Notas iniciais
Adoramos os reviews do prólogo, mas para as pessoas que estão acompanhando e não mandaram reviews faz uma força ai! ^.^ Boa leitura.

Seus passos silenciosos e calculados ecoavam pelo ambiente indesejável que teria de percorrer; as roupas brancas e alinhadas era o que podia ser visto naquele breu macabro. Suas vestes eram tudo de claro nele, pois seu interior era o mais podre, denso e escuro, até mais do que o abismo escuro daquele recinto. Os cabelos acastanhados permaneciam jogados para trás, porém uma mecha ondulada insistia em ficar na frente de seu belo rosto bem desenhado. Os olhos entreabertos mostravam calma e acolhimento, disfarçados na sua real malícia e crueldade. Seus lábios persistiam em curvar-se em um sorriso doce e divertido.

Sarcástico. Até demais.

O caminho do fétido calabouço era deveras longo, quanto mais o homem andava, mais os ruídos ressoavam entre as paredes de pedra. Eram ruídos parecidos com correntes arrastadas. Ignorando as celas em que passava, dirigia-se majestosamente pelas mesmas — a maioria vazias -, porém os poucos prisioneiros que estavam nelas, o olhavam com nojo e irritação, seus corpos estavam mal tratados, todos eles acorrentados pelos pés, as feições intimidadoras continham seus cenhos completamente franzidos desde o momento em que o belo homem com interior podre aparecera por ali. Rosnavam feito animais para o mesmo, contudo, pouco se importava. Isso significa que seu maior interesse era o que iria encontrar no fim do extenso corredor.

Quanto mais este prosseguia, apareciam mais prisioneiros ousados, até mesmo o xingavam e o afrontavam. Alguns tentavam agarrá-lo através das grades.

Pobres coitados.

Dignos de pena.

Ou não.

Eles não sabiam o demônio que estavam cutucando.

O homem deu uma breve olhada para um deles que chutara a grade com toda a sua força, causando um barulho estrondoso no lugar — seu olhar mudara. Simplesmente ignorou e continuou seu trajeto.

“Se eu não estivesse com pressa, teria me divertido matando este imprudente homem.” – Pensou, voltando ao seu habitual e aparente, doce olhar.

Sua mente deu um estalo e seus passos aceleraram de ritmo, pois estava com muito mais do que simples pressa, necessitava convencer seu mais novo “capacho”.

Ao final do corredor, cessou sua caminhada, travando em frente de uma cela, a última do calabouço. A luz fraca da lua entrava por uma fresta da outra parede batendo diretamente em um ser sentado encostado na parede. O moreno analisou aquele que viera buscar e sorriu ao observar o estado lamentável dele. Os pés do prisioneiro estavam presos por grossas correntes, assim como suas mãos. Seu pescoço também estava preso por uma escura coleira de metal com três correntes presas à ela, ligadas à parede logo atrás do jovem.

A cabeça do mesmo permanecia baixa, um som calmo de respiração soava pela cela – ele ainda estava dormindo. O homem de vestes brancas tocou na porta da cela e a abriu sem muitas dificuldades, os sons de metal velho e enferrujado se chocando foram o suficiente para o rapaz no chão despertar de seu sono aparentemente tranquilo. Levantara a cabeça devagar, com os olhos fechados. Abriu rapidamente os orbes revelando duas esferas verdes esmeraldas, prontos para ver o seu “visitante”.

O homem de pé deixou escapar um riso curto e fino, observando bem o jovem – Os fios negros e desgrenhados caiam sobre a testa, suas sobrancelhas deixavam o garoto com uma expressão melancólica; abaixo dos olhos verdes continham marcas verdes que desciam até o fim de seu rosto foram iluminados pela pouca luz que tinha. Sua pele era extremamente pálida, deixando bem visível as marcas de antigas agressões, seus lábios estavam imóveis, retos e desgostosos com a pessoa que o estava analisando. Tudo no garoto continuava o mesmo desde que fora preso, até mesmo seu gélido olhar – essa criatura o fascinava.

– Há quanto tempo... Ulquiorra Schiffer. – A voz grossa e aveludada do homem percorreu por todo o lugar — É bom saber que continua vivo. – Sorriu docemente, debochado. O outro voltou a fechar os olhos, sem estar interessado.

– Não posso dizer o mesmo... – Murmurou com desdém – Sousuke Aizen.

– Que frieza... – Aizen disse com falsa mágoa na voz.

– Diga logo o que quer. – Disse inexpressível.

– Vou direto ao que interessa, então. – Voltou ao seu tom habitual. – Você vai trabalhar para mim – Murmurou alto o suficiente para Ulquiorra escutar, dando ênfase no ‘vai’.

Ulquiorra deu uma breve olhada no homem, sem dúvidas, não estava se tratando de um pedido, mas sim de uma ordem, uma que o de olhos verdes teria nojo de cumprir.

– ... Servir à você? – Franziu as sobrancelhas levemente – Não irei fazer isso. – Aizen bufou.

– Se me jurar plena lealdade, posso conseguir sua liberdade. – Propôs, ainda não conseguindo o interesse total do jovem.

– Liberdade? – Murmurou com leve tom de ironia – Não preciso de você para fugir daqui. – Disse convicto. Aizen riu diante da ignorância do mesmo.

– Não digo desta maneira – Encarou seriamente o moreno, que estreitou os olhos – Eu posso te conseguir “A Liberdade”. – Ulquiorra arregalou os olhos brevemente.

Se realmente aquele homem que estava à sua frente tivesse tal poder para realmente conseguir “A Liberdade”, podia ser até que de seu interesse. Ulquiorra respirou fundo, lutando contra si mesmo para passar por cima de seu próprio orgulho e se rebaixar à Sousuke Aizen.

Desprezível.

– O que... – Iniciou sua fala num fio de voz, chamando a atenção de Aizen – O que exatamente tenho de fazer? – Encerrou de maneira firme.

– Oh, achei que não iria aceitar – Disse com arrogância na voz, irritando Schiffer. – Nada demais, apenas... Alguns trabalhos. – Sorriu doce.

– Os sujos. – Ulquiorra afirmou e Aizen assentiu.

– Mas não é só para mim... Algumas pessoas vão precisar de sua assistência.

– Ou seja, quer que eu mate. – Aizen sorriu.

– Não se engane, há outros tipos de trabalhos – Disse explicando – Como o de salvar pessoas.

– Eu não preciso salvar ninguém, não quero salvar alguém. – Sussurrou para si mesmo, enquanto o outro apenas ignorou.

Aizen chegou mais perto do rapaz, de seu bolso saiu uma chave e destrancou os cadeados das correntes e a coleira no pescoço, ofereceu a mão para que ele se levantasse. Ulquiorra somente deu um tapa na mão estendida do Sousuke, a dispensando.

– Ah, Ulquiorra, não aja assim – Sorriu levemente. – Veja, você é como uma espada na mão de um guerreiro... – Disse observando o rapaz se levantar – Se o guerreiro souber manejá-lo bem, será uma arma mortal, implacável. – Ulquiorra caminhou para fora da cela ignorando o comentário comparativo do homem.

O Schiffer lhe dirigiu o olhar mais gélido, o que fez Aizen ficar sério anormalmente. Na mente de Sousuke Aizen passava inúmeros pensamentos imprevisíveis, o que tornava difícil para Ulquiorra decifrá-lo. Uma dúvida incomodava o de vestes brancas, uma na qual não sabia como desvendar.

– Ainda não compreendo o porquê de você não ter saído daqui, para procurar sua “Liberdade” sozinho. – Disse para si mesmo, baixo, mas que fora o bastante para Ulquiorra ouvir. Ele parou por um segundo de andar, entretanto logo recomeçou seu trajeto, respondendo a dúvida do outro.

– Eu tenho meus motivos... Motivos nos quais não são da sua conta. – Sussurrou friamente e sumiu daquela podridão de lugar, deixando seu ‘Senhor’ para trás.

[...]

Dois anos depois

Dirigia-se até seu novo trabalho, sem total interesse. Passava silenciosamente pela rua e da multidão de pessoas barulhentas, as poucas pessoas que o percebiam, logo se afastavam quando enxergavam o olhar estoico e frio.

Um pouco mais à frente de seu destino, pode identificar a cafeteria que o tinha contratado, um lugar simples, emanava suavidade, todavia Ulquiorra sabia que era falsa, apenas servia de fachada, também sabia que essa ‘humilde’ loja escondia o horror da humanidade. Sem rodeios, empurrou a porta da mesma, de resposta, um sino pequeno tocou acima dele, indicação que algum cliente novo havia chegado.

Em poucos segundos, uma atendente veio rapidamente em sua direção.

– Bom dia, senhor, no que posso ajudá-lo? – Perguntou gentilmente com um sorriso falso.

– Onde está o Tahyuki? – Indagou com indiferença. Dito isso a mulher empalideceu, arregalou os olhos, e deu três passos para trás, com medo daquele homem.

– Você é Ulquiorra-sama? – Reuniu um pouco de coragem e perguntou incerta. Ulquiorra apenas a encarou de soslaio.

– O Chefe está te esperando, siga-me – Sorriu forçadamente, e começou a andar, o guiando.

A mulher passou do balcão, atravessou a cozinha e parou em frente de uma porta mais surrada, com Ulquiorra em seu encalço. Um cheiro de podridão estava impregnado na madeira, a sensação de algo fétido atrás daquela porta deixava ele um pouco incomodado. A atendente tomou fôlego e abriu de uma vez a porta, saindo da frente do rapaz. Pôde ouvir a mulher vomitando logo atrás dele.

Aquele recinto continha tudo que lembrava a morte. Sangue impregnado nas paredes, restos de órgãos humanos esmagados e espalhados pelo local. Ao longo do corredor era possível ver objetos pelo chão, olhando mais atentamente, pôde perceber que não se tratava de objetos, mas sim partes de cadáveres, como braços, pernas, mãos, dedos.

Pôde também perceber o porquê do cheiro ruim e da mulher ter se apavorado quando o chefe fora mencionado. A mulher, ainda apavorada, porém um pouco recuperada, tomou a frente do caminho, ignorando os restos mortais que ali residiam. Andava com passos largos e rápidos, desviando dos detritos dos corpos dilacerados. Ulquiorra, por outro lado, pouco se importou com o que havia ali, não estava surpreso, afinal era o de se esperar de alguém como aquele homem.

No final do corredor, uma grande porta de madeira nobre e detalhada os impedia de continuar. A “atendente” hesitou um pouco, não aparentava querer abri-la, mas mesmo assim o fez.

Um salão.

Um salão cor de vinho, amplo, espaçoso. Dentro dele não havia muitos móveis, apenas alguns necessários: Em cada parede havia duas poltronas claras, e duas correntes presas à parede de cada lado dos estofados, nessas havia alguém pendurado.

Uma mulher. Aparentemente uma escrava.

Seu rosto estava impiedosamente desfigurado, desfalecido, assim como o resto do seu corpo.

Imóvel.

Havia marcas de chicote pelo seu corpo nu inteiro. Gotículas de sangue fresco pingavam no chão de madeira refinada. Ping. Num som incessante que parecia ser eterno. Metade do couro cabeludo dela estava raspado, suas pernas não tinham mais a pele que costumava ter.

A mulher ao seu lado vomitou novamente. Horrorizada, saiu correndo do lugar, sem se importar.

Deve ter vomitado até as tripas.

O que chamara a atenção do Schiffer não fora o corpo maculado, mas sim o homem de pé que se encontrava ao lado da mulher morta. Ele passava suas mãos sujas de sangue ora nos seios machucados da vítima, ora na barriga semiaberta. Circulava os dedos nos machucados que mais lhe atraíam, em uma carícia suave. Parou o que estava fazendo quando tocou os lábios arroxeados e frios da garota, se aproximando levemente, envolvendo a boca dela com a sua.

Explorava a boca dela avidamente, até que sentiu uma presença em seu salão predileto. Virou sua cabeça para o convidado, sorrindo largamente, ao ver os olhos e marcas verdes.

Começou a caminhar na direção de Ulquiorra, pegou um pano branco e limpou suas mãos imundas durante a ação. Passou as mãos recém-limpas no cabelo comprido e louro, e pronunciou.

– Ulquiorra-san, que maravilha vê-lo por aqui! – Esticou uma das mãos para cumprimentá-lo, porém Ulquiorra achou aquilo completamente desnecessário, não teve nem o trabalho de tirar suas mãos dos bolsos, apenas observou com impassibilidade a mão estendida, a dispensando.

– Não tenho tempo para falsas formalidades – Fora o suficiente para o loiro recolher a mão – Vim aqui apenas pelo trabalho. – Lançou o olhar mais indiferente que conseguia.

– É, parece que Aizen-san falava sério quando disse que era bem direto – Soltou um riso, desconcertado – O trabalho é simples... – Interrompeu sua fala para sentar em uma das poltronas e cruzando suas pernas, mudando sua expressão facial para sério – Só quero que você... Desfaça um certo grupo de traficantes de escravos.

– Desfazer... – Ulquiorra arqueou levemente uma de suas sobrancelhas, ligeiramente desconfiado – Ou destruir? – Estreitou os olhos.

– Veja bem – Um sorriso sádico apareceu nos lábios do homem – Um comerciante como eu não pode ter concorrentes deste porte, assim meu negócio iria à ruína... – Passou uma mão levemente em seus cabelos mais uma vez – Imagina só, se meus clientes resolverem comprar seus próprios brinquedinhos, minha loja deixa de existir, e eu não quero isso. – Cruzou suas mãos e as apoiou no colo. – Eu realmente não quero isso, gosto muito de me divertir neste humilde lugar.

A expressão de Ulquiorra não mudou, afinal já vira milhares de lixos como aquele. Não o julgou mentalmente, afinal de contas, não era tão diferente dele, a única distinção entre eles era que Tahyuki matava por diversão e Ulquiorra matava por obrigação. Mesmo assim, não deixou de sentir um desprezo por aquele homem, matando jovens mulheres apenas para se entreter.

Lixo nojento.

– Eu só preciso saber onde é o esconderijo deles – Disse automaticamente, já que era um serviço comum.

Sorrindo largamente, Tahyuki levantou-se e entregou um documento que estava no chão ao lado da sua poltrona, definitivamente o loiro fez um ótimo negócio.

Notas finais
Gostaram? Então mande reviews! u-u AUHEUHEA