Conexões Improváveis

9 Capítulo 8 - 4 músicas


Notas iniciais
Como prometido, mais um capítulo! Obrigada por estarem lendo! E um agradecimento especial para VitinhaJB, muito obrigada por comentar!!!

Por um instante tudo a meu redor desaparece, e não há nada além de mim e este homem. Por um instante, penso que tudo está perdido.

– O que está fazendo Ewan? – Ryan sussurra a meu lado assustando-me suavemente ao me trazer de volta a realidade.

– Cumprimentando nossa hospede! – Ewan se esclarece e toma minha mão direita levando-a a sua boca e beijando-a suavemente – É um prazer conhece-la!

Frases de meu treinamento, feitas para momentos similares a este, pairam por minha mente, mas a única que consigo pronunciar não está incluída entre elas, e representa um real perigo para meu disfarce, que provavelmente já foi comprometido.

– Como você sabe? – questiono-o, minha voz tão baixa que se aproxima de um sussurro.

– Eles não te contaram? – ele responde minha pergunta com outra e sorri satisfeito ao perceber em minha postura a resposta para tal questão – Se não fosse por mim, não estaria aqui! – ele finaliza exalando uma calma perturbadora.

Não esperava ter de lidar com este tipo de pessoa aqui em ARGOS. O tipo de pessoa que me treinou, e que se parece comigo. Tudo em Ewan, desde seus trajes a seu olhar obscuro, foi meticulosamente pensado para inspirar respeito, e principalmente medo. Exatamente o que se faz quando se almeja manipular alguém. Com minha visão periférica vejo que tanto Ryan quanto Walker reconhecem o espécime perigoso que se apresenta a nossa frente, e em resposta a ameaça ambos se encontram presos a posturas rígidas que expressam seus receios quanto a Ewan. Isso certamente é algo que não se deve fazer na presença de alguém como ele.

– É bom ter aliados! – digo simplesmente, assumindo as rédeas de minha linguagem corporal.

– Certamente A... – ele ameaça pronunciar meu nome verdadeiro novamente, mas antes que o faça lanço-lhe um olhar de calma, quebrando-o em seu jogo — Rachel! – ele se corrige e sorri satisfeito.

– Você sabe exatamente quem eu sou, mas tudo o que sei a seu respeito é seu nome, e a sua óbvia deficiência quanto a pronuncia de nomes femininos! – provoco-o brincando com fogo.

Ele ri com escarnio e dá procedência a nosso dialogo:

– Suponho que isto seja um incentivo para que eu me apresente... – ele pausa esperando uma resposta de minha parte. Eu apenas sorrio suavemente demarcando meu território, então ele prossegue – Sou Ewan McCarthy, um mero administrador de estabelecimentos recreativos, e o possuidor de diversos... Contatos! – ele me ameaça de forma velada.

– Contatos... – pauso momentaneamente e sinto a mão de Ryan pousar suavemente sobre minhas costas, alertando-me do perigo de prosseguir esta sentença — Isto justifica sua presença nesta festa! — Ignoro o alerta de Ryan e atiço a fera.

– Cuidado... Rachel! – Ewan enfatiza o nome de minha personagem.

Apesar do tom ameaçador de sua voz, é perceptível em seus olhos que ele está se divertindo, e não posso negar que também estou.

– Cuidado? – finjo confusão – Não o compreendo...

Ele ri secamente e ameaça:

– Talvez as informações erradas caiam nas mãos das pessoas certas se este dialogo continuar a caminhar por territórios tão perigosos!

– Seria uma pena se isso ocorresse, suponho que não seria proveitoso para nenhum de nós! – respondo sua ameaça sem hesitar.

Satisfação borbulha em seus olhos.

– Você é realmente uma mulher de vários talentos, Senhorita Hale... – ele declara por fim.

– Foi um prazer conhece-lo, Ewan! – descarto o vocativo cordial e encerro o dialogo expressando que não sou indefesa a sua manipulação.

– Certamente meu investimento em você não representa um equivoco! O prazer em conhecê-la é todo meu! – ele anuncia e então se aproxima – Se precisar de algo, qualquer coisa... – ele diz e olha rapidamente para Ryan e Walker. Qualquer coisa que nenhum dos dois seria capaz de fazer, não por falta de poder, mas por questões morais – Entre em contato! – ele finaliza e me entrega um cartão prateado no qual consta um endereço – Até breve! – ele se despede e eu simplesmente aceno a cabeça enquanto guardo seu cartão em minha luva esquerda. Ele certamente será de grande valia num futuro próximo.

Volto meu olhar para Ryan, que me encara um tanto incrédulo.

– Como fez isso? – ele pergunta deixando transparecer uma pontada de admiração em seus olhos azuis vibrantes.

– Eu cresci com este tipo de gente! – murmuro.

– Cuidado... Rachel! Ewan sabe exatamente como manipular os outros a seu favor! – Walker se pronuncia, sua voz mergulhada em real preocupação.

– Eu sei como lidar com este tipo! – digo e lanço-lhe um olhar de gratidão.

– Temos de nos separar, já estamos conversando a muito tempo, isto pode parecer suspeito! – Ryan declara.

– Concordo plenamente! – Walker se expressa e então se despede com um leve aceno enquanto começa a caminhar em outra direção.

Ryan ameaça fazer o mesmo, mas antes que eu o perca seguro seu braço firmemente e murmuro:

– Você não!

– Rachel... – ele sussurra em protesto.

– Deveríamos dançar! – digo simplesmente e guio-o discretamente para a pista de dança.

Antes que ele possa protestar novamente, já estamos dançando, camuflados em meio a multidão de pares a nossa volta.

– Agora não! – ele aproxima seus lábios de meu ouvido e sussurra.

– Então quando? – questiono-o exaltando-me em meu sussurro.

– Em breve! Deixe-os beber um pouco mais, por precaução! – ele responde e eu rio incrédula.

– A este ponto da festa não acredito que eu ainda seja o centro das atenções! – justifico minha ansiedade em um sussurro mais uniforme.

– As aparências enganam... – ele responde simplesmente.

Silêncio pousa sobre nós, até que eu resolvo dar continuidade ao diálogo.

– Você demorou...

– Cheguei a tempo de ver a discussão com o garoto Forbs... – ele declara.

– Não foi nada grave! – digo sem ter certeza se estou certa.

– Não foi o que pareceu! – ele murmura expressando certa preocupação.

– Eu sei me virar Ryan! – digo simplesmente.

– Lembra-se do que eu disse sobre simpatia? – ele provoca.

– Talvez eu tenha esgotado a minha reserva disso por esta noite! – respondo elevando suavemente meu tom de voz.

– Tenho certeza de que Logan percebeu isto... – ele diz brincalhão e eu sorrio com desgosto.

– Se tivesse chegado mais cedo teria visto de camarote eu desfilar minha elegância e simpatia pelo salão! – respondo sua provocação

– Isto deve ter sido algo divertido de se ver! – ele diz e rimos em conjunto. Antes que o silencio volte a pairar sobre nós Ryan procede – O que você fez foi... Incrível!

– O quê? Brigar com pobre Logan? – finjo desentendimento.

– Não! — ele diz e ri brevemente – Se impor sobre Ewan!

– Obrigada! – digo e começo a procurar algum fator digno de elogios em Ryan, além de seus óbvios dotes físicos – Você... É, um bom... Médico?

Ele ri de minha brincadeira.

– Uou... Você fazendo uma brincadeira? – exclama expressando surpresa exacerbada.

– Não sou antissocial em tempo integral! – digo por fim provocando risos novamente.

– Para uma assassina antissocial você dança muito bem! – ele me elogia novamente em um sussurro.

– O fato de eu ainda não ter pisado no seu pé não significa que eu sei dançar... – brinco e rimos novamente.

Percebo então a rápida transição de atmosferas que se sucedeu. De um ambiente inundado de óbvia tensão, transitamos para um completamente descontraído.

– Quando vamos conversar sobre o que realmente interessa? – questiono-o com tom sério quebrando a suavidade entre nós.

– Em breve... – ele responde, surpreso com minha repentina mudança de atitude.

– Poderia ser um pouco mais especifico? – estimulo-o.

– Me encontre no jardim quando a banda começar a tocar a quarta musica a partir de agora... – ele responde por fim após um breve instante de silêncio.

– Certo! – murmuro e interrompo nossa dança no exato instante em que a música que dançávamos se encerra – Não se atrase... – provoco-o e ele simplesmente sorri em resposta enquanto caminhamos em direções distintas.

∞ ∞ ∞

Devido a minha incontrolável ânsia pelas informações que Ryan possui, não pude resistir à espera das quatro intermináveis músicas que a banda tocava. Tenho consciência de que elas provavelmente não duraram mais do que quatro minutos cada, porém minha sensibilidade em relação ao tempo estava um tanto desequilibrada. Dessa forma, após apenas duas músicas, já me encaminhei ao ponto de encontro, o que certamente não mudou em nada o fato de que ainda tenho de esperar as duas músicas restantes serem executadas pela banda.

Entediada com a interminável espera acabo optando por passar o tempo vagando pelo imenso jardim que me cerca. Absorvo cada detalhe da paisagem, as cores e formas surpreendentes de flores que jamais havia visto, inspiro profundamente deixando a diversidade de essências que emanam de cada uma dessas flores inundarem meus pulmões. Apesar de estar completamente entretida com a beleza do que me cerca, não deixo sequer por um instante de olhar em direção a festa, esperando ver Ryan adentrando o jardim a qualquer instante. Se eu estiver certa, a suave música que emana do salão é a quarta a ser tocada desde que me separei de Ryan, o que significa que em breve terei acesso as respostas que tanto anseio.

Um leve farfalhar de folhas ecoa a minha direita fazendo com que todos os músculos de meu corpo se retesem. Instintivamente levo minha mão direita em direção a meu antebraço esquerdo, local onde eu sempre escondera minha adaga. Minha mão anseia pelo toque gélido da lâmina, mas tudo o que encontra é o suave tecido da luva que cobre minha pele.

– Você vai arruinar tudo... – uma voz levemente tensa se esgueira em meus ouvidos. Analiso compenetrada o amontoado de arbustos a minha direita e logo percebo um vulto negro parcialmente encoberto pelas folhas.

– Quem é você? – questiono o desconhecido.

– Não importa... O que realmente importa é quem você é! – o portador da voz murmura e então sai de seu refúgio de sombras mostrando-se ser um homem de feição marcada pelo tempo.

– Não lhe compreendo... – digo, ainda agarrada a esperança de que ele não saiba a verdade.

– Pare de fingir, não é mais necessário! – o desconhecido diz e dá um passo em minha direção fazendo assim com que a leve luz que ilumina o jardim emule um suave relevo em seu paletó, provavelmente uma arma.

– O que você quer? – pergunto estimulando-o a falar. Preciso analisar minhas opções.

– O que qualquer ser vivo quer, sobreviver! – ele responde emanado um leve brilho de loucura em seus olhos.

– E o que eu tenho haver com sua sobrevivência? – encorajo-o a continuar enquanto minha mente descarta a possibilidade de enfrenta-lo em um combate corpo a corpo. As câmeras flagrariam o embate e isso iria obstruir completamente meu disfarce, se é que ele já não está completamente comprometido, afinal, este estranho é a segunda pessoa nesta noite que assume saber minha real identidade.

– Quando você descobrir vai contar a eles, e então iremos perder a votação! Se continuarmos aqui vamos todos morrer... Agora ou daqui a dez anos, não importa, vamos todos morrer! – ele cospe suas palavras inundando minha mente com dúvidas.

Antes que eu possa iniciar minha próxima frase, ele leva sua mão em direção ao relevo em seu paletó e calmamente puxa a arma de seu esconderijo. Seus olhos astutos não se desviam sequer por um segundo dos meus. A julgar por sua calma, esta não é a primeira vez que ele lida com uma arma.

– Eu não gosto de sujar as mãos, geralmente mando que outros o façam em meu lugar, porém... – ele pausa e tira um silenciador do bolso de sua calça – Tenho de ter certeza que você está morta! – ele finaliza enquanto acopla o silenciador ao cano da arma.

– Você não tem que me matar, não tem que sujar suas mãos... – digo enquanto ergo as mãos em sinal de falsa rendição e dou curtos e silenciosos passos ao redor do homem, intendendo traçar uma meia lua até chegar perto dos arbustos para que assim eles obstruam a visão das câmeras.

– Nem mais um passo! – ele diz e aponta a arma em direção a meu coração.

Eu paro instantaneamente e me preparo para meu último movimento.

– Eu poderia apenas ir embora, voltar para a terra! Isto lhe tiraria a complicação de encobrir meu cadáver! – digo enquanto começo a baixar minhas mãos lentamente até que elas estejam na altura adequada para que eu possa desarma-lo e imobiliza-lo. A esse ponto as câmeras já não importam mais.

– Não se preocupe quanto a isso, tenho tudo planejado! – ele murmura e move seu dedo em direção ao gatilho. Espero cautelosamente até que ele esteja prestes a pressiona-lo, então, ele desvia seu olhar para algo atrás de mim e eu também o faço, mesmo já sabendo o que verei.

Ryan. A arma se move em sua direção, e então já é tarde de mais para desarmar o desconhecido, tudo o que posso fazer é observar a morte de Ryan.

“Ele não pode morrer, eu preciso de respostas!” é o ultimo pensamento que invade minha mente enquanto me lanço em frente a arma.

Notas finais
Espero que tenham gostado, semana que vem tem mais! Comentem por favooor!!! bjos
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.