Confissões De Uma Adolescente
2 PRIMEIRA PARTE: Os problemas vão se revelando...
Notas iniciais
Tomei banho correndo e sai gritando a Juliana sem ao menos tomar café, a perua já estava lá embaixo buzinando feito louca. Entrei e como de costume comecei a conversar com o Lucas, mas dessa vez a conversa foi um pouco diferente.
–Carol, você não pode se mudar, como vou fazer para ver você? Nova York é muito longe daqui. -O Lucas falava indignado.
–Luc, eu não quero me mudar, você sabe que se dependesse de mim eu não sairia daqui de jeito nenhum. Não quero nem pensar em como nos veremos, vai ser bem difícil
–Que droga, mas daremos um jeito, isso é certo. -Ele falou empolgado estendendo a mão pra fazermos nosso "toque". -Mas então... como estão as coisas na sua casa?
–Ah, estão indo, como sempre. Ontem minha irmã resolveu chegar bêbada mais uma vez e eu tive que cuidar dela, pra variar rs. E minha mãe parece que aquetou, não discutiu comigo hoje.
–A Ju não tem jeito mesmo, hein! Só que e os cortes?
–Ah.. -disfarcei.- Estão aqui ainda, porém estou me segurando e não me corto faz 2 dias.
–Isso é bom, espero que você pare. Nós já conversamos tanto sobre isso Carol, sabe que eu não gosto que você faça isso e VOCÊ sabe que isso não é bom pra você.
–Como você mesmo disse Lucas, já conversamos sobre isso e eu já te falei que me esforço muito pra me manter forte, mas já virou um vício.
–Porra Caroline, eu realmente não te entendo...
–Você nunca vai entender, ninguém entende até passar pela mesma situação! -Eu gritei interrompendo ele e de repente a perua toda estava em silêncio olhando pra mim.
Eu corei e fiquei sem graça, depois abaixei minha cabeça e fui em silêncio até o colégio.
Bateu o sinal para ir embora e em disparada pra não ter que olhar pra cara do professor de química, tinha certeza que ele ia me cobrar o trabalho atrasado. Estava "correndo" pelo corredor, com os livros quase caindo, foi uma cena bizarra. Quando fui interrompida pelo Lucas.
–Carol! Espera aí, quero falar com você. -Ele veio correndo na minha direção.
–Oi Lucas. -Disse desanimada, ainda estava chateada com o assunto da perua.
–Desculpa por ter te criticado hoje na perua, sei que não foi certo. Desculpa mesmo.
–Ah, tá tudo bem, agora eu tenho que ir. Vou passar na loja do meu pai pra falar com ele e tem que ser antes de ele ir almoçar.
–Tá, vai entrar no skype hoje?
–Vou sim, só que de tarde. Aí te chamo! -Disse me despedindo dele.
Peguei minha bicicleta e já ia saindo quando ouço os gritos da Ju.
–Ei Carol, me dá uma carona!!
–Ah Juliana, então vai logo. -Eu respondi bufando.
"Tchau Ju", "Fica no skype", "A gente se encontra amanhã", "Não esquece as maquiagens"... Era o que os amigos da Ju diziam pra ela. Ah, como eu queria ser como a minha irmã... Popular, linda, tudo o que uma adolescente normal deveria ser.
Fomos conversando no meio do caminho quando surgiu uma pergunta estranha:
–O Lucas disse algo sobre cortes hoje na perua? -A Juliana perguntou do nada.
–Cortes? Hã? Não me lembro disso. -Eu respondi querendo mudar de assunto porque ninguém além do Lucas sabia dos meus problemas.
–Não muda de assunto Caroline, ele disse sim!
–AAAH é mesmo! Ele disse que a mãe dele fez um CORTE de cabelo muito estranho e ele não tinha curtido muito. -Menti.
–Hm, entendi.
Voltamos a conversar e fiquei tão distraída que acabei nem passando na loja do meu pai, fomos direto pra casa. Cheguei e subi para o meu quarto, larguei minha mochila no chão e me joguei na cama. Eu estava cansadérrima!
–Ô Cá, quer ir comigo e com o pessoal na sorveteria daqui a pouco? Eles vem me buscar as 14hrs.
UAU, QUE MILAGRE! A Juliana, minha irmã, A POPULAR, A TOP, sim ela mesma, tinha me chamado pra sair com ela *o* Mas eu não ia, claro que não. Ia me sentir descolada e excluída, por mais que a Ju tentasse fazer com que eu me sentisse bem. Eu não fazia parte dos "descolados".
–Ah não, valeu. Vou ficar aqui, preciso dormir.
–Vamos vai, você precisa sair de casa e nesse calor... além do mais, só vamos tomar um sorvete, nada de mais. -Ela insistiu.
–Não vou Ju, sério, mas obrigada por chamar. Quem sabe da próxima ;)
–Tá né, então tchau!
Uma hora se passou e eu continuei ali, deitada pensando na vida. Até que minha mãe chegou. E chegou pra acabar com a minha paz.
–Caroline levanta agora daí! Você limpou a casa? -Ela gritou enquanto batia a porta do quarto.
–Mããããe, to com dor de cabeça e que eu saiba a empregada serve pra limpar a casa, ou seja, eu não tenho esse dever.
–Levanta dessa cama agora! -Ela me puxou pelos cabelos. -Eu to de saco cheio de você, desse seu jeitinho.
–Mas mãe, eu não fiz nada, me solta, tá me machucando!
–Esse é o problema. Você nunca faz nada. Parece um robô. Come, toma banho, vai pro colégio e dorme. É só isso que você sabe fazer, eu to de saco cheio! -Ela repetiu me soltando e me jogando no chão.
Minha mãe sai e bateu a porta forte. Meu, qual era o problema dela? LOUCURA! Ela sempre me julgou por tudo, tudo. Eu comecei a chorar e a primeira coisa que veio na minha cabeça: lâminas. Não deu outra.
Abri minha gaveta, peguei as lâminas e em menos de um minuto já estava no banheiro, com a porta trancada, sentada no chão chorando e com os pulsos cheios de sangue. Voltei a pensar em tudo. Nas brigas, nos defeitos, e me cortei mais e mais. Fiquei por meia hora mais ou menos trancada no banheiro vendo o sangue escorrer e depois fui tomar banho.
Ardeu, ai como ardeu. Mas eu nem ligava mais pra dores físicas, como eu sempre pensava "o meu cansaço não era físico, era psicológico". Terminei o banho, coloquei uma manga comprida, voltei pro quarto e tinham 5 ligações perdidas no skype, todas do Lucas, óbvio. Só que eu nem respondi, não estava em condições. Deitei, coloquei meu fone e me desliguei de tudo.
Acordei no outro dia com uma dor de cabeça horrível e muito forte. Olhei para o relógio e já eram 10:30 da manhã, eu tinha perdido a perua, e automaticamente, o colégio.
"Aquela filha da mãe da Juliana nem pra me acordar, droga!" Pensei enquanto ia pro banheiro.
Quando voltei já tomada banho e trocada, vi uma mancha de sangue enorme no meu lençol, tinha sido da noite passada. MAS QUE MERDA! Eu tinha que dar um jeito, não podia deixar ali, alguém iria ver e perguntar o porquê. Enrolei o lençol, levei pra lavanderia e eu mesma o esfreguei até tirar todo o sangue. Ainda bem que saiu, se não não sei o que eu ia fazer. Olhei para o meu amigo fiel e inseparável, o meu celular, e tinha um sms e duas ligações perdidas do Lucas. Eu ia retornar, mas não naquela hora.
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