Confiar
9 IX. Analgésicos
Notas iniciais
Quando chegamos em casa, apesar dos meus protestos de que apenas muletas seriam necessárias, Ed colocou a cadeira de rodas no chão. Então parou um momento olhando pra ela.
– O que foi? Algo de errado? — eu perguntei.
– Não. Mas foi desnecessário, agora. Espere um minuto.
Ele foi até a porta de sua casa enquanto eu esperava sentada no banco do carro. Evitei em olhar pra minha casa. Logo Ed voltou.
– O que foi? — perguntei de novo.
– Só fui abrir a porta.
Então ele me pegou no colo e me levou pra casa dele. Colocou-me delicadamente no sofá e disse que já voltava. Espiei pela porta aberta ele estacionando o carro e trazendo a cadeira de rodas.
– Você vai sair? — perguntei quando vi que Ed não fechou a porta ao entrar.
– Vou até sua casa. Pegar umas roupas.
– Pra quê?
– Ora Pam, você vai ficar aqui por uns dias. Pelo menos até a Taylor chegar.
– Ed, não precisa!
– Claro que precisa! Deixe de ser teimosa. E nem pense em fugir. — ele sorriu antes de sair.
Bufei e revirei os olhos. Tentei me acomodar no sofá, mas o gesso incomodava. Me estiquei pra pegar o controle da televisão, mas estava muito longe. Ótimo. Sou uma inútil agora. Limpei um pouco de neve que havia caído no meu casaco. Ainda estava nevando, mas não como ontem. Maldita neve. Só serviu pra cancelar minha viagem e quebrar minha perna. E queimar minha casa. Oh Deus, minha viagem.
Precisava ligar pra Rachel e avisar que eu não poderia mais ir. Coloquei instintivamente a mão no bolso do casaco pra procurar meu celular, então lembrei que ele havia ficado em casa.
A vontade de ir pra casa era grande, mas eu sabia que era covarde demais pra isso. Dei uma olhada rápida quando chegamos, e vendo do lado de fora o estrago não parecia ser grande, fora a porta e o piso da sacada estarem um pouco queimados. Rezei pra que nenhum livro do papai ou nenhum bibelô da mamãe tivessem sido danificados. Suspirei de alívio quando lembrei que as fotos de família estavam no meu quarto, e o fogo não tinha chegado lá em cima.
Bem, eu esperava.
– Voltei. — não vi quando Ed entrou, despertando-me de meus pensamentos.
– Você achou meu celular?
– Sim. Ele estava em cima da mesa, intacto. Pam, sua casa não está totalmente estragada. Dá pra consertar. Eu mesmo vou mais tarde lá, pra limpar. Mas o mais importante é que você está bem.
– O fogo parecia estar tomando proporções muito grande quando eu estava lá. Eu pensei que já estava no teto.
– Você estava com medo. Não teve danos tão ruins. O pior de todos foi sua perna.
– Obrigada, Ed. Por tudo. Você é o melhor amigo que eu poderia ter.
– Sei disso. — ele sorriu, tirando meu celular da bolsa — Acho que você deveria ligar pra Rachel e avisar. Ela mandou uma mensagem perguntando se você já tinha embarcado.
– Certo. Pensei nisso também.
– E ah, Pam — ele deu um sorriso maroto — Adorei sua calcinha do Super-Homem.
Ruborizei, o que o fez gargalhar.
– Edward! Você mexeu nas minhas calcinhas?!
– Você precisa de roupas de baixo, ué! A não ser que prefira usar minhas cuecas. — ele piscou. Eu ia responder com um palavrão, mas Rachel atendeu o telefonema.
– Pam? Onde você está? Liguei pro aeroporto e disseram que nenhum vôo partiu por causa da neve!
– Estou na casa do Ed, Rach. Ele está cuidando de mim. A neve não é o único motivo de eu não ter ido.
Expliquei pra ela tudo o que aconteceu.
– Meu Deus, Pam! Você está bem?
– Mais ou menos. Minhas pernas ainda doem. E to meio abalada com tudo isso ainda. Mas vou ficar bem.
– Pam, meu Deus! E você já falou com a polícia?
– Polícia? Pra quê?
– Não sei, você sabe se essa realmente foi a causa do incêndio?
– Rachel, a estante esbarrou na mesa! A vela estava na beira, então o tombo foi bem mais que suficiente pra fazê-la cair. A culpa foi minha, eu fui irresponsável e descuidada.
– Acho que você devia falar com a polícia. Não, deixa que eu falo. Estou indo praí.
– Rachel, não precisa! Você não vai desperdiçar o seu natal! Eu estou bem, foi um acidente! Edward está cuidando de mim. E logo logo Taylor e David voltam.
– Pam...
– O que foi? O que está acontecendo? Por que você está estranha?
Ela ficou uns instantes em silêncio.
– Eu só estou preocupada com você. Eu... não me perdoaria se algo acontecesse com você.
Sabia que ela estava mentindo. Sabia que tinha algo a mais. Mas decidi não comentar e encerrar logo o assunto, antes que ela largasse tudo em Nova York e viesse tomar conta de mim.
– Estou bem, Rach. Sério. Obrigada.
– Se precisar de alguma coisa, de qualquer coisa, não hesite em me ligar. Prometa.
– Prometo.
– Tudo bem. E ei, o Edward não é namorado da Taylor?
– É sim. — corei — Por quê?
– Nada. — disse rindo, o que me fez ficar mais vermelha, porque eu sabia exatamente o que ela estava pensando. — O Simon ta mandando um beijo.
– Manda outro pra ele. E um enorme pra você. Eu te amo, Rach.
– Eu também, minha querida. Você é como uma filha pra mim.
– Beijos. Feliz Natal.
– Amanhã te ligo novamente pra desejar no dia certo. Beijos.
Desliguei e fiquei meio melancólica. A Rachel era minha família. De certa forma, eu fiquei meio triste de não passar o natal com ela. Era o primeiro natal que eu iria passar sozinha. Quer dizer, sem alguém da família.
– Ei Pams — Ed me puxou de volta à realidade — Quer comer alguma coisa?
– Não.
– O que foi? — ele se aproximou — Por que essa carinha?
– Nada. — tentei sorrir.
Ele puxou a mesa de centro pra mais perto do sofá e me ajudou a colocar a perna em cima dela. Depois sentou ao meu lado e envolveu seu braço ao meu redor.
– Pam, eu sou seu amigo. Eu me preocupo com você, e não gosto de te ver triste. O que te atormenta?
– Não é nada, Ed. É só... Minha cabeça está uma confusão.
– Sobre o quê?
Sobre o assassinato dos meus pais. Sobre eu ter voltado com o David. Sobre a Wanessa. Sobre a universidade. Sobre minha casa. Sobre meu futuro. Sobre o presente. E principalmente, sobre meus sentimentos pelo Ed.
– Não sei. — respondi, finalmente.
– Não quer falar sobre isso?
Balancei a cabeça negativamente e a encostei em seu ombro. Ele me afagou e beijou minha cabeça. Ficamos assim, em silêncio, por um tempo. Quando eu comecei a me sentir realmente incomodada com aquela situação, pedi pra ele pegar o controle remoto da televisão pra mim.
– Olha, ta passando Titanic! — eu comentei, animada.
– A Tay me obrigou a ver. É um saco. — ele revirou os olhos.
– Oh, faz tanto tempo que eu não vejo! A gente vai ver.
– O que você não pede sorrindo que eu faço chorando?
– É ao contrário, Ed.
– Nesse caso não. Vou fazer pipoca.
O filme havia acabado de começar. Jack tinha acabado de ganhar os bilhetes pro Titanic no pôquer e comemorava com seu amigo, Fabrizio. Ouvi o som do milho estourar na panela. Jack e Fabrizio entram no navio. Ed ainda não voltou. Ganhei antipatia por Cal quando ele aparece em cena apenas por lembrar do resto do filme. Nenhum sinal do Edward.
– Ed? Você está perdendo o filme todo!
– Já estou indo!
Depois de mais dois minutos, ele traz uma tigela com pipoca e manteiga por cima, dois copos e um refrigerante de um litro. Apesar de estar frio, ele havia tirado o casaco e agora vestia só uma camisa pólo. Quando pensei que ele iria se sentar, ele me analisou por um momento e saiu.
– Ed! Aonde você vai?
Ele não respondeu. Minutos depois chegou com um cobertor e me envolveu nele.
– Não queremos que você fique resfriada. Nem com frio.
– Não me acostumo com você fazendo tudo pra mim. Me sinto um fardo.
– Você não é um fardo. Deixe de ser boba. E cale a boca, estou tentando ver o filme.
– Nossa, não achei que você gostasse de filminho água-com-açúcar.
– Não gosto. Mas as duas mulheres da minha vida adoram. Tenho que me acostumar.
Aquilo me fez ficar vermelha, e antes que ele percebesse, enfiei minha cara no cobertor usando o frio como desculpa. Duas mulheres da vida dele? Eu e a Tay? Não, não podia ser. Devia ser a Tay e a mãe dele. Ou a Tay e uma tia distante dele. A Tay e alguém. Não eu. Eu não era a mulher da vida dele. Nem uma mulher da vida dele. Pensar naquilo me fez perder metade do filme. E metade da pipoca também.
– Ei, não coma tudo! — reclamei.
– Oh, desculpe. Tome aqui.
Ele colocou uma pipoca na minha frente indicando pra eu pegar com a boca. Quando eu estava pegando, ele rapidamente colocou na boca dele e comeu.
– Muito devagar, Pam. Lentinha demais.
– Engraçadíssimo você.
– Oh, não fique brava comigo. Tome, mais uma. — ele repetiu a cena, o que me fez pegar um punhado de pipocas e jogar nele.
– Edward, fique quieto! Eu adoro essa cena.
– Quando Jack desenha Rose? — ele bufou — Sei fazer muito melhor.
– E desde quando você desenha?
Ele levantou, foi ao seu quarto e voltou com um bloco de papel e um lápis. Depois, apesar da minha relutância, me fez deitar no sofá e apoiar a cabeça nas mãos. Então arrastou um banquinho do lado da televisão.
– O que você está fazendo?
– Fique quieta e não se mexa muito. Continue assistindo o filme.
– Posso comer pipoca, pelo menos?
– Só quando eu não estiver olhando.
E ele começou a rabiscar no papel. E passou o resto do filme assim. No final, quando Jack morreu, não pude deixar de chorar. Ele sorriu e levantou-se. Fiz menção de me sentar mas ele disse que não precisava. Só pediu pra eu me erguer um pouco e sentou, fazendo com que eu estivesse com a cabeça apoiada em seu colo. Então me mostrou o desenho. Fiquei impressionada. Era eu, do busto pra cima. Só que mais bonita. Com uma expressão doce.
– Meu Deus, Ed! Você é um artista!
– Eu disse que eu sou melhor que o Leonardo Di Caprio.
– Não estamos discutindo isso. — ri.
– Fora que minha modelo ajudou muito também.
Ruborizei.
– Você vai ficar vermelha e sem graça toda vez que eu te fizer um elogio? — ele riu.
– Cale a boca. Estou apreciando a "eu" melhorada.
– Não está melhorada. Está exatamente como você é. Bom, é como eu te vejo.
– Então você deve estar muito apaixonado por mim — provoquei — O desenho está muito melhor do que a real.
– Provavelmente estou. — ele riu. — Nós não almoçamos e já são quase seis horas. Quer que eu faça alguma coisa pra gente comer?
– Ta brincando? Com tanta pipoca, não quero comer mais nada até amanhã.
– Quer tomar banho então?
– Sim. Me ajude a ir pro banheiro.
Ele me carregou e me colocou sentada no vaso sanitário.
– Pronto. Pode ir agora.
– Não quer ajuda? — ele sorriu malicioso.
– Definitivamente não. Agora xô.
– Pam, como você vai tomar banho sozinha? E sem molhar o gesso?
– Eu me viro. Tchau, Ed.
– Pam, eu não vou te atacar no meio do seu banho! Quer dizer, só se você pedir...
– Tchau, Ed!
Ele saiu e fechou a porta, rindo. Com dificuldade, fui pulando num pé só até a porta e tranquei-a, por via das dúvidas. Tirar minha roupa não foi uma tarefa fácil também. Tampouco tomar banho. Pense positivo, Pam. Pelo menos é uma banheira. Se fosse um chuveiro seria muito pior.
Demorei quase uma hora pra conseguir me banhar. Então me enrolei numa toalha e gritei o Ed.
– Finalmente! Já estava pensando que você tinha morrido aí dentro.
– Pegue uma roupa pra mim, por favor. — eu disse com a porta meio aberta.
Ele saiu e voltou com um pijama. Novamente, com muita dificuldade, consegui me vestir e o chamei. Descemos e ele me deu um dos analgésicos que o médico havia prescrito. Depois, deitei novamente no sofá, com a cabeça apoiada no colo dele. Estávamos vendo um documentário no Animal Planet, e ele fazia carinho na minha cabeça. Estava com muito sono por causa do remédio. Muitas coisas começaram a passar pela minha cabeça.
O que eu sentia pelo Ed? Eu já tinha certeza que não era amizade. Era mais do que isso.
Eu estava pronta pra falar pra ele.
Não. Eu não podia.
Mas o remédio estava tirando minha lucidez.
– Ed...
– Sim, Pam?
Cale a boca, sua idiota.
Pamela, não fale nada.
Durma.
– Eu acho que estou apaixonada por você.
Maldito analgésico.
Notas finais
gente, acho que amanhã não vou poder postar capítulo, entao provavelmente sábado vou postar dois. espero que tenham gostado E DEEM OPINIÕES SOBRE A PAM SER LOUCA! ♥
Fale com o autor