Conchas

2 Mar aberto


Tudo começou na Universidade de Biologia Marítima (UBM) na ilha de Savbi, ao sul de Saint Jahleo, uma ilha particular reservada pela Marinha para que os estudantes de biologia marítima pudessem se especializar em determinadas áreas afim de trazer mão de obra à Marinha. A empresa contratava os melhores de cada turma, e dois deles eram Mellyana e Wilsow. Mellyana era uma menina de uma ilha chamada Dazi, tinha uma estatura mediana, pele morena, olhos cor de âmbar, corpo violão e lindos cabelos negros longos e cacheados, exatamente por ser assim, Mellyana achava que Wilsow jamais se atrairia por ela, já que ele era alto, branco, com olhos azuis, pouco musculoso e de classe média alta, mas mal sabia Melly que seu sentimento por Wil era recíproco.

Um dia, Wilsow resolveu dar sua caminhadinha nada diária pelos limites da ilha, andar na areia molhada e admirar o por-do-sol no oceano. Mas talvez o rapaz tenha admirado tanto o por-do-sol que se esquecera de olhar para onde pisava e não percebeu que ali havia uma pessoa sentada às margens da água também admirando essa beldade natural e então, Wilsow atropelou o/a pobre coitado/a que estava ali. Como se não bastasse ter atropelado e talvez machucado essa pessoa, Wilsow ainda caiu de cara na areia molhada, e ao se levantar, se deparou com uma onda vindo em sua direção e se afogou perdendo a consciência. Passaram-se por volta de 20 minutos desde a perca da consciência de Wilsow até que ele abrisse os olhos, e quando abriu, decidiu que era melhor nem ter saído de seu quarto no campus para caminhar, quem ele atropelara, não era ninguém mais ninguém menos que Mellyana, que estava toda encharcada sentada do lado dele tirando a areia de seus belos cachos. Wilsow sentiu tanta vergonha que quando percebeu que ela o olhava, fechou os olhos e se fingiu de desmaiado novamente, arrancando gargalhadas de Mellyana.

– Poseidon não te ajudou mesmo ein — disse Mellyana entre risos

– Me desculpe, Mellyana — disse Wilsow levantando e se virando para ir embora quando de repente sente uma mão em seu tornozelo e força seu cérebro a parar com o impulso de andar para que não caísse novamente.

– Fique, você me deve pelo menos uma hora de conversa depois desse atropelamento — disse Mellyana ainda segurando o tornozelo de Wilsow.

E assim ficaram horas e horas, os dois molhados, cheios de areia, com a pele e os cabelos ressecados por conta do sal da água, mas não que eles ligassem para isso. Depois de ver o por-do-sol, o anoitecer e as estrelas brilhando cada vez mais fortes, os dois finalmente resolveram se declarar um ao outro. Depois dessa noite, Melly e Wil namoraram por 3 anos enquanto terminavam seus respectivos cursos nas UBM, depois de acabarem seus cursos, a Marinha chamou ambos para um emprego irrecusável. Mellyana e Wilsow se mudaram para a ilha natal de Melly, Dazi. Dazi era uma ilha afastada da civilização, e por conta dessa distância, os moradores de Dazi precisavam plantar e colher seus próprios alimentos, que eram limitados, já que a principal fonte de água da ilha era salgada.

Os dazianos eram fiéis à Poseidon, acreditavam que da água vinham e à água voltariam, então, não pescavam os peixes que tinham no mar acreditando que eram reencarnações de parentes. Os peixes de grande porte eram os idosos, pois eram mais sábios e comandavam o fundo do mar, os de médio porte eram os adultos abaixo de 50 anos e os pequenos, as crianças de até 12 anos, eles acreditavam que, ao morrer, todas as gerações de uma família se encontravam, essa era a explicação para que os peixes nadassem em cardume. Mas, para que reencarnassem peixes, era necessário o ritual de sepultamento. Nesse ritual, a pessoa era colocada em um caixão de rocha feito pelos habitantes dazianos com gravuras nas laterais dos caixões que significavam algo para a pessoa e então, lacravam o caixão com outro pedaço de rocha e derretiam as bordas para que fossem lacrados, após isso, colocavam-o em um barco e iam remando até mar aberto cantando uma canção para que a alma descanse em paz e, quando a música acabava, o caixão era jogado na água para que as águas de Poseidon possam abençoá-lo.

Wilsow demorou a se acostumar com o estilo de vida daziano, afinal, como veio da cidade grande, era acostumado a comer comida de fast food, comida pronta, a beber refrigerantes,e o pior, a comer muito, muito, muito, mas muito peixe. Mas, como foi obrigado a seguir esse estilo de vida, uma hora se acostumou. Melly e Wilsow casaram-se ao por-do-sol por volta de 5 meses depois que eles se mudaram e 1 ano depois, veio o fruto do amor dos dois, uma linda daziana que se chamava Coral, pois havia nascido rosa como um, mesmo que depois tenha se tornado morena como a mãe. Os três vivam uma vida muito agitada e feliz, filmada por Wilsow para que eles sempre se recordassem dos momentos com os peixes, do primeiro banho de mar de Coral e todos as aventuras que os três viviam, mas, infelizmente, a felicidade dessa família não durou muito. Quando Coral tinha feito 3 anos, seus pais saíram para uma pesquisa em alto mar, na mesma noite, uma grande tempestade fez com que o mar ficasse turbulento e o navio em que eles estavam, virasse. Quando os corpos de seus pais chegaram à ilha, foi feito todo o ritual e depois Coral foi obrigada a decidir com quem queria ficar, com os avós maternos ou os paternos, e ela decidiu os maternos, deixando os paternos muito tristes e um pouco revoltados pelo pai de Coral tê-los afastado dela.

Cerca de 2 anos depois, uma epidemia chegou à Dazi, a doença se chamada Nyshvuji Kancueri cuja origem teria sido descoberta pelos pais de Coral, se o acidente não tivesse acontecido. A doença ficou conhecida como Doença da Velhice pois atacava os idosos com a imunidade naturalmente mais baixa, e assim, os avós maternos de Coral também faleceram, primeiro o seu avô e depois a sua avó, já que ela era mais nova que ele e a doença demorou mais tempo para afetá-la.

Chegando à cidade grande, Coral se mudara para longe da praia, para longe de seus amigos, para longe de seu mar e para longe de onde seus pais e avós estavam. Não se passou muito tempo e os problemas de Coral já começaram, o avô de Coral já havia apresentado uns anos antes alguns problemas cardíacos, mas agora, eles haviam piorado, uma veia dele estava obstruída, ele deveria desobstruí-la e por um stend na mesma, tudo graças à má alimentação da cidade grande, Coral sempre odiara a comida de lá e a cada dia que se passava, mais nojo sentia da mesma e ressaltava que não comeria nada pronto, que ela plantaria e colheria seus alimentos, e depois de 3 dias de greve de fome, sua avó cedeu o quintal para que ela plantasse. Passaram-se 3 meses e seu avô faleceu antes de sequer poder fazer a cirurgia.

Um certo dia, Coral acordou e desceu para comer seu café da manhã que sua avó sempre preparava mesmo estando com depressão devido à morte de seu marido e do pai de Coral, o seu único filho, ela dizia que a alegria da vida dela era ver a casa iluminada pela aura de Coral, mas Coral não acreditava muito, já que ela ficava trancada em casa enquanto sua avó ficava horas todos os dias no psicólogo para tratar de sua doença. Coral desceu em passos silenciosos na expectativa que sua avó não ouvisse ela chegando, para que ela pudesse dar um susto nela e elas saírem correndo, mas, não a encontrou na cozinha e decidiu subir novamente as escadas e encontrou sua avó dormindo, ia acordá-la mas decidiu deixá-la esperando. Se passaram longas horas até que Coral tentou milhares de vezes acordar a sua avó, porém suas tentativas foram falhas, e então recorreu à vizinha e amiga de sua avó, dona Tânia. Coral desceu as escadas e tocou a campainha da casa vizinha, dona Tânia abriu a porta sorrindo para Coral

– Olá, Coral! No que posso ajudar? — perguntou a senhora

–Oi... Minha avó não acorda, me ajuda? — quando terminou de dizer essas palavras, viu que o rosto de dona Tânia ficou pálido e surpreso.

–Entre, minha filha, fique com Henrique brincando, eu já volto — e saiu pela porta de casa trancando-a

Coral ficou observando a casa pela janela, um carro hiper barulhento passou pela casa de dona Tânia e estacionou na garagem da casa de sua avó, Coral entendeu o que se passava, mas não queria aceitar, já estava cansada de chorar, cansada de ser abandonada, cansada de tudo, cansada do mundo, ela só queria Dazi, sua mãe, seu pai, seus amigos e seus avós. Enquanto pensava em tudo e chorava horrores, Coral viu que uma maca foi tirada de dentro de sua casa, e nela havia uma senhora. Coral não sabia o que fazer, não sabia o que estava por vir, o que Poseidon teria programado para ela, ou até esse tal de Deus que seus avós tanto falavam, só sabia de uma coisa: não seria nada bom.