Confiar
7 VII. Neve
Notas iniciais
Já haviam-se passado dois meses desde que retornei de Nova York. Tudo finalmente estava correndo bem. Eu e David nos acertamos, Taylor e Edward pareciam mais felizes do que nunca, eu havia retornado à universidade, Lindsay e eu estávamos com a bandeira branca levantada, Rachel me ligava todo final de semana pra ter notícias. Eu às vezes ajudava a Wanessa na biblioteca, e nos dávamos super bem. Arrumei outro emprego num café que me tomava os turnos da manhã e da tarde, mas ficava perto da universidade. De qualquer maneira, eu já estava de férias. Era 23 de dezembro quando Taylor me deu a notícia.
— Vou viajar pro Texas!
— O quê? Por quê?
— A tia Abigail intimou a gente a passar o natal com ela. Você sabe como ela fica sentimental com essas comemorações, Pam.
— Eu sei. Sua tia Abby é uma figura. Manda um beijo pra ela. Quando você vai?
— De tardinha. Mas vamos mais cedo pro aeroporto, ta tendo risco de nevar e mamãe não gosta de estrada com neve. Você vai ficar sozinha?
— Parece que sim. David vai visitar os avós em Londres. Acho que vou pra Nova York. Vou ligar pra Rach e ver se ela me abriga.
— Estou com pena do Ed. Ele não tem pra onde ir, vai passar o natal sozinho.
— Por que ele não vai com vocês?
— Papai achou melhor não. O pessoal da minha família não lida bem com... “agregados”.
— Se você quiser, posso levá-lo pra NY comigo.
— Sério Pams? Você não se importaria?
— Claro que não. – sorri. – Seria até bem divertido. Quer dizer, o filho da Rachel é bem legal, mas...
— Mas ele dá em cima de você. – ela riu.
— Sim. Pelo menos com o Ed lá vou ter alguém pra conversar sem perigo de receber uma proposta de casamento.
Rimos e ela disse que precisava ir arrumar as malas, e que ia conversar com o Ed sobre nossa viagem.
Eu e o Ed havíamos ficado muito próximos, e ele era como meu melhor amigo. Quer dizer, eu aprendi a controlar a parte de mim que acha ele super-atraente, e a convivência entre a gente se deu maravilhosamente. Mas pra ser bem sincera, às vezes eu não escutava muito o que ele dizia, por estar extremamente ocupada observando cada detalhe do seu rosto divino e... ok. De volta à realidade. Eu tenho um namorado que eu amo e que me ama. Tenho uma melhor amiga que eu amo e que me ama. Minha melhor amiga tem um namorado gato que é meu melhor amigo. Pronto, podemos continuar a história.
Falando sem segundas intenções agora: o Ed é uma pessoa maravilhosa. Não só por ser bonito, ou ter um porte atlético, ou todas as outras qualidades físicas que eu poderia citar. Por dentro ele também é lindo. Quer dizer, ele é inteligente, simpático, engraçado, e meio idiota – mas não no sentido ruim. Ele também perdeu os pais há pouco tempo, por isso decidiu fugir de Los Angeles, sua cidade natal, e se aquietar no interior do Oregon. Conversar com ele sobre qualquer assunto é muito fácil.
Não que eu esteja reclamando do David, mas a Tay tirou a sorte grande em encontrar alguém como o Edward.
Fui despertada de meus pensamentos quando o celular tocou. Era Rachel.
— Rach? Que bom que ligou, estava prestes a ligar pra você!
— Oi Pam, tudo bem? Preciso falar com você.
— Eu também. Estou indo passar o natal aí, tudo bem?
Ela ficou em silêncio.
— Rachel? Alô?
— Oi, Pam. A ligação ta meio ruim. Você disse que vem pra cá?
— Se não tiver problema pra você...
— Oh, minha querida, claro que não! Adoraria ter você por perto! Quando você quer vir?
— Amanhã. Vou levar um amigo, ok?
— O David? E por que você não vem hoje?
— Eu não vou hoje exatamente porque não é o David. David vai pra Londres amanhã de manhã, e eu queria passar um tempinho com ele. Vou levar o Ed comigo. O namorado da Tay, eu lhe falei dele, lembra?
— Oh, tudo bem. Vou agendar a passagem de vocês pra amanhã de manhã então, ok?
— Certo. Obrigada, Rach. E o que você queria me falar?
— Eu? Ah, nada! Era sobre isso, onde você iria passar o natal.
— Ah sim. Então amanhã de manhã, né?
— Sim, querida. Te ligo depois pra confirmar.
— Obrigada, Rach.
Desliguei o telefone e achei melhor começar a arrumar as malas, quando a campainha tocou.
— Oi meu amor! – beijei Dave quando abri a porta – O que foi? Achei que você só viria mais tarde!
— Pam, eu vim te dar tchau.
— O quê? – olhei atrás dele e vi um táxi com seus pais dentro. A mãe dele acenou pela janela e eu retribui.
— Vovó achou melhor nós irmos logo, por causa da neve. Ela morre de medo de que o avião caia, ou algo assim. Meu pai conseguiu adiantar a passagem e já estamos indo. Pedi a eles pra passar aqui antes. Onde você vai passar o natal?
— Vou pra Nova York – preferi omitir que o Ed ia comigo. O Dave implicava com ele, e morria de ciúmes. – Poxa, eu achei que a gente ia passar mais tempo juntos!
— Oh, Pams, eu gostaria muito. Vou morrer de saudades – ele me deu um beijo com seus lábios gelados por causa do frio.
— Vista mais um casaco. Você está congelando.
— Sou um homem forte e casacos demais é coisa pra mulher. Eu me viro sem. – ele piscou um olho pra mim.
— Teimoso. Te amo, avisa quando chegar lá.
— Eu também, meu amor. – ele me beijou de novo antes de ir.
Vi o carro ir embora e fiquei com o coração pequenininho. Eu planejava assistir com ele um filme “água-com-açúcar” com o tema natalino, nós dois abraçadinhos no sofá, enrolados num cobertor, e tomando chocolate quente.
Voltei pro meu quarto e continuei arrumando a mala, quando a campainha tocou de novo. Por um momento me passou pela cabeça que Dave desistiu da viagem e iria voltar pra ficar comigo. Abri a porta e era a Taylor.
— Pam, estou indo. – ela disse me abraçando.
— Mas já?
— Sim. Mamãe viu no jornal que logo a neve vai começar a cair. Ela tem pavor de dirigir na estrada quando está nevando. Apesar de não ser ela quem vai dirigir.
— Vocês vão pro Texas de carro?
— Não, só até o aeroporto. Lá tem um lugar de deixar o carro até voltarmos. Já avisei ao Ed e ele disse que adoraria ir. Feliz natal, Pam. – ela me abraçou novamente antes de ir.
Ok, definitivamente eu estava sozinha. Subi novamente pro meu quarto e terminei de arrumar a mala. Pouco tempo depois, a campainha tocou de novo.
— Ed?
— Oi Pam. – ele sorriu com seus maravilhosos dentes brancos e perfeitamente alinhados. – Preciso de ajuda.
— Pra quê?
— Não sei arrumar a mala direito. Nem pra onde vamos sair lá em NY.
— Ah, fala sério. Um homem desse tamanho não sabe arrumar uma mala?
— Atrás de um grande homem sempre tem uma grande mulher. – ele piscou pra mim (o que faria qualquer garota normal desmaiar, mas eu felizmente já estava acostumada).
— Sua “grande mulher” acabou de viajar.
— Eu sei, ela foi me dar tchau. Então atrás de um grande homem sempre há uma grande amiga de uma grande mulher.
— Está me chamando de gorda?
— Estou te chamando de chata. Você vai me ajudar e ponto. Não me faça ter que te carregar.
— Tudo bem, “grande homem”. A mulher-maravilha aqui vai resolver seus problemas.
Ele sorriu, e eu juro ter visto um arco-íris surgindo no meio das nuvens escuras no céu.
Fomos até a casa dele, e depois de explicar a ele da melhor maneira possível como se arruma uma mala, fui fazer um chocolate quente pra gente.
— Nossa – ele lambeu os beiços – Isso aqui é muito bom.
— Eu sou uma cozinheira nata. E você está com bigode de chocolate.
— Aonde? – ele tentou limpar com a língua.
— Você está parecendo um gato tomando banho – eu ri. – Deixa que eu limpo.
Passei meu polegar perto da boca dele, limpando o chocolate. Mas não consegui me controlar e mantive minha mão em seu rosto, por um tempo. Ele olhou em meus olhos e eu fiquei hipnotizada com aqueles tons de verdes-quase-cinza. Depois de um tempinho, voltei a mim e sorri, sem graça.
— Quer que eu faça outro pra você? – ofereci.
— Não, quero que você me ensine a fazer. – ele sorriu.
— Não vou te ensinar meus segredos culinários. Aí você seria independente de mim.
— Acho que não é um chocolate quente que me faz depender de você.
Aquelas palavras fizeram os cabelos da minha nuca se arrepiarem. Devo ter ficado extremamente vermelha, mas tentei controlar a situação.
— Tem razão. Também tem aquela omelete de queijo que eu faço, deliciosa. Vamos, vou te ensinar a fazer. – eu corri pra cozinha antes que ele dissesse mais alguma coisa que me fizesse surtar.
Depois de vários incidentes com o creme de leite e com o achocolatado, Edward conseguiu fazer um chocolate quente razoavelmente bom. Quando vi que estava anoitecendo, disse a ele que iria pra casa. Abri a porta e percebi que estava nevando. E forte.
— Como assim ta caindo uma nevasca e eu nem percebi?
— Tem certeza que quer ir? Você vai congelar?
— Edward, eu moro aqui do lado. Não vou andar nem cinquenta metros.
— Quer que eu te leve até lá?
— Não precisa, sério. Até amanhã. Passo aqui pra te avisar que já está na hora de ir.
— Vou te levar até lá. – ele disse colocando seu casaco em volta de mim.
— Ed, não precisa! – relutei enquanto seguíamos rápido pra minha casa.
— Cale a boca, já estamos chegando. Pronto, viu? – ele disse assim que pisamos na minha sacada. – Agora entre pra não congelar.
— E você vá pra casa rápido, antes que vire um picolé.
Ele sorriu e correu pra casa dele. Antes de entrar, piscou pra mim e mandou um beijo.
Obviamente qualquer garota normal teria tido um enfarto.
Eu apenas fiquei pensando na cena o resto da noite.
***
— Ed? Já está dormindo?
— Não – ele respondeu sonolento – Mas já estou com sono. O que foi?
— Só liguei pra saber.
— Ta carente? – ele riu.
— Não, idiota. Ok, um pouco. Pudera, com esse frio quem não estaria?
— Não quer dormir aqui hoje?
Fiquei igual a um tomate.
— Não, obrigada. Eu tenho aquecedor.
— Ora Pam – ele riu – Não vou te atacar durante a noite.
— Não tenho tanta certeza disso. – brinquei – Agora vá dormir. Amanhã cedinho eu bato aí na porta pra gente ir. Esteja pronto.
— Cedinho tipo umas 10 horas?
— Cedinho tipo umas seis e meia.
— O quê? Eu achei que a gente ia de manhã, não de madrugada!
— Edward, não seja dramático! Você pode dormir no avião.
— Acho que não vai dar pra gente ir. Não acho que essa nevasca passe até amanhã.
— Vai passar sim. Não seja tão pessimista. Vá dormir agora.
— Beijo, Pam.
— Tchau.
Antes de eu desligar, ouvi ele rindo.
— O que foi?
— Nada. Beijo.
— Tchau.
Ele riu novamente e desligou.
Chequei novamente minha mala antes de esquentar meu jantar. “Esqueci de perguntar se ele já tinha comido”, pensei. Quando eu estava colocando a comida no microondas, ouvi uma explosão e depois todas as luzes se apagaram. Com o visor do meu celular aceso, me guiei até a janela e vi que não era só na minha casa. A rua toda estava escura.
— Que ótimo. – bufei.
Fui até a cozinha e procurei algumas velas nas gavetas. Achei uma e a acendi. Não adiantou muito. Mas eu tinha certeza que havia comprado mais velas. “Na estante!”, lembrei. Coloquei a vela em cima de um pires, e deixei os dois em cima da mesa da sala, enquanto fui pegar as outras velas. A estante era relativamente alta, então precisei subir numa cadeira. Me coloquei na ponta dos pés e me apoiei na prateleira pra tateá-la. Tomei um susto quando meu celular tocou. Então eu caí. E a estante caiu junto. E bateu na mesa da sala. E a vela caiu no chão. E o fogo começou a se espalhar pelo tapete.
E então eu, presa debaixo de vários quilos de madeira, assisti minha casa pegar fogo.
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