Confiar
22 XXII. Insônia
Notas iniciais
Estava tudo escuro. Eu estava ofegante. Por mais que apertasse os olhos não conseguia enxergar absolutamente nada, e isso era desesperador. Eu andava de um lado pro outro, tateando qualquer coisa, mas só pegava nas paredes frias. O lugar não devia ter mais de 4 metros quadrados, o que me deixava mais desesperada ainda. A sensação de estar sufocada era insuportável. Sentei no chão e abracei meus joelhos, tentando me acalmar. Pensei em gritar por socorro mas tinha medo de que ele me ouvisse. Depois de tempo suficiente pra perceber que eu não iria me acalmar, levantei e comecei a tatear novamente as paredes. Achei algo que parecia ser uma maçaneta e eu tinha certeza de que ela não estava ali antes. Me joguei pra trás imediatamente, com medo do descoberto. Respirei fundo e procurei novamente a tal maçaneta, e ela estava lá. Sem pensar muito para não me arrepender, girei. Estava destrancada. A luz que vinha lá de fora me cegou imediatamente e eu demorei alguns segundos de olhos fechados, pra me acostumar com o clarão. Assim que os abri de novo, vi uma sombra em minha frente. Não conseguia distinguir quem era, mas tinha olhos e sorriso perversos. Antes que eu pudesse abrir a boca pra gritar ou suplicar por minha vida, ele já tinha atirado. Fiquei consciente o bastante pra contar os tiros. Pow. Um na barriga. Pow. Outro na barriga. Pow. Um no coração. Eu havia morrido.
Acordei gritando e chorando. Havia sido muito real. Como todos os outros pesadelos que tive na última semana, desde que soube que o assassino de meus pais estava vivo. E que, muito provavelmente, ele queria me pegar também.
Um Simon ofegante apareceu na minha porta, seguido por uma Rachel desesperada. Eu queria pedir desculpas, queria dizer que foi apenas um sonho. Mas não conseguia. Eu soluçava, engasgada em minhas lágrimas. Eu havia sido iludida. Finalmente acreditei que poderia ter paz, recomeçar. Eu havia dado uma nova chance pra felicidade. E, de repente, vejo o chão caindo bem abaixo dos meus pés.
Ainda estava de madrugada, então, quando consegui finalmente parar de chorar, disse a Simon e Rachel que podiam voltar a dormir. Eles estavam me abraçando e me consolando, mas sinceramente, por mais que eu sentisse medo, queria ficar sozinha.
Quando eles saíram, apertei meu colar. Eu havia tirado o que David me dera e deixei apenas o que fiz com minha parte da pedra. Pensei na Tay. Não falei com ela direito a semana inteira. Pensei no David. Não tinha notícias dele desde que ele quase bateu no Archie no parque. Pensei no Red. Ele não tinha aceitado bem a separação e me mandava uma mensagem todos os dias, pedindo pra gente se entender. Pensei no Ed.
A única coisa que eu queria era um abraço dele.
Pensei em ligar pra ele, mas olhei no relógio e vi que era injustiça. Eu havia ignorado todas as ligações e mensagem que ele me fez desde que contei que estava solteira. O último dia sem pesadelos. Passamos horas no telefone, fazendo planos pro nosso futuro. Fazendo planos pra nós dois. Quando percebi que já estava na hora de buscar a Rachel e o Simon no aeroporto, que vieram pra comemorar meu aniversário, prometi que ligaria quando voltasse. Não liguei. Não respondi mais nada depois disso. Não sei direito porque, acho que pra tentar protegê-lo do que quer que fosse. Eu não me perdoaria se algo acontecesse com o Ed. Mas eu também sabia que estava magoando-o. Ele já tinha ido na minha casa duas vezes, e em ambas pedi a Rachel que dissesse que eu estava doente ou algo assim. Na primeira vez, recebi uma mensagem:
“minha doentinha nao me ama mais?”
E na segunda:
“pam, o que ta acontecendo? o que voce tem? eu preciso te ver, nao aguento mais, nao faz isso comigo”
Só de lembrar as lágrimas despencaram de novo. Eu não conseguia fugir dele. Eu precisava dele comigo. Então peguei o celular, escrevi um “oi” e enviei. Eu sabia que ele não iria responder, pelo menos não por agora, já que eram três da manhã. Mas enviei, pra ele saber que eu ainda o amava, que ainda estava ali pra ele, e que sempre iria estar.
Rezei pra ele entendesse tudo o que eu queria falar apenas com aquelas duas letras.
Dois minutos depois, ele me ligou.
– Pam? Meu Deus, nunca mais faz isso comigo. Por favor. Meu Deus, meu Deus. Eu te amo.
Ele estava chorando. Respirei fundo pra não fazer o mesmo.
– Não sabia que você estava acordado.
– Eu não consigo dormir. Desde quando você parou de me responder e não quis mais me ver. O que aconteceu? Por que você fez isso?
– Me desculpa, Ed. Eu não queria. Eu sinto muito. Eu... – apertei os olhos forçando as lágrimas a não caírem – Eu não consigo falar por telefone.
– Então eu estou indo praí.
– Não. Rachel e Simon estão aqui, não vai dar pra gente conversar. Mais tarde a gente se encontra.
– Pam, você sabe que dia é hoje?
Pensei. Havia esquecido completamente. Era meu aniversário.
– Você vai ter que dar atenção pra muita gente e aí sim não vamos ter tempo pra conversar. Pam, eu passei uma semana sem uma palavra sua. Eu não consigo mais esperar.
Respirei fundo.
– Ok. Estou indo praí. – disse, finalmente.
Desliguei o telefone, peguei um casaco e fui até a casa dele. Ele já me esperava com a porta aberta, e assim que eu entrei, ele me abraçou. Eu me perdi em seu abraço quente, aconchegante e protetor. Por um segundo eu me sentia segura, de tudo e todos. Sentir seu coração acelerado me fez soltar um gemido, que significava que eu nunca queria abandoná-lo novamente. Quando ele me soltou, mais rápido do que eu esperava, olhei fundo em seus olhos. Por detrás de olheiras e da vermelhidão causada pelas lágrimas, lá estavam eles: os dois olhos verde-esmeralda brilhantes pelos quais me apaixonei. Ele me olhava como se pedisse uma explicação. Uma justificativa. Uma promessa de que eu nunca ia fazer aquilo de novo.
E eu simplesmente respondi a isso tudo com um beijo.
Beijar o Ed fez eu me sentir viva novamente. Foi um beijo desesperado, apaixonado, mágico. Um beijo que anunciava que finalmente nosso momento havia chegado. Nós íamos poder ficar juntos, independente de qualquer coisa. Era diferente de tudo que eu já havia sentido. Parecia o meu primeiro beijo. Não só com ele, mas meu primeiro beijo de todos.
***
Estávamos deitados abraçados na cama dele, eu com a cabeça em seu peito, ele fazendo carinho em meu rosto. Ainda não havia falado nada do que tinha acontecido, e eu sabia que ele queria e merecia uma explicação.
– Ed...
– Oi, minha princesa. Achei que você tinha dormindo.
– Eu tenho medo de dormir. Sempre que caio no sono me arrependo.
– O que aconteceu, Pam?
Entre soluços, contei tudo a ele.
– Meu Deus, Pam! Por que você não me disse antes? Eu não teria deixado você sair sozinha na rua a essa hora!
– Eu não queria te preocupar. Não queria te envolver. Queria que você ficasse protegido dessa merda toda.
– Pamela, você é minha vida. É tudo que eu tenho. Se você não está protegida, então eu também não estou. Meu Deus! Esse filho da puta não tava morto?
– Simon contou que a polícia descobriu que o corpo que acharam não era do assassino. Era tipo um capanga, cúmplice ou sei lá o quê. Não quis saber muito. Só sei que o desgraçado matou o cara pra acharem que era ele e se livrar. E agora acham que ele pode vir atrás de mim.
– Faz quanto tempo isso?
– Descobriram no natal. A Rachel disse que queria me contar por telefone, mas quando eu disse que ia pra Nova York ela ficou mais tranquila e decidiu contar quando eu chegasse. Mas ai teve o incêndio, a minha perna, a nevasca e tudo mais e eu acabei não indo. Aí ela achou melhor não contar pra não me assustar.
– Pam, eu não vou deixar esse desgraçado encostar um dedo em você. Eu te prometo. Eu mato ele se ele sequer cogitar em fazer algum mal a você.
Eu o abracei forte. Ele beijou minha testa.
– Eu te amo. Me desculpa por sumir.
– Só não faz de novo. Eu juro que eu estava pensando em arrombar sua porta se você não falasse comigo amanhã. Agora tenta dormir um pouco. Daqui a algumas horas vai ser o dia mais importante da sua vida.
– O dia em que eu fico um ano mais perto da morte? – ri.
– Não. Seu primeiro aniversário que passamos oficial-secretamente juntos.
Beijei-o e me aconcheguei em seu peito. Adormeci escutando seu coração e não tive nenhum pesadelo.
Acordei umas quatro horas depois com um beijo de bom dia.
– Amor, é melhor você ir pra casa. – Ed disse, acariciando meu rosto – Rachel e Simon devem estar preocupados. E, você sabe, não estamos juntos oficialmente ainda, pode dar problema se alguém vir você saindo daqui.
– Ok. Você está certo. Nos vemos mais tarde?
– Com certeza. Feliz aniversário. – ele me entregou uma caixa de presente – Não abre agora. Só quando tiver sozinha.
– Oh, Ed, não precisava. O maior presente que eu podia ganhar é você.
– Eu sei que esse corpinho aqui é mais do que suficiente, mas como eu sou um futuro namorado muito dedicado, decidi te dar um presente simbólico.
Não pude deixar de sorrir com o “futuro namorado”. Dei um último beijo nele e voltei pra casa, assegurando-me de que ninguém me visse.
Assim que abri a porta da minha casa fui recebida por um Simon aflito.
– Pam? Graças a Deus! Mãe, a Pam tá aqui! Acabamos de acordar e não te achamos na cama! Já íamos ligar pra polícia!
– Oh minha querida, eu fiquei tão preocupada! – Rachel me abraçou.
– Desculpa, gente. Eu estava na casa do Tay. – menti.
– Não tem problema. – Simon disse – Só não some de novo. Vou tomar um banho.
Quando Simon subiu as escadas, Rachel me olhou com um olhar cúmplice. Ela sabia que eu não tinha ido na Taylor. Ela me conhecia melhor que ninguém. Então contei tudo pra ela, desde a mensagem até o beijo.
– Minha filha, que bom que vocês finalmente podem ficar juntos. Mas vem cá... foi só beijo mesmo?
– Rachel! – eu fiquei vermelha – Claro que sim! Que pergunta!
– Tudo bem – ela riu – Foi só pra checar. E que presente é esse?
– Ele me deu de aniversário. Não sei o que é, ele mandou eu abrir sozinha.
– Pam! Eu esqueci! É hoje seu aniversário! – ela me abraçou forte – Parabéns, minha querida. Mais um ano que você completa, cada vez mais linda e me dando cada vez mais orgulho.
Agradeci a ela e subi pra tomar banho também. Antes, me rendi à curiosidade e abri a caixa que Ed me deu.
Primeiro tirei de lá uma caixinha: abri e vi que era um pingente do Super-Homem. Não consegui conter um sorriso.
Depois puxei um envelope com uma cartinha.
“Pam-queca,
Eu estou escrevendo isso uma semana antes do seu aniversário, e estou rezando para que quando você leia, já estejamos oficialmente juntos. Mas se não estivermos, não faz mal. Eu espero o tempo que for preciso pra te ter pra mim, porque eu sei que vai valer a pena.
Você é a melhor coisa que já me aconteceu, Pams. Hoje(na verdade, daqui a uma semana) é seu aniversário, mas quem ganhou o melhor presente fui eu. Que é te ter pra mim. Desde que a gente se beijou eu tenho que me controlar quando estou perto de você, porque descobri que sua boca é a melhor coisa do mundo. E pode ter certeza de que quando você for minha namorada, eu vou te beijar até você enjoar.
E depois que você enjoar eu vou continuar te beijando. Enquanto eu estiver com você. Ou seja, pra sempre.
Eu te amo, minha eterna doentinha.
Com amor, Ed.
PS: meu herói preferido é o Batman.”
Arqueei uma sobrancelha, confusa com a última frase. Só então vi que ainda restava uma última coisa na caixa. E era o que eu imaginava.
Uma calcinha do Batman.
Sorri por ter o melhor futuro namorado do mundo.
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