Notas iniciais
Desculpe a demora (demoramos? acho que sim e-e) mas então. Apreciem ;)

A garota de madeixas alaranjadas jazia – praticamente – deitada em sua cama espaçosa de casal, encarando fixamente o teto. Pensando em aleatoriedades para não pensar nos problemas, entretanto, ainda assim permanecia tão preocupada.

Passara uma semana inteira tensa, pois não importava a hora ou o lugar, a ruiva evitava Ulquiorra Schiffer de todas as maneiras possíveis. Não que a mesma estivesse com medo dele – longe disso –, estava intrigadíssima.

Havia questões nela que cansavam seu físico e remoíam sua mente. Isso fazia com que a garota agonizasse internamente, por não ter suas respostas.

Em primeiro, quem diabos falou com ela em sua cabeça naquele dia? Apenas sabia, seja quem fosse, não pertencia aquele mundo. Seres mundanos não possuíam tal poder.

Em segundo, não conseguia compreender Ulquiorra, mesmo vendo seu lado sombrio através dos olhos analíticos e enigmáticos, ainda assim não entendia onde havia parado sua humanidade, ou seus sentimentos, até mesmo expressões.

Nesse momento Inoue queria arrancar seus cabelos de tamanha ansiedade. Agora por essa tal ânsia, não sabia por qual dos motivos.

E, por último, – a mais complicada de todas –, era sabido que podia ler o verde resignado do moreno, porém como conseguia ver o puro vermelho escarlate do sangue que jorrava dos humanos? Isso não fazia o mínimo sentido.

Naquela terra, não adquiriu a possibilidade de enxergar e distinguir as cores, – fazia parte de sua penitência –, todavia a mesma pôde notar aos poucos, que a nitidez da sua visão se tornara mais forte, como um cinza bem escuro ao mais claro acinzentado, alternando entre as tonalidades mortas.

Orihime sentia que algo em si estava em processo de mutação. De início, achara que Sousuke Aizen tinha feito algo, mas estava enganada, pois ninguém tem poder para interferir nas coisas tocados por Deus, então por que tudo mudou desde que mirou as esmeraldas impenetráveis?

Suspirou pesadamente. Talvez gritar bem alto espantaria sua frustração. Logo sua mente deu um estalo.

“Ulquiorra!”

Decidiu, desde aquele momento, que ele era sua maior preocupação. As palavras venenosas dele daquele fatídico dia ainda a perturbava.

“Se acostumar com a morte?”

Impossível para a ruiva. Não como anjo do Senhor, mas sim como Inoue Orihime. Pois não importava quantas vezes seu cérebro a relembrava das cenas horrendas machadas em puro carmesim, nunca seria corrompida, sendo o que era de um manto sagrado. Ainda mantinha proteção divina e alma intocável.

Mesmo as mãos mais sujas desse mundo não seriam o suficiente para destruí-la.

Levantou-se da cama num pulo e olhou para cima, determinada. Podia ser uma nova realidade tentando massacrá-la, podia ser o mal propriamente dito, da mesma forma, não recuaria, não teria medo.

Seria petulante ao ponto da pura arrogância, se tornaria e não mudaria.

Com passos firmes e pesados, deixou o aposento, passou pelo corredor às pressas, porém aos poucos ia diminuindo gradativamente sua velocidade e voltara a seu angelical e habitual humor. Esse que fora estragado por uma presença indesejada vindo em sua direção.

Aizen caminhava majestosamente pelo corredor ostentando sua comum superioridade e escondendo sua real malícia, o que fez Inoue semicerrar os olhos pela primeira vez.

“A arrogância leva à ruína, sabia?” – Pensou consigo. Torceu mentalmente para que o castanho apenas passasse direto por si, fato que não ocorrera.

Sousuke já ao longe a viu, e parou no meio do trajeto, somente a esperando alcançá-lo.

Quando a ruiva o viu parar, soltou um grunhido baixo em completo desgosto, e diminuiu seus passos, tentando evitar o máximo possível confrontar aquele homem.

Cessou sua locomoção ao ficar frente à frente com Aizen. O mesmo parecia estar completamente acostumado com a situação, enquanto Inoue evitava tremer de nervosismo.

– E então, doce Orihime – Começou com a voz suave – Como foi sua primeira missão? – Sorriu de leve – Traumatizante demais? – Passou os dedos levemente no cabelo – A ruiva desviou o olhar, aborrecida com o mini interrogatório. Logo ficou ainda mais desconfortável.

– Você sabia, certo? – Perguntou receosa – Sabia que tipo era a missão, e também sabia o que Ulquiorra ia fazer, não é? – Firmou a voz, demonstrando sua irritação. Aizen assentiu com a cabeça aumentando o sorriso – Se sabia, por que mandou que eu fosse com ele?

– Talvez por que eu queria ver como seria um anjo caído corrompido. – Foi como um tapa nela. Inoue arregalou os olhos, surpresa.

– M-Mas eu sou um anjo puro, nada pode me corromper. – Pôs a mão no peito, tentando controlar os batimentos cardíacos. Aizen sorriu presunçoso.

Hime, querida... – Aproximou-se dela – Você está na Terra, os pecados são o centro das pessoas. És uma caída, mesmo tendo o corpo de um anjo, um pecado por muito bem leva-la à perdição – Esclareceu – Uma gota de sangue pode macular uma seda branca, mas... – Tocou o queixo dela com a ponta dos dedos – Uma gota de pecado pode macular sua alma ao todo. – Orihime franziu o cenho ameaçada. – Foi realmente incrível que não tenha se machucado na missão, achei que no mínimo voltaria com algumas gotas de sangue manchando sua seda pura. – Disse doce e ironicamente.

A ruiva deu um passo para trás estapeando o toque da mão fria do homem.

– Ulquiorra me protegeu! – Elevou o tom de voz, amedrontada.

– Protegeu? – O acastanhado pareceu pensar – Então ele me obedeceu. – Lembrou-se da ordem dada ao mais novo – Muito interessante. – Então sorriu mais uma vez.

– Obedeceu? – A garota questionou, confusa.

– Ah, você não sabe, certo? – Cruzou os braços – Deve estar achando que Ulquiorra fez porque quis, talvez? – Sorriu de canto com a teoria especulada.

O acastanhado voltou de onde viera, mas antes de sumir no vasto corredor, girou-se em 180 graus, mostrando o sorriso maldoso, estes debochando dos olhos repletos de sentimentos.

– Deveria confiar menos no Ulquiorra, caída, ele não te protege porque quer, mas sim porque eu ordenei que fizesse tal. Acredite, o garoto prefere matá-la ao invés de cuidar de você. – Voltou a andar, deixando as palavras maldosas – e verdadeiras – atormentarem a ruiva.

Inoue encarava os próprios pés, apertando a barra da blusa fortemente. Já sabia que não podia confiar no moreno, mas então...

Por quê?

Por que isso a incomodava tanto?

Ou melhor...

Por que se sentia tão frustrada com aquelas palavras?

Soltou um suspiro pesaroso, logo voltando a andar. Caminhou até a escada no fim do corredor, e quando ia descê-la, um som estridente de algum objeto se quebrando veio da cozinha. Aflita, desceu rapidamente quase tropeçando entre os próprios pés, correndo em direção à cozinha.

Quando entrou no cômodo, viu Hinamori agachada recolhendo os cacos de um prato de porcelana. Sem hesitar, a ruiva caminhou até a morena e a ajudou a pegá-los. Quando a garota foi dizer algo, sua boca fora fechada ao avistar os olhos da morena, observou os quão trêmulos estavam, mostrando um semblante amedrontado.

– Hinamori-san... O que houve? – Perguntou visivelmente preocupada e a garota levantou um pouco o rosto para mirá-la.

– Não foi nada – Sorriu forçadamente e Orihime franziu o cenho, desconfiada – É só que... Ele está aqui. – Disse desviando o olhar.

– Ele? Ele quem? – Perguntou confusa.

– Grimmjow Jaegerjaquez – A ruiva continuava sem entender – Olha, você ainda não o conhece, portanto, Orihime-san... Siga meu conselho e tente evita-lo.... Ele é assustador. – Esclareceu.

Ao terminar de ajudar Hinamori, logo virou-se em direção à entrada da cozinha, avistando um homem de olhos e cabelos azulados.

– Ei, quem é você? – Perguntou para Orihime sem nem ao menos se apresentar e sem educação.

– Ela chegou há pouco tempo, Aizen-sama a está mantendo aqui. – Respondeu rápida e prontamente a morena, e logo saíra às pressas do ambiente ao receber um olhar feroz.

Ao passar pela ruiva, Hinamori sussurra baixinho somente para Inoue ouvir, essa, então, entendeu quem era o homem arrogante a sua frente.

“Grimmjow.”

O azulado se aproximara rapidamente da ruiva, agachando-se e ficando um pouco à altura dos olhos dela. Sorriu maleficamente ao mirá-los.

“Não gostei dele.”

– Como se chama, menina? – Perguntou com o sorriso alargado. Orihime percebeu que havia algum tipo de pintura no canto superior dos olhos.

– Inoue Orihime. – Disse áspera, mesmo não querendo respondê-lo.

– Então, Orihime-chan, o quanto você é valiosa? – Questionou a deixando confusa – Para Aizen te manter viva, deve ter certa utilidade. – Alargou ainda mais os seus lábios.

Orihime até pensou em dizer que era um anjo caído, mas se lembrara das palavras de Aizen, por isso, apenas desviou o olhar.

– Oh, não vai dizer? – Riu sadicamente e puxou o rosto dela em um quase encontro com o seu – Não desvie o olhar, odeio ser ignorado.

– Largue a mulher. – Murmurou Ulquiorra, inquebrantável. Orihime não tinha necessidade de se virar para saber quem era.

– Tsc! – Grimmjow estalou a língua e largou o rosto dela se levantando – Deve ser muito preciosa para até Ulquiorra lhe proteger, Orihime-chan.

A garota sentiu a tensão no ar e quando ia se levantar, ouviu uma risada arrogante vindo do azulado. Ulquiorra semicerrou os olhos.

– Que ironia pensar que você a está protegendo, Ulquiorra! – Disse Jaegerjaquez, ficando sério pela primeira vez em seguida.

– É uma ordem. – Murmura Ulquiorra sem emoção.

– Ordem, huh? – Parou para pensar num segundo – Você nunca seguiu uma ordem antes, era o único que não seguia! – Emite meio irritado.

Ulquiorra pôs as mãos nos bolsos, de fato, Grimmjow o irritava, o irritava deveras.

– Saia daqui, mulher. – Disse com a maior autoridade possível.

Inoue nem pensou em responder, somente levantou-se e saiu a passos maiores do que a perna permitia da cozinha. Sentia a aura maligna que emanava dos dois.

Quando saiu da cozinha, viu um tipo de hall espaçoso, não havia móveis, muito parecido com a entrada de um motel.

“Observar os meus protegidos, de certa forma, me foi útil para algumas informações desse planeta.” – Pensa, nostálgica.

Parou no meio do lugar, encarando a porta. Queria sair, porém não sabia ao certo se podia. Reunindo um pouco de coragem, a garota caminhou até a porta, e quando tocou a maçaneta com a ponta dos dedos, a mesma foi para baixo, destrancando sozinha.

Deu passos rápidos para trás, surpresa, avistando um homem muito alto. Ele usava tapa-olho, e a encarava. O primeiro pensamento foi sair de perto, mas quando ameaçou sair, a voz ameaçadora do homem a parou, literalmente.

– Parada aí. – Ordenou, a voz era tão grossa e poderosa que estancou no mesmo lugar na hora. – Onde está Aizen?

Antes de pensar numa resposta, a ruiva observou as feições do homem, tinha cabelos enormes e negros e com o tapa-olho dava a ele uma aparência selvagem – seu rosto estava rígido e não demonstrava paciência, parecia que explodir a qualquer momento.

– E-Eu... Não sei. – Murmurou, temerosa.

O homem a olhou no fundo dos olhos, percebendo o medo e o receio da menina. Trincou os dentes, impaciente, pelo visto, não ia conseguir alguma coisa com a menina.

– Merda. – Pragueja – Aizen, cadê você? Maldito! – Berra a plenos pulmões.

Empurrou a ruiva para lado, e com passos pesados subiu as escadas com velocidade e pressa. A garota levou um tempo para raciocinar tudo, contudo, antes mesmo de entrar em ordem sua mente, começou a seguir o homem enfurecido.

Esse seguia pelo corredor apressadíssimo, não olhou em porta alguma, só dirigiu-se até a última porta enorme e de madeira. Arrombou a porta com força, a quebrando e indo ao chão.

Quando Orihime chegou no recinto com a respiração descompassada, o acastanhado olhava confuso para o homem, nem percebendo sua presença. A mesma olhou ao redor, estavam no escritório do primeiro dia em que passou a morar na mansão, viu um objeto estranho pousado na mesa de Aizen – era uma caixa de metal aberta com uma pedra roxa-azulada. Franziu o cenho.

“Uma joia?” – Se auto perguntou, tinha a insólita sensação de conhecer de algum local aquela pequena pedra, sentia que era de extremo mérito.

No momento em que Aizen notou a presença do anjo caído, fora como um estalo em sua mente, fechou a caixa com tudo e apressou-se em guardá-la em uma gaveta, a trancando.

O mais alto andou até a mesa do castanho e bateu as duas mãos na mesa com força, ganhando a atenção para ele mais uma vez.

– Onde está a Yachiru? – Questionou esbravejante, até mais do que anteriormente.

– Não estou com aquela fedelha. – Disse seriamente e levantou-se dando a volta na mesa ficando na frente do homem – Eu não costumo pegar crianças, Zaraki Kenpachi.

Zaraki bufou fortemente e passou a mão em uma grande katana em suas costas – que só agora Orihime a percebeu –, agora parecia nem saber o que fazer.

– Se você não está com ela, então quem está? – Perguntou exasperado.

Inoue, que até agora não estava entendendo bulhufas, sentira uma certa compaixão pelo homem, vê-lo tão desesperado pela localização da tal Yachiru demonstrava o quando se importava com a pessoa, e a ruiva achou aquele sentimento tão nostálgico.

– Eu posso não estar com a garota – Tocou no ombro do maior – Mas se você quiser, pode me dar esse trabalho. E é claro, eu adoraria. – Propôs com um sorriso de canto.

Kenpachi olhou desconfiado para o acastanhado e desviou o olhar para a menina parada em pé na porta. Automaticamente, Inoue assustou-se, não sabia como agir sob o olhar dele. Mas o inusitado era como se quisesse uma confirmação dela.

Instintivamente, a ruiva balançou levemente a cabeça, em um ato de concordância. O homem estreitou os olhos ainda desconfiado, mas relaxou as feições quando notou o ar inocente da garota e um pensamento estranho lhe passou pela mente.

“Igual a Yachiru.” – Pensou, realmente era alguém inocente demais para um lugar tão pútrido.

Em um tapa, Zaraki retirou a mão do castanho de seu ombro.

– Eu aceito a sua proposta. Mas se caso fazer algo contra Yachiru, eu mesmo me divertirei cortando você. – Sorriu sadicamente e saiu passando pela ruiva e sussurrando para somente a mesma escutar – Cuide da Yachiru, Aizen é trapaceiro – Murmurou e saiu do lugar, deixando Orihime e Aizen a sós.

Aizen sorriu.

– Parece que tenho mais um trabalho para vocês dois, minha cara. – Passou a mão pelo cabelo, fechando os olhos – Pecados e tentações poderão aparecer. – Soltou, sarcástico.

A ruiva, pela primeira vez, não ligou para o que o acastanhado dizia. Na verdade, via uma oportunidade gloriosa, ou uma chance de ouro, de ajudar o próximo e de proteger alguém.

Então, não deixaria que ninguém manchasse sua bela e intocável seda branca.