Confession
1 Prólogo - Inverness, 5 de Setembro.
"Minha igreja não oferece absolvição
Ela me diz: 'venere no quarto'
O único paraíso para onde serei enviado
É quando estou a sós com você
Nasci doente, mas amo isso
Me ordene a ficar bem
Amém."
Hozier
O céu amanheceu escuro e deixava gotas de chuva desabarem de seus domínios como uma gentileza. Chovia serena e calmamente, e o vigor do momento mascarava a possibilidade de qualquer pessoa desconfiar do que ocorreria em seguida. Cidadãos sonolentos e fiéis se espremiam debaixo de seus guarda chuvas até adentrar a gloriosa Catedral de Inverness rumo à missa das 8h. Teve música, um turbilhão de sentimentos, orações e fé, como de praxe. É uma pena não poder dizer o mesmo da missa das 18h.
Nesse horário, o céu já não estava mais cinza. Adquiriu um tom avermelhado, e as chamas inglórias engoliram a grandiosidade do local com tamanha rapidez que ela já não era visível. As paredes de madeira escura e vitrais agora se sucumbiram, virando apenas destroços e cinzas. Era como um campo de batalha. A ansiedade, pavor e desespero eram sentidos no ar enquanto uma pequena parcela dos fiéis era levada por ambulâncias e/ou era alvo de tentativas falhas de salvamento. Não ouve chance. Nem para as pessoas, nem para os vitrais, nem para a madeira, nem para a fé. As chamas inglórias espalharam-se mais rápido que um guepardo correndo atrás de sua presa pela formosa arquitetura gótica do local e, curiosamente, a única parte da Catedral que permaneceu totalmente intacta foi o pequeno confessionário. Talvez os pecados sobrevivam enquanto os pecadores morrem, afinal.
O chefe observa tudo através das persianas e de seus ray ban aviador pretos, e tem uma expressão visivelmente satisfeita. Sua promessa foi que tiraria tudo de nosso cliente. Porém, enquanto algumas pessoas resistiam, outras imploravam e outras ainda se rendiam, tiveram sobreviventes. E a promessa não se cumpriu.
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"Dono da principal indústria petrolífera de Aberdeen deve mais de 100,000£ que desviou para conta na Suíça."
Toc toc toc.
— Bom dia, o padre Ícaro está? — O garoto de cabelos escuros pergunta. Atrás dele, há três homens de terno e óculos escuros.
— Quem gostaria? — Responde a pequena empregada em trajes de trabalho e com um pano na mão.
— Ele está a nossa espera. Se chamá-lo, ele saberá quem somos. — Responde o garoto, com um sorriso educado. Parece bem mais velho do que realmente é com esses trajes. Assim que a mulher de pele escura deixa a porta, os olhos azuis do garoto vagam pela enorme sala da gigantesca mansão Maison. O lugar parece um palácio. 'O grandíssimo filho da puta escolheu um ótimo lugar para se abrigar', pensa o moreno. Baixa o olhar por um segundo e, quando levanta, olhos ainda mais belos estão em sua frente.
— Sinto muito, mas o padre Ícaro não está — Diz uma jovem de pele muito branca, sardas como uma constelação no rosto, olhos azuis intensos e cabelos pretos pendendo até o quadril. Parece uma miragem. O garoto quase perde a voz, e um dos homens de terno atrás do mesmo tira os óculos do rosto. — Gostariam de deixar um recado?
— Nós... — O garoto inicia, mas é interrompido por uma figura baixa e afobada com várias sacolas de mercado nas mãos. É Ícaro.
Ele olha os homens e seus olhos se arregalam.
— Meu anjo, pode nos dar licença por um instante? — Pede ele.
— Claro — A jovem cruza os quatro visitantes e toma as sacolas das mãos do pequeno homem de óculos. Dois pares de olhos claros a observam enquanto volta para dentro.
O chefe chama o garoto mais jovem, moreno, e lhe murmura algo. Ele contrai os lábios, cruza os braços e foca no padre que, agora, está na porta.
— Dê-lhe a garota, e sua dívida está paga. — Diz o moreno.
— Não! — Ícaro responde em desespero. — Tudo menos isso. Eu lhe imploro!
Imediatamente, o chefe e seus dois guarda costas se viram e começam a andar. Essa foi sua última palavra.
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