Confiar
23 XXIII. Elogios
Notas iniciais
Apesar de eu não gostar muito de salão de beleza, confesso que adoro o resultado. Nunca fui vaidosa ao extremo, mas admito que gosto de me sentir bonita. E naquele dia, no meu aniversário de dezenove anos, eu estava me sentindo bonita. Não, melhor: eu estava me sentindo linda.
Taylor precisou insistir algumas vezes, mas finalmente cedi em ir com ela. Me senti como uma daquelas atrizes se preparando para uma cena de jantar em um hotel cinco estrelas. Havia uma manicure em minhas mãos, uma pedicure em meus pés e uma cabeleireira um tanto falante e engraçada tentando arrumar meus cabelos, e reclamando sobre meu descuidado com eles.
– Olhe quantas pontas duplas! Você acha que só porque tem cabelo não precisa cuidar dele? Lisos também precisam de cuidado e carinho, loirinha! Fico perplexa com quem não valoriza o cabelo que tem. Quando ele começar a ficar ressecado, ou pior, cair, você vai sentir falta. Sim, você só vai dar valor quando ficar careca, como minha tia Pearl. Ela tinha lindos cabelos dourados, quase da cor do seu.
E então ela começou a contar como a tia dela entrou em depressão depois que perdeu um concurso de miss, deixou de se cuidar e se viu ficando careca. Depois ela contou sobre os filhos, os vizinhos, as primas e sobre um monte de outros assuntos aleatórios que ela puxava um atrás do outro. Quando ela parou pra respirar, pedi rapidamente para ela não cortar muito, pois eu gostava do comprimento dos meus cabelos. Ela disse que faria o possível para “salvar o máximo que conseguisse”.
Algumas horas depois, unhas e cabelo feitos e maquiada, me olhei no espelho e quase não me reconheci. A cabeleireira, que depois descobri que se chamava Kimmy, atendeu ao meu pedido de não cortar muito. Ela havia prendido uma parte da lateral, deixando à mostra minha orelha direita. Eu estava com uma maquiagem leve e simples, porém bonita.
– Nossa. Pam, você está incrível. – Taylor, que estava igualmente linda, disse ao me ver pronta.
– Está, não é? Eu sei fazer meu trabalho. – Kimmy se gabou – E para onde minha obra-prima vai esta noite? Espero que para um lugar cheio de gente, onde possam apreciar meu incrível milagre capilar.
– Na verdade, só vamos jantar. – eu disse, desapontando-a.
– Provavelmente vamos sair pra jantar. – Taylor a reanimou – Hoje é aniversário dela, mas acho que eu estou mais animada que ela.
– Ei, isso não é verdade. Só não estou acostumada a passar o dia no salão.
– Pois devia. Se você normalmente já atrai milhares de caras, imagina se andasse assim todos os dias.
– Eu não atraio milhares de caras.
– Fala sério, Pam. Você é a garota mais assediada que eu conheço. Quase todos os homens que te conhecem, querem uma chance contigo.
– Taylor, você é uma exagerada.
– Não sou não. Na verdade digo mais: se a Lindsay te vir assim, é capaz de até ela se apaixonar por você.
– Ou querer me matar.
– Ou ambos. Vamos, já estamos atrasadas.
– Atrasadas pra quê?
– Pra jantar, ué. Fizemos uma reserva naquele restaurante japonês que você adora.
Agradecemos a Kimmy e às outras funcionárias do salão e fomos pra casa. Taylor combinou de que assim que eu, Rachel e Simon terminássemos de nos arrumar, fôssemos até a casa dela para irmos todos juntos ao restaurante. Quando cheguei Rachel já estava pronta e Simon estava tomando banho. Subimos pro meu quarto e Rach me ajudou com o vestido, que era vermelho de alcinha e tinha alguns detalhes em brilho. Quando eu ia pôr os brincos, ela me deu uma caixinha.
– Rach, não precisava. Só sua presença aqui já é o melhor presente que eu poderia ter.
– Ora, precisava sim. E o presente não é só meu.
– Eu estava me referindo ao Simon também.
– Não é do Simon. Vamos, abra.
Abri a caixinha e vi um par de brincos. Eram completamente prateados e no fim pendiam duas pedrinhas vermelhas, que reconheci como rubis. Eram lindos. Mas eu tinha a sensação de que eram familiares. Rachel me ajudou a colocá-los.
– Eram da sua mãe. Eu fiquei encantada quando os vi, achei lindos. Então ela me deu. Mas não ficam tão bem em mim quanto ficavam nela.
Ela parou de falar um pouco, emocionada. Eu estava me segurando pra não chorar e arruinar o trabalho da maquiadora.
– Então eu pensei que seriam perfeitos pra você. E eu estava certa. Pam, você é muito parecida com a Michelle. Não só na aparência, apesar de eu ver o rosto dela em você. Mas na personalidade também. Vocês são fortes, independentes. Mas ao mesmo tempo, de uma doçura enorme. Você tem a mesma capacidade que ela tinha, de encantar todos que te conhecem. Ela era muito amada por todos.
Não aguentei mais e a abracei forte, me permitindo chorar um pouco.
– Eu sinto falta dela, Rach. E do papai.
– Eu também, Pam. Sinto muita falta deles. E você não imagina o quanto eles estariam orgulhosos se vissem a mulher linda que você se tornou. E como você amadureceu tanto em tão pouco tempo. Mas agora, vamos. Não é hora de lágrimas. Hoje é um dia feliz. – ela levantou meu rosto – Acho que você precisa retocar um pouco a maquiagem. Vou ver como Simon está.
Respirei fundo e toquei os brincos. Agradeci mentalmente a Rachel, por permitir que eu ficasse com uma parte da minha mãe. Fez eu me sentir mais completa. Retoquei a maquiagem e desci. Rach e Simon já estavam me esperando.
– Nossa. – Simon deixou escapar, o que me fez rir e me deixou sem graça ao mesmo tempo.
Fomos até a casa da Tay, e estranhei todas as janelas fechadas e as luzes apagadas. Batemos na porta e ninguém abriu.
– Será que eles já foram?
– Pam, as luzes do quintal estão acesas. Acho que eles estão lá nos fundos.
Achei mais estranho ainda. Mas confesso que me surpreendi quando, assim que chegamos no quintal, fui recebida com uma chuva de confetes prateados e um coro de “surpresa!”.
– Não acredito que caí nessa! – disse enquanto abraçava Taylor, sr. Fox e sra. Fox. – Muito obrigada, gente. Vocês são incríveis.
Eles haviam colocado algumas mesas no quintal, que estava repleto de amigos e colegas da faculdade. Vários vieram falar comigo e me parabenizar. Até o Archie estava lá.
– Nossa, Pam. – ele disse, com seu jeito tímido – Você está linda.
– Obrigada, Archie. Muito obrigada por ter vindo.
– Eu que agradeço. Me senti muito honrado quando sua amiga me ligou convidando.
– Tay sabe que você é um bom amigo meu, apesar da gente já não se falar há algum tempinho.
– Verdade. Nós... – ele hesitou e ficou vermelho — ...podíamos marcar de sair.
Sorri e disse que com certeza, depois pedi licença para falar com outros convidados. Depois de ter falado até com a Lindsay – já ainda estávamos no período de bandeira branca levantada – senti falta de uma pessoa em especial.
– Tay, onde está o Ed?
– Ah, Pam – ela pareceu desconcertada – Ele não vem. Meus pais não reagiram tão bem ao fim do namoro como eu. Eles acham que o Ed fez alguma coisa pra mim ou algo assim. Ele ficou meio sem jeito de aparecer. Mas pediu pra você passar na casa dele depois, pra ele te entregar o presente. Desculpa, eu sei que o Ed é seu melhor amigo.
– Não precisa pedir desculpas, Tay – eu disse, apesar de ter ficado um pouco desapontada – Você fez essa festa incrível pra mim. Ele que não sabe o que está perdendo.
– Na verdade, Pams, eu não preparei a festa sozinha.
– Eu sei, seus pais ajudaram.
– Não estou falando dos meus pais. Foi o David.
Quase caí pra trás de espanto.
– David?!
– Sim. Na verdade, foi ideia dele. Nós ficamos meio próximos nessas últimas semanas, desde que você terminou com ele. Ele pediu pra não te contar, pra que você não soubesse que ele estava sofrendo. Mas eu apoiei ele, e tal. Ele melhorou. Aí quando eu mencionei, uns dias depois do meu aniversário, que o seu estava chegando, ele sugeriu que eu fizesse uma festa surpresa. No fim ele acabou me ajudando, com a lista de convidados e tudo mais.
– Nossa. O Dave me surpreende a cada dia. Pelo menos eu fico feliz de que ele não me odeie.
– Ele não te odeia, Pam. Pelo contrário, ele te ama muito. E amava muito mais, mas finalmente ele tá conseguindo seguir em frente.
– Que bom. Mas eu ainda não vi ele aqui.
– Bom, ele não vem. Sabe como é, ele superou, mas nem tanto.
– Ah. Entendo. Agradeça a ele por mim, então.
O resto da noite foi bastante agradável e até divertido. Taylor pegou um microfone e uma caixa de som e disponibilizou para que cada convidado que quisesse fizesse um pequeno discurso pra mim. Um pouco depois de comermos o banquete maravilhoso que a sra. Fox preparou carinhosamente, as pessoas começaram a ir embora. E eu me sinto extremamente culpada e ingrata por isso, mas eu não via a hora da festa acabar.
***
Já eram umas onze horas e eu pensei duas vezes antes de ir. Depois de ter ajudado a Tay a pôr tudo pra dentro, avisar a Rachel que iria passar na casa “daquele amigo” e ter certeza de que todos já estavam dentro de casa e sem os olhos em mim, entrei pela porta dos fundos, que ele havia avisado por mensagem que estaria aberta. Apesar de ele ter dito que iria me esperar, estava tudo escuro e eu já estava começando a achar que ele havia dormido, quando o encontrei no quarto dele, deitado, assistindo televisão. Ele abriu um sorriso assim que eu entrei.
– Uau.
– Só “uau”? – sentei ao seu lado – Achei que de todos os elogios que recebi hoje, o seu seria o mais original.
– Estou vendo que todos esses elogios te deixaram mais convencida do que você já era. Muitos caras disseram isso, foi?
– Muitos.
– E eles disseram que você tá linda?
– Disseram.
– E disseram que você tá muito gostosa?
– Ok, isso eles não disseram.
– Pois então. Está aí o seu elogio original. – ele me puxou pela cintura pra mais perto dele.
– Seu elogio original é horrível. Faz eu parecer um pedaço de carne, e você um cachorro.
– Foi péssimo mesmo. E se eu mudasse pra irresistivelmente sensual? – ele chegou o rosto mais perto do meu.
– Aí está melhorando.
– Que tal incontrolavelmente sexy?
– Eu gostei desse.
– E é totalmente original.
– Tay disse que você iria me dar um presente. Obviamente ela não sabia do que você me deu mais cedo.
– Você não me disse até agora se gostou.
– Bom, não se dá uma calcinha pra conquistar uma garota.
– Se você não gostou, espero que você esteja usando ela agora, pra eu poder pegar de volta.
– Ed!
– O quê? Foi você quem disse! Além do mais, essa garota eu não preciso mais conquistar. Ela já é minha.
E então ele finalmente me beijou, e fez o dia valer a pena. Eu me senti segura novamente. Me senti completa novamente.
E quando ele começou a abrir o zíper do meu vestido, eu não impedi.
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