Conexão Seattle
29 O bote da cobra
Notas iniciais
–Desculpe-me fazê-la esperar. –Disse Olivia aproximando-se com um sorriso no rosto.
–Não tem problema. –Respondeu Sam. – É alguma coisa sobre o Griffin?
–Não. –Ela sentou ao lado da garota. –É sobre você.
–Sobre mim? –Perguntou surpresa.
–Sim. Sabe o que eu te disse quando veio aqui? Esqueça tudo. Eu me precipitei, não tinha o direito de dizer aquilo.
–Tudo bem, eu entendo. E até agradeço, mas sinceramente, não precisa se preocupar. Não estou “emocionalmente envolvida” com ninguém.
–Como quiser. Mas queria te mostrar uma coisa.
A mulher pôs o envelope sobre o centro de mesa e o abriu. Dentro havia varia fotos antigas. Ela separou algumas e as levou para junto de si aproximando-se de Sam, para que ambas pudessem ver o que ela tinha em mãos.
–A melhor época da minha vida. Acho que da vida de qualquer um que passe por isso!
–Quem são esses?
–Meus antigos colegas. Christian, Marlon, Érica. Silvia... Pessoas maravilhosas! Ah, mas aqui está o que quero lhe mostrar.
Ela passou a Sam uma foto onde havia cinco pessoas. Dois Sam reconheceu na mesma hora. um por ser o pai de Carly, outro por ser idêntico a Freddie.
–Também estudávamos juntos. Eles eram terríveis. –Ela sorria lembrando. – Com exceção do Benson, eles não eram muito inteligentes, mas todas as garotas queriam sair com eles.
Sam tentou disfarçar a surpresa por aquelas palavras. Como assim não era muito inteligentes? Sam sentiu ímpetos de levantar e sair dali, mas seus pensamentos foram interrompidos pela voz de Olivia:
–Olhe essa.
Um pouco confusa, Sam pegou a foto e reconheceu as duas mulheres de imediato. Ambas sorriam, sentadas num banco com os rostos colados. Pareciam ser grandes amigas.
–Marissa e Helena. –Disse Olivia. –Dois opostos. Uma era desinibida, a outra era retraída. Mas elas eram amigas. Ao menos achei que fosse.
–Por que esta me dizendo essas coisas?
–Calma você vai entender. A Helena era inteligentíssima, mas era um verdadeiro bicho do mato. Ninguém gostava dela, achavam-na estranha. Mas ai aconteceu uma coisa mais estranha ainda. Ela começou a namorar o Charles, depois de ter de fazer um trabalho com ele.
–O pai da Carly?
–O próprio. Até que formavam um casal bonito, sabia? Mas ai, o Fred fez uma aposta com os outros amigos dele. Conseguiu ficar com ela e ainda arrastou cem dólares de cada um.
–Mais que filho da... Me desculpe. E aí?
–E ai que ou ele acabou se apaixonando por ela. Ao menos foi o que eu pensei. Passaram meses juntos, e no dia da nossa formatura, os amigos dele resolveram ajudar. Subiram no palco e contaram da aposta às gargalhadas. Ela saiu humilhada, arrasada... Mas depois de muita insistência dele, ela o perdoou e eles voltaram.
–Que garota sem orgulho! –Exclamou Sam. –Não tinha só ele de homem no mundo!
–Quando se ama, só se ver a pessoa. Um dia vai saber se é que já não sabe.
–Não, eu não sei. E realmente não entendo onde a senhora quer chegar.
–Se não soubesse não estaria tão nervosa. –Olivia adquiriu um ar desafiador. –Quero chegar na Marissa. A pessoa de quem você anda se encontra bastante próxima, por causa do Freddie.
–Eu não...
–Tudo bem então vamos fazer de conta que eu não vi vocês dois se beijando agora a pouco. Mas se não quer saber, eu entendo, me desculpe por...
–Não, não é isso, por favor continue! Eu só queria entender...
Olivia esfregou os cabelos num gesto impaciente e permaneceu em silencio por alguns segundos. Após um longo suspiro, ela voltou a fitar Sam nos olhos.
– Eu não sei quem é Marissa Benson Sam, mas ela não é apenas uma mãe super protetora. É uma mulher de caráter duvidoso.
–Eu acho que já percebi.
–Não, não percebeu. A Helena perdeu a mãe aos seis anos, o pai aos dezoito, e só restou a ela o Fred e a Marissa. Não tinha irmãos, o pai e a mãe também eram filhos únicos. Semanas antes do casamento dela, ela teve um colapso nervoso e eu fui visita-la no hospital. Ela me contou que flagrou a amiga e o noivo na cama. Eu acho que ela não queria mais viver.
Sam estava chocada. Após um longo silencio, Olivia prosseguiu:
–Eu era muito amiga da Ana, e ela da Marissa. Dos outros eu só era colega, e ia a festas deles de vez em quando. Eu tenho quase certeza de que não foi por acaso que a Helena os flagrou, sabe?
Sam assentiu em silencio enquanto se esforçava para processar todas aquelas informações. Em que estava se metendo? Não entendia como alguém como Freddie podia ser filhos de pessoas como aquelas. O celular de Sam tocou, e ela atendeu rapidamente procurando um refugio que a tirasse do abalo em que se encontrava.
–Sam. –Disse a voz de Shelby. –Melhor vir pra casa.
–Aconteceu alguma coisa?
–Nada muito grave, mas por favor, não demore.
–Já estou indo.
Sam desligou e voltou-se a Olivia. A mulher colocava as fotos no envelope novamente.
–Eu preciso ir.
–Te dou uma carona.
–Não precisa, eu...
–Claro que precisa. Eu te prendi aqui um tempão, alem disso, não estou fazendo nada.
–Nesse caso, eu agradeço.
–Sam, só quero que você saiba que o Freddie é um garoto bom, mas precisa ter cuidado com a mãe dele. Não preciso dizer que tudo isso deve ficar entre nós não é?
–É claro que não.
Freddie segurava a mão da mãe enquanto caminhavam lentamente até o estacionamento do hospital. Ela simulava dores inexistentes, e se esforçava para parecer emocionalmente abalada. Freddie a tratava carinhosamente, com extrema paciência, penalizado pela situação em que ela se encontrava.
A principio, Marissa se preocupara pelas consequências que poderiam resultar do seu descontrole. Poderia até mesmo sair uma nota no jornal. Mas agora aquilo pouco importava. Freddie se mostrara extremamente indignado quando ela relatou que havia ido conversar com a mãe de Sam, e ela, de maneira rude, a agredira por não compreender o que ela dizia. Se depois desse acontecimento, Freddie não se afastasse de Sam, não se afastaria jamais. Mas ainda faltava a última pá de cal, e ela providenciaria assim que fosse possível.
Ao chegar em casa, Freddie a deixou descansando no sofá e foi preparar o jantar. Sentia ainda mais raiva da mãe de Sam. Não bastasse a mentira que ela havia inventado, agora ainda tinha aquilo. Cada vez que olhava o rosto da mãe, com os olhos inchados, lábios partidos e um dente recentemente reimplantado, sentia vontade de ir até a casa de Sam e perguntar a senhora “Hunter” quem ela pensava que era.
Carly apareceu mais tarde, e ao ver a senhora Benson naquele estado, perguntou:
–Meu Deus, ela foi atropelada?
Spencer perguntou num tom preocupado:
–Freddie, tem certeza que ela não devia estar no hospital?
Outra vizinha comentou com Spencer achando que Freddie não a ouvia:
–Santo Deus! Parece que a viraram pelo avesso!
Haviam roupas espalhadas pelo chão do quarto e pedaços de pizza fria numa caixa em cima da cama. A TV estava ligada, o som estava ligado, e o computador também. Ainda assim os dois garotos afirmavam que estavam estudando. Os cadernos estavam intocados dentro da mochila, enquanto os livros que deveriam estar sendo usados, encontravam-se empilhados no chão. Quando foram colocados ali, de fato, pensou-se em usa-los em um momento mais oportuno, que nunca chegou. Deitado no chão, Jonah esticou a mão tentando alcançar os restos de pizza.
–Não come mais isso não. –Disse Brad.
–Por que não? Passa para cá!
Brad, que estava sentado na cama, com o computador portátil no colo, empurrou a caixa até onde a mão do outro estava e viu a caixa descer lentamente até sumir. Brad se perguntou como os ruídos que Jonah produzia ao mastigar podiam se sobrepor a todos os aparelhos ligados.
–A que horas vamos mesmo estudar hein?
–Estudar pra que? –Perguntou Jonah. –Eu já me considero perdido.
–Não fala isso. Tem que se esforçar pra se formar junto com a gente.
–A gente quem cara pálida? A Sam e a Shelby estão quase tão ferradas quanto eu. O Griffin e o Mike nem se falam. Isso pra não citar a Alisson e o...
–Eu já entendi, Jonah –Interrompeu Brad. – Mas na ultima hora todo mundo acaba dando um jeito, tem que se esforçar também...
–Eu não quero essa droga, Brad, não entende? Eu tenho o pressentimento de que dessa vez, a coisa engrena!
–Ainda que essa gravadora contrate vocês, tem que pelo menos saber somar dois e dois, se não nunca vai prosperar. E se prosperar, fica sujeito a ser trapaceado facilmente.
–Acho que tem razão. Minha mãe sempre fala isso também.
–Mas numa coisa você esta certo. Dessa vez a coisa engrena, essa gravadora é uma das melhores que eu conheço.
–L.A. Recordes, não é?
–É, mas fica em Los Angeles. Avisa pras meninas que no sábado temos de estar as sete horas no aeroporto.
–Devia voltar a falar com elas. Cara, é sério, não queremos outro empresário.
–Eu não vou mais sair. Se elas me deixarem ficar é claro. Eu dei muita mancada, sabe? Fiz tudo errado, meti os pés pelas mãos, ignorei conselho de amigos, me deixei induzi por inimigos...
–Ok, me explica isso ai. –Disse levantando.
Brad esperou que Jonah desligasse o som e abaixasse a TV e começou a contar com riqueza de detalhes o que havia ocorrido. Sentado numa cadeira, Jonah o ouvia perplexo, e quando o relato foi finalizado com a descrição minuciosa do doloroso tabefe de horas atrás, ele conseguiu formular uma frase que foi dita de forma arrastada:
–Apesar de tudo isso, não existe nenhum outro envolvido nessa história alem de você e da Shelby. Vocês dois vacilaram, e tem que conversar.
–Pra que?
–Nessas horas eu me pergunto, de que vale estudar... Se aceita meu conselho, conversa com ela. E me desculpa pelo que eu vou te dizer, mas eu gosto daquela menina. Das duas, aliás. Se tentar tirar onda com elas novamente, esqueço que somos amigos.
–Tudo bem. –Brad deu um longo suspiro. –quer que eu vá embora?
–Não... vamos estudar. Já vi que mente de desocupado é um perigo.
Marissa teve certa dificuldade em convencer Freddie a ir a aula no dia seguinte, já que ele se mostrava preocupado com seu estado. Mas vendo que ela estava bem, ele acabou concordando, após ela prometer que ligaria caso sentisse alguma coisa. Assim que Freddie saiu, a mulher levantou e caminhou sem dificuldade alguma até o telefone.
Minutos antes da aula começar, Freddie se encontrava numa sala vazia e suja, cheia de cadeiras e armários quebrados. Haviam sido colocadas tábuas na janela, desde que alguém denunciara anonimamente que ovos estariam sendo jogados dali. Agora a sala ficava ainda mais escura e abafada do que antes.
Não demorou muito para que Sam aparecesse, com uma calça justa e uma blusa comprida e folgada. Tinha uma lata de coca-cola nas mãos e uma expressão carregada. Freddie precisou fazer um enorme esforço para manter a postura firme quando era obrigado a admitir que Sam parecia ficar mais linda a cada dia que passava. Ela largou a mochila no chão e se aproximou do garoto, que não retribuiu o rápido beijo que ela lhe deu nos lábios.
–Ok, eu vou fingir que não percebi isso. –Disse ela.
–Sam posso saber que diabos deu na sua mãe?
–Na minha mãe? –Perguntou– que diabos deu na sua mãe!
–Como é? Você ficou louca? Minha mãe foi parar no hospital!
–Acredite, se eu estivesse em casa, seria muito pior.
Freddie a fitou incrédulo. Ela amassou a lata vazia com uma única mãe a atirou longe.
–Sua mãe foi até a minha casa me ofender, e pretendia sair ilesa? Ela tentou comprar a minha mãe pra me tirar da cidade, sugeriu novamente que eu queria te dar o golpe da barriga! Como esperava que a minha mãe reagisse?
–A sua mãe entendeu mal. Minha mãe disse que sugeriu que nos afastássemos um pouco pra evitar que nos excedêssemos.
–Para, Freddie, você não acredita nisso. –Sam sorriu sarcástica.
–Sam, nada justifica o estado em que a minha mãe ficou! Ela perdeu um dente!
Sam esticou os lábios reprimindo um riso.
–Então acha engraçado?
–Não, acho lamentável, mas a sua mãe pediu por aquilo. Acho que ela deveria no mínimo se desculpar.
–Você só pode estar de brincadeira. Ninguém tem culpa se a sua mãe é uma mulher grosseira!
–Você ta passando dos limites...
–Ah é? Então me bate, Sam, mas bate bem forte pra mostrar o que você nunca vai deixar de ser, por que ta no seu sangue.
– Prefiro mil vezes ser aquela que agride pra se defender do que ser uma falsa e fingida que apunhala pelas costas!
–Olha como fala! –Gritou avançando. –Minha mãe não tem culpa se a sua mãe não teve a capacidade de entender o que ela disse!
–É que minha mãe não é ofidioglota! E quer saber, se pensa tudo isso da gente, você só precisa ficar longe de mim.
–Será um prazer!
Sam foi até onde havia deixado a mochila e a colocou nos ombros enquanto se dirigia até a saída. Lançou um ultimo olhar magoado a Freddie, que tinha um olhar ligeiramente arrependido, enquanto se esforçava para manter a expressão dura. A raiva acabou vencendo.
Durante a aula de biologia, na qual o professor falava tediosamente sobre micro-organismos, Freddie mal conseguia prestar atenção. Sempre que possível, lançava olhares discretos ao fundo da sala, onde Sam se encontrava sentada ao lado de Griffin. Ambos pareciam extremamente concentrados na aula, e mantinham a atenção voltada ao microscópio em cima da mesa ou em seus cadernos. Não era possível a Freddie ver os olhares que lhe eram lançados quando se encontrava de costas.
–Sam, a atividade é pra ser feita em dupla. –Dizia Griffin. –Se puder me ajudar, eu agradeço.
–E o que eu estou fazendo?
–Não sei, mas protozoários são eucariotas. Não foi o que acabou de anotar.
–Eu não... Que droga! –Ela apagou o que anotara com fúria. –Me distrai.
–Precisa ficar atenta. Aconteceu algum problema?
–Não, eu só me distrai.
Griffin assentiu em silencio fingindo que não notara a nem tão discreta troca de olhares.
O som dos talheres e do burburinho na cantina era algo típico na hora do almoço. Enquanto comiam, Carly e Gibby estavam sentados na mesma mesa, conversando sobre o estado estranho em que Freddie se encontrava, a ponto de nem aparecer para almoçar, quando outro garoto se aproximou e sentou na mesa em que eles estavam.
–Ola. Como vão?
–Oi, Jeremy. –Cumprimentou Gibby surpreso. –Há quanto tempo!
–E vou sumir por mais tempo ainda. –Disse com um sorriso triste.
–O que houve? –Perguntou Carly?
–Vou me mudar. Ainda não sei quando, mas acho que os negócios do meu pai não vão bem.
–Isso não tem a ver com a...
–Eu achei que não. –Respondeu Jeremy. –Mas meu pai disse que sim. A maioria dos clientes do meu pai são conservadores. Não gostam da ideia de um dos donos da empresa ter uma filha fugida...
–Isso é um absurdo. –Afirmou Carly. –O que uma coisa tem a ver com a outra?
–Muitos acham –Respondeu Gibby – Que se alguém não controla a própria família, também não consegue controlar os negócios...
–E pra completar. –Jeremy riu sarcástico. –Alguém anda fazendo com que os jornais deem bastante visibilidade a isso. Um chegou a afirmar que a Wendy sofria maus tratos.
–Não é uma mentira completa. –Disse Gibby indignado. –Eu só espero que ela esteja bem.
–Gosta dela, Gibby? –Perguntou Jeremy desconfiado.
–Claro, ela é minha amiga. E sinceramente, acho que você teve culpa pelo que aconteceu. Não quis te dizer antes por que vi que estava mal, mas se tivesse dado o tempo que ela pediu...
–Ela iria embora de qualquer jeito!
–Não iria não. –Gibby alterou a voz. –Ela não queria casar, e ninguém apoiou a decisão o que queria que ela fizesse? Que ficasse sendo maltratada até completar dezoito anos? E depois, pra onde iria? Vocês destruíram a vida dela!
Jeremy baixou os olhos sem encontrar uma resposta. A verdade é que sabia da decisão dela, e também não tinha muita vontade de casar, mas queria que Wendy pagasse por todas as suas traições. Queria mostrar que tinha mais poder do que ela, não viviam mais um namoro, e sim uma competição. No fim, os dois saíram perdendo.
Quando chegou em casa, Freddie teve que se conter para não soltar um grito tamanho foi o susto que levou. Havia uma garoa deitada no sofá da sala, dormindo tranquilamente, abraçando uma almofada. Aparentava ter uns dezoito anos, era extremamente bonita, alta magra cabelos louro escuro, e trajava um lindo vestido azul. Após alguns segundos fitando-a aturdido, Freddie se aproximou cautelosamente e a sacudiu pelo ombro enquanto a chamava.
Lentamente ela abriu os olhos revelando a iris verde. Depois, recuou e levantou assustada e começou a se explicar.
–Meu Deus, eu dormi! Perdoe-me, você deve ser Freddie. Sou Cintia, amiga da sua mãe.
–Amiga de onde, e por que estava dormindo aqui? –Perguntou ainda aturdido.
–Me desculpe, é que eu moro um pouco longe. Mas quando soube do ocorrido, tive que vir! Então sua mãe disse que eu podia passar uns dias aqui, mas não se preocupe só pretendo ficar essa noite.
Freddie assentiu ainda desconfiado e se dirigiu até o quarto após pedir que ela aguardasse um momento. Voltou segundos depois, mais tranquilo por ter confirmado a história com a mãe que voltou a dormir assim que ele saiu do quarto.
–Desculpe-me, a demora fui ver se ela estava bem. –Pediu Freddie. –queria sentar.
–Obrigada. –Disse sentando. –Sou estudante de enfermagem e sua mãe me ajudou muito quando tive de fazer um trabalho aqui em Seattle.
–Quando foi isso?
–No começo do ano. Na verdade não moro tão longe assim, sou de Yakima. Mas estudo na Califórnia.
–Hm... Legal. –disse ele sentando –Quer comer alguma coisa?
–É muita gentileza sua. Mas acabo de comer num restaurante japonês aqui perto, estou impressionada!
–Também amo a comida que eles servem, mas não é nada comparada a...
Freddie foi interrompido pela campainha.
–Deixa que eu atendo! –Disse ela correndo até a porta.
Freddie achou aquilo extremamente inconveniente e tentou impedi-la, mas foi inútil. Em poucos segundo, ela estava na frente da porta da sala, falando com a pessoa que tocara a campainha. Freddie levantou e se aproximou, empalidecendo ao ver a expressão de Sam. Sem dizer absolutamente nada, Sam deu as costas e tentou sair dali o mais rápido possível. Freddie adiantou-se até ela, empurrando Cintia acidentalmente.
–Hei, volta aqui. –Freddie a puxou pelo braço.
–Eu volto outra hora. –Ela tentou se desvencilhar inutilmente. – To vendo que agora está ocupado!
–Não estou ocupado. –Freddie virou-se para Cintia. –Pode nos dar licença?
–Claro. –Ela se afastou sorrindo.
– Então é assim? A gente briga e quando venho aqui encontro isso? E me solta!
–Não, eu não vou te soltar. –Freddie a puxou para dentro e fechou a porta. –Eu acabei de chegar, e encontrei essa garota aqui dentro. Ela disse que é amiga da minha mãe.
–Amiga da sua mãe? Deixa ver se eu adivinho, a sua mãe também convidou ela pra dormir aqui?
Freddie não conseguiu disfarçar a surpresa por aquelas palavras. Soltou o braço de Sam lentamente enquanto procurava um argumento, sem encontra-lo. Observou ela levar a mão ao braço e massagea-lo por conta da dor que provavelmente sentia. Freddie sentiu a culpa invadi-lo ao ver que a marca dos seus dedos haviam ficado no braço dela.
–Sam, me desculpe. Eu, eu só não queria que fosse embora achando...
–Já entendi. –Disse rispidamente. –Eu só vim dizer que... Nem sei mais se faz diferença...
–Claro que faz. Também queria falar com você.
–Mas não me procurou.
–Eu não sabia o que dizer. Na verdade ainda não sei.
Sam respirou fundo antes de começar a falar.
–Eu não estava falando sério quando disse que ajudaria a bater na sua mãe, claro que eu apartaria. Mas ela realmente me ofendeu.
–Sam, se ao menos você tivesse ouvido... Desculpa não cosigo confiar na sua mãe.
–Entendo, mas procure também não confiar na sua. Por que ambas querem nos ver longe um do outro, não vamos odia-las por isso, mas não da pra ficar passando a mão pela cabeça!
–Não que eu esteja justificando, mas minha mãe implica com você pelas brincadeiras que você fazia. Sua mãe me julga sem me conhecer!
–Mas isso é uma questão de tempo. Mas e a sua mãe? Nem em mil anos ela vai me aceitar!
–Vai sim. Ela não tem outra alternativa.
Sam desviou o olhar tentando não ceder a hipnose que os olhos daquele garoto lhe causavam, mas quando voltou a encara-lo novamente, viu que um sorriso começava a se desenhar no rosto dele. Freddie havia se aproximado mantendo uma distancia extremamente curta entre eles e chegou a roçar os lábios nos dela quando uma voz ásperas ecoou pela sala.
–Tire já esta garota da minha casa, Freddie!
–Como vai senhora Benson? –Perguntou Sam com um sorriso cínico. –Sinto muito por...
–Saia daqui, criatura repugnante!
–Fico feliz em ver que esteja bem! Mas não devia gritar após um reimplante dentário!
–Sam! –Freddie a olhava chocado.
–É isso Freddie, que quer ter como amiga?
–É, tem gente que não sabe selecionar os amigos. –Sam disse num tom amigável. –Acabam se surpreendendo.
Marissa a fitou intrigada por alguns segundos, e depois pôs a mão sobre o peito simulando uma dor. Sam revirou os olhos enquanto sentia a mão de Freddie em sua cintura, conduzindo-a até a saída. Só quando estavam no corredor é que ela notou o quanto ele estava irritado.
–Depois a gente conversa. –Disse ele.
–Não, não será necessário. –Sam sorriu tristemente. –A sua mãe já percebeu que pode te manipular... E eu não estou disposta a aturar isso.
–Eu não sou manipulável!
–Então entra, e sugere que ela converse comigo de forma civilizada!
Sam cruzou os braços esperando que ele tomasse a decisão, já sabendo que aquele era o fim da linha. Vendo que ele não respondia, ela deu as costas e se foi. O silencio dele a dilacerou por dentro, e quando ela ouviu o som da porta se fechando, teve a certeza de que Marissa havia vencido.
Freddie entrou e após verificar que a mãe estava bem, sentou no sofá sentindo a cabeça girar. Sam o chamara de manipulado, e fazer o que ela queria só comprovava isso. Sua mãe não estava bem, Sam tinha que entender, pois as coisas não podiam acontecer sempre de acordo com a vontade dela. Mas sentia-se angustiado cada vez que lembrava da forma que ela o olhou, do esforço que teve de fazer para deixa-la ir sem dizer mais nada. Talvez houvesse tempo de ir atrás, talvez não...
Três dias passaram-se sem que nenhum dos dois voltassem a se falar. A situação piorou quando Freddie viu, no dia seguinte a briga, Sam conversando com um garoto muito animadamente, num canto do pátio, atrás de uma pilastra. Daí por diante, em vez de tentativas de reconciliação, seguiram-se uma serie de provocações que podiam envolver ou não terceiros. Em uma manhã, uma garota convidava Freddie para uma festa, e ele já tinha um não na ponta da língua, quando viu a Sam aproximando-se. Passou a conversar com a outra garota num tom de flerte, e percebeu com satisfação a expressão de Sam mudar de indiferente para indignada, e depois para o irritada. Essa ultima o fez sentir um certo temor, e apenas quando ela se afastou, ele se permitiu respirar aliviado.
Mas a gravidade do problema se deu mesmo por causa de Sam. Primeiro ela ficara com Freddie, e embora isso ainda fosse visto por muitos como uma brincadeira ou um truque para obter audiencia para o Web show, ela agora era vista frequentemente conversando com outros garotos. Deduziram que Sam finalmente estava dando chances aos garotos do Ridgeway, o que não mais aconteceu depois de Michael. E não eram poucos os garotos que se interessavam por ela. Fosse por que era bonita, difícil, ou mesmo agressiva, havia pelo menos uma dúzia de garotos tentando se aproximar. Um deles teve a infelicidade de tentar fazer isso através de Freddie, já que ele e Sam trabalhavam juntos, e embora tivessem ficado, parecia estar comprovado que não havia nada entre eles. Freddie estava guardando suas coisas no armário, quando o garoto alguns centímetros mais alto que ele, magro e de cabelos negros, perguntou se ele tinha o telefone dela. Freddie sorriu e lhe passou o telefone de um hospital e esperou que ele fosse lhe perguntar o porquê depois, mas o garoto achou que havia sido uma piada por conta da agressividade de Sam e não o fez, mas desistiu de chama-la para sair.
Freddie decidiu por um fim naquele jogo no dia seguinte, chamando Sam a uma conversa séria.
Freddie se tornara um enigma para Cintia. Ele não demonstrou aborrecimento com o adiamento da partida dela, e durante os três dias em que ela se encontrava ali, ele havia sido extremamente cordial, o que a fez achar que o trabalho seria mais fácil. Estava enganada. Não importava o quanto ela jogasse charme pra cima dele, o quanto exibisse suas belas pernas ou o quanto fingisse gostar das mesmas coisas que ele.
Num ultimo esforço desesperado, ela se encaminhava ao quarto dele, as onze horas da noite. Se dessa vez ele não demonstrasse interesse ou se resistisse as suas investidas, ficaria claro que ou ele era homossexual ou realmente gostava muito da tal Samantha.
Freddie estava sentado na cama, lendo e se mostrou surpreso ao vê-la. Ajeitou-se e perguntou educadamente o que ela queria, ao que ela se aproximou e sentou na cama, e após fita-lo por um tempo, sorriu e disse que estava sem sono.
–Sinto muito, estou estudando. –Respondeu Freddie. –Mas por que não assiste TV?
–Eu queria conversar você. –Disse sorrindo. –Sabe, acho que a sua namorada não sabe o que esta perdendo.
Freddie não respondeu.
–Se eu encontrasse um cara que gostasse de mim, como você gosta dela eu seria mais compreensiva. Mais paciente...
–Um dia você encontra alguém. –Respondeu Freddie em um tom impaciente.
–Como você eu acho difícil. –Ela se aproximou com um sorriso insinuante. – Você é muito especial acho que esses foram um dos melhores dias da minha vida!
–Obrigada, mas eu realmente preciso estudar...
–Sabe Freddie, eu gostaria de levar uma lembrança mais significativa desses últimos dias.
–Cintia, eu...
Antes que Freddie pudesse concluir a frase, Cintia o beijou e deslizou as mãos sobre as cochas dele. Freddie regalou os olhos e a repeliu abruptamente levantando logo em seguida.
–Por que fez isso?
–Freddie... –Ela sorriu pondo as pernas sobre a cama. –Ninguém precisa ficar sabendo.
–Por favor, saia do meu quarto. –Pediu com firmeza.
Completamente abismada, Cintia levantou e saiu dirigindo-se ao quarto de hospedes onde estava instalada. Pensou em ir embora o mais rápido possível, mas talvez Freddie acabasse mudando de ideia, e a procurasse mais tarde, e por isso ela acabou ficando. Não estava completamente errada.
Assim que ela saiu do quarto, Freddie fechou a porta do quarto e passou a chave perguntando-se que diabo deu naquela garota para agir daquela forma. Não sentiu o mínimo interesse em ficar com ela, mesmo seu corpo tendo reagido de forma adversa a sua vontade quando as mãos dela o tocaram. Mas a verdade é que a imagem nítida de Sam em sua mente não permitiu que ele sentisse nada mais forte que repulsa em relação Cintia, mesmo ela sendo muito bonita.
Chegou um momento em que Freddie começou a se sentir culpado, mesmo não tendo feito nada. Devia ter pedido que Cintia saísse assim que ela entrou, ou então não ter se mostrado tão amigável, já que isso aparentemente criara ilusões na mente da garota. Freddie observava a noite da janela, respirando o ar frio e observando a noite nublada e o numero reduzido de carros circulando lá em baixo. Em meio aos pensamentos atribulados, sentiu os olhos começarem a pesar.
Freddie jogou-se na cama pondo os livros na cômoda e desligou o abajur. Instantes depois, adormeceu.
Acordou sentindo algo se movimentar por baixo dos lençóis e estremeceu. Seria Cintia de novo? Dessa vez teria de ser grosseiro. Freddie abriu os olhos e ligou o abajur. Já eram quatro horas da manhã. Não havia ninguém ali e dentro do quarto, imperava o mais absoluto silencio. Freddie aguardou alguns segundos e logo voltou a sentir os movimentos em baixo do lençol. Quando o levantou, era tarde demais. A víbora cravou os dentes na sua perna, injetando-lhe o seu veneno letal.
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