Notas iniciais
Queremos review. Porque sim -q

O olhar verde de aspecto melancólico encarava o portão de metal velho e enferrujado, analisando perspectivamente todo o ambiente. Em passos lentos e silenciosos, olhava para todos os lados possíveis, nenhum detalhe passava despercebido – Não havia câmeras, nenhum segurança ou animal. Ulquiorra virou sua face lentamente para trás, mirando o beco estreito e vazio que passara momentos antes e estranhando o porquê de não haver alguém sequer. Voltou-se para o velho portão, e, com um rápido movimento de sua mão direita, bateu no metal uma vez.

Silêncio.

– Tsc – Estreitou os olhos demonstrando desconfiança e descontentamento, por não ser atendido logo de primeira. Voltou a bater na portada, duas vezes e com mais força, causando estrondo na entrada.

Ninguém.

Tentou ouvir algum ruído do lado de dentro, mas não conseguiu. Tudo estava muito quieto, como se estivesse abandonado. Dessa vez, bateu quatro vezes, com a mão direita aberta, fortemente, e mais alto, sendo o suficiente para ecoar o seu barulho pela ruela vazia.

Uma ruidosa movimentação pôde ser ouvida de dentro do galpão, como alguns sussurros baixos e um alto grito, esse sendo uma ordem para que abrissem a porta rapidamente.

O moreno deu um passo para trás, e a porta rangeu fortemente, revelando dois homens a empurrando, um de cada lado. Um pouco mais atrás deles, havia uma mulher de pele morena, cabelos loiros e olhos esverdeados, era raro e um pouco irônico uma mulher ser a chefe de uma gangue de traficantes de escravas. Franziu as sobrancelhas internamente, porém seu rosto continha a mesma máscara de inexpressão.

Curiosamente, a mulher encarou Ulquiorra com uma frieza parecida com a sua. Dificilmente se encontrava pessoas com olhares tão duros e frígidos.

Olhos que já viram muito.

A loira caminhou em sua direção, quando viu seu caminho livre. Parou a poucos centímetros de seu rosto, podia até sentir a respiração calma da mesma. O hálito dela cheirava a bebida alcóolica e cigarros. Ulquiorra começou a se sentir incomodado com o silêncio. Apertou suas mãos com os punhos cerrados, que estavam nos bolsos de sua calça.

A moça, no fim de sua análise, deu um mínimo sorriso de canto.

“Ela sabia...”

– Olha só... – Sua voz era arrastada e quase mecânica – Você deve ser Ulquiorra Schiffer. – Pegou um bloco de notas que estava em uma das mãos e começou a anotar algo rapidamente. – Tahyuki disse que viria escolher uma serva para ele, mas... – Pousou o bloco em seu bolso e cruzou os braços em volta dos fartos seios – Não vou poder ficar para lhe receber de maneira agradável. – Sorriu falsamente – E, infelizmente, hoje estamos com apenas uma menina, e a mesma tem um pequeno problema... – Pausou suas palavras ao perceber que estava prestando um mínimo de atenção – Ela não enxerga cores. – Os olhos verdes se arregalaram minimamente.

Schiffer refletiu sobre esse fato... Uma pessoa que não vê cores, e ainda mais uma garota, será que...?

Não.

Logo se repreendeu em pensamentos pelo o que cogitou, voltando ao seu olhar costumeiro. A mulher deu um suspiro desinteressado e voltou sua atenção para seus capangas.

– Levem-no até a garota. – Olhou por cima dos ombros do moreno, para o beco – Vou sair e provavelmente não vou voltar... Hoje. – Pôs as mãos em um dos bolsos e entregou um molho de chaves para um dos subordinados.

– Hai, Tia Halibel-sama.

Começou a andar calmamente e quando passou por Ulquiorra sussurrou disfarçadamente, para que somente ele escutasse.

– Melhor se apressar, parece que irá começar a chover.

Ulquiorra virou seu pescoço rapidamente para ela, recebendo um pequeno sorriso de diversão.

– Senhor? – Um dos empregados o chamou, atraindo sua atenção – Nos acompanhe, iremos mostrar a garota assim como Halibel-sama pediu – Deu início ao seu percurso guiado pelos homens.

Os dois subordinados andavam à frente dele, o deixando totalmente livre para agir.

“Primeiro erro.”

O moreno olhou brevemente em volta, era tão escuro e silencioso.

E vazio.

– Há mais alguém por aqui? – Perguntou, aumentando seu tom de voz, sendo essa a primeira vez que ouviram a mesma.

– Hã? – Um dos homens olhou para ele de ombros – Não, somente nós e a garota daltônica. – Voltou sua atenção para o trajeto.

“Segundo erro.”

Continuaram o caminho até chegarem na frente de uma cela, o homem que continha consigo o molho de chaves apressou seu passo para destrancar o cativeiro. Os capangas restantes saíram de sua frente. Andou, com as mãos nos bolsos, para dentro do espaço, analisando a pessoa que estava sentada acorrentada no chão.

Longos cabelos alaranjados espalhavam-se pelo chão, seu rosto permanecia vendado, a garota estava silenciosa e parecia dormir.

– Senhor, essa é a... – A voz do capanga morreu no segundo que viu o estado do moreno.

Ulquiorra deu dois passos para trás e seus olhos estavam arregalados, a visão que teve o perturbou até cair sentado de costas nas grades de metal, causando barulho alto e suficiente para a garota acordar. Ela virou o rosto para todos os lados, e levantou-se bruscamente, ficando bem atenta ao tentar prestar atenção no que acontecia ao seu redor.

Um dos capangas virou seus olhos para Ulquiorra, mas ele não estava mais lá, no lugar dele havia o corpo dilacerado de um dos seus companheiros, com os olhos abertos e quase opacos. A garganta do mesmo vertia sangue, levou a mão para o corte e tentava respirar em desespero engasgado em seu próprio líquido vermelho escarlate. Com sérias dificuldades, levantou um pouco a cabeça para observar aquele que fez aquilo: Ulquiorra.

O moreno estava com uma das mãos nos bolsos e olhando para baixo, planejando qual matar por segundo. A outra mão estava ensanguentada, com uma bela adaga de ébano, na qual pingava sangue. Seu rosto se mantinha indiferente à situação.

O subordinado com o molho de chaves estava estático, seus músculos se contraíram, permanecia em estado de pânico, e respirava rapidamente.

– N-Não, p-por favor... – Sua voz foi calada com um rápido corte na garganta, onde espirrou uma quantidade absurda de sangue, sangue no qual Ulquiorra se desviou.

Uma das coisas que Ulquiorra mais detestava era quando pediam sua misericórdia, isso apenas o fazia ter mais vontade de terminar o serviço.

Com o terceiro homem não foi diferente, um rápido e ágil movimento, fora o suficiente para o Schiffer cortar a garganta desprotegida do mesmo, dessa vez não conseguiu desviar do jato de sangue, sujando suas roupas brancas. Respingou pequenas gotículas no rosto do moreno. Caiu no chão inerte, se debatendo por míseros segundos, logo, se entregando à morte.

O lugar ficou silencioso, só era ouvido a respiração rápida e amedrontada da menina. Nem sua própria respiração era audível. Ulquiorra sacodiu a adaga, tentando retirar todo o excesso de sangue, caminhou até a garota, com a adaga apontada para ela.

“Ela será a próxima.”

Quando ele ficou centímetros da garota que já estava de pé encostada na parede, percebeu que, fisicamente era normal, a mesma tremia de medo, pele pálida, lábios alinhados e róseos, o que ligeiramente chamou seu interesse fora o os olhos. Estavam vendados com um pedaço de pano de seu vestido branco e sujo.

Analisando mais sinuosamente a menina, percebera que não havia machucados, cicatrizes ou manchas, o estado físico da mesma estava totalmente intacto, o que é estranho se tratando daquele lugar.

A ruiva ficou em silêncio absoluto, quando notou a presença de uma pessoa na sua frente, forçou a si mesma a falar.

– Q-Quem está aí? – Perguntou vacilante.

– Permaneça quieta. – Ordenou friamente, a assustando claramente ao ouvi-lo.

Mesmo se contrariando, Schiffer ainda queria ver como era os olhos dela, mesmo que fosse somente para a mesma ver quem a assassinou, queria ver seu olhar aterrorizado quando tirasse o brilho do mesmo.

Ficando milímetros dela, apoiou a mão esquerda (e a adaga) na parede de concreto, e pressionou levemente seus dedos por cima dos olhos vendados. O coração dela começou a bater mais forte.

Ao se cansar da breve tortura psicológica nela, puxou o pano rapidamente para baixo, surpreendendo a garoto com seu movimento repentino.

Ela continuava com os olhos fechados, ao notar de que não possuía mais a venda que encobria seus orbes, os apertou fortemente, para não presenciar o fim de sua própria morte. O moreno, contrariado, desejava que a ruiva visse a si mesma ser morta por um desconhecido até o fim, queria ver o terror no rosto dela. Em vez de olhá-lo, a garota se recusava por medo.

Bom, digamos que por mais que matar seja sua obrigação, Ulquiorra se diverte ao ver o terror nas suas vítimas.

– Abra os olhos, mulher – Ordenou rispidamente.

A menina, amedrontada, abriu lentamente os olhos, mostrando dois brilhantes orbes acinzentados, estes que despertaram um resquício de surpresa no moreno. Apesar de tudo o que a mesma estava passando, os olhos eram tão inocentes quanto uma criança.

Gentileza?

Compaixão?

Compreensão?

Sinceridade?

Ingenuidade?

Sensibilidade?

Pureza?

Tudo que ele não sentia de bom, pôde identificar no segundo que os olhos acinzentados se encontraram com os esverdeados.

O que Ulquiorra não compreendeu, fora o fato de todo o medo que a garota possuía, tinha desaparecido no instante em que viu seus olhos verdes, não era somente impressão, ela realmente não demonstrava mais emoção no rosto e o corpo dela parou de tremer repentinamente. A confiança que emanava do olhar dela, o fazia se sentir não mais um lobo, mas um simples cordeiro.

Não podia ser possível, trata-se de uma escrava. Deveria estar maculada, machucada internamente que aqueles olhos não deveriam nem possuir vida e nem brilho daquela forma. Era para a garota ter se entregado à loucura e insanidade para então poder suportar a dor e a humilhação. Mas estava intocável, como se fosse...

Como se fosse um anjo.

A nova postura da garota fez Ulquiorra pensar duas vezes sobre o mesmo fato, ponderar sobre sua escolha. E ela não agia, nem expressava algo, apenas encarava os olhos esverdeados dele.

Com receio, Ulquiorra levantou sua adaga entretanto, antes mesmo de fazer qualquer coisa, a menina levou suas pequenas mãos delicadas até o seu rosto, o envolvendo, delineando suas marcas esverdeadas que, estranhamente, pareciam lágrimas. O homem ficara totalmente sem ação, nunca havia sentido o toque humano naquela região, em suas marcas.

Delineando constantemente as marcas com seus pequenos dedos, passou a delineá-las com as unhas. Schiffer se sentiu mais perdido, e, em um determinado momento, os lábios dela curvaram-se para um natural e doce sorriso.

Ulquiorra acabou por deixar a adaga cair, tilintando no chão de pedras, causando ecos no local, os olhos verdes permaneciam surpresos, arregalados, perante àquela situação.

– Não são cinzas. – Disse a garota pela primeira vez, despertando o homem de seus devaneios.

– O quê? – Sua voz grossa saiu em um sussurro quase inaudível. Das marcas os olhos dela voltaram-se para os orbes esmeraldas.

– Não somente as marcas, os olhos também... – A menina se espantou de sua constatação – São verdes, verdes tão profundos, tão intensos... – Envolveu completamente o rosto dele, mexendo nos cabelos negros, com essa ousadia... – Oh meu Deus! São solitários, um verde sofrido e abandonados, perdidos. Eu consigo ver... – Apertou suas pequenas mãos no rosto do moreno – Onegai, me deixe ajuda-lo a livrar desse verde, senhor – Pediu em um último sussurro, e sorriu para ele mais uma vez.

Ulquiorra desprezava qualquer contato, então se forçou a retirar as mãos dela de seu rosto, suspirou sentindo o ar fétido do local e logo se acalmou. Virou para o lado e fechou os olhos, começou a pensar um pouco.

“Quem é essa mulher? O que ela é?”

“O que acabou de acontecer aqui?”

Mais calmo, após recuperar sua razão, abriu os olhos e voltou a analisar atentamente a estranha garota que continuava com um sincero sorriso. Como diabos conseguia sorrir dessa maneira para ele, um assassino sangue frio? Por acaso a mesma tinha algum problema?

Será que essa garota é o que o mesmo está procurando?

A sua tão procurada “Liberdade”?

Notas finais
R-E-V-I-E-W -q