Conde das sombras
2 Sombras do passado
Sakura retornou a casa com um novo propósito. Logo estava vasculhando cada um dos aposentos voltados para o fundo da propriedade, mas todas as janelas estavam com as venezianas pregadas ou tapadas com tabuas de madeira. Até mesmo as portas que levavam ao terraço em ruínas haviam sido bloqueadas. Ela poderia ter aguardado o retorno de Sasori, mas estava impaciente demais para ver o que havia além dos jardins. Embora, ao nível do chão, o labirinto não passasse de arbustos altos, do alto da casa ela deveria ser capaz de enxergar melhor o seu desenho.
Girando nos calcanhares, Sakura decidiu procurar um pé de cabra ou alguma ferramenta que pudesse usar para soltar os painéis de madeira. Mas, ao chegar as escadas, lembrou-se de que, na noite anterior, Sasori havia apontado o parapeito, postos de vigilância no telhado que não eram incomuns em moradias medievais. Empolgou-se diante da perspectiva de ver a propriedade do alto, com todo o labirinto estendendo diante de si seus segredos, enfim revelados.
Embora Sakura procurasse um modo de subir, a escadaria principal não seguia adiante e, uma breve exploração não revelou nenhuma outra escada. Tinha de haver um modo de alcançar o telhado por dentro da casa, e tal escadaria deveria ter um acesso em cada andar, no entanto, tudo que Sakura encontrou foi uma porta que poderia ou não levá-la ao topo. E estava trancada.
Sua nova busca por uma chave a levou de novo ao andar térreo, onde descobriu mais duas portas trancadas. Quando chegou ao que parecia ser uma biblioteca – sem os livros – já estava suada e empoeirada. O aposento estava escuro, cheio de painéis e prateleiras que, para a decepção dela estavam vazias.
Com um suspiro, procurou se convencer de que não tinha muito tempo para ler. Na verdade, deveria estar catalogando o conteúdo da casa, ou passando uma vassoura nela, em vez de caçar fantasmas. E, no entanto, como novos proprietários, não deveriam Sasori e ela ser capazes de conhecer cada centímetro da construção, incluindo o que quer que estivesse trancado?
Com tal pensamento na cabeça, Sakura retornou a busca pelas chaves, e abriu as gavetas de uma escrivaninha alta que era um dos poucos móveis do aposento. A primeira vista, pareciam conter apenas cartas e recibos velhos. Ainda assim ela vasculhou cada centímetro delas, revirando papeis, até seus dedos tocarem algo metálico. Com um gritinho abafado de alegria, Sakura puxou da gaveta um molho de chaves que, provavelmente, havia sido descuidadamente largado ali.
Endireitando-se, lutou contra a compulsão de subir de mesmo instante até o andar seguinte. A lógica dizia que deveria primeiro experimentar as portas mais próximas, de modo que caminhou até as que ficavam naquele piso. E, se uma desse para uma escada de serviço que levasse até o parapeito, melhor ainda.
Infelizmente, não foi tão simples. Quando Sakura se posicionou diante da porta, experimentando chave após chave, sua impaciência foi ficando maior. Mas, quando já estava prestes a desistir, escutou um ruído na fechadura indicando o seu sucesso. Ainda assim, teve de se esforçar para abrir a porta, que parecia ter empenado devido ao clima úmido. Acrescentando todo o peso de seus esforços, ela se jogou para trás e puxou, até que a madeira pesada se abiu com uma barulheira que pareceu ecoar pela casa.
Recebida pelo cheiro de ar frio e úmido, Sakura espiou o interior escuro. Mas assim que se inclinou para a frente, algo mais emergiu de dentro da escuridão, e ela se jogou para trás com um grito. Mesmo tentando se convencer que a coisa provavelmente não passava de um pássaro, sua aversão a outra distinta possibilidade – que fosse um morcego – a fez correr para o mais longe possível. Sem saber se estava sendo perseguida, Sakura atravessou os aposentos, correndo na direção da frente da casa, abriu a porta, e , sem sequer pisar, se atirou no homem que ali parado.
– Sasuke!
Detida pelo corpo alto, Sakura sussurrou seu nome de encontro a lapela macia onde havia enterrado o seu rosto. Uma vaga lembrança de proteção se transformou em uma tranquilizadora sensação de segurança. Não era de se surpreender, pois o corpo rijo ao qual se agarrara era forte e sólido como um carvalho. E também cheirava bem, a cavalo, couro e algo mais. Ela jamais havia notado o perfume de Sasuke, mas, por outro lado, há anos que não chegava tão perto dele.
Ante tal pensamento, Sakur se deu conta como seu salvador encontrava-se imóvel sob os braços dela, o queixo erguido e os braços paralisados ao lado do corpo. Em vez de confortá-la, ele mesmo que a encheu de constrangimento. Sakura recuou, afastando-se dele. No entanto, ao retirar os braços de cima dele, sentiu uma pontada no coração, como se estivesse abrindo mão de algo vital e precioso.
Ou, talvez, apenas uma noite nesta monstruosidade medieval a havia enlouquecido por completo. Certamente havia afetado o comportamento dela. Tentando recuperar o bom senso, Sakura inspirou profundamente o ar outonal, que a fez pensar em chuva recente e folhas mortas, em vez de Sasuke Uchiha.
– Perdoe-me – ela disse, embora seu comportamento houvesse sido imperdoável.
Talvez ele pudesse ter sido aceito ou, ao menos tolerado, quando ela não passava de uma menininha correndo atrás do irmão e do seu melhor amigo. Mas tal amigo havia se afastado com o tempo e se tornado um homem. E, veja bem, não apenas um qualquer homem, mas um nobre do reino: o conde Uchiha.
Sakura pôde sentir as bochechas ardendo.
– Algo me assustou. Provavelmente um pássaro – murmurou.
Mas, mesmo ao proferir essas palavras, sabia como deveriam soar ridículas para alguém que já a conhecia tão bem. Quando criança havia sido decididamente destemida, e agora fugia de um pássaro?
O olhar frio de Sasuke a examinou, fazendo com que Sakura levasse a mão ao cabelo, algo havia voado nela, pois ele estava em tal estado desalinhado que nenhuma alisada discreta seria capas de dar um jeito. Sob o escrutínio impessoal do visitante, ela se deu conta de como sua aparência devia estar desleixada. Seu vestido diurno simples estava amarrotado e sujo, e borrões lhe manchavam a pele. Tudo que ela precisava era um avental para completar sua personificaçao de uma criada de cozinha. Ainda assim, não havia motivo para Sasuke a fitar de modo tão condescendente. Irritada, Sakura ergueu o queixo.
– O que está fazendo aqui? – ela perguntou, bruscamente.
Em vez de aparentar espanto ante a pergunta, Sasuke simplesmente ergueu uma das sobrancelhas escuras, como se estivesse lhe repreendendo a falta de bons modos. Desde quando ele era tão indiferente? Sakura se perguntou. Ainda mais desconcertante, desde quando ele era tão atraente assim? Sasuke sempre havia sido bonito mas, por outro lado, Sasori também. As moças sempre haviam suspirado por eles, mas Sakura jamais dera muita atenção ao fato, até agora.
Suas feições haviam se assentado, amadurecendo até se transformarem nesta beleza masculina, ou será que a familiaridade a cegara no tocante a aparência dele? Caso fosse este o caso, a familiaridade havia há muito desaparecido. Sakura o havia visto no enterro do pai, e no enterro do pai dele também, mas apenas por breves instantes e, antes disso, havia anos desde a ultima vez que ela e o irmão passaram alguns dias longos e relaxantes na companhia dele.
Ele era um homem alto agora, muito mais alto do que ela, e seus ombros eram largos. O cabelo negro era lustroso e bem cortado, embora ligeiramente espetado para a moda da época. Mas era o rosto, conhecido e, no entanto, ao mesmo tempo diferente, que fazia o coração de Sakura bater mais rápido. Infelizmente, aquela perfeição morena era agora estragada pela curvatura zombeteira dos lábios, que deixavam bem claro que ele estava ciente da análise dela.
– Minha mãe me avisou que haviam se mudado. Ela sente saudades, é claro, e ficou naturalmente apreensiva que o novo lar pudesse não ser tudo o que esperavam – ele disse por fim, respondendo a pergunta dela.
– Bem, não é – Sakura respondeu, irritada com o brilho no olhar dele.
Sasuke provavelmente sabia muito bem como era bonito, e ela se recusava a continuar a lisonjeá-lo com análises adicionais.
– A residência está deserta, sem empregados, de modo que não estamos em condições de lhe proporcionar a hospitalidade com a qual está acostumado, milorde conde – Sakura acrescentou.
Sua intenção havia sido zombar do titulo de nobreza, mas a estranheza de se dirigir a Sasuke pelo nome do pai eliminou o impacto de suas palavras.
As sobrancelhas escuras dele se abaixaram, e Sakura se lembrou de seu temperamento explosivo, embora não houvesse notado nenhuma brecha na fachada elegante que ele exibia.
– Eu lhe garanto que não sou feito de algodão doce – ele disse calmamente – Nem vou me derreter privado dos benefícios do luxo.
Sakura tinha suas dúvidas quanto a isso. Já houve época em que ela havia servido tortas de lama para este homem, mas, agora, ele havia se acostumado ao melhor de tudo, e ela sequer podia lhe oferecer biscoitos. Caso houvesse visto qualquer vestígio do antigo companheiro, Sakura não teria dado atenção a mudança das circunstâncias, mas não havia nenhuma ternura neste reencontro. E, se ele era capaz de tratá-la com tanta frieza, torceria o nariz aristocrático para Sasori, todo empolgado com sua nova propriedade?
– Lamento, Sa...milorde – Sakura tratou de se corrigir – Ainda não estamos recebendo visitas. Mas, por favor, dê minhas lembranças a sua mãe, e diga-lhe que estamos bem e que chegamos em segurança.
Sakura exibiu um sorriso polido, mas Sasuke, obviamente, não estava disposto a ser dispensado na entrada como um mero comerciante. Mais uma vez, embora o exterior permanecesse inalterado, Sakura viu o brilho naqueles olhos escuros, e sentiu-se tentada a bater a porta, em vez de enfrentar o seu desagrado. No entanto, não se mexeu, seu próprio temperamento explosivo se manifestando ante a posição insustentável na qual ele a colocara. Um verdadeiro cavalheiro jamais teria aceitado a rejeição dela com dignidade.
Mas Sasuke jamais fora um cavalheiro.
Polido quando lhe convinha, estava acostumado demais a ter sempre feita a sua vontade para ter o carisma natural de alguém como Sasori. E, naquele momento os lábios cerrados a faziam suspeitar que ele estava se preparando para discutir com ela, em vez de ceder. Estava tentano imaginar como iria se livrar dele, quando esta decisão foi tirada de suas mãos.
Na verdade, haviam estado tão concentrados um no outro, que nenhum dos dois havia notado a aproximação de Sasori. Mas agora Sakura escutou o som de uma parelha se aproximando muito rapidamente. Sem dúvida, Sasori ficou preocupado ao vê-la sozinha com um visitante, pois ele reduziu o ritmo dos animais assim que se aproximou da carruagem de Sasuke, cujo brasão estava bem evidente. Descendo do próprio coche, Ele saltou para o chão com um sorriso de alegria. Sakura tentou discretamente alertá-lo para não ser muito caloroso ao cumprimentar o amigo, mas era tarde demais.
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