa de ferramenta em mãos. Decisão fixa em minha mente e era tudo que estava ali naquele momento, tudo o que pairava na minha mente vazia. E o ódio era tanto, cheguei tão rápido que sequer havia me dado conta. Mas não importava. Teria a noite inteira para fazer aquilo.

Subi as escadas, caixa de ferramentas na mão, decisão na mente, ódio no coração. Tudo tocando harmoniosamente nos meus ouvidos, a sinfonia do fim das aberrações. E ao chegar lá me deparei com o inesperado. O corpo estirado ao chão, a faca cravada no coração, os olhos congelados, a expressão congelada demonstrando o pavor final. E ninguém por perto.

Olhei sem acreditar e, inexplicavelmente, me senti bem. Senti uma paz duas vezes aumentada – o incômodo acabara e eu não havia sujado minhas mãos – senti alívio. No mesmo momento o ódio sumiu como que por mágica, a decisão desaparecera como o vento. Só o que permanecia era a caixa de ferramentas, não em minhas mãos, mas ao meu lado. E o meu sorriso era largo.

Notas finais
Esse conto é a visão distorcida de uma mulher. *Escrita há um ano.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!