Conúbio
7 Promessas de Sangue e Vitoria
Notas iniciais

Nos recônditos da Fortaleza Vermelha, por entre os corredores estreitos e mal iluminados do terceiro e mais fechado dos quatro andares das Masmorras do Castelo, um homem e uma mulher caminhavam lado a lado. Suas respirações pesadas formando nuvens de vapor no ergástulo gelado, seus passos apressados ecoando agourentos no chão úmido de pedra. Ela, tentando manter-se dele o mais distante possível. Ele, ansiando a cada passada, por esbarrar em qualquer parte do seu corpo. Cada qual segurava nas mãos intrincados archotes de madeira, cuja luz débil tremulava, projetando sombras na sequência interminável de portas reforçadas e paredes desgastadas pelo limo e pelo tempo. A luz bruxuleante iluminava também seus traços belos, pois mesmo o homem dispunha de uma aparência elegante e atraente, que costumava usar como um trunfo. Ela, por outro lado, não conhecia outra maneira de ser. E eles eram iguais. Terríveis em toda a sua beleza, e em toda sua tirania. Tal união, representava um enorme potencial para o caos, uma força indomada. Mesmo que ambos ainda não houvessem-se dado conta disso.
— Quem são os miseráveis por de trás de todas essas portas? — questionou ele, de repente, quebrando o silencio entre os dois.
— Inimigos da Coroa. Traidores, em sua grande maioria. — respondeu ela, com impaciência. Parecia-lhe sempre ansioso demais, empolgado demais. E aquela excentrica vitalidade irritava-a profundamente.
— Tantos assim? — indagou novamente, com escárnio. – Pensei que a tradição dos Reis daqui, fosse enfeitar as lanças da entrada do Castelo com a cabeça dos opositores.
A mulher, contrariada, obrigou-se a dar seguimento ao assunto. Finja interesse. Aja como se importasse.
— Se trata de um alerta para os rebeldes. E sim, haviam certos casos em que a Realeza optava por ser mais clemente. Não é algo que a nova Coroa aspire manter.
— Isso é clemencia? — ironizou ele, com um brilho perverso no olhar. –Há quanto tempo não visitam estas celas?
Ela lançou-lhe um olhar incrédulo, quase ofendido.
— Não imagino o motivo pelo qual acreditaria que tais assuntos provincianos, pudessem estar á meu encargo.
O homem mal se importou em ocultar seu sorriso. Desde que se conheceram, descobriu que gostava de provoca-la.
— Perdoe-me, posso ter me antecipado. Apenas continua a me espantar, o modo estranho de como são feitas algumas coisas por aqui. De onde venho, um homem capturado é um homem derrotado, e homens derrotados são cargas inúteis. Não há sentido em acumula-los.
— Concordo. — Ela ouviu-se dizer, surpreendendo a si mesma. — Nao tenho interesse, nem tempo a perder com variações de sentença perante criminosos e traidores, o destino deles está selado. Acabou-se o tempo de falsas fachadas.
Finalmente. Desde a época em que Robert ainda era Rei, que tentava abrir-lhe os olhos acerca do fracasso que era o esforço da Coroa em prezar por manter uma fachada clemente. Tal medida, pensava ela, jamais se provara eficaz em evitar maiores confrontos. Na verdade, parecia servir apenas como um imã para amotinadores.
Atualmente, tivera suas crenças confirmadas. A maior arma de que dispunham contra possíveis revoltas, sempre seria o medo. Nada poderia tornar um homem mais servil do que a ameaça categórica da morte.
— Refere-se a uma política rígida de punição? — indagou ele, encarando-a com aquele olhar estranho que sempre parecia ter.
A mulher suspirou, ansiando por encerrar logo a discussão. Odiava ter de se explicar a quem quer que fosse.
— Me refiro a política nenhuma. A nova coroa não fará mais prisioneiros. Aqueles que restam nestas câmaras, servem agora aos propósitos do Meistre, e deles Qyburn pode fazer o que lhe for conveniente.
O Pirata emitiu um gruído de aprovação e, subitamente, estacou, descansando as mãos sobre os joelhos. Tinha a face tomada por um largo sorriso.
Com isso, Cersei Lannister se viu forçada a parar também, um habito de falsa cordialidade, enquanto aguardava que o mesmo estabilizasse sua respiração acelerada pelo ritmo anterior de suas passadas duras.
Aquele era um homem verdadeiramente estranho, pensou. Parecia se divertir com o simples fato de se cansar.
Em frente a eles estava uma pesada porta de calvário cuja fechadura enferrujada e a superfície lotada de teias de aranha, indicava o largo espaço de tempo em que mantinha-se trancada.
— A revolta do povo já depôs hierarquias. — começou Grejoy a dizer — Portanto, torno meus homens devidamente incapazes de expressa-la. Costumo dizer que a melhor lealdade surge na ausência de línguas, e é verdade. Como sou eu a corta-las, garanto tratar-se de uma medida bastante eficaz.
A loura endureceu a expressão diante da menção de Silencio, o grande navio do Pirata cuja fama cruel, atravessara continentes.
— Não se dê ao trabalho de tentar me intimidar referindo-se à aos seus métodos bárbaros, Euron Greyjoy. Dificilmente teria qualquer êxito neste sentido. – afirmou, com arrogância. Pois ela fora a mulher que criara Joffrey e não costumava chocar-se com facilidade.
Eles encararam um ao outro no pulsar exato de três batidas de coração. Tempo suficiente para que se tornassem conscientes dos murmúrios angustiados vindos por de trás de quase todas as portas pesadas daquele corredor. Murmúrios, que, lentamente, pareciam preencher o ar em torno deles.
Contudo, Cersei não estava prestando atenção nisso, ou se estava, não se importava. Descansou um dos braços esguios em seu colo, enquanto que com a outra mão delicada, segurava o archote. Arqueando as sobrancelhas louras na expectativa de analisar a próxima reação daquele ser que, por ironias do destino, viera a tornar-se seu maior aliado.
Chegara a conclusão de que, quanto mais tempo passava encarando aquele sorriso convencido, mais repugnante ele também parecia ficar.
— Intimidar jamais, Minha Rainha. — declarou Euron, optando por graceja-la. — Impressiona-la, seria minha intenção. Receio dizer que sua beleza gélida me encanta, e flagro-me, inevitavelmente, tentando capturar sua atenção mais vezes do que deveria. Afinal, dado aos termos da nossa aliança, creio que seja natural para um homem tentar encontrar afinidades com sua prometida.
— Poupe-se de esforços desnecessários. Somos aliados, Euron Greyjoy, nossa maior afinidade é o desejo de ter vitória nesta guerra. Eu não ansiaria por nada além disso. — respondeu a Lannister, dispensando seus galanteios. Embora no fundo, apreciasse recebe-los. Era uma mulher vaidosa, engrandecia-se de elogios. — Quanto ao que considera serem medidas eficientes, devo discordar. O que almejo, é um total expurgo, não perderei meu tempo com detalhes ínfimos. Após esta guerra inútil ser ganha, o tolo que opor-se a meu reinado será um problema destinado somente ao carrasco resolver. Comandarei com mãos de ferro e diante disso, o que pensara a plebe é irrelevante. A ovelha não questiona quem lhe oferece alimento, contanto que mantenha o pasto.
Euron Grejoy põe-se novamente a contempla-la com uma repentina intensidade. E sob seu olhar analítico, Cersei se sentiu desconfortável.
Desde que causara a destruição do Septo de Baelor, acostumara-se a vozes tremulas e olhos baixos diante de sua presença, e não estava certa se aprovava os modos inatingíveis daquele homem.
— Perfeita. — definiu ele, após alguns instantes, sorrindo largamente. — E mesmo que de maneira caótica, estou satisfeito por nossos caminhos terem se cruzado.
— Sob outras circunstâncias — começou ela, no tom mordaz de quem despreza excessos. — Seria muito mais do que apenas a língua que perderia por proferir tamanha inconveniência. Mas, os tempos mudaram. — a Rainha sorriu. Um sorriso de lábios apertados.
— E eu serei eternamente grato por isso. Ah, Mulher – sussurrou Euron, numa voz que beirava a lascívia. — As coisas que juntos seremos capazes de fazer..
Revirando os olhos, Cersei adiantou-se bruscamente pelo corredor. Ele a seguiu, retomando com facilidade seu lugar ao lado dela. Ambos consumidos pelos mesmos ardilosos devaneios.
Deixe-o continuar a se sentir importante pensou a Lannister.
Deixe-a pensar que está no controle pensou o Pirata.
Não será por muito tempo. Pensaram juntos, ecoando suas semelhanças.
Após mais um breve tempo de caminhada, no qual os olhos do Greyjoy se demoravam em cada detalhe possível de perceber, e a impaciência de Cersei se tornava mais gritante a cada passada dura, finalmente, a grande porta entalhada que era o motivo de estarem ali, ergueu-se diante deles.
Percebendo que se aproximavam, Cersei põe-se na frente de Euron, bloqueando intencionalmente sua passagem com os seios fartos.
— Sabe que não ha real motivo para acompanhar-me.
— E perder toda a diversão? — retrucou, postando-se ao seu lado.
— Sua presença aqui é desnecessária — insistiu Cersei, buscando paciência. Tinha os dedos a centímetros da maçaneta. — O que farei hoje, trata-se de um assunto particular que não tem nada de especial. — Pequenos prazeres em meio aos tempos turbulentos que viviam.
— Em breve reinaremos juntos, você e eu. — provocou Greyjoy. — E que tipo de matrimonio teríamos, se não prezássemos pela cumplicidade na nossa relação?
A voz dele vibrava num deboche incontestável. Ela sugou o ar com ferocidade.
Maldito lunático
Cersei levou uma das mãos até os ombros, tencionando agarrar um punhado de seus longos cabelos dourados. Seus dedos se fecharam sob ar vazio, estremecendo, fazendo-a recordar de que haviam sido barbaramente cortados. Teve de fechar os olhos na tentativa de conter uma nova onda de fúria.
Estava se tornando frequente, aquele esquentar característico, a coceira insistente na palma macia suas maos. O desejo ardente de ferir alguma coisa.
Acalme-se pensou logo tudo acabará.
Respirou fundo novamente, a ação refletindo-se exteriormente como um único remexer agitado de seus dedos longos.
''Chegará o momento em que esse homem detestável se tornara dispensável. E então, o farei desaparecer como se nunca tivesse existido. Acalme-se.''
E dominada pelo alivio temporário gerado por suas próprias ruminações vingativas, ela puxou o trinco de ferro e, sem hesitar, destrancou a porta.
Ambos adentraram na cela imersa pelo breu, e Cersei de modo reflexo enrugou o nariz.
O odor de excrementos humanos contaminava o ar do pequeno espaço cavernoso, tornando-o espesso e repulsivo.
— Acenda o restante das tochas — ordenou a Euron, e depois acrescentou, numa voz suave: — Olá, Sor Bronn...
Por qual motivo, entre aqueles tempos de guerra, perderia seu tempo visitando a cela de um mercenariozinho?
A resposta era tão simples quanto pragmática.
Porque ela podia.
E também, por não se tratar apenas de qualquer mercenário. Mas, o mercenário, que ousara retornar a Porto Real no auge da própria arrogância, sem Jaime.
E lá estava ele. Aquele homenzinho insolente. E ao encarar sua feição rude e alargada de plebeu, Cersei sentiu-se tomada por um pequeno misto potente de vitória e satisfação.
A lembrança daquele dia amargo ainda revibrava fresca em sua memória: perdas,solidao,revolta,furia. Sua solidao, sua furia. E estar ali, agora, era-lhe como vingar um ressentimento.
Um Lannister sempre paga suas dividas.
Quase três meses haviam se passado e diante dela, parcialmente despido dos fiapos imundos que usava como vestes, sendo sustentado em pé por grossos grilhões de ferro nos pulsos e tornozelos, estava Bronn. O mercenário tinha uma extensão considerável do corpo tomada por sangue seco e outra parte maior ainda, repleta de hematomas e ferimentos de maior ou menor gravidade.
— Meistre Qyburn o deixou no escuro? – indagou a Lannister num tom zombeteiro, apos um novo enrugar de nariz defronte a poça nojenta que se formara sob os pés do homem.
Cersei estava ciente do quanto podia parecer inapropriado vagar naquele ambiente lúgubre, sem Montanha e cercada pela escoria. E por conta do maldito Alto Pardal, havia se tornado muito mais intima de espaços sujos e cavernosos do que jamais lhe imaginara ser possível. Contudo, tambem descobrira que pela força dos próprios propósitos, apreciava estar.
— Ah, aquele velho. Na última vez em que eu o vi, saia furioso por essa porta. Parece que não disponho de um espirito muito cooperativo. – Bronn cuspiu no chão, com repugnância. Sangue aguado escorria-lhe pelo queixo. — Se quiser me ver torturado, faça você mesmo, mulher. Ainda não estou morto nem fiquei burro para aceitar que me submetam a doses diárias de veneno.
— Se eu o quisesse morto, já estaria morto.- Esclareceu Cersei, analisando seu rosto encovado e febril.
— Diga isso a pobre menina Dornesa ali do lado, ouço os gritos da Mãe dela toda maldita noite. Atrapalha meu sono, entende? – e sorriu com ironia, por entre os lábios partidos.
— É impressionante que esteja conseguindo manter seu senso de humor, resta saber por quanto tempo. Como vê, estou disposta a esperar. — expos, repleta de uma impassividade gelada, sua marca registrada. O homem vacilou.
— O que quer de mim? — indagou Bronn, elevando o tom febril — Por que, pelos sete infernos, perderia seu tempo aqui? É por vingança? Vingança? Porque se for, já conseguiu. Mate-me de uma vez e acabe logo com isso.
O que quer de mim?
Ela o encarou com veemência. O homem era todo baixada-das-pulgas. Estava no seu jeito de falar e até mesmo de respirar. E o fato de o mesmo já ter servido na Patrulha Real, mesmo que brevemente, era ainda algo insultante e vergonhoso demais para Cersei lembrar sem desgosto.
O que quer de mim?
Não havia nada, nada, que ultimamente lhe desse mais prazer do que ordenar a execução dos traidores e possíveis simpatizantes da vadiazinha estrangeira espalhados pela capital.
E que fosse o traidor do seu próprio irmão, tornava tudo ainda mais satisfatório. Portanto, ela notou o desespero do Mercenario, e sentiu prazer nisso.
— Responda ao homem, minha Rainha. Pois até para mim, seus propósitos neste lugar permanecem incompreensíveis.
Cersei, que quase havia esquecido da presença do Pirata, dedicou a ele um unico olhar hostil.
— Cale-se ou saia.
Euron gargalhou em resposta, fazendo-a estreitar mais os olhos.
— Sabe bastante bem porque está aqui, Lorde Stokeworth. – disse a Lannister, retomando o assunto ao encara-lo em desafio. Reconheça o que fez.
— Fui contratado como Mercenário, não como escudeiro.- respondeu Bronn, numa voz fraca.
— E falhou nas duas coisas. – Cersei aspirou o ar por entre os dentes cerrados, ainda se sentia furiosa. – Jaime lhe deu terras, títulos e uma posição entre os nobres. E você o abandonou para a morte, como o rato que é.
Os olhos do homem faiscaram num lampejo de ira.
— Seu irmão não me deu nada, eu conquistei. Até um Lannister aparecer na minha vida, eu me virava bastante bem. – Bronn remexeu os pulsos em carne viva, por de baixo das algemas — Nasci ao lado deste Castelo, uma parte da cidade que a sua gente nobre nunca vê. E o que aprendi nessas ruas, usei enquanto servia a seus irmãos. Eu os ajudei a vencer a batalha de Agua Negra, um rato seria capaz disso?
— Tais feitos apenas ressaltam sua covardia diante do fato de tê-lo abandonado. – cuspiu a Lannister – O deixou para trás e depois teve a ousadia de vir até mim em busca de ouro!
— Eu servi a Jaime Lannister, e Jaime Lannister me deve por tais serviços! – insistiu ele, empinando o queixo encardido.
Euron desembainhou a espada da cintura.
— Ousa contestar a sua Rainha?
— Ouso contestar injurias! – exclamou Bronn com a voz fraca, tentando manter o controle.
— Você é louco lord-sei-lá de que? Pois eu acho que não. – Greyjoy se aproximou do Homem, rodeando-o como um predador — Não fala como um louco, nem pensa como um. Mas o que faz um homem que sobreviveu ao ataque de um Dragão, retornar para a morte certa?
— Eu o salvei – murmurou Brown, após alguns instantes, finalmente parecendo fraquejar. – No final da batalha, houve um momento em que o grande idiota tentou ferir a Targaryen, e eu o desviei do ataque do Dragão. Se não o tivesse feito, seriam somente as cinzas de Jaime que restariam, não o homem vivo como prisioneiro.
Ambos, Rainha e Mercenário, se encararam. A Lannister pode sentir seu panico, seu completo desolamento bem no oco dos ossos. Uma sugestao de sorriso dançou em seus labios bem delineados. Ele sabe, finalmente entendeu. Vai arder nestas paredes ate o fim dos dias.
— Vamos, Euron Greyjoy. Temos assuntos importantes a tratar. – disse, encaminhando-se para a porta.
Bronn agitou-se com ansiedade.
— O que esperava que eu fizesse? Pelos Deuses! Que o arrastasse inconsciente até aqui? – Diante a expressão impassível da Rainha, concluiu – Pelo menos ele ainda está vivo.
Já de frente para a saída, a Lannister virou-se lentamente de volta para Bronn.
— Eu sei, Lorde Bronn. E é apenas isso que também, o mantém respirando. — Tinha um sorriso vil no rosto, os olhos mortos. — Em resposta a sua pergunta anterior, você está aqui porque me convém que esteja.
Ela encarou seus olhos fundos, sua imagem decrepita e febril, sentindo-se finalmente satisfeita.
Considerava o principal motivo que levara Monstrinho, e depois Jaime a mantê-lo por perto, bastante evidente de perceber. Aquele homem destituído de qualquer traço marcante, era um Mercenário do tipo duro, do tipo eficiente. O tipo de mercenário que quando posto de frente a uma saca de ouro bem farta, com extrema facilidade esvazia-se também de qualquer escrúpulo moral.
Util. Embora, não mais, necessário.
Em breve teriam outros. Centenas deles, a disposição.
— Percebe-se que está febril. Uma infecção, talvez? Infecções tendem a debilitar o corpo tão lentamente... Sugiro que aceite toda ajuda que o Meistrer Qyburn queira lhe dar. Caso contrário Sor, em pouco tempo estará tão fragilizado por delírios, delírios verdadeiros e não suas clausuras de ambição desmedida, que aceitara fazer parte de qualquer experimento que ele possa-lhe oferecer. Com ou sem ouro, e em breve, também sem vida. – disse ela, numa voz tão suave quanto uma melodia.
Uma despedida. Cersei não retornaria para as Masmorras, o calvário dos tolos e medíocres.
Tinha uma Coroa a manter e providencias, grandes providencias a tomar.
Sem ouvir as últimas palavras do homem, aguardou que Euron saísse da Cela e trancou a porta, que se fechou com um baque seco.
Então, seguiu pelos corredores em direção a saída das Masmorras, de novo consternada por ter a presença inquieta de Euron ao seu lado. No entanto, apesar de não gostar, compreendia a importância de tolera-lo.
Como sempre fora em sua vida, por vezes, tolerar o que lhe causava desagrado era uma medida necessária para alcançar os fins que almejava. Por mais penosos que fosse os meios. Por mais que ''tolerância’’ naquelas circunstancias, significasse ter de aceitar um Greyjoy sarnento em seus calcanhares, rondando-a como o maníaco desprezível que era.
Tendo isso em mente, ao se aproximarem o bastante das luzes que indicavam o fim das Masmorras, Cersei interrompeu o passo, sabendo que o pirata pararia com ela.
E num sussurro desprovido de calor, anunciou:
— Eu o espero na Torre na Fortaleza Menor, ao pôr do sol.
Poderia se tratar tanto de um convite para jantar quanto de um ardil de morte.
E antes que ele pudesse responder, ela põe-se a subir as escadas num movimento fluido.
***
Ao pôr do sol, mais bela e mais arrumada do que já estivera há um longo tempo, Cersei aguardava.
O conluio da Noite seria impecável. Privacidade. Um voto de confiança. A cumplicidade que aquele homem desprezível tanto desejava alcançar.
Fez questão de providenciar dois belos tronos para a mesa de cristal da sua sala particular, ambos iguais em tamanho e dispostos um de frente ao outro. Sabia que o arranjo encheria os olhos cobiçosos do Pirata que, desde o início, deixara seu desejo de ascensão bastante claro.
Ele, assim como a maioria, também sentia-se avido por fazer parte da Nobreza, e com isso, ter seu senso de importância mesmo que erróneo, confirmado. E ela, seguindo seus próprios propósitos, o convenceria disso.
Sem tardar, ouviu duas batidas leves na porta e então Montanha, seguido de Euron, adentraram o ambiente.
— Guarde a Porta, Sor Clegane. – ordenou Cersei, numa voz enternecedora, sem transparecer o moinho nocivo que era por dentro.
— Por todos os Deuses que já servi de Ib a Asshai! Eu dei os Mares para a mais bela das mulheres! – elogiou o Greyjoy, sorrindo largamente.
Sorria tanto quanto esbugalhava os olhos. Era espantoso de se ver.
— Sente-se. – disse ela, contendo certo amargor diante da sua proximidade.
Acabou que seus planos envolviam um jantar. E após partilharem de uma deliciosa refeição a base de cordeiro e da última garrafa de vinho de verão de que a Fortaleza Vermelha dispunha, Cersei convocou os serviçais, ordenando que retirassem os pratos.
— A que devo esta honra, minha Rainha? – indagou Euron, com a face corada pelo excesso da bebida.
— Como vai a frota? – questionou ela, sem rodeios.
— Maior a cada dia. – disse, piscando em resposta.
— Não me importam os meios de que faz uso, Euron Greyjoy. Mas diante dos planos que traçaremos esta noite, sugiro que com urgência, encarregue um de seus homens para tratar do acréscimo de Navios em seu lugar.
— Planos? – ecoou ele numa serenidade superficial.
Cersei inclinou-se sobre a mesa, enchendo duas taças de vinho num movimento ágil, quase até a borda.
— Planos. – repetiu. – Estamos sob a ameaça constante de ataque. Em breve, estaremos também, sem mantimentos. Não tenciono que tal situação se prolongue por muito mais tempo, é insustentável. Atacaremos, antes de sermos atacados.
— Ao mover o restante das tropas, deixaremos Porto Real vulnerável. – observou o Pirata num tom discordante.
Cersei respirou fundo, se tratava de uma jogada dura. No entanto, guerras jamais foram vencidas de modo fácil.
— Porto Real estará tão segura quanto poderá ficar. Mais vale uma cidade reconstruída do que cidade alguma sobre a qual se reinar.
Euron levantou a taça em sua direção.
— Sabias palavras, Minha Rainha.
Cersei o fitou através dos cílios espessos, seus olhos verdes brilhando com intensidade.
— Nosso plano será efetuado em etapas. A primeira delas começa aqui, Euron Greyjoy e sua importância nele, como suponho que já tenha imaginado, é crucial.
— Sabe que estou disposto a.. – começou ele, no seu típico brado convencido.
A Rainha o interrompeu com resignação.
— Só ouço palavras saindo da sua boca. Irritantes. Prepotentes. Nada que aumente um decimo da minha confiança em você. Tal fato, não me espanta. Eu jamais poderia esperar nada diferente de um pirata. – Ele tentou interrompe-la, ela ergueu dois dedos num gesto delicado. – Deixe-me terminar. Entretanto, você não é mais um simples pirata, Euron Greyjoy. Será um Rei, então, passe a portar-se como um. Me faça confiar em você, e assim, prosperaremos juntos.
Naturalmente, mais da metade do que dissera não passava de um ardil. Um ardil necessário. Todavia, aguardou com interesse sua reação.
— Diga-me como. – Foi tudo que ele disse. Tudo que ela esperava ouvir.
— Parta de Porto Real, nesta mesma noite. Sua missão será recrutar Mercenários, legiões deles. – a voz de Cersei pesava com a excitação que sentia — Todo o ouro de que precisará já foi enviado para o seu Navio. Vá e seja breve, não dispomos de tempo, retorne com números. Retorne com um exército.
Então, Euron Greyjoy se levantou num movimento elegante. Foi até ela, sorrindo tão largamente como lhe era característico, e tomou-lhe a mão pálida por entre os seus dedos grosseiros.
— Retornarei com o maior e mais temível exército que este continente já viu, Minha Rainha. – seu aperto era firme. E Cersei podia ver-se refletida naquelas orbes claras. — Venceremos esta guerra, e com isso, provarei a você; Posso oferecer muito mais do que seu irmão jamais seria capaz de lhe dar.
E então, após depositar um beijo seco acima da mão direita da Lannister, Euron Greyjoy se foi, levando consigo promessas de sangue e vitória.
Aquele homem era dono de um fervor implacável, de uma alegria perversa. E por mais que Cersei se recusasse a admitir, ela apreciava isso.
''Somos nascidos no ferro, e outrora fomos conquistadores. Nosso decreto corria todos os pontos em que fosse ouvido o som das ondas. Meu irmão quer que se contentem com o frio e triste Norte, e minha sobrinha, com menos ainda... Mas eu lhes darei Lannisporto. Jardim de Cima. A Arvore. VilaVelha. As terras fluviais e a Campina. A Mata de Rei e a Mata de Chuva. Dorne e as marcas, as Montanhas da Lua e o Vale de Arryn, Tarth e os Degraus. O que digo é que tomemos tudo! O que digo é que tomemos Westeros.’’ Euron, na Assembleia de Homens Livres.
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