Notas iniciais
Boa leitura, pessoa, esperamos não ter demorado muito.

O coelho branco.

Só podia ser, sentia a forte e estranha sensação emanando do simples animal de pelúcia, escutava os sussurros desesperados clamando por ajuda, sôfregas envolta por um minúsculo fio de esperança.

O medo.

O sentimento mais primitivo de todo ser humano, assim como o mais angustiante. Por ele as pessoas podem cometer as piores loucuras.

Estava lá, impregnado no pequeno brinquedo sujo e manchado, a maldade sendo consumida pela pureza da representação do bem. Tudo estava selado naquele coelho, até mesmo a dor e o ódio — causas e consequências de atos maldosos.

Mesmo assim, causava um contraste tão certo — luz engolindo trevas. E tudo isso acontecia em um objeto praticamente insignificante.

Orihime sentiu os principais ossos dos seus joelhos fraquejarem, fora obrigada a sentar-se no chão frio. A visão se embaçou, assim aos poucos podia ver suas forças sumindo, quase como se estivessem sendo sugadas para fora de seu corpo.

"Preciso achar o Ulquiorra." – Pensou enquanto respirava com dificuldade.

De certa forma, sabia que o moreno estoico daria um jeito nessa bagunça.

Respirou fundo e ergueu-se, mesmo que não pudesse achar Ulquiorra, precisava encontrar Yachiru. Forçou alguns passos, tarefa impossível na situação em que Inoue se encontrava, onde não tinha forças o suficiente, obviamente a garota iria cair.

Quando estava prestes a cair, largou o coelho no chão ao seu lado, e num segundo sentiu ser amparada por braços largos, fortes e extremamente pálidos. Até pareciam os braços de Ulquiorra.

Entretanto, definitivamente não era, não tinha o conforto que braços deviam ter. Nem olhou para o sujeito, afinal não necessitava saber quem era, somente a constatação de que o perigo é iminente.

Inoue tentou se desvencilhar de quem estava a segurando, mas como já previa, não conseguiu nem mesmo movê-lo um pouco, muito pelo contrário, só se apoiou ainda mais nele. Tomou coragem e ergueu seu rosto para encarar o indivíduo.

"Não pode ser..."

Sua surpresa fora tamanha ao mirar o dono do circo a segurando.

Seus olhos azuis frios entreabertos, os cabelos acinzentados e escorridos estavam caídos sobre a testa, os lábios sustentavam um largo sorriso sarcástico e divertido.

Esse era Ichimaru Gin.

O sorriso traiçoeiro dele era similar ao das pessoas dopadas no circo, contudo, não estava drogado. Era uma característica sua.

Um arrepiou percorreu por toda sua espinha dorsal ao sentir a mão do homem circular sua cintura, a puxando para cada vez mais perto.

– Yare, yare... Tome mais cuidado! – Sussurrou enquanto lhe apertava a cintura, a impossibilitando de se soltar.

– A-Arigatou... – Se remexeu um pouco, logo fora mais apertada ainda – J-Já pode me soltar agora. – Sibilou como um alerta, porém de nada adiantou, o homem aparentou pouco se importar.

– Hum... – Abriu mais os olhos para observar o rosto da ruiva e alargou o sorriso cínico – E se eu não quiser? – Perguntou retoricamente.

– E-Eh? – Inoue ofegou, era como se estivesse sendo esmagada por uma forte presença de uma cobra – Onegai, me solte. – Tentou firmar sua voz.

Gin gargalhou levemente.

E então, a ruiva desesperou-se, como certeza não a soltaria por um mero pedido seu.

– Cabelos longos e ruivos, pele levemente pálida e... – Sem delicadezas a virou de costas para si e puxou a blusa dela para cima, lhe dando a visão das costas nuas – Duas cicatrizes nas omoplatas... – Sussurrou as duas últimas palavras no ouvido da moça, em seguida a girou nos braços para ficar de frente com Inoue novamente – Então é mesmo Inoue Orihime, o anjo caído sob domínio de Aizen-san.

Orihime arregalou os olhos. Mas o que raios estava acontecendo ali?

– O que você quer comigo? – Afinou a voz, franzindo o cenho.

Levantou a mão para empurrá-lo, no entanto Gin pegou sua mão entrelaçando com a sua, se negando-se a soltá-la.

– Eu quero... – Encostou seus lábios na orelha dela – A bênção de um anjo. – Sussurrou sedutor e mordiscou de leve o seu lóbulo.

A garota corou subitamente, envergonhada por tais palavras insinuantes e pela carícia libidinosa.

– N-N-Não posso fazer isso. – Tentou se manter firme, o que fora em vão.

– Ora, mas é óbvio que pode, um anjo tão puro como você consegue trazer riquezas, sorte e pureza para qualquer um que os queira.

A moça fora empurrada para trás, até se chocar contra um espelho, a mão que antes estava entrelaçada com a mão da ruiva agora toca-lhe o queixo, puxando seu rosto contra o dele e consequentemente contra os lábios masculinos entreabertos.

Inoue fechou os olhos fortemente, temerosa, pois sabia o que significava aquilo e não gostara disso, era impróprio para uma pessoa como ela.

Não mexera um centímetro sequer, mesmo quando a língua de Gin adentrava sua boca, pedindo passagem. Definitivamente, não queria aquilo.

Ichimaru apertou com força as bochechas pintadas em um tom rosa. Queria mais do que encurralar o anjo, mais do que provocar um simples pânico, desejava traumatizá-la, assim como a submissão e acima de tudo, a atenção da garota.

Inoue gemeu de dor com o repentino aperto, entreabrindo os lábios um pouco, espaço suficiente para a língua do homem invadir sua boca. Com o susto acabou abrindo os olhos cinzas indo de encontro com os semicerrados do outro.

Ichimaru Gin era realmente uma cobra, das piores.

Então Inoue teve uma enorme vontade de chorar ali e agora, mas não deveria demonstrar fraqueza contra um ser daqueles...

Se não daria o bote de uma vez por todas.

[...]

Ulquiorra procurou praticamente em todo o circo, viu tudo o que estava ocorrendo ali, e viu as pessoas – Foram repudiadas pelo mesmo – dopadas com algum tipo de droga que lhe era desconhecida.

Viu de tudo, porém ainda não havia visto a única pessoa que procurava. Queria saber o porquê de Aizen ter armado tudo aquilo, desejava respostas e com certeza as arrancaria de Gin.

Enquanto passava pela caótica multidão, seus olhos treinados viram uma cabelereira alaranjada, era o garoto de mais cedo, Kurosaki Ichigo. Franziu o cenho automaticamente ao perceber que a mulher não estava com o mesmo.

O moreno foi em direção do garoto, o puxando com certa brutalidade.

– Onde está a mulher?

O ruivo juntou as sobrancelhas com certa irritabilidade, odiava o escárnio e indiferença provindos da voz daquele ser.

– Inoue está atrás da Alice. – Respondeu se desvencilhando do aperto do maior.

O menino deu a meia volta e voltou para o seu trajeto, pois queria terminar seu trabalho o mais rápido possível para procurar por Inoue.

Algo está errado.

Schiffer o puxou novamente impossibilitando de continuar a andar e com esse puxão virou a criança para a frente dele.

– Me leve até a mulher – Estreitou os olhos – Agora. – Sibilou em tom de ordem.

O ruivo desferiu um tapa na mão do moreno a repelindo do seu braço.

– Não vou levá-lo a lugar algum, pois eu não preciso.

Ulquiorra se sentiu enojado com aquele garoto prepotente.

– Acha que me importo com isso? – Indagou friamente – Estou ordenando, me leve até a mulher. – Soou ameaçador, saindo do comum, o que significava que o moreno estava perdendo a paciência.

Ichigo abriu a boca para responder, contudo fora interrompido com um berro que ecoou pelo lugar.

Ah, ela está desmaiada. – As pessoas dopadas diziam a mesma frase para si mesmas.

No mesmo segundo, o pequeno ruivo saiu da visão do moreno tão rápido que se não estivesse prestando atenção nele, não teria percebido sua fuga. O avistou correndo em direção ao aglomerado de pessoas que se formava em volta do ser caído no chão. Quando finalmente conseguiu abrir espaço para avistá-la, surpreendeu-se.

Não era Inoue.

Era a rosada que Inoue está procurando.

A Alice estava ali, Yachiru.

Uma sombra passou pelo seu lado, podia jurar sentir aquela presença tão densa e fria quanto as próprias trevas, era Ulquiorra. O garoto não se moveu um centímetro sequer.

O moreno abaixou e passou a examinar a criança. Com certeza era a menina que mandou a mulher procurar, só não entendia porque a rosada havia sumido, ou melhor, porque Aizen mandou raptá-la e por ter negado essa acusação. Com uma das mãos virou a cabeça da menina para o lado e viu uma pequena mancha avermelhada se formando. Não havia sinais de espancamento ou algo parecido, pôde perceber que tinha um furo no meio da marca vermelha, tal como uma agulha de uma seringa.

O maior pegou a menina no colo, a essa altura, as pessoas já haviam esquecido da existência da criança envoltas pelos seus próprios mundos, os únicos que continuavam ali era Ulquiorra e Ichigo.

Quando Schiffer se virou para o garoto o viu estancado no mesmo lugar de olhos arregalados, a criança percebeu alguma coisa importante. Antes do moreno se pronunciar o ruivo fora mais rápido.

– Eu vou te levar até Inoue, só... – Levantou o rosto angustiado para encarar Ulquiorra – Temos que ir logo. – Mal terminou a frase e saiu correndo pela direção do quarto dos espelhos seguido do moreno.

Kurosaki correu entre as pessoas, algumas o mesmo até empurrava ou esbarrava, tentando achar o local no qual o outro nem imaginava, a única coisa que poderia fazer naquela situação era segui-lo. A criança parou em uma porta ofegante e a abriu rapidamente e entrou rapidamente, continuando sua corrida. Quando o maior entrou avistou as paredes cheias de espelhos que confundiam o caminho, assim não conseguiu seguir o menino, pois eram muitas imagens do ruivo que sumiam e reapareciam, assim foi andando por onde ele julgara que o garoto tivesse ido.

Finalmente viu as paredes se alargarem em uma espécie de corredor conseguiu achar o menino. Estranhou o fato do pequeno estar parado na entrada paralisado, e quando parou ao lado da criança, paralisou também. Achou a mulher, mas não só a ruiva, como também Ichimaru Gin. O homem a estava agarrando e a beijando vorazmente.

Ulquiorra ficou sem ação, não pretendia interferir, apesar de querer explicações de Gin sobre tudo que estava acontecendo, ficou desmotivado a se mover e interromper aquilo, por mais que estivesse sentindo um estranho incômodo e uma súbita raiva.

Após alguns segundos em que eles haviam chegado, Gin se separou da ruiva ofegante e corada, virou os olhos para o recinto e cravou a atenção nos únicos olhos que continham cor para si. Viu a mulher franzir o cenho e sussurrar seu nome em um fio de voz.

Ichimaru sorriu largamente depois de se afastar dela e abaixou-se pegando o animal de pelúcia e o pressionou sobre o peito dela, encostou a boca no pequeno ouvido e murmurou algo no qual somente Orihime tinha escutado. Largou o objeto nas mãos da garota que adquiriu uma expressão estranha depois das palavras do albino.

Gin sorriu sarcasticamente e virou-se deixando a mulher para trás e indo na direção de Ulquiorra. Quando passou pelo moreno, o mesmo o segurou pelo braço.

– O que significa isso, Ichimaru Gin? – Perguntou estoicamente, durante um segundo Gin achou que era sobre o beijo, mas enganou-se – O que Sousuke Aizen pretende? – Questionou sem rodeios, deixando o albino decepcionado.

– Hoh, sobre isso... – Abriu os olhos revelando as írises azuis e o sorriso de cobra não estava mais no rosto do acinzentado – Quem sabe, vá tirar satisfação com Aizen-san, Ulquiorra-kun. – Sibilou e se livrou da mão do outro, sumindo entre os espelhos.

Schiffer se permitiu suspirar tentando não pensar em de que maneira matar Ichimaru Gin seria melhor e caminhou até a ruiva que observava atônica o pequeno animal. Agora o mesmo vira que era um coelho branco.

– O que Ichimaru Gin disse, mulher? – Questionou sem muito interesse aparente na voz, pois estava curioso sobre o que o albino havia dito para a ruiva

Inoue levantou o olhar do coelho e passou a encarar os olhos densamente esverdeados, ainda muito confusa.

– Ele não disse... Nada – Sussurrou um pouco baixo – Só disse... Que o coelho é importante.

O maior ficou meio desconfiado com a ruiva, todavia acabou deixando de lado por ora.

– Que seja. Vamos, mulher.

Orihime assentiu e apertou a pelúcia em seus braços enquanto se lembrava das palavras do outro que outrora havia lhe beijado.

“Aizen-san planejou tudo isso por você, somente para lhe entregar essa única peça, cuide bem do seu Coelho Branco.”

Suspirando pesadamente, a mesma andou lentamente até Ulquiorra.