Confiar
18 XVIII. Esconderijo
Quando Archie caiu no chão, imediatamente me joguei ao lado dele pra protegê-lo. Nem me preocupei em saber quem tinha o derrubado. Só fui reconhecer pela voz.
- Então foi por isso que você terminou?
- David! – gritei – Que merda você tem na cabeça?
- Eu nem acredito que você rompeu comigo ontem e já ta saindo com outros caras! – ele estava explodindo de raiva.
- Você está bem? – virei-me pro Archie, ignorando David.
- Sim. – ele passou a mão pela cabeça pra ter certeza que não tinha se machucado.
- David – me levantei – Não estamos mais juntos. O que eu faço agora não é mais da sua conta. Você não pode sair agredindo quem está comigo.
- Então você admite que ta saindo com outros caras?
- Pelo menos eu tive a consideração de terminar com você antes de fazer isso.
- O que está insinuando? – se fôssemos um desenho animado, com certeza veria fumacinha saindo da cabeça dele.
- Pergunte à Wanessa.
- Ok, gente – Tay se colocou entre nós – Tenho certeza que vocês têm alguns assuntos pendentes, mas aqui não é hora, não é?
David não parecia querer adiar a conversa, mas Taylor tentou acalmá-lo.
- David, olha ao seu redor. Está cheio de crianças aqui. Esse não é o local mais apropriado pra vocês discutirem isso. Eu tenho certeza que você tem bom-senso.
Isso aparentemente convenceu-o, pois ele recuou. Sem dizer muita coisa, ainda bufando de raiva, ele foi embora. Novamente me virei pro Archie.
- Meu Deus, Archie, me desculpe. Eu estou morrendo de vergonha. Me desculpe mesmo.
- Deixe pra lá, Pam. Eu estou bem. Você não tem culpa de ter namorado um surtado.
- Eu sinto muito, muito mesmo. Tem certeza de que não está machucado?
- Sim. Está tudo bem. Relaxe. Acho que você está pior do que eu.
- Eu sei que você deve estar me odiando agora, mas por favor, não odeie! Eu não sei por que essas coisas acontecem comigo!
- Pam! – ele riu, se levantando – Calma! Primeiro: eu não te odeio. Segundo: eu nem teria motivos pra isso. Terceiro: nosso “programa” de mais tarde ainda está de pé.
- Sério? Por que eu vou entender se você não quiser ir. Meu ex-namorado te atacou.
- Deixe de ser boba. Agora eu preciso ir.
- Certo. Desculpa, ta?
Nos abraçamos e ele sumiu entre as árvores e as crianças brincando.
- Oh, Pam. Ele ficou vermelhinho quando te abraçou.
- Não seja idiota, Tay – revirei os olhos – Somos só amigos.
- Há quanto tempo vocês se conhecem? – Ed quis saber.
- Hm, na verdade essa é a segunda vez que conversamos. E o David ainda me faz passar vergonha.
- Claro que sim – Judie se intrometeu – Você acabou de terminar com ele e já ta procurando outro namorado, ué!
- Não se meta na minha vida, anão de jardim diabólico. – lancei um olhar extremamente raivoso pra pequena diaba, que retribuiu dando língua.
- Pam, pelo amor de Deus, quantos anos você tem pra discutir com uma garotinha? – Ed provocou.
- Fiquem quietos, os dois. Podemos ir? – perguntei, irritada.
No caminho até a casa dos tios da Tay, fiquei me martirizando pela ação do David. E agora, minha vida seria isso? Eu seria condenada a nunca mais poder me aproximar de algum cara por causa de um ex-namorado ciumento? Quem ele pensa que é? Eu não sou propriedade dele. Me puni por todas as vezes que eu disse a ele que eu era dele.
Quando chegamos, a reação da Judie não podia ser diferente: ela pulou, gritou e logo correu pra cama elástica armada no quintal. Falei rapidamente com os tios da Tay e fui me isolar num canto. Eu definitivamente queria ir pra casa, ficar sozinha, afundar a cabeça no travesseiro e só levantar no dia seguinte. Depois de alguns minutos planejando minha rota de fuga, me surpreendi quando recebi uma mensagem no celular.
“Pam, me manda o endereço!
Beijos, Archie”
Nem acreditei quando apesar de tudo Archie ainda não me odiava. Mandei o endereço pra ele e logo depois Edward sentou ao meu lado.
- Você não disse que tava fechada pra relacionamentos.
- Eu estou. Archie é só um amigo.
- Ele gosta de você. Dá pra ver nos olhos dele. O jeito que ele te olha.
- Ed, essa é a segunda vez que nos vemos. Ele não teria gostado de mim tão rápido. Além do mais, se ele gosta, vai acabar quebrando a cara. Eu não quero nenhum tipo de relacionamento agora. – frisei a última palavra.
Ed sorriu e se calou por alguns instantes. Depois, olhou discretamente pros dois lados e disse baixinho:
- Vou terminar com a Tay no fim de semana que vem. Você sabe, o aniversário dela é daqui a seis dias. Vou deixar ela curtir o dia dela feliz e sem preocupações. Como o aniversário é na sexta, no sábado ou no domingo eu converso com ela.
- Certo. Ed, desculpa, mas eu prefiro que você não me diga. Eu me sinto muito mal quando penso no que estou fazendo.
- Ei, não é só você que está fazendo. Pam, nós não temos culpa. Simplesmente aconteceu.
- Não aconteceu nada ainda.
- Aconteceu sim – ele virou meu rosto em direção ao seu e o verde-esmeralda dos seus olhos penetraram nos meus – Aconteceu que nos apaixonamos.
Respirei fundo buscando ar urgentemente, como se meus pulmões tivessem parado de funcionar. Minha visão ficou meio turva e por alguns momentos quase esqueci onde estávamos. Era como se só houvesse Pam e Ed. E eu tenho certeza que eu iria me descontrolar e beijá-lo, se meu celular não tivesse tocado.
- Ahn, alô? Ah, oi Archie. Já chegou? Ok, vou pro portão da frente me encontrar contigo.
Lancei um olhar significativo pro Ed como se dissesse “isso não pode acontecer de novo”. Ele apenas sorriu e antes de eu sair, provocou:
- Então, além do Super-Homem e do Homem-Aranha, tem mais algum super-herói que você goste?
Demorei alguns instantes pra entender e quando me toquei, quase esqueci que estávamos numa festa infantil e já ia soltando uns xingamentos.
Fui até o portão e encontrei Archie com as irmãs. Ele me apresentou às duas, e logo elas se dispersaram no meio das outras crianças. Então fomos sentar em uma mesa vazia.
- Nem acredito que você veio.
- Por que? – ele perguntou, confuso – Não queria que eu viesse?
- Claro que eu queria! Não sabia se você iria querer. Quer dizer, meu ex quase te bateu!
- Pshi, não precisa espalhar. Se perguntarem, você diz que fui eu que comecei a briga e que acabei com ele! – ele brincou.
Sorri e, como sempre acontecia quando eu estava com Archie, a conversa se desenrolou facilmente. Era muito bom conversar com ele. Apesar de tímido, ele é muito divertido. Depois de um tempo, as irmãs dele o chamaram pra brincar. Ele ficou muito envergonhado no início, mas depois se rendeu e cedeu. Ver ele brincando com as crianças era muito bom, porque eu percebia que ele também estava se divertindo. Acabei não resistindo e me juntei à brincadeira de pique-esconde.
- Certo, agora é minha vez de contar – Archie disse colocando o rosto contra a parede – Vão se esconder!
Saí correndo e procurei algum lugar bom pra me esconder. O jardim todo estava tomado por convidados e os bons esconderijos já tinham sido pegos. Cortei caminho pela cozinha e fui pro quintal. Você nem acredita quanto uma criança de sete anos pode ser rápida, porque elas já tinham se escondido em todos os lugares possíveis. Voltei pra cozinha e vi uma menina correndo em direção à debaixo de uma bancada. Decidi usar todo o meu poder de ser maior de idade e enxotei a garota de lá. A bancada ficava entre os armários e a despensa, e era coberta por uma toalha de mesa longa. Era um ótimo esconderijo. Me enfiei ali debaixo e fiquei quietinha. Só depois que já estava ali embaixo percebi que a porta da despensa estava aberta e que tinha alguém lá dentro. Na verdade, duas pessoas.
- Tay, é sério. Vamos voltar pra festa.
- Deixe de ser careta, Ed. Eu estou morrendo de saudades suas. Ninguém vai perceber nosso sumiço.
- Mas deixamos a Pam sozinha com aquele cara.
- Você está com ciúmes da Pam? Estou começando a ficar com ciúmes disso.
- Não. Você sabe que não precisa ter ciúmes da Pam. Mas nós não conhecemos ele. Na verdade, nem ela conhece. E se ele for um psicopata?
- Ele não vai matar ela no meio de uma festa infantil. Ed, por favor, ele só tem 16 anos e está se apaixonando. Não seja tão super-protetor. Você está parecendo o pai dela.
- A Pam não tem exatamente um gosto bom pra namorados. Não vê o David?
- Ele só é um pouco possessivo, mas foi um bom namorado pra ela sim. E agora deixe de se preocupar com isso. A Pam é adulta e sabe tomar suas decisões.
- Certo. Você tem razão. Eu também estou com saudades.
E eles ficaram em silêncio. E eu tenho certeza de que não estavam brincando de mímica.
Não sei exatamente por que razão, mas fiquei com vontade de chorar. Decidi sair dali antes que algum deles me visse, esquecendo completamente de que eu estava brincando. Quando me levantei, Archie entrou na cozinha gritando “Achei!”, eu tomei um susto e acabei caindo no chão de novo.
- Pam? Me desculpe – Archie me ajudou a levantar – Você está bem?
- Estou. Só não fui rápida pra achar um esconderijo.
Ed e Tay saíram da despensa.
- O que aconteceu? – Tay perguntou.
- Nada – tentei segurar as lágrimas nos olhos – Eu só sou muito desajeitada e caí.
Tentei evitar contato visual com Edward, mas é inevitável. Quando nossos olhos se encontraram, ele soube que eu não estava chorando só pelo joelho machucado.
- Você está chorando, Pam? Doeu muito? – Archie examinou meu joelho roxo.
- Foi só o susto. Ei, eu não sou tão bobinha assim. – com esforço, tentei sorrir – Vamos continuar a brincar. É minha vez de contar.
Passei o resto da tarde disfarçando sorrisos e fingindo que estava bem. Pra falar a verdade, eu não sabia direito por que estava mal. Mas minha vontade era ir pra casa e retomar o plano de enfiar a cabeça no travesseiro. Quando Archie foi embora, avisei à Tay que ia pra casa também.
- Meus tios vão levar a gente de carro daqui a pouco, Pam. Espera um pouquinho que a gente vai junto.
- Não, Tay. Eu prefiro ir agora. Quero passar na biblioteca antes de fechar pra ver a Sra. Grayson. Faz tempo que não a vejo.
- Certo. Nos vemos depois.
Virei pro Ed e vi que ele me olhava preocupado. Sabia que eu não estava bem. Esbocei um sorriso fraco e acenei.
Obviamente a desculpa de passar na biblioteca era falsa. Fazia sim, um bom tempo que eu não via a Sra. Grayson, e eu realmente estava com saudades, mas naquele momento não estava com humor apropriado. Peguei o caminho mais curto que pude pra chegar logo em casa.
Quando finalmente cheguei, aproveitei e desabei a chorar.
Fale com o autor