Conexões Improváveis
8 Capítulo 7 – 17 anos de solidão
Notas iniciais
"– Uma pessoa muito importante para mim... – ela pausa e fixa seus olhos nos meus, eles emitem ondas de tristeza. É um olhar similar ao que eu vi quando me fitei no espelho. – Ele morreu alguns dias atrás... Desde então eu venho me iludindo, esperando que ele apareça a minha porta com seu sorriso radiante e me abrace de um jeito que só ele sabe... – seguro sua mão delicadamente e mantenho nossos olhares conectados. Eu entendo bem esta sensação – Mas agora, eu percebo que ele realmente se foi! E o pior de tudo é que eu nem sei o porquê...
– Não sabe o porquê? – pergunto enquanto conexões se formam em minha mente.
Tessa Forbs. Não é possível. Como eu não percebi antes?
– Ninguém sabe como ele morreu... Ouvi dizer que suspeitam de assassinato, mas quem iria querer mata-lo? – ela murmura enquanto minha mente se abre.
– Qual era o nome dele? – pergunto já sabendo a resposta.
– Jason... – ela sussurra como se fosse um nome proibido – Jason Lane..."
Permaneço estática percebendo quão desatenta eu fui. Tessa Forbs. Jason mencionou esse nome em praticamente todas as conversas que tivemos desde que ele veio para ARGOS. Como eu pude não me lembrar disso?
– Rachel? – uma voz soa as bordas de minha consciência.
– Quem? – pergunto abruptamente me esquecendo por um breve segundo da situação em que me encontro. Sou Rachel, não Aya – Que-quem suspeita de assassinato? – tento concertar minha gafe.
– O investigador que está tomando conta do caso... – ela diz enquanto me encara confusa — Você está bem?
Respiro pesadamente enquanto pego uma das taças de champanhe que se encontram na mesa.
– Estou! – minto e tomo um longo gole do champanhe – Sinto muito pelo que aconteceu!
– Obrigada! – ela agradece e então baixa a cabeça momentaneamente antes de prosseguir – Sinto como se uma parte de mim tivesse sido arrancada... E eu não sei como... – ela pausa e desvia seus olhos dos meus.
– Parar de sentir... – completo sua frase e ela volta a me olhar fixamente nos olhos – Acredite em mim... Eu sei o que você esta sentindo! – uma onda de tristeza e dor se apossa de mim enquanto a imagem do corpo de Jason sendo cremado surge em minha mente, quase como se fosse real, como se eu estivesse assistindo aquela cena novamente – Você sabe que ele se foi, e está de luto por isso... Mas uma parte, uma pequena parte de você não aceita esse fato... E esta pequena parte, faz toda a diferença...
– Exatamente! – Tessa murmura enquanto seus olhos começam a ficar marejados – Rachel, tem certeza de que você está bem? – ela pergunta novamente após um longo período de observação.
– Sim... É só que... Isso me lembra o que aconteceu com meus pais... – digo vagamente e tomo outro gole do champanhe.
– Sinto muito... Eu não deveria estar falando com você sobre... – ela pausa se censurando imediatamente.
– Morte? – eu completo e pauso degustando a palavra sobre a qual entendo tanto – Eu sei como você se sente... – a dor da perda se torna mais forte em meu peito, eu respiro fundo e prossigo — E a melhor forma de encarar isso é não tendo medo da verdade... – pauso e deposito a taça sobre a mesa. Eu não deveria falar isso, mas é o que ela precisa ouvir... O que eu preciso ouvir... – Meus pais estão mortos... – inspiro profundamente sentindo as lágrimas que foram adiadas por tanto tempo se aproximarem – Jason está morto... – solto o ar que inspirei e afasto as lágrimas – Temos que aceitar isso e nos esforçar ao máximo para honrar o nome deles!
Tessa me olha fixamente e suspira, como se um peso fosse tirado de seus ombros. Seus olhos se enchem de lágrimas enquanto ela pega minhas mãos gentilmente e murmura:
– Obrigada! Você parece ser a única pessoa que realmente entende o que estou passando... – ela pausa brevemente – Para honra-los temos de seguir em frente... Certo?
– Sim... – respondo me sentindo a maior hipócrita do universo.
Quem sou eu para falar sobre seguir em frente? Neste momento minha vida se resume a ficar presa a dores do passado e tentar ameniza-las com vingança. Se Jason me visse agora, ele pediria que eu parasse, antes que seja tarde de mais... Mas eu não posso fazer isso, eu tenho de continuar, não só pela sua memória, mas por mim mesma.
– Quando você disse o nome dele, foi como se não pudesse... Por quê? – esqueço-me de todo o resto e me concentro no que realmente interessa.
– É que... – ela pausa ao ver algo atrás de mim, e antes que eu possa instiga-la a voltar a sua frase, percebo porque ela a interrompeu.
– Boa noite senhoritas! – a voz de Logan soa próxima a mim e em seguida sinto sua mão tocar suavemente meu obro. Tessa retoma a postura elegante que vinha desfilando pelo salão a poucos minutos atrás e cumprimenta Logan com um sorriso discreto.
– Já estava estranhando o seu sumiço! – digo sarcástica e sorrio enquanto frustração e raiva se apossam de mim. Olho rapidamente para Logan e após analisar sua postura mais desajeitada que a usual e a forma com que seus olhos perdidos encaram o ar a sua frente, chego a irrefutável conclusão de que ele está bêbado.
Após dias no escuro, quando finalmente descubro algo útil e estou prestes obter ainda mais informações, este idiota aparece e estraga tudo.
– Sei que sentiu minha falta, principalmente depois de ontem à noite... – ele me provoca enquanto ajeita a gravata mal colocada.
– Não acredito! – Tessa exclama e arregala os olhos tirando conclusões precipitadas.
– Ontem à noite nós conversamos! – afirmo enfaticamente enquanto Logan ri suavemente.
– Não! Ontem a noite nós finalmente tivemos uma conversa decente, depois de você me encarar indefinidamente... – ele provoca novamente me irritando.
– Acho que inverteu os papeis! Você é o stalker que adentrou meu quarto de hospital sorrateiramente e me observou enquanto dormia! – retruco perdendo as estribeiras.
– Okay! Em primeiro lugar, você não estava dormindo, só estava... Cochilando! – ele diz como se isso fosse uma grande justificativa – E em segundo lugar...
– Você está bêbado! – interrompo-o bruscamente.
– Como você sabe? – ele pergunta rindo.
– Posso sentir no seu bafo! – digo enquanto me levanto, pronta pra migrar para outra mesa.
– Foi bom você levantar, assim podemos dançar e discutir! – ele fala astutamente enquanto me puxa em direção à pista de dança.
– Sinto muito! – Tessa murmura atrás de mim envergonhada por seu irmão.
Serro meus punhos raivosamente, inconformada com o fato de que eu não posso simplesmente nocauteá-lo em plena festa. Contra minha vontade, Logan junta minhas mãos em sua nuca, pousa as suas sobre minha cintura e começa a balançar suavemente nossos corpos seguindo o ritmo da música.
– De nada! – ele diz me confundindo.
– O quê? – questiono-o esperando inutilmente ouvir algo decente.
– Eu acabei de te salvar de uma conversa deprimente com a minha irmã! – ele se explica e eu encaro-o incrédula, então ele prossegue – Pude ver em suas feições que estavam falando sobre o namoradinho dela!
– Ela não está bem Logan, e supostamente é você quem deveria dar suporte a ela! – esbravejo inconformada.
– Ele está morto e não há nada que ela possa fazer a respeito! – ele murmura enroladamente.
– Não acredito no que está dizendo! – digo espantada e interrompo nossa dança – Eu sei que isto é a verdade, mas você não pode simplesmente dizer isso para ela... Não pode simplesmente menosprezar o que ela está sentindo!
– Sim eu posso! – ele afirma e eu tento me desvencilhar dele, mas suas mãos permanecem firmes em minha cintura – E sabe por quê? – encaro-o severamente e ele responde sua própria pergunta – Porquê é isso que eu venho ouvindo nos últimos 17 anos! – ele pausa e engole sua saliva ruidosamente antes de prosseguir – Rachel está em coma, e não há nada que você pode fazer quanto a isto! – ele esbraveja com voz alterada e balança a cabeça nervosamente, uma clara imitação de sua mãe.
– É uma situação diferente! – afirmo incontestável.
– Não é! – ele retruca exalando seu bafo de bebidas.
– Sim, é! Eu estava em coma, Jason está morto! – esbravejo expelindo toda raiva que vinha contendo – Não há nenhuma esperança pra ele, pra mim havia! Havia algo no qual você podia se agarrar! Para Tessa não resta mais nada além de dor, e o fato de você ser um completo babaca e não entender isto, só deixa a situação ainda pior! – finalizo com respiração ofegante.
Um extenso silêncio se estende entre nós enquanto Logan tenta não estabelecer contato visual, quando ele finalmente desiste e olha diretamente para mim, vejo uma fagulha de compreensão surgir no fundo de seus olhos castanhos mel.
– Você está certa! – ele admite arrependido – Me desculpe!
– Não é para mim que você deve pedir desculpas Logan! – censuro-o ainda indignada com sua atitude.
– Eu sei... Vou falar com ela antes de a festa chegar ao fim! – ele promete e sorri timidamente — Está brava? – ele pergunta o óbvio.
– Com o quê? O fato de você ter interrompido a conversa que estava tendo com sua irmã, ou o fato de estar agindo como um idiota bêbado? – retruco sentindo raiva borbulhar em meu peito.
– Eu sou um idiota bêbado! – ele afirma com orgulho tentando quebrar a tensão que se coloca entre nós.
– Ontem à noite você parecia alguém decente, mas as aparências enganam afinal! – digo e ele trinca sua mandíbula.
– Sabe por que eu estou bêbado? – ele pergunta em meio a sua respiração alterada.
– Segundo o que você acabou de declarar, porque você é um idiota! – respondo bruscamente.
Ele abaixa a cabeça e solta um riso sarcástico.
– Não só por isso... – ele levanta a cabeça e olha diretamente em meus olhos – Mas também porque eu estava com medo! – ele pausa brevemente e seu olhar assume seriedade – Você foi a única real amiga que eu já tive em toda minha vida, e eu estava amedrontado com o fato de você não se lembrar disso! Estou amedrontado... – ele suspira e baixa a cabeça novamente – Por todos esses anos, eu desejei com todas as minhas forças que você acordasse... E então você acordou! – ele volta seus olhos para mim – Só quero que você seja esta amiga de novo!
Um pouco de minha raiva se dissipa, mas uma parte latente dela permanece enroscada a meu peito.
– Talvez você tenha me colocado em um pedestal no decorrer destes anos! – digo exalando frustração.
– Você não tem o direito de falar isso, você nem se lembra! – Logan esbraveja. Aparentemente cheguei a seu ponto fraco.
– Nós tínhamos sete anos Logan! Éramos crianças! É impossível que nós fossemos tão...
– Nós éramos! – ele afirma com convicção me interrompendo. Seus olhos cheios de frustração e dor.
– Você está certo... Eu não tenho o direito de duvidar disto! – recuo comovida por sua intensidade – Sinto muito pelo que eu disse!
– Está tudo bem! – ele murmura e pausa brevemente – Algum dia... Você vai se tornar aquela amiga novamente?
Um silêncio impetuoso se instaura entre nós enquanto o olhar de Logan suplica por minha resposta.
– Sim! – digo simplesmente e ele sorri suavemente.
– Estamos bem? – ele pergunta preocupado.
– Estamos bem! – respondo e sorrio discretamente – Mas eu duvido que esta seja nossa última briga!
Ele ri e murmura:
– Acho que temos este direito!
Então, antes que eu possa dizer algo mais avisto Ryan e Walker próximos à porta de entrada do salão. Tenho que ir até eles, e tenho de ir agora.
– Vou me sentar um pouco... – digo vagamente e interrompo nossa dança.
– Okay... – Logan murmura e eu começo a andar em direção a uma das mesas, passando o mais próximo que posso de Ryan e Walker esperando ser vista para que eles venham até mim. Infelizmente, Logan me acompanha.
– Não precisa vir junto... – tento ser educada.
– Por quê? – ele pergunta confuso enquanto segura minha mão.
– Quero ficar sozinha Logan! – digo enfaticamente. Não tenho mais tempo para gentilezas.
Ele ri com desprezo enquanto pega uma taça de champanhe que um dos garçons nos oferece e diz:
– Certo! – ele toma todo o champanhe de uma só vez e começa a andar em direção ao outro lado do salão.
Uma pontada de culpa ameaça incomodar minha consciência, mas então me lembro. Jason está morto e eu não posso vinga-lo enquanto danço e converso amigavelmente com Logan pelo salão.
– Bem vinda de volta Rachel! Devo dizer que é uma honra conhecer a primogênita de Grant Hale! – Walker me cumprimenta elegantemente após atravessar o local emanando imponência a cada passo que descrevia a meu encontro – Sou Anthony Walker, membro do conselho! – ele se apresenta.
– Obrigada! – agradeço educadamente e então volto meus olhos para os de Ryan.
– Olá Rachel! – ele me cumprimenta e sorri discretamente.
– Olá Doutor Rarper! – cumprimento-o e o encaro, esperando que nos tire do salão para que possamos conversar sobre o que realmente interessa.
– Deve ser uma sensação estranha estar de volta à realidade! – Walker inicia um dialogo, isso significa que ainda vai demorar para obter as respostas que preciso.
– Sim, minha percepção das coisas está um tanto... Diferente! — respondo sua pergunta e ele sorri pacatamente.
Walker se prepara para dar continuidade ao dialogo, mas subitamente sua expressão se solidifica e sua postura se enrijece enquanto seu olhar azul cintilante se torna fosco ao avistar algo atrás de mim. Viro-me calmamente e me deparo com a aproximação furtiva de um homem cujos cabelos são inteiramente alvos e a feição é mergulhada em uma espécie de loucura velada a qual é estranhamente evidenciada por seus olhos negros e astutos.
– Ainda não tive a oportunidade de cumprimenta-la! – ele diz enquanto para a centímetros de mim – Bem vinda a ARGOS Aya! – meu coração para instantaneamente e um frio avassalador percorre minha espinha enquanto meu corpo se prepara instintivamente para o pior.
Fale com o autor