Confessions
1 Capítulo I
Notas iniciais
14/06, verão.
Eu não gostava das férias de verão. Não. Eu estou mentindo. Eu sempre gostei das férias, qualquer que fosse, era fácil ficar longe da escola e de pessoas que costumavam não gostar de mim. Mas a realidade é que: eu odiava o verão. As pessoas pareciam na obrigação de serem felizes, o que era ridículo, eu mal podia sobreviver ao calor.
Acontece que nas férias de verão eu e minha família costumávamos viajar para a fazenda que meu avô havia deixado a minha avó. Era inevitável, minha família nunca havia conseguido ficar muito tempo reunida sem alguma briga acontecer. Normalmente, no aniversário de minha tia, a mulher com quem eu morava.
E não foi nada diferente desta vez.
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Era a segunda semana em que havíamos nos reunido na velha casa amarela de madeira da fazenda que era de meu avô. A casa era grande, e abrigava a vários primos, primas, tios e tias. Tudo estava relativamente normal, o que era estranhamente, anormal. Não havia acontecido brigas ou discussões, todos estavam se tratando bem, bem demais.
Era dia doze de junho, aniversário de minha tia Ana, uma mulher de quarenta e um anos, casada, que se dispôs a cuidar de mim após minha mãe e meu pai se separarem, e terem a maior discussão de suas vida. O motivo? Com quem eu deveria ficar. Se você pensa que discutiam porque queriam ambos ficar comigo, está enganado, discutiram pois um queria me jogar para o outro, no fim, minha tia se intrometeu e pegou minha guarda, sem nenhuma objeção.
Todos na casa colaboraram para organizar a festa surpresa, que não era surpresa para ninguém. Colocaram bexigas penduradas ao teto, eu e minha prima Juliette, e uma de suas amigas que havia ido junto à fazenda — pois não queria viajar com seus pais, que eram drogados e inconsequentes -, preparamos os brigadeiros.
A irmã de minha tia, Adele, fez o bolo de três camadas, cada uma com um sabor diferente: morango, chocolate e baunilha. Os três sabores preferidos de Ana. Era uma tradição em nossa família o bolo de três andares.
Tudo estava perfeito até o sol se pôr. Meu tio Kurt, um homem grande e intimidador, chegou com nossa tia, ele a havia levado para outra fazenda perto dali, o motivo eu não havia perguntado.
Eu havia desenvolvido um certo apreço por minha tia Ana por sermos de certa forma, parecidas em muitas coisas. Minha tia Ana odiava aniversários, eu também. Ambas concordávamos que significava comemorar um passo a mais da caminhada para a própria morte.
Tudo se repetiu igual aos anos anteriores, tia Ana enfrentou os parabéns, desejos de felicidade, distribuiu os pedaços de bolo. O primeiro ao meu tio, segundo para seu filho Raphel e depois para mim. Eu não sabia se as pessoas tinham noção das mãos trêmulas de minha tia, tentando continuar na festa apenas para agradar a todos, parecia que não.
Meu tio Brandon, era alto, com uma barriga avantajada, e uma careca que refletia seu próprio reflexo. Ele se achava O cara. Estava com seu pedaço de bolo e foi então desejar felicidades a Ana, porém, tentando ser o cara legal, ele lhe disse que ela estava ficando "velha", eu logo percebi a raiva no olhar de minha tia quando se levantava da mesa.
Todos a olharam, tio Brandon parecia confuso, mas para a surpresa de todos tia Ana foi muito educada, disse que havia perdido a fome e começou a se retirar, foi quando Adele também se levantou, com lágrimas nos olhos, e chamou Ana de ingrata.
A discussão durou por meia hora, Adele atacando a irmã, e Ana contra atacando. Kurt se levantou, e xingou Brandon de "barriga de chopp e boca de estrume", e uma nova briga foi criada. Por fim, os filhos de tio Brandon atacaram a Raphael, e eu me intrometi para defendê-lo.
A discussão só acabou quando minha vó Alice se levantou, após observar a tudo calada. Minha vó era pequena e magra, parecia uma pessoa de porcelana que quebrava facilmente, mas ela só parecia. Havia uma coisa que todos, sem exceções em minha família respeitávamos: nossa avó. Quando ela gritou para que parássemos, eu agradeci. Raphel já havia pego um pedaço de bolo e estava pronto para tacar em Juliette.
Todos se calaram imediatamente e olharam para a mulher vestida de amarelo, era de se admirar como todos tinham medo dela. Minha tia Adele pediu desculpas a tia Ana, mas ela já havia se virado chorando e subido para seu quarto, fazendo com que Adele, que se sentia envergonhada, fizesse o mesmo. Kurt pediu licença e foi atrás de tia Ana.
Juliette, que tinha uma queda por Raphel, pediu desculpas a ele e tocou-lhe a mão como se fosse um grande passo dado.
Olhei para a minha avó e sorri brevemente, enquanto dava as costas, sem me interessar pelo que iria acontecer depois. Subi para meu quarto, me sentindo como um balão de festa murcho.
Eu odiava as discussões. Discussões sempre resultavam em pessoas dizendo a verdade, que escondiam, uma para as outras. Ouvi Juliette dizer que eu era estranha e sem amigos, não podia discordar, Juliette estava certa. Comecei a chorar minutos depois de ficar tentando ser forte.
E esse foi basicamente o aniversário de minha tia Ana, talvez tenha tido mais briga do que o de costume, pois todos haviam guardados suas patadas para aquele dia. Os outros dois dias que se passaram, foram rápidos, e eu os passei trancada em meu quarto, desenhando as faces que via na madeira do teto.
Até mais, Alyss.
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