Confession
2 Estou vendo você
Inverness, 13 de novembro
Um silêncio sepulcral dominava o sexto andar, somente interrompido pelo barulho perturbador de monitores cardíacos. Havia chuva novamente, a primeira desde o atentado: uma tempestade, com direito a raios e trovões e um céu cinza como estava naquela manhã.
A janela do quarto 603 permanece aberta e deixa o vento entrar. Ninguém consegue explicar o ocorrido no atentado, e nem menos explicar como foi possível que certa parcela de pessoas sobreviveu. O doutor Carlos caminha calmamente pelo corredor vazio, observando uma das fichas — que o fez trabalhar a noite toda — na mão esquerda e com um café expresso na mão direita. Ao entrar no quarto, uma surpresa. O jovem médico pisca diversas vezes visando ter certeza do que vê, e seus olhos observam a silhueta parada na janela, olhando a chuva.
— Você acordou. – Murmura ele.
—------------------------------------------------------------------------------
“Amy Marackov, modelo mundialmente famosa, em entrevista para a revista Aberdeen News, disse estar se aprontando para uma longa viagem de ‘autodescobrimento’ nas Bahamas. Na verdade, ela está sendo tratada em uma clínica para usuários de drogas e bulímicos.”
19h48, narrado por Juliet Maison.
Estou andando na neve de mãos dadas com meu pai. Os suaves flocos brancos caem em meu nariz e sinto um vento cortante nas bochechas. Normalmente, em situações como essa, minhas bochechas ficam vermelhas. Papai larga da minha mão e olho em volta, as montanhas cobertas de gelo, mas um estrondo me tira do transe. Uma bala lhe atinge o peito e, de repente, a neve fica vermelha, seu terno bordô ensopado e ele cai. Não consigo me mover, não consigo gritar. E ele está morto.
Acordo em um sobressalto. Outro pesadelo. Cochilei após me maquiar e prender o cabelo, pensei que não seria assolada por sonhos ruins se dormisse por um curto período de tempo antes de ir para a festa de Blanche e Claire. Errei. Respiro fundo. Fica cada vez mais comum desde a morte de minha mãe. Levanto-me da cama e vou até a cozinha.
Mexo a panela com macarrão que Matthew deixou antes de sair para o trabalho. É agradável pensar que meu irmão sempre possuiu aptidão para cozinhar e agora é um grande chef. Não deixou nada atrapalhar seu futuro e sua carreira. Michael está distraído na sacada, olhando para algum lugar na imensidão lá embaixo e, talvez, se certificando de que não há perigo algum nas redondezas. Pego dois pratos no armário de cima e os sirvo, e Michael parece ser atraído pelo cheiro do delicioso penne à bolonhesa. Levo até a mesa os dois pratos e em seguida dois copos, e ele puxa a cadeira para que eu me sente. Isso me faz sorrir.
Ele pega o suco na geladeira e serve nos copos, e quando dou a primeira garfada no macarrão, dezenas de lembranças me sobem à mente. Há tempos não comia algo tão bom. A sensação é de estar de volta em nosso chalé na Suíça, com meu pai trabalhando em seu clássico fondue de três queijos e tomando vinho branco enquanto minha mãe e Matthew faziam macarrão e, à noite, o melhor chocolate quente que qualquer um poderia tomar. Mesmo pequena, isso tudo foi muito marcante.
— Você tinha que ver – Diz Michael, também apreciando do macarrão. – Não se iluda quanto a não haver babacas na faculdade. Às vezes, me dá vontade de tirar a arma do bolso só para ver o medo neles.
— Suponho que eu não teria sua paciência – Rio. – Seria engraçado ver esses otários assim. Mas continue com sua paciência, não posso perder meu segurança particular.
— Sei que não pode, por isso me controlo – Ele responde, dando um gole no suco. Não precisa agradecer.
Ele dá um sorriso gentil e continuamos a comer. Assim que raspo meu prato, lavo-o e o deixo perto da pia. Não me atrevo a mexer na organizadíssima cozinha de Matt.
Caminho até a sacada, observando ao longe as luzes de uma cidade que nunca dorme, os prédios de Toronto emanando luz como as estrelas acima deles. É impossível esquecer a noite que cheguei aqui. Foi complicado explicar toda a situação para Matt. Explicar sobre Kurt e Davis e, primeiramente, que eu tinha dois pais adotivos que são as melhores pessoas que já conheci em vida, sobre o incêndio na catedral e sobre ter sobrevivido dele. Claro que foi noticiado, porém aqui no grande Canadá uma notícia de uma pequena cidade da Escócia não tem tanto êxito quanto no próprio Reino Unido.
Olho pela tela de proteção na sacada a movimentação da cidade mesmo à noite. É um espetáculo. Meu irmão realmente não podia ter escolhido um apartamento melhor para morar.
— Não vai colocar seu terno? – Digo, soltando meus cabelos dos bobs que os prendiam e me olhando no espelho. – Já são quase oito e meia.
Ele assente e vai para seu quarto enquanto vou para o meu. O belo vestido longo cor de creme está pendurado no guarda roupa ao lado dos sapatos brilhantes, e deslizo a mão por seu tecido antes de tirá-lo do cabide e vesti-lo.
—------------------------------------------------------------------------------
O gelo tilinta no drink de morango em minhas mãos enquanto ando pelo grande salão aberto ao lado de Michael. Esse lugar está impecável. Blanche e Clair realmente sabem como dar uma festa de aniversário. Um arco de rosas brancas marca a entrada e pequenas lâmpadas coloridas se estendem de uma sacada a outra. O Golden Gates nunca esteve tão esplêndido, iluminado. Enquanto alguns dançam, outros – como eu – observam encantados a grandiosidade da arquitetura clássica e os detalhes além de apreciar a música que toca, alguns beijam, outros se esbaldam na enorme mesa de aperitivos e alguns se escondem atrás das pilastras gregas ou se camuflam nas mesas em surtos de timidez. É bom me sentir como uma adolescente qualquer, pra variar.
Depois de conversar com Charlie, me junto a Michael, que tem um copo de whiskey na mão esquerda e diz — alto — para que eu ouça através da música:
— Ainda não sei como você conseguiu me fazer vir a uma festa de ensino médio. É estranho ver esses bêbados incorrigíveis e nerds mais uma vez.
— Me agradeça por isso – Sorrio. – Aposto que formaria uma fila de pretendentes se soubessem que você é da UToronto.
— Aposto que formaria se dissesse que vou um futuro médico – Ele ri. – Essas garotas iam viver atrás de mim se soubessem que poderia botar silicone nos peitos delas.
— Pode colocar silicone em mim? – Faço um olhar esperançoso, e ele me olha com feições de estranhamento. Não posso deixar de gargalhar.
— Vamos entrar, essa música está ficando enjoativa, me dá dor de cabeça. – Diz ele, depois de rir.
— O cheiro está estranho por esses lados... – Murmuro. – Isso não pode ser bom.
— Acha melhor eu te levar pra casa?
— Não é necessário. Vamos embora depois do parabéns. Blanche e Claire vão se chatear comigo se for agora.
Ele assente e entramos em uma das portas, deixando a área aberta e, assim que a porta é fechada, o barulho diminui bastante. Termino a bebida em minha mão e deixo a taça em cima do sofá circular no meio do salão de dentro. Michael olha em volta e levanta as sobrancelhas. Eu o entendo. O lugar é maravilhoso até mesmo quando está vazio. Os adultos estão no grande salão subindo as escadas, onde uma banda de música clássica tenta amenizar a eletrônica que vem do lado de fora e dar um ar de sofisticação e calma ao ambiente. Michael larga o copo ao lado do meu e nossos olhos se encontram por uma breve fração de segundo. Quando noto, os lábios dele já estão nos meus com fervor e minha mão na sua nuca enquanto ele segura na minha cintura. Minha respiração acelera. O quê?
As mãos dele descem para o meu quadril e...
— Jully, hora do parabéns! – Claire abre a porta e diz.
Em um susto, nossos lábios se soltam e murmuro: Tudo bem.
Nos olhamos e ele dá de ombros. Sorrio e pego minha bolsa, indo na frente quando Michael abre a porta.
...
“Parabéns pra você... Nesta data querida...”
Bato palmas junto com as centenas de pessoas que estão aqui. Charlie está ao meu lado e Michael à minha direita, enquanto vejo Blanche e Claire radiantes em seus vestidos brancos e atrás do gigantesco bolo de três andares. Sorrindo. É bom vê-las felizes. De repente, todas as luzes do salão aberto se apagam. Isso é de propósito? Sinto a mão de Michael na minha, de prontidão, e alguns segundos depois, as luzes voltam.
Meus olhos se arregalam, e Michael me puxa para o lado rumo à porta. Acima de Blanche e Claire agora não tem somente rosas brancas, mas um recado: “Estou vendo você”.
Fale com o autor