Confiar

19 XIX. Luzes


– Bom dia, aniversariante!

– Olha só quem apareceu! Pensei que ia se esquecer de hoje!

– Nunca me esqueceria, sua boba. – abracei forte minha amiga.

– Sei lá, você tava tão estranha nesses últimos dias...

– Acabei de terminar um namoro. Precisava de um tempo sozinha. Mas eu nunca esqueceria o aniversário da minha irmã-de-outros-pais.

– E o seu já está chegando também!

– Sim, não é maravilhoso? Você é mais velha que eu só por quase duas semanas. Agora tome; abra seu presente.

Tay tomou de minhas mãos a pequena caixinha embrulhada que eu trazia. Ansiosa, logo tinha feito o papel de embrulho em pedacinhos.

– Nem acredito! – ela ficou boquiaberta quando pegou seu presente – Você só pode estar brincando!

Alguns anos atrás, quando estávamos na sexta série, aproveitamos um dia excepcionalmente quente e ensolarado para ir à praia. Enquanto procurávamos conchinhas na areia, Tay achou duas pedrinhas azuis. Ficamos cada uma com uma e prometemos nunca perdê-las. Mas no mesmo ano, quando Tay se mudou de casa, a pedra acabou se perdendo na mudança. Eu fiquei brava com ela por não ter tomado cuidado e ficamos brigadas por quase uma semana. Depois eu percebi que era besteira e que não era culpa dela, então deixamos o assunto pra lá. Mas eu ainda tinha a minha pedrinha.

– Não creio que você quebrou sua pedrinha só pra me dar uma parte!

– Não quebrei, quebrar é uma palavra muito forte. Eu reparti e fiz dois colares. Um pra cada uma. Assim é mais fácil tomar conta. – sorri.

– Você é a melhor amiga do mundo, Pam. Eu te amo muito. – ela me abraçou.

– Eu também, Tay – apesar de discordar que eu era a melhor amiga do mundo, pensei – E que venham mais seis anos de amizade.

Ambas colocamos nossos colares e descemos até a sala, onde a tia Susan punha o café da manhã. O cheiro de waffles, panquecas e bolo de chocolate se espalhava por toda a casa.

– Tia, a senhora tem mãos de deuses. Tudo que faz fica maravilhoso. – lambi os beiços.

– Isso é exagero seu, Pam. Mas obrigada. – ela sorriu.

Vi Edward que, antes sentado no sofá, agora se levantava pra falar com a Tay. Tentei agir com a maior naturalidade possível.

– Bom dia, aniversariante. A sua mãe me disse que vocês estavam lá em cima e eu não quis atrapalhar.

– Não seja bobo, Ed – ela lhe deu um beijinho rápido – Você não atrapalha. Já tomou café da manhã?

– Não, o cheiro das panquecas foi até a minha casa e me convidou pra comer aqui. – ele sorriu.

– Então vamos. – Tay sorriu de volta, e depois foi mostrar o colar novo à tia Susan – Mãe, olha o que a Pam me deu!

Só então Edward me olhou e deu um sorriso tênue, mas estupidamente apaixonante.

– Oi, Pam-queca.

Completamente atordoada, o máximo que consegui esboçar foi um sorrido débil.

– Por que você sumiu?

– Nada de muito importante. Vamos comer? – quis mudar de assunto.

Ele acenou com a cabeça e ambos nos viramos em direção à mesa de jantar, mas quando ele passou bem junto a mim, disse baixinho:

– Precisamos conversar.

***

– E aí, quais são os planos pra hoje? – perguntei enquanto ajudava a Tay e a tia Susan a lavar os pratos do café da manhã.

– Quero ir ao cinema mais tarde. Quer ir também? – Tay perguntou a mim.

– Não quero ficar “segurando vela” de novo. – torci o nariz.

– Chama o Archie, ué.

– Eu não vou chamar o Archie pra ir pro cinema, Tay!

– Quem é Archie? – tia Susan perguntou.

– Um futuro namoradinho da Pam. Ele só tem 16 anos.

– Taylor! Ele não é meu namorado, tia. É só um amigo.

– 16 anos? É muito novinho! Bom, Pam, de qualquer jeito, você tem meu apoio. Eu também já namorei garotos mais novos na sua idade. – tia Susan sorriu.

– Tia! Até a senhora contra mim?

– Pam, ta na cara que ele é louco por você. – Tay voltou a falar. – E além do mais, é só um cinema!

– Primeiro: nós só se vimos duas vezes, não dá pra ele ser louco por mim. Segundo: você sabe muito bem o que “casais” fazem no cinema. Não é pra ver o filme.

– Hm, então vocês são um casal? Está progredindo! – tia Susan provocou.

– Argh! Eu desisto. Vocês duas são impossíveis!

Rindo, nós três voltamos à sala de estar. Edward e tio Robert assistiam a “Os mercenários” na TV. Lembrei que Ed queria falar comigo.

– Ed, você pode passar lá em casa depois? Acho que a pia da cozinha está com algum vazamento.

– Quer que eu vá olhar? – tio Robert se ofereceu.

– Ora, Robert, você não sabe nem trocar a pilha do controle remoto!

– Isso é implicância sua, Susan. E não me peça mais pra abrir os potes das conservas!

– Mas você não abre! Quem abre sou eu! – Tay se intrometeu – É capaz de você estragar o encanamento da Pam. O Ed passa lá agora.

– Certo. – Ed sorriu.

– Não precisa ser agora – eu disse – Vocês não iam sair?

– Vamos, e você também vai. Vamos nós três ao cinema, já que você não quer chamar o Archie. A gente pega uma sessão matinê. Vou me arrumar, o Ed olha logo esse vazamento e depois vocês se arrumam também. Quando se aprontarem voltem pra cá.

– Você manda. – Edward beijou a testa dela, e depois se virou pra mim – Vamos, Pam?

– Sim. Vamos. Tay, daqui a pouco eu passo aqui.

Não falamos nada no curto caminho até a minha casa. Mas assim que eu abri a porta, perguntei:

– O que você quer falar?

Ed sorriu pra mim, arregaçou as mangas da camisa e foi até a pia da cozinha. Se agachou e começou a procurar o vazamento.

– Não tem vazamento nenhum. Foi só uma desculpa. Você disse que queria falar comigo.

– Eu sei – ele sorriu calmamente – Mas é melhor prevenir.

– Fala logo, Ed. Não gosto quando você fica enrolando.

– Certo. – ele se levantou – Não posso terminar com a Tay.

– O quê? – fiquei surpresa.

– Digo, não esse fim de semana. Os pais dela reservaram um chalé no interior pra passarmos esses dois dias. Eu e ela. Não pude recusar.

– Ah. Certo. O que você acha da gente esquecer esse negócio de você terminar com ela? Já passou mais tempo do que devia. Já está mais do que na hora da gente acordar. Nosso relacionamento não vai pra frente, Ed.

– Vai sim, Pam. Só estou pedindo mais um tempo. O que você queria que eu dissesse? “Ah, desculpe Sra. Fox, não posso aceitar porque vou terminar com a Tay no domingo”.

– E se você terminar depois desse fim de semana, ela vai achar que você só está usando ela! Porque eu sei o que vocês vão fazer sozinhos nesse chalé. E não é jogar Uno!

Edward ruborizou e ficou sem graça. Ele não sabia o que responder. O silêncio permaneceu por alguns instantes, quando Tay apareceu na porta correndo.

– Ed! Você não acredita no que meus pais deram pra gente!

Ed piscou como se tivesse saído de um transe.

– O quê, Tay?

– Eles reservaram um chalé pra gente no interior! Não é demais?

– É sim. – ele sorriu e deixou-se ser beijado por ela.

– Pam – depois ela veio até mim – Você não vai ficar brava, não é? Quer dizer, nós precisamos viajar daqui a pouco, então o cinema não vai rolar.

– Tudo bem. Pelo menos não vou ficar segurando vela. Vou até a biblioteca ajudar a Sra. Grayson. Divirtam-se! – tentei ser o mais amigável possível.

– Vamos sim! Soube que lá tem umas cachoeiras maravilhosas! – Tay puxou Ed pelo braço – Tchau, Pam!

Acenei não muito animada. Depois, fiquei da janela observando; meia hora depois os dois entraram no carro do Ed e foram embora.

Então me joguei no sofá e me permitir chorar, que já tinha virado rotina.

***

Voltei da biblioteca cansada – era bom poder ocupar a mente. Ajudei Wanessa a desempacotar as caixas de livros que haviam sido doadas e lemos alguns trechos dos livros de Oscar Wilde. Antes de eu ir embora, Sra. Grayson me deu alguns biscoitos que tratei de guardar num potinho logo que cheguei em casa.

Deitei no chão mesmo e por alguns momentos só fechei os olhos e me permiti não pensar em nada. Mas logo essa “paz interior” foi quebrada pelo som do toque do meu celular. Fiquei muito surpresa quando olhei no visor quem era.

– Lindsay?

– Oi, Pams. Quer sair?

– Seja lá o que você quer, diz logo.

– Eu quero te convidar pra sair. Tem uma festa numa boate super legal, começa às 22h e não tem hora pra terminar.

– E você está me convidando?

– Bom, na verdade eu convidei o Dave pra vir comigo mas ele não quis. Então pensei que se eu chamasse você ele iria.

– Lindsay, isso não tem graça. Eu deveria ter imaginado. Tchau.

– Não, Pam, espera! O que não tem graça?

– Você sabe muito bem que eu e o David terminamos o namoro.

– Vocês o quê? Meu Deus, sério? Nossa. Sinto muito. Eu acho. Isso explica por que ele desligou o telefone quando eu disse que iria chamar você. Enfim, o convite ainda está aberto. Vamos, por favor!

– Por que você não chama suas amigas?

– Porque elas são umas vadias e dão em cima de todo garoto por quem eu me interesso.

– Sei como é.

– Não seja cabeça-dura, Pams. É sexta à noite, você ta solteira e quer ficar em casa?

Revirei os olhos e suspirei. Sabia que ela não iria desistir fácil.

– Ok. Eu vou. Onde é?

– Estou passando aí pra te pegar. Você tem meia hora pra se arrumar. Beijinhos!

Obviamente achei completamente estranho a Lindsay me chamar pra sair com ela. Mas eu sabia que ela era assim. Num dia era a pessoa mais irritante do mundo; no outro, dava até pra ficar no mesmo cômodo que ela por mais de cinco minutos!

Tomei banho e fui procurar algo aceitável pra vestir. Achei um tubinho preto com renda jogado no fundo do armário e vesti. Passei um pouco de maquiagem pra disfarçar minhas olheiras e a cara inchada de chorar dias seguidos e voilá: estava pronta 10 minutos antes do combinado. Fiquei esperando na sala de estar até ouvir o som alto vindo lá de fora. Tranquei a porta e encontrei Lindsay em seu conversível vermelho. Ela estava usando um vestido de alcinha preto com detalhes de oncinha.

– Nossa, eu nem sabia que você tinha roupas curtas no armário. – Lindsay provocou.

– Roubei algumas do seu. Lindsay, me responde uma coisa? Por que você ta sendo legal comigo?

– Quero me reconciliar com você. Eu fui meio idiota com você.

– Meio? — arqueei as sobrancelhas.

–Não se aproveita. Estou sendo legal demais por uma noite.

– Certo. Podemos ir?

Ela sorriu e pisou fundo no acelerador, ao som de Rihanna.

***

A boate era realmente super legal. Antes de a gente entrar puseram uma pulseirinha em nossos pulsos. No hall de entrada tinham três baldes em cima de uma mesa. Soube o que tinha dentro quando Lindsay enfiou a mão dentro de um deles.

– Tinta?

– Isso aqui é muito legal. – ela disse passando a tinta, aparentemente normal, sobre os braços.

– Eu acabei de tomar banho. Tenho que me sujar mesmo?

Lindsay respondeu fazendo dois sinais de “igual” no meu rosto, um em cada bochecha.

– Nossa. Que maduro. E que divertido. O que vem depois disso, vamos colorir revistinhas?

– Cale a boca. – ela passou mais tinta nos meus braços. – Pronto. Vamos entrar.

Ela foi na frente e quando abriu uma porta meu coração quase saltou pela boca. A música estava estupidamente alta. A pista de dança era iluminada por uma luz azul, e só quando eu adentrei percebi que ela deixava a tinta no meu corpo fosforescente. Ok, eu tinha que admitir: aquilo era muito legal.

Lindsay começou a dançar como se não houvesse amanhã, e eu fui seguindo ela. Todo mundo ali parecia estar bêbado, e eu rezei pra que pelo menos alguém estivesse sendo estimulado apenas pela música alta. Tipo eu. Depois de um tempo comecei a me soltar e esqueci de todos os problemas.

Passado algum tempo Lindsay me puxou pelo braço. Ela gritou alguma coisa, mas não consegui ouvir absolutamente nada. Tentei ler os lábios dela e entendi algo como “amigos”. Fui seguindo ela em meio à multidão que pulava e dançava quase que desesperadamente. Lá mais pros fundos tinha um bar. De lá o barulho era um pouco menor, e dava pra ouvir o que a outra pessoa estava dizendo. Lindsay se aproximou de um grupo que estava comprando bebidas. Eu reconheci algumas pessoas; gente do meu ensino médio, gente da faculdade, gente que eu já vi mas não lembrava onde. Cumprimentei todos com um aceno.

Um dos que eu não reconheci me ofereceu um copo – acho que com vodka ou algo assim. Agradeci mas não aceitei. Lindsay me olhou e revirou os olhos. O garoto me puxou pelo braço de volta à pista de dança.

Algumas pessoas estavam do lado do DJ com dois baldes cheios de tinta ameaçando jogar na multidão. Quando eu menos esperava, dois caras me levantaram e me fizeram sentar em cima do pescoço do garoto que tinha me puxado pra dançar. Assim, quando jogaram a tinta, eu não me sujei muito. Jogaram mais tinta mais duas vezes na noite.

Dancei o resto da noite com aquele garoto. Ele era incrivelmente bonito e chamava atenção. Eu, sinceramente, não me importei muito. Não naquela noite; ali eu estava me sentindo solta e não ligava pra ninguém.

Depois de muito tempo dançando, quando comecei a sentir meus pés cansados, procurei algum relógio e consegui focalizar um numa parede: quase 1h da manhã. Muito cedo, pensei.

Meu acompanhante de dança percebeu que eu parei por um minuto e fez uma expressão do tipo “O que aconteceu?”. Apontei pro bar dizendo que precisava beber alguma coisa. Ele foi comigo até lá. Pedi ao barman uma água, e ele riu de mim.

– Você não quer uma vodka? – ouvi pela primeira vez a voz do garoto.

– Não, eu não bebo. Qual é o seu nome?

– O quê? – ele perguntou.

– Seu nome! – disse um pouco mais alto.

– Ah! John Red, mas o pessoal me chama de Red. E o seu?

– Pamela. – o barman, ainda rindo, me entregou a água.

– O que aconteceu? – Lindsay chegou com um cara atrás dela.

– Nada – gritei – Só vim descansar um pouco.

– Fraquinha – ela me deu língua e voltou pra pista de dança.

– O Mike ta muito bêbado! – Red disse a mim.

– Quem é Mike?

– O cara que ta com a sua amiga!

– Você não conhece a Lindsay? – perguntei.

– Não! Nem ele! Vamos! – ele me puxou de volta pra multidão.

Fomos correndo em direção não sei a quê, mas acabamos encontrando a Lindsay. E o Mike. Dando o maior amasso.

E não sei por quê, acho que isso serviu de estímulo pro Red, porque ele segurou minha cintura e me beijou até eu ficar sem fôlego. Em outros casos eu teria provavelmente lhe dado um tapa no rosto ou gritado “Socorro! Tarado!”. Mas pensei: “Todo mundo faz isso. Ficar com uma pessoa por uma noite só. É uma coisa muito normal. Por que eu não posso? Sou solteira, livre e desimpedida.” Então me deixei levar pela música e o beijei de volta. E beijei mais de uma vez, durante o resto da noite.

Em certo momento, ele passou o dedo na tinta fresca que escorria pelo braço nu dele e sujou a ponta do meu nariz. Fui tentar fazer o mesmo, mas ele saiu correndo (se é que é possível correr num lugar que mais parece um formigueiro) e eu me perdi dele. Então, ele apareceu do lado do DJ e pegou o microfone.

– Pamela, cadê você? – ele olhava pra multidão.

– Aqui! – levantei o braço e um cara suspendeu meu corpo pra eu ficar mais visível.

– Pamela, você quer namorar comigo?

E a galera vibrou.

Já contei que sou péssima pra dizer “não”?