Confissões De Uma Adolescente
1 PRIMEIRA PARTE: A doce Caroline
Notas iniciais
As coisas mudam. É, eu aprendi isso da pior maneira possível.
Abri meus olhos. Primeiro dia de dezembro, manhã de sol, mas um dia normal, rotina normal e cansativa, como sempre. Desci pra tomar café e vi que minha mãe já estava saindo pra trabalhar. Eu e ela nunca nos demos muito bem, quase não nos falávamos. Tinha uma família muito complicada. Na verdade, tinha uma vida complicada. Terminei o café, subi, me troquei, peguei minha mochila e desci pra esperar a perua. Depois de uns vinte minutos ela buzinou, eu abri o portão e sai. Logo que entrei na perua dei de cara com o Lucas, o meu único e melhor amigo. Nos comprimentamos e eu sentei ao lado dele e ficamos conversando até chegar no colégio.
Sempre fui daquelas garotas estudiosas, que preferem se esconder atrás de um livro do que ir a uma festa, eu era bem tímida e por isso não tinha quase amigos, tirando o Luc, só que infelizmente ele não estudava na mesma sala que eu, então no período de aula eu não abria a boca se não fosse pra falar sobre a matéria.
Sempre foi assim, minha rotina de sempre. Até que um dia cheguei em casa, ia subindo as escadas atrapalhadamente quando fui interrompida pela minha mãe:
–Caroline, se troque e desça aqui porque quero falar com você, mas não demore porque tenho que voltar logo para a empresa.
–Boa tarde pra você também, mãe. Já vou descer.
Subi, tomei uma ducha rápida, me troquei e desci pra ver o que a chata da minha mãe queria.
–O que foi mãe??? -Gritei enquanto descia as escadas correndo.
–Nós vamos nos mudar. -Ela respondeu direta e fria, sem nem esperar eu chegar até ela.
–Como assim "nos mudar"? Pra onde? Quando? -Perguntei assustada.
–Nos mudar, qual parte disso não entendeu? -Ela respondeu irritada.- Cansei de interior, vamos para a cidade. Semana que vem no máximo já estaremos lá, tenho que só confirmar com o seu pai se ele fechou o negócio da casa.
Eu abaixei minha cabeça e subi pro meu quarto, estava triste. Eu não queria me mudar, não podia! Iria deixar o Lucas aqui e com certeza "na cidade" eu não faria amigos por causa do meu jeito, maldito jeito tímido e nerd. Liguei o skype com o Lucas e contei tudo à ele, que também ficou arrasado e disse que faria de tudo para que eu não fosse, mas eu sabia que nada ia adiantar. Quando minha mãe colocava um objetivo na cabeça não tinha quem tirasse. Fiquei mais um tempo no skype e depois desci pra ver se a janta já estava pronta.
–(...) Ela é muito solitária, não conversa com ninguém e aquele tal de Lucas não é uma boa influência pra ela. -Escutei minha mãe falando no celular, então me escondi pra escutar o resto da conversa. -Ela é estranha sim! Só pensa em estudar, uma adolescente de 15 anos deveria sair, aproveitar com os amigos, mas ela não tem amigos. Também é por isso que quero ir pra Nova York, pelo menos lá tem mais gente, a cidade é grande e a possibilidade dela ter amigos é bem maior. -Minha mãe ainda falava no celular sem perceber que eu estava escutando.
AAAAAH, então era por isso que ela queria se mudar? Pra eu fazer amigos? Realmente minha mãe não me entende, ela deve achar que sou doente, ou algo do tipo. Tinha perdido totalmente a fome, então subi para o meu quarto, coloquei meu fone e dormi.
Acordei no meio da noite com gritos. Desci ainda meio sonolenta pra ver o que estava acontecendo e era minha mãe e minha irmã brigando mais uma vez.
–Você é louca! -A Juliana gritava. -Tem que se internar, lugar de louco é no hospício! E não encosta em mim, sua louca. Me deixa em paz!
–Abaixa o tom pra falar comigo e louca é o caralho! Se liga mocinha, eu quero respeito! -Minha mãe gritava ainda mais alto e ameaça ir pra cima da Ju.
–OOOOOOOOU PAREM! -Eu gritei e bati a mão na porta fazendo tanto barulho que consegui chamar a atenção das duas pra mim. -Juliana sobe e vai tomar banho, você tá fedendo a vodka, e mãe, vai dormir que eu cuido da Juliana.
As duas fizeram o que eu disse e eu subi atrás pra ver o estado da minha irmã.
A Juliana mesmo sendo mais velha, ela tinha 16, era irresponsável. Saia pras baladas com os amigos, ficava bêbada e quando chegava em casa fazia um escândalo, e esse era o motivo de todas as brigas dela com a mamãe. A Ju era bem diferente de mim. Ela era popular, descolada e bagunceira. Sempre que ela dava os PTS dela, era eu quem a ajudava, porque se dependesse da minha mãe ela nem estaria mais morando em casa.
–Juliana, não pode fazer essas coisas. Semana passada foi a mesma coisa, você bebeu demais, chegou em casa vomitando e arrumou briga com a mamãe. Porra, assim não dá! -Eu falava enquanto dava uma ducha bem gelada nela.
–Eu quero que tudo se fodaaaaa! Eu quero festa e bebida! -Ela gritou e eu rapidamente tampei sua boca antes que ela acordasse a vizinhança inteira. -Ai, essa água tá gelada demais, você não acha?
–Agora você vai deitar, calar a boquinha enquanto eu vou lá embaixo buscar algum remédio pra ressaca e alguma coisa pra comer. -Eu disse enquanto direcionava ela pra cama.
–Blá blá blá!! Só não demora porque eu to com fome!
–Mal agradecida. -Resmunguei.
Levei as coisas para a Ju e esperei até ela pegar no sono, para que ai sim eu pudesse dormir tranquila. As vezes eu era mais mãe da minha irmã do que a nossa própria mãe.
No outro dia acordei com o barulho daquele maldito despertador que tocava "How we do" da Rita Ora.
–Juliana anda logo que eu também preciso usar o banheiro! -Eu gritava e batia na porta do nosso banheiro.
–Ihhhh, se estiver muito apertada MESMO vai ter que usar o banheiro lá debaixo porque eu to com vontade de vomitar e vou demorar aqui.
–Ô meu senhor, tá bom.
Fui obrigada a levar minha nécessaire para o banheiro lá debaixo. Ia descendo a escada quando meu celular tocou e eu ACHEI que seria ninja o bastante para poder atende-lo, já que eu estava cheia de coisas nas mãos. Pois é, só achei. Rolei escada a baixo com uniforme, nécessaire, toalha, celular, secador de cabelo e tudo. Que d-r-o-g-a.
Tímida, nerd, confusa e atrapalhada. TEM COMO EXISTIR UMA PESSOA PIOR QUE EU? Resposta: NÃO.
Levantei e peguei minhas coisas como se nada tivesse acontecido e fui finalmente para o banheiro. Olhei pro relógio e já estava ficando atrasada.
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