Confiar
10 X. Desafios
Notas iniciais
Acordei estranhando a cama onde estava. Não me lembrava de ter ido pra lá.
- Bom dia, dorminhoca. — Ed chegou na porta do quarto com uma bandeja Feliz natal.
- Já é natal? — esfreguei os olhos, recostando as costas na cabeceira da cama.
- Sim. — ele colocou a bandeja sobre mim. — Não sou um cozinheiro nato que nem você, mas não pode dizer que eu não tentei.
O chocolate-quente cheirava bem e cookies decorados com confetes coloridos de chocolate enfeitavam o prato. Ainda havia um biscoitinho em formato de boneco de neve.
- Você fez tudo isso? — perguntei, incrédula.
- Você está doentinha. Precisava de uma alegria.
- Eu não estou doentinha. Mas obrigada.
- Depois você agradece. Agora coma e me diga se está bom.
Beberiquei meu chocolate-quente e mordisquei um cookie.
- Delicioso. E está tudo quentinho. Você não vai comer?
- Depois eu como. Me preocupei com você, comeu mal ontem.
- Não seja tão super-protetor. Tome, morda. — ofereci um biscoito a ele, que relutante, aceitou morder um pedaço. — Não posso comer tantos cookies sozinha. Vou ficar gorda de só comer e dormir. A propósito, onde você dormiu?
- No sofá. Você meio que surtou com a ideia de eu dormir aqui.
- Oh, Ed, jura? Me desculpe! Meu Deus, que idiota. Eu nem acredito que fiz isso!
- Você não se lembra? — ele riu, lembrando-se de alguma cena — Foi engraçado.
- Te expulsei do seu quarto e você ainda achou graça?
- Sim. Pelo motivo que você me expulsou. Você realmente não lembra, Pams?
- Não. suspirei.
- Qual a última coisa de que você se lembra?
Gelei.
- Ed, o que eu te disse ontem...
- O que você disse ontem?
Suspirei fundo. Meu estômago embrulhou e os cabelos da minha nuca se arrepiaram.
- Eu me lembro de... — hesitei — De ter te dito que...
- Pam... — ele se aproximou de mim e pegou minha mão.
- Ed, eu não consigo repetir. Eu me arrependo de ter falado aquilo. Na verdade, me sinto até meio vadia. — senti as lágrimas vindo aos meus olhos.
Ed segurou meu rosto com suas mãos, e limpou o começo de um choro com o polegar.
- Pam, vou te falar o que aconteceu ontem. — ele tirou as mãos do meu rosto e as levou de encontro com as minhas — Te dei um analgésico pra melhorar a dor. Lembra?
Assenti com a cabeça. Então ele continuou.
- Então nós fomos pro sofá assistir televisão. Não era muito tarde ainda, mas você já estava com bastante sono. Acho que pelo efeito do analgésico. Então... — ele fez uma pausa — Então você me chamou, e disse que achava que estava apaixonada por mim. Pudera, não te culpo. Eu sou um pedaço do paraíso.
Eu ri com sua tentativa quase bem sucedida de não me deixar tão sem graça. Então ele continuou.
- Eu perguntei por que você achava isso. Você disse que não sabia. E então começou a rir. Acho que esse remédio é pesado demais pra você. Você ria muito, chegou a ficar sem fôlego. Então disse que você se apaixonou por mim porque eu era o melhor amigo do mundo. Eu não entendi muito bem na hora. Na verdade, até agora não entendi. ele sorriu Os melhores amigos geralmente ficam na "zona de amigo". Enfim, você depois disse que me amava e nunca iria conseguir retribuir o que eu estava fazendo por você.
Eu nem acreditei. Tinha conseguido contornar a situação, mesmo não estando perfeitamente lúcida.
- Quando você disse que estava apaixonada por mim, achei que fosse de outro jeito. — Ed admitiu — Mas quando você explicou, ficou claro que só estava demonstrando carinho. Bem chapada.
Ri. Eu não me sentia mais tão vadia assim.
- E por que eu te expulsei do seu quarto?
- Porque você disse que eu ficava sexy de pijama e iria me atacar de madrugada. — ele deu um sorriso maroto.
Corei e me tornei a me sentir vadia como antes.
- Eu não estava lúcida. — me expliquei — Foi só isso?
- Sim. Depois de tudo eu te trouxe pra cá e você capotou. Mas foi bem legal dormir no sofá. Estava passando Os Mercenários na televisão.
- Ed — sorri torto — Obrigada. Por tudo. Você é o melhor.
- Eu sei. — ele sorriu de volta, com seus dentes brancos e perfeitamente alinhados, o que me causou um pouquinho de nervosismo, mas pro meu alívio ele mudou de assunto — Por que você não comeu o biscoitinho-boneco-de-neve?
- Estou com pena de comê-lo. Deve ter dado trabalho. E não é todo dia que você faz um biscoito gostoso.
- Pois coma. Faço milhões dele depois, se quiser. Eu descobri que sou um sucesso na cozinha.
- Imagino. — ri, pensando em como a cozinha deveria estar bagunçada.
Ele pegou a bandeja e saiu do quarto. De repente meu celular tocou. Olhei no visor e vi que era a Taylor.
- Feliz natal! — ela desejou animada, quando eu atendi.
- Feliz natal pra você também, Tay! Diz pro seus pais que eu mandei também!
- Digo sim. E aí? Como está NY?
- É... bem, sobre isso...
- Pam? Não entendi. O que aconteceu?
- Tay, eu não estou em Nova York.
- O quê? Por quê? Onde você está?
- Nesse momento, na casa do Ed.
- Por que vocês não viajaram?
- Bom, não daria pra ir de qualquer jeito. Depois que você viajou, começou uma nevasca muito forte. O aeroporto está fechado e todos os vôos foram cancelados.
- Oh. Que pena. E como vocês estão?
- Ed está bem. Eu quebrei a perna.
- O quê?!
- E minha casa pegou fogo.
- Pamela! Será que eu não posso sair por um dia que vocês transformam tudo num caos?
- Espero que você não se importe, Tay. Eu... o Ed...
- Espere. Sua perna está quebrada? Você dormiu sozinha em casa?
- Não. É isso, eu dormi na casa do Ed. Ele dormiu no sofá.
- Eu iria matar o Ed se ele tivesse deixado você dormir sozinha!
Ri, incrédula sobre a confiança da minha amiga em mim e em seu namorado.
- Não vejo motivos pra esse drama. É só uma perna quebrada.
- Imagina se você fica com vontade de fazer xixi no meio da noite? Você vai fazer em cima da cama?
Não pude deixar de sorrir.
- Por falar nisso, estou com muita vontade de fazer xixi agora. Se não se importa, vou usar seu namorado pra me locomover.
- Aproveita que no primeiro mês é test-drive. — ela riu, depois suspirou brevemente — Vou ficar aqui até o ano novo. Só volto dia 2 de janeiro.
- Como eu vou sobreviver sem você esse tempo todo?
- Não sei. Vou ver se consigo voltar antes. Se cuida, ok?
- Você também. Quer falar com o Ed?
- Mais tarde ligo pra ele. Vá fazer xixi.
- Tudo bem. Beijo, Tay. Feliz natal.
- Pra você também. ela disse antes de desligar.
Eu ia chamar o Ed pra me ajudar a ir ao banheiro, mas analisei o trajeto até lá. O banheiro ficava há poucos passos da cama. Eu poderia ir pulando sem muita dificuldade. Livrei-me dos meus lençóis e estava pronta pra me levantar, quando Ed entrou no quarto.
- Pam! O que está fazendo?
- Ah, só fui pegar minha mochila. — menti.
- O que quer?
- O recarregador do meu celular.
- Ah, eu não peguei. Mas estou indo lá na sua casa agora, pegar mais roupas. Vou trazer bastante logo. Onde está o recarregador?
- Na gaveta da escrivaninha do meu quarto.
- Tudo bem. Estou indo. Mas prometa que vai ficar deitada até eu voltar.
- Ok. Obrigada. — sorri antes de ele sair do quarto.
Fiquei deitada até que ouvi o barulho da porta de entrada fechar. Ainda passei uns minutos na cama, por precaução. Depois, levantei e em um pé só, fui pulando até o banheiro e tranquei a porta.
***
Quando acabei de tomar banho, com a mesma dificuldade do dia anterior, tentei ficar em pé pra me enxugar. Acabei molhando todo o chão do banheiro. Peguei a toalha que eu havia usado antes e me enrolei. Abri a porta e gritei pelo Ed, mas ele não respondeu. Não deveria ter voltado ainda.
Tranquei a porta novamente e me olhei no espelho. Vi uma cicatriz ao lado da minha sobrancelha. Ela não estava lá até a noite do acidente.
- Ótimo — bufei — Quebrei minha perna e deformei meu rosto.
"Não seja tão dramática", meu subconsciente me recriminou. Poderia ser pior.
- Vida, isso não é um desafio, ok? — eu disse em voz alta.
Aceitando a bronca que havia levado de mim mesma, fui juntar as roupas sujas que havia largado no chão. Minha perna boa ainda doía quando eu apoiava todo o peso do meu corpo nela, pulando de um pé só. Me apoiei na parede com uma mão e me curvei pra apanhar as roupas, mas minha toalha escorregou do meu corpo. A princípio eu não liguei, mas ouvi uma voz.
- Pam? — Ed bateu na porta — Você está ai?
Por instinto puxei minha toalha novamente com uma das mãos. Mas não pensei tão rápido pra usar a mão que não estava me apoiando à parede. Em um segundo, me desequilibrei e escorreguei no chão molhado.
- Eu disse que não era um desafio! — não consegui segurar o grito de dor quando caí em cima de minha perna quebrada.
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