Confissões de Uma Iniciada
4 Capítulo 4 -A escolha Part.1
Notas iniciais
O silêncio pesado seguiu.Meu queixo ainda estava caído e a respiração pesada.
–Repita de novo.Acho que ainda não entendi o que você disse.Meu resultado...-disse,um dos olhos tremendo em uma espécie de tique nervoso — Foi a Amizade,não foi?
–Já disse que não! –falou a mulher aparentando impaciência e depois suspirou voltando a sua falsa calma. –Mas se você precisar de tempo para se acostumar a idéia eu posso...
–Quer saber?A brincadeira acabou!Você me pegou de surpresa, satisfeita?Eu quase acreditei no que você me disse, mas agora preciso realmente saber qual foi meu resultado,O.k?
–Mas eu não estou brincando! –ela retrucou e foi a gota d’água para mim.
–Você vai mesmo acreditar no que eu lata velha diz?!-cerrei os dentes e estreitei os olhos.Era melhor que ela tivesse cuidado ao responder.Eu não estava sobre meu pleno juízo agora.
–Senhorita Recht,a máquina e seus sistemas podem não estar mais em seu estado perfeito como antes.Os seus resultados,no entanto,ainda são extremamente precisos.
Raiva.Desespero.Tristeza.Frustração.Misturados daquele jeito dentro mim,não sabia qual desses atuava e se impunha com mais força.
–Então...O que vai ser da minha vida agora?-esbravejei as primeiras lágrimas queimando meus olhos.-Estou condenada a viver o resto da vida debaixo de uma ponte ou algo assim?Como uma sem-facção!?Como você conseguirá dormir a noite sabendo que foi a responsável por isso? –O desespero parecia pulsar por meu corpo.
–Meu bem,fale mais baixo. –a voluntária levou o dedo indicador aos lábios em sinal de silêncio –O que houve hoje com você jamais aconteceu antes.Ninguém nunca foi descartado das facções desta maneira e nós não sabemos o que pode acontecer a você se alguém descobrir seu resultado.Mas se quer saber minha opinião te aconselharia a se unir a Abnegação.Eles aceitam qualquer coisa por lá.
Qualquer coisa?!
–É claro que você terá que se esforçar bastante para ser menos egoísta, assim conseguirá pelo menos um lugar descente aonde morar.A não ser que queira se tornar realmente uma sem facção.Mas vamos ser positivas não é mesmo?Ser uma sem facção também não é o fim do mundo e a senhorita poderia encontrar seu pai novamente...
Por um momento engasguei-me com o ar e minha raiva pareceu esvair-se de mim, dando seu lugar ao espanto.
–Co-mo-o sabe do meu pai? –Eu nunca havia dito isso a ninguém.Nem aos meus melhores amigos.Como essa mulher poderia saber?
–Bem –ela suspirou-Eu não deveria dizer isso,mas...Elena,você se esqueceu mesmo de como são as pessoas da Franqueza?
–Espera aí!Você era da Franqueza? –E subitamente me lembrei de onde vira aquele rosto antes.E por que estava me tratando de forma tão pessoal agora.Mesmo depois de tantos anos,e debaixo de todas aquelas camadas daquele uniforme de presidiário da Abnegação ela ainda era a mesma.-Cloe!Eu não acredito!É você mesma!
Cloe deu um sorriso tímido.Eu deveria ter percebido desde o início de quem aquela voluntaria se tratava.Aquele jeito Abnegação não conseguiu oprimir a pessoa honesta e –até mesmo grosseira –que ela era.
–Achei que iria perceber mais rápido.
Cloe foi durante muito tempo a melhor amiga de minha irmã Annie,e fora uma espécie de amiga para mim também.Eu nunca entendi o motivo que levou a abandonar a Franqueza e muito menos a se juntar a Abnegação.
–Não me leve a mal,mas as pessoas da sua facção meio que somem no meio da paisagem –disse eu. Não queria ser grossa, mas era difícil conter esse tipo de comentário quando se vive a vida inteira em um lugar onde as pessoas dizem o que pensam o tempo todo. –Mas o que te levou a isto? –olhei para suas roupas –Achei que você quisesse continuar na Franqueza!
–E queria!Só que não podia.Digamos que eu...Tenho um problema meio diferente do seu... –Cloe disse cabisbaixa.Franzi o cenho,confusa, mas meu ego falou mais alto que minha curiosidade ao me lembrar de que de fato estava com um problema enorme agora para resolver.
–Cloe,por favor você precisa me deixar fazer este teste novamente! –implorei a voz tremula –Todo meu futuro está em jogo agora!Eu te imploro!Pelos velhos tempos!
No entanto, minha velha amiga havia desaparecido e a sua mascara de profissionalismo havia voltado ao seu rosto.
–Sinto muito senhorita Recht, mas isso é impossível. Vai contra as regras.
–Mas...!
–Não se preocupe.Guardarei seu segredo.Encontrarei uma maneira para modificar seu resultado no sistema para Abnegação,para que nada de mal venha a lhe acontecer.Agora vá,é a vez de outro aluno. –dessa vez fiquei realmente brava.
–Eu NÃO vou sair daqui até fazer outro teste!Entendeu bem, Cloe? –decretei.
Dois minutos depois fui levada aos berros por dois seguranças da Audácia para a saída da escola.Os homens soltaram meus braços abruptamente e eu desabei na calçada,meu rosto indo em direção ao concreto.
–Vá esfriar um pouco essa cabeça,termômetro ambulante! –gritou um dos guardas antes de trancarem as portas da escola. Rindo como duas hienas da péssima piada.
Meu rosto estava vermelho de vergonha e enquanto caminhava, quase arrastando os pés pelo de desanimo rumo a sede da Franqueza pensava no que iria fazer da vida.
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O sol mal havia nascido e lá estava eu em meu quarto alugado: acordada, olhando para o teto e depois para o amanhecer no horizonte.Depois de noites depressivas cheias de sorvete,filosofando sobre o sentindo da vida e assistindo a novelas mexicanas eu havia finalmente tomado uma decisão :Não abaixaria a cabeça para as rasteiras da vida e me conformaria mas me reergueria,triunfante,e seguiria em frente.Escolheria a Amizade,não importava o que aquela lata velha dizia ao meu respeito.Sem nenhuma qualidade?Quem aquele projeto de máquina pensava que era para me disser isso?Eu tenho inúmeras qualidades!
Levantei-me da cama e arrumei os cabelos,vestindo meu melhor vestido preto e branco para aquele dia tão importante.Juntei todos os meus pertences em uma única mala e deixei o quarto,trancando-o.
Ao adentrar na sala de estar dei de cara com a senhora Fields.Uma mulher idosa ranzinza que me alugava um quarto desde que Annie se unira a Audácia e eu fora obrigada a viver com algum responsável até completar dezesseis anos.A senhora Fields se oferecera para me acolher e me “emprestava” um de seus cômodos em troca de serviços que ela não conseguia (ou tinha preguiça) de fazer.
Como de costume,a velha havia dormido no sofá e deixado a televisão ligada naqueles canais que vendiam eletrônicos com nomes estranhos por preços igualmente suspeitos.Um pacote de salgadinhos abertos estava sobre seu colo e latas de cerveja estavam espalhadas pelo carpete.Toquei delicadamente o braço da Sr.Fields para acordá-la, ela gemeu em protesto antes de finalmente abrir os olhos e se levantar, possibilitando-me despedir dela.Para sempre.
–Já pequei todos os meus pertences –avisei –e arrumei o quarto.
–Lavou os banheiros?
–Sim senhora.Fiz isso ontem mesmo.Pela manhã.
–Boa menina.Boa sorte na sua cerimônia.Vou sentir saudades. –dos meus serviços? Provavelmente.
Depois simplesmente deixei as chaves do quarto sobre a mesa de centro e saí silenciosamente, só imaginando qual seria a reação da Sr.Fields quando descobrisse que eu havia deixado aquela surpresa que ela me deixara no “trono” para limpar exatamente como havia a encontrado no dia anterior.
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