Com uma expressão preocupada, Sakura observou as nuvens escuras que se alargavam pelo céu, ciente de que a tempestade que se aproximava representava um mau sinal para os novos moradores do condado. O céu parecia maior lá, os elementos da natureza mais poderosos, ou talvez, fosse apenas a estranheza do campo que a estivesse incomodando ao olhar para fora da carruagem. Seu irmão Sasori diria que ela lê muitos romances góticos, no entanto, não havia como negar que o destino deles era muito diferente do belo chalé que chamavam de lar por tanto tempo.

A triste verdade era que Sasori e ela eram órfãos – não do tipo indigente a procura de abrigo em orfanatos ou coisa do tipo, mas mesmo assim, órfãos. A mãe deles havia falecido quando eram apenas crianças, sendo lembrada com muito carinho, embora não tanto assim. Mas o pai morrera há menos de um ano, e essa ferida ainda estava recente.

Uma depressão notavelmente profunda na estrada jogou Sakura de encontro ao irmão, e ela sentiu-se grata pela presença sólida dele. Desde o acidente, haviam aprendido a contar mais um com o outro, tanto por escolha quanto por necessidade. Kizashi Haruno havia sido um estudioso – um homem de livros, não de negócios – e, desde a sua morte, eles haviam sido forçados a apertar os cintos.

Embora apenas dois anos mais velho que Sakura, aos vinte e um anos, Sasori mantinha a cabeça no lugar. Jamais havia sucumbido a tentação de jogar ou beber em excesso como havia tornado tantos colegas tolos, pobres ou coisa pior. Ele, às vezes, brincava com ela, dizendo que Sakura era o único bem no mercado casamenteiro, mas não tinham nem o dinheiro nem a disposição para a tarefa.

De modo que se permanecessem juntos, continuariam a pagar o aluguel da casa onde haviam morado com o pai, porém, pouco após a morte dele, o proprietário havia aumentado os preços, uma vez que estava desconfiado de dois jovens administrando a casa, já que suas fontes de renda estavam sendo testadas. Mas para onde ir?

Então, quando as coisas pareciam estar piores, o destino, enfim, deu uma reviravolta. A notícia de que haviam herdado uma propriedade de um parente distante pareceu um grande golpe de sorte. Venderam os moveis, arrumaram as malas e partiram imediatamente para o novo lar. Mas agora, enquanto Sakura observava as folhas cobrindo o chão da paisagem triste, carvalhos desnudos ao fundo, ela se perguntou se a situação não havia ficado ainda pior.

Quando o céu caiu, ela avistou uma enorme construção de pedra se erguendo ao longe. Assim como o futuro deles, a também tempestade caíra sobre os dois irmãos. Agarrando-se ao assento, Sakura inspirou profundamente. A estrada acidentada que havia lhes dado a impressão de ser quase intransponível antes, não ficou nada melhor sendo coberta pelas pesadas gotas de chuva.

- Deve ser Oakfield! Está vendo? – Sasori disse, inclinando-se a frente e apontando ansiosamente para a construção.

- Estou – murmurou Sakura, apertando os olhos para enxergar através das grossas paredes chuvosas. – Embora esta recepção não me pareça muito promissora.

Sempre o otimista, Sasori ignorou-lhe o desânimo.

- Bem, pelo menos achamos o lugar antes que as estradas desapareçam sob a chuva.

- Que ideia adorável – retrucou Sakura.

Sua vizinha de longa data, Lady Mikoto Uchiha, os havia alertado que o lugar parecia ser bastante antigo, mas Sakura não supusera que estaria além do alcance das estradas modernas.

Sasori riu, e Sakura pôs de lado seus receios, quando a carruagem se deteve em uma trovoada de cascos barulhentos. Sem aguardas o cocheiro, Sasori empurrou a porta, mas o vento e a chuva estavam tão violentos que ele teve de usar um pouco de força para abri-la. Sem dar atenção aos elementos, ele saltou para o chão e, com a mão estendida, virou-se para ela. Mas quando Sakura esticou a cabeça para fora, ela hesitou, piscando para proteger os olhos das gotas e fitando boquiaberta a cena diante de si.

O mundo lá fora estava impregnado do crepúsculo artificial da tempestade, a chuva forte dificultando a visão além do brilho fraco da lanterna da carruagem. Mas não havia como deixar de enxergar a enorme sombra de uma construção que se erguia atrás da figura do seu irmão, assustadoramente ameaçadora, e, no entanto, de algum modo familiar, como se Sakura já a houvesse visto em seus sonhos...

- Saki! – Sasori chamou e ela voltou novamente sua atenção para o irmão.

Quando os seus sapatos tocaram o chão, a capa estava enrolando-se ao redor dela e o capaz havia sido jogado para trás. Curvando-se, ela segurou a mão de Sasori, enquanto os dois corriam na direção da entrada em forma de arco.

- Olhe! É medieval – gritou Sasori, apontando para cima, e Sakura ergueu o rosto para ver o contorno do parapeito.

Ela se deteve mais uma vez para fitar a ameaçadora fachada de pedras antigas, cobertas por sombras ainda mais escuras. Ou ela estava se despedaçando, ou estava coberta com algum tipo de vegetação que lhe dava um aspecto ainda mais desagradável.

- Rápido, antes que acabemos os dois ensopados. – Sasori disse, puxando Sakura para dentro.

Mas já era tarde demais. O vestido de Sakura já estava colado às pernas, o frio e a umidade penetravam até os ossos. Desta vez, estava tendo dificuldade para compartilhar o entusiasmo do irmão. Sendo homem, em uma idade que buscava fortes emoções e novas experiências, ele via essa mudança todo como uma grande aventura, enquanto Sakura sentia falta da rotina e do conhecido que talvez a houvessem irritado antes, mas que, agora, seriam muito bem-vindos.

Postados sob o arco, Sasori bateu a porta, mas nãou houve resposta. Quando o cocheiro, Deidara, depositou um baú sobre os degraus da entrada, Sasori fez um sinal para que fosse embora.

- Veja se consegue encontrar um estábulo nos fundos – gritou, para ser ouvido acima do barulho da tempestade.

Deidara assentiu, e voltou para a carruagem, obviamente ansioso para encontrar refúgio seco, enquanto os Haruno permaneceram postados diante das enormes portas, sacudindo a aldrava.

- Talvez não consigam nos escutar – Sasori disse.

A noção não foi de muito consolo para Sakura, que tremia sob o castigo da chuva e olhou ao redor, examinando a escuridão que a cercava.

- Parece deserto – disse.

É verdade, parecia mesmo, pois nenhuma luz brilhava acolhedoramente nas janelas divididas por barras verticais. A aleia estava mal aparada, assim como a grama e os arbustos ao redor. O advogado avisara que a casa não havia sido muito bem cuidada durante os últimos anos, e que seria necessária a contratação de empregados adicionais. Agora, de pé sob a chuva, Sakura tentava imaginar o real significado de “adicional”.

Por fim, Sasori experimentou empurrar a porta, que se abriu após algumas poucas tentativas. Lá dentro, tudo estava escuro e silencioso, com pouca luz vinda do lado de fora.

- Olá? – chamou Sasori.

Sua voz ecoou pelo corredor antiquado, com seus pavilhões de pedra. Embora amplo, o lugar cheirava a mofo, e Sakura não pôde deixar de pensar no aconchegante chalé deles, com seu piso de madeira, paredes alegremente pintadas e as janelas amplas. Apesar das inúmeras pilhas empoeiradas de livros do pai, sempre cheirava a cera virgem e flores secas ou frescas.

- Bem, mesmo que não haja ninguém aqui para nos receber, estamos em nossa própria casa, Saki. O que acha de nossa sorte? – Sasori disse.

- Fenomenal – replicou ela com sarcasmo.

Como a jovem já previra, Sasori riu ante o tom de voz e tentou arrastar para dentro os baús.

Soltando a capa, Sakura procurou a cozinha, mas não encontrou nenhum consolo por Lá. Embora não houvesse criados por perto, o lugar dava a impressão de que fora abandonado em meio a realização de suas tarefas. Vários utensílios e tigelas estavam amontoados sobre a bancada. No entanto, quando estendeu a mão para tocá-los, o dedo enluvado ficou marcado pela poeira.

Era quase como se os moradores houvessem saído de repente, mas, quando? Sakura sacudiu a cabeça. Sendo esse o caso, não haviam deixado nenhuma comida para estragar ou atrair ratos, Sakura notou, com um rápido olhar para os cantos sombrios. Uma das paredes estava coberta de tábuas. Não era a toa que estava escuro.

Por sorte, a janela de outra parede estava intacta. Caminhando em sua direção, Sakura a limpou com a mão enluvada, e inclinou-se para espiar por ela. A principio conseguiu enxergar apenas a escuridão, mas depois, um rosto apareceu do outro lado da vidraça. Ela involuntariamente deixou escapar um grito, antes de reconhecer o próprio cocheiro.

Com o coração batendo forte, Sakura inspirou profundamente e se indireitou, ao se dirigir para abrir a porta mais próxima. Embora não fosse excessivamente delicada, ao que tudo indicava, não era imune a atmosfera sinistra da residência deserta.

- Sinto muito, senhorita – Deidara disse, ao entrar. Ele retirou o chapéu e tentou remover a chuva que havia se acumulado sobre os ombros. – Não foi minha intenção assustá-la.

- É claro que não – retrucou Sakura, sabendo como Sasori teria se acabado de rir da situação.

Ela havia pensado que uma infância repleta de travessura de meninos a teriam preparado para qualquer coisa, mas as novas cercanias eram o suficiente para desnortear qualquer um.

Quase como que aproveitando a deixa, Sasori apareceu na porta, segurando uma barra de ferro que devia ter pegado da lareira.

- Você está bem? – ele perguntou. – Pensei ter escutado alguma coisa.

- Receio ter dado um susto na senhorita Haruno. – Deidara confessou.

- Não foi nada – Sakura murmurou, e ao menos desta vez, Sasori não insistiu.

Tinha tarefas mais importantes para fazer.

- Não vi nenhuma das caixas que enviamos na frente – ele disse. – Viu alguma coisa nos estábulos?

Deidara sacudiu a cabeça.

- Meu menino, Konohamaru, está guardando os cavalos, mas não vimos nenhum sinal de ninguém. O lugar parece que não é usado há vários anos.

- Bem, acho que vamos ter que arrumar os nossos próprios empregados – Sasori disse.

- Espero que consigam encontrar um cavalariço decente por aqui – Deidara disse, olhando para o chapéu nas mãos.

- Você é bem-vindo se quiser ficar, é claro. Tanto você quanto Konohamaru – Sasori disse, embora Sakura soubesse que já haviam tido essa conversa antes.

- Obrigado, patrão, mas aqui simplesmente não é meu lar. Contudo, vou sentir saudade dos animais.

- É claro, cuidaremos deles pessoalmente, até conseguirmos contratar alguém de confiança – disse Sasori – E deve nos deixar saber como estão se adaptando com os Fielding.

- Pode deixar, patrão.

Antes que as coisas ficassem sentimentais demais, Sakura pigarreou.

- Bem, como não parece haver nenhum criado por aqui, vou ver o que consigo preparar para o nosso jantar. Você e o Konohamaru podem voltar para a cozinha assim que os cavalos estiverem ajeitados para passar a noite.

- Quer que arrumemos um quarto para vocês? – Sasori ofereceu.

- Não, patrão. Ficaremos bem nos estábulos. Há uma área separada com alguns catres.

- Muito bem. Obrigado, Deidara – Disse Sasori.

Ele deu a impressão de querer dizer mais, mas tudo já havia sido dito. Infelizmente, o cavalariço, a cozinheira e as criadas deles haviam optado por não se mudar para a região desconhecida. E, naquele instante, Sakura não teve como culpá-los. Para não se ver tentada a pegar a carruagem do correio para voltar com Deidara e Konohamaru, ela se concentrou no trabalho. Jogando a capa sobre uma cadeira, retioru as luvas e foi à procura de algo para comer, enquando Sasori acendia a lareira.

Não demorou muito para um belo fogo estar aceso, que espalhou calor e ânimo, embora o aposento em si não fosse exatamente acolhedor, Sakura procurou se convencer de que uma boa esfregada e uma tinta mais alegre ajudariam muito, embora não houvesse como mudar o fato de que a casa era velha, com seu próprio estilo e peculiaridades. Uma pessoa mais pessimista poderia considerá-la um horror medieval, saído dos romances mais populares, mas Sakura recusava-se a aceitar essa possibilidade.

Por Sasori, senão por ela, precisava ignorar tais pensamentos. Além do mais, tudo pareceria muito melhor com a chegada da manhã, pensou positivamente, ao sacudir e estender uma toalha sobre um dos cantos da bancada de trabalho. Poderiam comer ali, pois, apesar das boas intenções, ela não estava com disposição de encarar nenhum outro aposento naquele instante.

Sasori encontrou algumas lamparinas e acrescentou mais luz, o que melhorou o ambiente, e Sakura ficou grata. Sem saber o que os aguardava no restante do dia, haviam solicitado uma cesta bem grande ao prepararem o almoço, de modo que tinha galinha, presunto, fatias de queijo, um grande pedaço de pão e maçãs para a janta. Por sorte, em algum momento, a água havia sido trazida para dentro da casa em uma pipa, e Sasori apareceu com uma garrafa de vinho que foi muito bem-vinda.

Mas, quando os quatro se sentaram, formaram um grupo tristonho, todos cientes da despedida na manhã seguinte, deixou bem evidente a sua desaprovação de toda a situação, resmungando sobre o lugar desolado, no qual não havia sequer uma alma para recebê-los de modo apropriado.

- Ora,vamos, Deidara, você está falando de minha casa de campo – Sasori disse, fatiando mais um pouco de queijo para si. – Não acha que vou ser um bom fazendeiro?

- Provavelmente melhor do que um estudioso – Sakura disse e todos começaram a rir.

Mas nem mesmo o sarcasmo Dela e o bom humor do irmão foram capazes de aliviar a sensação de última refeição de condenado, que pairava sobre eles.

A atmosfera só fez ficar mais pesada depois que o cocheiro e o filho se recolheram aos estábulos, e Sasori e Sakura foram procurar algumas camas. Embora a tempestade houvesse se acalmado, estava um breu lá fora quando voltaram ao grande salão.

- Olhe só para aquela escadaria maravilhosa – Sasori disse, ao se aproximarem dos degraus que ligavam o térreo ao primeiro andar.

Eles se interrompiam após um lance em uma plataforma antes de voltar e subir, sua madeira escura entalhada em padrões complexos que, na opinião de Sakura, pareciam um pouco exagerados. Contudo, ela não queria desencorajar o irmão. Alguém precisava enxergar o lado positivo daquela experiência, e Sasori, obviamente, estava explodindo com algum tipo de orgulho masculino de proprietário.

Quando chegaram até a plataforma que separava os dois lances da escada, Sakura ergueu a lanterna na direção da escuridão.

- O que é isso?

A luz iluminou as pesadas placas de madeira que pareciam ter sido pregadas ao longo da parede.

- Talvez estejam cobrindo uma janela quebrada – Sasori disse – Em um lugar como este, talvez haja um vitral que seja caro demais para substituir.

- Mas a janela da cozinha também estava tapada com tábuas.

- Talvez mais de uma tenha se quebrado ao longo dos anos.

Sakura ergueu um dedo para tocar a madeira em meio à decoração da mansão medieval. Alguém parecia ter tido um bocado de trabalho para cobrir cada centímetro ali embaixo, talvez para impedir a entrada de ar. A casa já tinha correntes de ar suficientes, sem precisar de um buraco enorme na parede.

No andar de cima, enquanto iam de quarto em quarto, Sakura notou mais protetores de janela incomuns, desta vez, pesadas venezianas feitas de madeira.

- O lugar está lacrado como um barril de vinho – ela murmurou.

- Talvez a tia-avó Sayaka tivesse aversão à luz – Sasori brincou.

- Ou talvez um ciclone tenha passado, danificando toda a lateral da casa – Sakura disse, secamente.

Por mais estranho que pudesse parecer, uma das laterais da casa, em especial, estava de fato vedada com ripas de madeira, e as janelas viradas para aquele lado estavam com as venezianas bem fechadas. Curiosa, Sakura tentou abrir uma, apenas para ver que fora pregada no lugar.

- Ora, nem dá para soltá-las.

- Talvez o lugar tenha sido trancado após a morte da tia- avó Sayaka – Sasori respondeu, obviamente sem se preocupar muito.

Sakura virou-se tentando se localizar.

- Mas são os quartos virados para o fundo da casa, do mesmo modo que plataforma da escada, que estão completamente cobertos.

- Talvez o vento seja forte vindo daquela direção – Sasori sugeriu.

- Mas as janelas devem estar fechadas por baixo da proteção – Sakura afirmou. Colocando a mão diante das venezianas, ela não sentiu nenhuma corrente de ar. – E para que pregá-las?

- Talvez ela achasse que chacoalhavam demais. Sabe como são as pessoas idosas... – Sasori disse, por cima do ombro. – Os quartos dão a impressão de já não serem usados há muito tempo, de modo que, talvez, ela os tenha mandado fechar.

Evidentemente desinteressado, ele já seguia adiante, mas Sakura não se livrava da impressão de que algo não estava certo.

Por que alguém haveria de fechar e pregar as venezianas, e apenas as de certos aposentos? Ela sacudiu a cabeça, e virou-se para seguir o irmão, mas não conseguiu se livrar da sensação, que apenas servia para aumentar sua apreensão quanto a virada da sorte dos dois.

Quando, enfim, encontraram aposentos apropriados, Sakura desempacotou lençóis limpos e arrumou as camas. Surpreendentemente, Sasori foi de grande ajuda, embora fizesse piadas sobre seguir a sua vocação de criado. Embora o irmão permanecesse alegre, Sakura sabia que ele devia estar desanimado com as condições gerais da casa, que deveria ter sido preparada para a chegada dele por uma equipe de empregados prontos para recebê-los.

- Sem dúvida, o advogado entendeu errado a data de nossa chegada – Sakura disse para alegrá-lo, embora não tivesse tanta certeza.

Cercada de alguns de seus objetos pessoais, Sakura se preparou para dormir, sabendo que Sasori estava no quarto ao lado. E, no entanto, o fato de serem os únicos moradores da casa fazia o local parecer sobrenaturalmente silencioso, assim como sua localização, distante de qualquer vizinho, conhecidos ou não. Apenas o vento uivava dando-lhes as boas-vindas, mantendo-a acordada até tarde da noite e, depois, envolvendo-a em sonhos, onde paisagens góticas mudavam, transformando-se em seu novo lar.

O silêncio a acordou. Pelo menos, foi esta a sensação que teve. Talvez a terrível ventania, enfim, houvesse passado. O mais provável é que houvesse sido a falta de movimentação matinal, dos criados acendendo lareiras e preparando o café da manhã, a causa de Sakura piscar os olhos em sinal de confusão. Aqui, no novo ambiente, tudo estava silencioso, com a exceção do sutil assovio que atravessava a armação das janelas.

Por um longo tempo, Sakura ficou deitada ali, dando-se conta de sua situação. Em outros tempos, Shizune já estaria insistindo que ela se levantasse e se juntasse ao pai, que já estaria tomando café enquanto lia em livro, e tudo lhe seria tão familiar quanto o próprio reflexo no espelho. Mas tais dias faziam parte do passado, e uma pressão começou a se formar atrás de seus olhos, diante de tal percepção. Sakura piscou os olhos e sentou-se na cama.

Tinha Sasori e um lar e sentia-se grata a ambos. Tinha até janelas sem venezianas no novo quarto... Sakura pensou com um sorriso, e viu que o dia estava bonito e claro. Os acontecimentos da noite agora pareciam um sonho, produto do cansaço e do isolamento. Estava determinada a provar que hoje seria melhor, e apressou-se em fazer a toalete para seguir para o andar de baixo, onde encontrou Sasori comendo o que havia sobrado no cesto.

- Precisamos encontrar algumas galinhas e roubar seus ovos – ele disse, com a boca cheia, e Sakura sentiu o peito encher-se de alegria.

Quando o irmão empurrou para ela uma tigela fumegante, Sakura curvou-se para lhe dar um beijo.

- Por que isso? – ele perguntou, ainda comendo.

- Uma irmã não pode cumprimentar um irmão de forma gentil?

- Está apenas contente porque encontrei um pouco de chá de morango – Sasori disse.

- Você me conhece...

Podia passar sem muitas coisas, mas não sem o seu chá matinal de morango.

- Como dormiu? – Sasori perguntou e Sakura hesitou.

Sem dúvida, o irmão dormira como um bebê, e levaria para o lado pessoal qualquer reclamação de que ela não fizera o mesmo.

- É um pouco peculiar, tudo tão tranquilo – Sakura disse.

- Logo teremos novos empregados. Aí parecerá mais um lar. E não terá que cozinhar mais aquelas suas explosões em prato – brincou.

- Posso cozinhar muito bem, obrigada – Sakura disse, fazendo uma careta.

E era verdade. Tendo crescido sem a mãe, ela costumava seguir os empregados e havia aprendido, caso necessário, a se virar. A perda súbita da mãe também a fizer saber da velocidade com que as coisas podiam mudar, e ficou determinada a não depender de ninguém para nada, quer fosse na cozinha, sobre a sela de um cavalo, ou no manejo de uma pistola.

- Vamos ser capazes de pagar um número suficiente de empregados para cuidar disso aqui?

- É maior do que eu havia pensado – Sasori disse, ficando de pé e caminhando até a janela, como se falasse sobre a propriedade e não sobre a casa. Uma atitude tipicamente masculina. – Bem, também vamos herdar algum dinheiro, de modo que espero que sejamos capazes de administrar o lugar, assim como, também colocá-lo um pouco em ordem. Saberemos mais depois que o advogado chegar.

- Se ele chegar – Sakura disse.

- Tenho de levar Deidara e Konohamaru para a carruagem do correio em Oak’s Hallow, que é onde fica o escritório do homem, de modo que passarei lá para me certificar de que ele planeja tratar de negócios – Sasori disse.

- E descubra se ele está com as coisas de casa que enviamos na frente. Detestaria saber que os livros de papai desapareceram.

Sasori assentiu, pegou o casaco que havia deixado sobre o encosto da cadeira e o vestiu.

- Talvez seja melhor vir junto. Não gosto da ideia de deixá-la aqui sozinha.

- Bobagem – Sakura disse.

A resposta foi automática, uma resposta que já tinha dado inúmeras vezes ao irmão e, no entanto, se deu conta de que, agora, as circunstâncias eram outras. Estava sozinha em uma casa estranha e vazia, cercada apenas de pântanos desolados.

- Muito bem, então – Sasori retrucou, sem olhar para ela. – Duvido que tenha algum problema, mas as pistolas de duelo do vovô estão no quarto onde dormi.

O comentário casual não foi reconfortante, e Sakura abriu a boca para avisar que, no final das contas, ela o acompanharia. Mas ele já estava batendo a porta atrás de si, deixando-a em meio ao silêncio empoeirado.

Sakura sabia que ainda poderia alcançar Sasori antes que ele se fosse, e ele não zombaria da irmã por querer aompanhá-lo. Contudo, uma vida tentando se equiparar ao imão e insistentes exigências de sua própria independência explicavam a relutância em se entregar a temores femininos, mesmo que significasse permancecer em uma casa com peculiaridades suficientes para fazer uma heroína gótica desfalecer.

Embora Sakura não fosse do tipo que desfalecia, ela se perguntou se não deveria ter ido alcançar o irmão. Erguendo-se da cadeira, vestiu a capa e deixou a casa, na intenção de chamar Sasori. Ela o viu caminhando na direção dos estábulos, mas deteve diante do primeiro rela vislumbre de seus novos arredores.

Em vez de gramados bem aparados e verdejantes colinas, viu a grama alta necessitando desesperadamente de cuidados e pântanos improdutivos se estendendo ao longe. Com um ligeiro tremor, ela virou-se em busca de algum aspecto agradável. Tinha de haver um jardim, em algum lugar, pensou, ao seguir a trilha de cascalho cheia de ervas daninhas que seguia para os fundos da casa.

Havia apenas dado alguns passos quando avistou algo. Uma enorme e escura massa verdejante que a fez se deter.

- O que é? – gritou, perguntando para Sasori, e apontando.

- É um labirinto – o irmão gritou de volta, sorrindo.

Ele seguiu o seu caminho, e Sakura não fez menção de detê-lo, estava ocupada demais olhando o labirinto. Já havia ouvido falar de coisas parecidas, é claro, e até já vira um pequeno nos jardins públicos perto de seu antigo lar, mas a simples ideia de ser dona de um a arrepiou de alegria. Ela apressou-se até o final da trilha, depois hesitou apenas por um instante, antes de erguer a bainha da saia e pisar na grama úmida.

Como de costume, se ressentia das vestimentas mais razoáveis de Sasori, que consistiam apenas em calças, botas, blusa e colete. Ele já lhe dissera várias vezes que, no que lhe dizia respeito, ela poderia se vestir como homem. Embora tentada, Sakura jamais havia sucumbido. Havia sido bem traquinas quando mais nova, seguindo Sasori e os amigos para todos os lados, determinada a fazer tudo o que eles faziam. Mas, com o passar dos anos, havia se dado conta de que era, por natureza, diferente, e havia tentado adotar um comportamento mais adequado. Não foi muito difícil, ainda mais quando os ex-companheiros a revoltavam com alguma brincadeira masculina. Jamaisse contentaria em sentar e costurar, mas também não tinha vontade de andar aí usando calças, tosando carneiros, ou atirando em animais.

Embora os sapatos já estivessem úmidos, Sakura continuou a caminhar até alcançar os fundos da casa. Ali, uma espécie de terraço em ruínas estava cercado pelo que, outrora, já havia sido um jardim. E, atrás de tudo, enormes arbustos escuros se erguiam tão alto, que pareciam tapar tudo mais. Estremecendo diante dessa visão, Sakura apertou mais a capa ao redor do corpo, protegendo-se contra o frio súbito do ar. A folhagem excessivamente grande exercia tamanho fascínio sobre ela, que a compelia a buscar os seus segredos e, no entanto, ao mesmo tempo, seu aspecto nefasto a alertava para se manter longe.

- Não entre aí!

Sakura se sobressaltou diante do som dos seus pensamentos ditos em voz alta, mas, ao virar-se, viu que havia sido Sasori chamando-a da trilha.

- Vai acabar se perdendo, e temos de nos encontrar com o advogado.

Normalmente, o autoritário comando masculino a teria deixado furiosa, mas Sakura apenas assentiu concordando. Ainda assim, o irmão não fez nenhuma menção de ir embora. Obviamente, estava aguardando que ela retornasse a casa. Com um suspiro, caminhou na direção dele.

- Teremos bastante tempo para explorar mais tarde. Mas primeiros os negócios – ele acrescentou, sorrindo.

Sakura assentiu. Já houve uma época em que ela havia sido a mais prática, mas agora, orgulhava-se dele por aceitar tanta responsabilidade.

E, como ela demonstrava essa praticidade? Ao observá-lo partir, sabia que deveria ter ido com ele. Mas agora havia coisas mais interessantes para investigar em Oakfield, incluindo o labirinto nos fundos da casa, mas que não podia ser visto de nenhuma de suas janelas cobertas por grossas placas de madeira.