Conchas

3 Rajada de Vento


Coral não tivera a chance de ver sua avó, e nem queria, ela vira muitas pessoas gélidas e imóveis pro seu gosto, o que a mais irritava era que as pessoas não eram postas em água, mas em terra, qual graça tinha ficar em terra? As tias da nova casa de Coral riam quando ela a perguntava esse tipo de coisa. Falando em nova casa, Coral se mudou para uma muito linda, ela tinha 3 andares, 3 escadas enoooormes, muitos quartos com várias camas, muita comida fresca e o mais importante, muitos amigos para fazer companhia à Coral, que não dormia mais sozinha. Todos os dias alguns coleguinhas se despediam das tias Maria e Emília e de seus outros amigos, Coral não entendia, porque eles iam embora? E essa felicidade? Era um lugar tão legal, tão bonito, tão harmonioso, Coral jamais pensara em sair daquela casa, só para ir à escola que ficava 2 quarteirões de sua casa nova, Coral, que por um tempo foi infeliz, passara a sorrir mais, a celebrar seu aniversário com mais alegria, não sabia mais o que era tristeza.

Com o passar do tempo na casa nova, Coral foi entendendo que as crianças iam embora da casa felizes porque acharam uma nova família, quem os amassem como filhos, o que deu uma nova alegria à garotinha, um dia ela iria ser feliz com um pai e uma mãe. Coral ficou até os 9 anos na nova casa, e então, um homem a viu no quintal brincando, o homem ficou tão encantado com a pele negra da menina, seus olhos cor de âmbar e seu cabelo cacheado que no outro dia voltou, mas não voltou só, voltou com uma mulher linda, que também achou Coral linda. Os três tiveram uma conversa muito divertida, eles contaram de suas vidas, a mulher se chamava Tamara, ela era modelo fotográfica de uma agência bem famosa, mas que Coral não conhecia, Tamara realmente era muito linda, esbelta, com os cabelos lindos e lisos, lembrava seu pai. O homem se chamava Heitor, era corretor de imóveis e no dia anterior passava pela rua para mostrar a um cliente uma casa nas proximidades, Tamara e Heitor haviam se casado há 2 anos, eram felizes, mas não podiam ter filhos, Heitor era estéril e Tamara queria muito uma criança para chamar de sua. Coral se mudou para a casa de Heitor e Tamara, não era uma casa grande como a casa que Coral estava, mas tinha 2 andares e uma escada apenas, mas Coral ficou encantada com toda a mobília, e a cozinha, onde ela fantasiara mil bolos, muitas sopas e salada. Tamara e Heitor ainda não eram seus pais, então Coral os chamava de tios, a casa dos tios não ficava muito longe da escola, mas precisavam ir de carro, coisa que Coral achava um máximo, já que em Dazi não havia carros e seu avô era muito velho para dirigir. Todos os dias de manhã Coral acordava às 9 e fazia seu café da manhã com pão, manteiga e um iogurte e as vezes um suco natural que ela fazia com as frutas de Tamara comprava, tio Heitor a levava à escola ao meio dia e tia Tamara a buscava na escola às 17:30 pontualmente. A relação dos três era incrivelmente linda, um fazia bem ao outro, ninguém se sentia infeliz, até o dia que Tamara fora recusada em uma seleção.

Tamara começou a chorar muito, nem os beijinhos de Coral a faziam feliz, Heitor tentava acalmar Coral, que já não se sentia amada por Tamara, a mesma começou a frequentar muito o banheiro e sair fraca de lá, Tamara ingeria comida 2 vezes ao dia, e apenas líquidos, tomava uns sucos horríveis que tinham "Detox" escrito na embalagem, Coral não entendia o motivo, até ouvir uma discussão de Heitor e Tamara de madrugada. Mesmo no segundo andar, Coral podia ouvir.

– Tamara, isso não é saudável, isso não vai te fazer magra, isso não vai te fazer ser aceita, não vai fazer com que você seja melhor que as outras! — disse Heitor em voz alta.

– Eles não me querem por eu não ser o suficiente, eles passam isso às modelos mais novas, se isso funciona com elas, porquê não comigo? — retrucou Tamara.

– Elas não tem um terço do potencial que você tem, elas não tem a beleza natural que você tem, elas não ficam linda sem maquiagem, elas não são lindas de roupas íntimas, elas não fazem e nem farão metade dos trabalhos que você já fez a sua vida toda! Por favor, foi só um concurso — suplicou Heitor

– Se eu não estou apta para um, não estou para nenhum.

De manhã, Coral podia ver no rosto de Heitor que ele havia desistido, havia deixado ela ver que isso iria interferir apenas nela. Heitor a amava, era nítido, ele não a abandonaria, mas abandonaria Coral. No caminho da escola, Heitor decidiu ter uma conversa "de gente grande" com Coral

– Meu amor, você sabe que eu não quero te abandonar, você é quase uma filha pra mim, falta pouco tempo para que consigamos sua guarda

– Sim... Dois meses — Coral fazia as contas, mas ultimamente ela e os números não tinham se mostrado tão animados quanto antes.

– Mas, você viu o estado de Tamara, eu não quero que você sofra, foram quase 2 anos, você foi muito especial para nós e sempre será.

– Você vai me mandar de volta ao orfanato? — perguntou Coral já sabendo da resposta.

– Eu vou internar Tamara numa clínica de reabilitação, vai doer em mim e nela, mas eu não quero que doa em você, eu quero que você seja feliz, que tenha pais de verdade, que possam te ajudar, te amar, Tamara e eu tentamos, mas conforme dos imprevistos...

– Tudo bem, eu amei passar o tempo com vocês, obrigada por me fazer sentir amada — quando Coral terminou de falar, já estavam na porta da escola, Coral deu seu beijinho de tchau no rosto de Heitor e o mesmo a fitava com os olhos cheios de lágrimas.

– Eu quem te agradeço, você tem futuro, eu acredito com todas as minhas forças que algo de ótimo vem te aguardando — disse enquanto Coral saía do carro e fechava a porta. Essa fora a última vez que ela vira Heitor.

Coral seguiu sua agenda do dia, ela tinha que receber seus resultados finais, para que no ano que vem, ela fosse para a 5 ª série. Como uma garota exemplo, tirou as maiores notas da sala em todas as matérias e passou direto. Coral não se sentia inteligente, as crianças da sua sala aprendiam rápido, ela não, ela queria sempre ir mais a fundo no que a professora falava e acabava não prestando a atenção que ela precisava na matéria, o que fazia ela levar horas e horas na frente dos livros para aprender e tentar fazer os deveres de casa, a professora dizia que ela era distraída, mas os pais dela a chamavam em suas fitas de curiosa. No fim do dia, Coral viu tia Maria e correu para abraçá-la com saudades, tia Maria tentou explicar a ela toda a situação de Tamara, mas Coral já havia entendido, sua curiosidade a fez ir no computador e procurar sobre os sucos e sobre o motivo de Tamara ir ao banheiro e vomitar o tempo todo, foi assim que ela descobriu várias doenças psicológicas como anorexia, depressão, bipolaridade, automutilação, esquizofrenia e autismo, e, ao voltar ao orfanato, que antes ela chamava de casa por não saber o nome, percebeu que a maioria de seus colegas tinha uma doença mental devido aos traumas da vida, aos traumas sofridos pelo abandono e se sentiu grata por ter uma cabeça boa para que ela não fosse "contagiada" por essas doenças da vida. Pelo visto, Coral tinha muito de Mellyana.