Conúbio
4 Hora do crepúsculo
Notas iniciais
Daenerys
○○○
— Rhaegal, Viserion, COMIGO! – Gritou ela, no dorso de seu dragão negro, cortando as nuvens acima do mar. – EM POSIÇÃO!
Daenerys estava exausta.
Naquele dia gastara as horas pelos céus da ilha, entregando-se com mais afinco e fervor aos seus tres Dragões do que estava certa de jamais ter dedicado na vida a algo, ou alguém.
Junto deles recriara posições de ataque, sincronizando movimentos, testando novos comandos verbais e diferentes formas de pouso. Juntos, voaram alto. E, por vezes, tão depressa que cada lufada gelada de ar também parecia trazer a ela uma singular sensação de sufocamento, como se, de repente, havessem milhares de pequenas gavinhas de gelo sob seu pescoço, comprimindo-lhe a garganta, fazendo arranhar seus pulmões. Mesmo assim, prosseguiu. Desde a aurora até o inicio da hora crepuscular, sem se permitir pausas nem distraçoes. Em consequência, tinha agora a voz rouca e o corpo inteiro repleto de pontos rígidos e latejantes. Estava exausta. Exausta e dolorida. Embora isso pouco significasse, se comparado ao degaste que seus próprios receios internos haviam passado a lhe causar.
Segundo Lorde Varys, após a notícia de uma nova forma de abater Dragões ter se espalhado pelo restante de Westeros, a produção de balestras e lanças gigantes, neste exato instante, já devia estar em andamento. De modo que se tornara evidente, o fato de que seus Dragões precisavam de Treinamento. Não porque existisse qualquer duvida relacionada a seus potenciais. Ao alcançe espantoso de suas investidas mortiferas. Mas porque, mesmo entre piras de fogo e cinzas, Drogon fora atingido. E portanto, treinamento. Pois tolice também seria tornar a duvidar da exatidão na mira de um oponente. Eram soldados, guerreiros e buscariam se defender.
Ou pelo menos Danny sorriu com amargor Eles poderiam tentar.
Aquela fora sua primeira batalha acompanhada de um de seus Dragoes e agora, já sabia o que esperar. Ou melhor; o que não esperar. Suas expectativas haviam sido estreitadas, um despertar de clareza duro, porém, necessário.
Antes da batalha, Daenery ainda, e apesar de tudo que já vivera para chegar ali, mantivera um ténue fio de esperança acerca do que aconteceria quando, finalmente, confrontasse-se diretamente com o vivente povo de Westeros, sua terra Natal. Esperara encontrar (talvez, no auge da própria ingenuidade) entre as fileiras de homens induzidos a guerra quem também pudesse ve-la alem do espectro bárbaro e deturpado, criado a seu respeito por Cersei Lannister. Ansiara, de modo prepotente, por um certo despertar generalizado, infinitamente superior a rendição. Ansiara.. reconhecimento.
Então, encontrara sangue. E retribuirá com fogo.
Compreendendo, ao reparar naquelas tantas variadas faces marcadas pelo mesmo ódio, que em Westeros, tal como tendia em terras conrrompidas pela crueldade, manter propósitos limpos, ansiar pelo bem comum, simplesmente não eram ideais suficientes para se propagar tão facilmente. Aquelas pessoas estavam há tempo demais vivendo em meio a desgraça e caos social para evitar não acabarem acostumadas.Tornaram-se suscetíveis a farsas, dependentes do mesmo ponderio abusivo que as sujeitava a tudo isso. Que roubava seus filhos, sujava suas mãos, sem nunca retornar o mesmo sacrifício. Alieneraram-se, conformados ao ardil de lideres ilegítimos, a influencia abusiva de Casas mais abastadas. O absurdo daquilo, era inaceitável. Nem mesmo Tyrion, havia-lhe preparado para tanto. Tantas pessoas, preferindo queimar a aliarem-se a ela, preferindo a morte a depor ursupadores. Aquilo precisava ter um fim. Mas de que maneira abririam-se os olhos de quem optava por fecha-los? Talvez, deduzira Danny, jogar o jogo para poder encerra-lo definitivamente fosse a resposta. Jogar com fúria e inclemência. Fogo e sangue. Preparando a terra, para enfim poder torna-la fértil de novo. E só então, semeá-la. Ser do sangue do Dragão.
Drogon sobretudo, aguardava com especial entusiasmo o momento de vingar a fina cicatriz que ganhara entre as escamas. Drogon, o mais receptivo e mortífero de seus filhos, não era o problema. Drogon não cairia uma segunda vez. No entanto.. A Targaryen, passara a notar uma certa vulnerabilidade se tratando de seus outros dois Dragões. O cerne agourento de seus mais recentes receios.
Eles atacavam sim, como acreditava que todo Dragão soubesse fazer muito bem. O problema residia em ainda não terem aprendido a reconhecer o momento certo de recuar, caso necessário. Na verdade, enquanto os observava, julgava assemelharem-se mais à crianças brincando de testar seus próprios potenciais do que treinando por um propósito claro. E isto, essa falta de senso, era algo que desde o ferimento de Drogon passara a atormentar constantemente o a Mãe dos Dragões.
Basta apenas que permaneçam tempo demais no chão. Pensava ela, com agonia, ou não voem rápido o suficiente.
Não temia por eles, temia.. perde-los. Seus Dragões significavam mais para ela do que somente armas no arsenal de uma rainha.Quando tudo o mais se fora, desvanecendo em sangue e desolação, eles haviam lhe oferecido um recomeço. O seu recomeço. E Daenerys não permitiria que nada nem ninguém, lhe tirasse isso.
E foi enquanto os observava, numa das das muitas manhas cinzentas daquele continente estranho, que concluirá:
Precisam melhorar. Nós precisamos. É necessário ir com eles além do limite.
Mesmo que sozinha.
Mesmo que, tal decisão, representasse um atraso quanto aos seus planos de retomar PortoReal. Ela não os colaria em perigo novamente. Não até que estivessem devidamente prontos para isso.
E foi suportando a privação de suas necessidades mais básicas, no despontar da aurora seguinte que, Danny, finalmente, começara. Sem estar bem certa de como, mas permitindo-se ser guiada por instintos tão antigos quanto o sangue do mundo: entregou-se a eles.
Agora, ao final do primeiro dia, a Targaryen se sentia.. quase satisfeita. E, também, imensamente ansiosa para ter de novo um solo bem firme abaixo dos pés.
Quase como se em sincronia com seus pensamentos, voando por entre um horizonte que começava a se transformar, Drogon mudou de direção, lançando-a perigosamente para o lado numa guinada repentina.
— O que houve? Para onde estamos indo? — questionou a Filha da Tormenta, sobrepondo seu tom ao assobio característico do vento.
Eles são bastante inteligentes, os seus Dragões. Dissera Tyrion certa vez.
O fato, é que realmente eram.
Desde que nasceram, naquele dia terrível e extraordinário, havia criado o hábito frequente de conversar com eles. Este era um costume que mantinha em segredo, receando que se exposto as pessoas passassem a questionar sua sanidade. Contudo, para ela, se tornara algo bem natural de se fazer.
A Mãe sabia que seus Dragões a entendiam. Por vezes, até pensou que pudessem estar sentindo o que ela sentia, como se partilhassem de algum nível extraordinário de conexão, um nível mais emocional do que mental. Em resposta, Drogon passou a agitar com mais ferocidade as fortes asas e, ao atingir impulso suficiente, subitamente desceu, descrevendo um largo C. A virada brusca a fez deitar sob ele e, conforme se aproximavam mais do solo, ela segurou firme entre seus espinhos, sentido o vento gelado bater de encontro ao seu rosto.
Quando estava prestes a questionar, porque Diabos, Drogon se preparava para pousar tão perto do precipício que ficava de frente a Fortaleza, foi que ela o viu.
E espantou-se que mesmo dali, a tantos metros de altura, ainda pudesse ser capaz de percebe-lo.
Tão novo e diferente para ela, quanto era o frio que soprava do Norte.
Daenerys respirou fundo.
Como deveria referir-se a ele? Reconhece-lo publicamente como Rei do Norte parecia um insulto contra a memória de seus antepassados. Danny era orgulhosa demais para fazer isso.
Jon Snow
Apreciava o modo como o som do nome dele refletia em sua língua, e a forma como soava.
Jon Snow
Estava junto de alguns Dothrahki e ali, entre eles, o contraste era chocante. Mesmo entre os seus, Jon Snow parecia diferente. Não apenas por ser bonito. Daenerys já havia convivido com a beleza e, apesar de não lhe ser imune, também não a super-valorizava. No entanto, havia mesmo qualquer coisa nele que o diferenciava dos outros homens. A Targaryen não saberia dizer exatamente do que se tratava, talvez, nem mesmo quisesse pensar demais nisso. Mas existia. Desde o instante em que o viu, ela sentiu. E desconfiava que não fosse a única.
Drogon posou ao lado deles, sem nem um único comando da parte dela.
Imediatamente, seus Dothraki caíram de joelhos numa muda veneração.
Após o baque da aterrissagem que, por mais gracioso que fosse sempre faria o solo tremer, Daenerys endireitou a postura e, sentindo seus lábios salgados devido a brisa marítima que soprava do oceano, disse:
— Sangue do meu Sangue, peço que aproveitem o restante do dia com suas mulheres e filhos.
— Sim, Khaleesi. — responderam eles, em uníssono.
Um por um, seus Dothraki retiraram-se. E quando por fim ficou a sós com Jon, o primeiro pensamento que teve foi sobre como sua aparência devia estar péssima. Ali, com os cabelos desalinhados da trança, e um rosto vermelho de frio.
O segundo foi sobre como ele, instantes antes, se quer havia hesitado em permanecer de pé enquanto assistia aos demais se ajoelharem perante a chegada dela.
Arrogante e Orgulhoso pensou Daenerys, levemente irritada. Até onde vai sua audácia, Jon Snow? Até quanto poderá ser imune a minha influencia?
Daenerys decidiu testa-lo.
Instigando Drogon a avançar, aproximou-o de Jon até estarem quase encostados um no outro. Ela sabia que a maioria das pessoas jamais toleraria tal proximidade vinda de uma criatura tão perigosa.
Drogon rugiu, um alerta e uma ameaça.
E, inesperadamente, para a perplexidade de Dany, começou a fareja-lo.
Seu coração passou a acelerar enquanto Jon despia uma das suas luvas de couro e, num movimento tão lento que chegava a quase ser de adoração, estendeu uma das mãos eliminando a pequena distância que os mantinha afastados.
Drogon tinha um gênio forte e detestava a maioria das pessoas.
No entanto, deixou-se ser tocado por ele.
E enquanto os pensamentos caóticos de Daenerys refletiam sua confusão, o Nortenho, deliberadamente, começou a afaga-lo. Afaga-lo.
Ambos, Homem e Dragão, se encararam.
E então, pareceram se entender. 
Nos minutos que se seguiram, a Targaryen saltou para o chão, pondo-se a contemplar a singularidade da cena diante de si. E, quando Drogon por fim se afastou, ela, cuidadosamente, disse:
— Isto foi mesmo inesperado, Jon Snow. – Tentando evitar transparecer qualquer nota de assombro em seu tom.
— Sim, foi. — respondeu ele, num tom monocórdico.
Ambos o observaram levantar voo.
Seus cotovelos quase se encostavam. Com um leve estremecimento, deu-se conta então, de que eles nunca haviam estado tão próximos.
Diga alguma coisa.
— Então, o que se passava há pouco, entre o Lorde do Norte e os meus Dothraki?
Jon virou ligeiramente a cabeça para encara-la. Seus olhos brilhavam fundos, impenetráveis.
— Nada com que precise se preocupar, Vossa Graça — respondeu, ainda soando estranhamente absorto. — Eles apenas se tornaram mais fáceis de lidar do que antes.
Daenerys arqueou as sobrancelhas em descrença.
— Não acho que isso seja possível. Deve ter conquistado o respeito deles.
— Estou acostumado a lidar com povos complicados, apenas isso. — disse ele, dando de ombros.
O som plácido e constante das ondas batendo nas pedras abaixo do despenhadeiro, era tudo que se ouvia. E mesmo por detrás das nuvens pesadas e cinzentas, podia-se notar a tonalidade alaranjada que anunciava a hora do crepúsculo.
— É uma bela vista. — observou o Nortenho, após um longo instante de silêncio. — Transmite certa paz. Em Winterfell tínhamos grandes torres, com enormes janelas de madeira envelhecida. Acredito que também podiam fornecer uma visão considerável do horizonte, a quem procurasse ver.
Winterfell. O inferno gelado e saudoso do qualm, Jorah, tanto lhe falara. Danny piscou com força, subitamente energizada por aquela repentina explosão de palavras. Jon estava lhe dando uma abertura. Uma possibilidade de conhece-lo maior do que sussurros e fracas suposiçoes.
— O que costumava encontrar quando via, Jon Snow? — indagou Danny, antes que pudesse se conter. — Conte-me.
Jon hesitou, parecendo considerar o que diria a seguir. Ou mesmo se diria. Ela arqueou novamente as sobrancelhas, desta vez, em expectativa. Conte-me.
— Certas coisas eu via mais do que a maioria. Acordava junto da aurora, mas passava boa parte dos dias usando meu tempo no campo de treinamento. Ja meu irmão Brann.. Bem, ele seria a pessoa certa para lhe dizer qual era a melhor vista sob qualquer ponto de Winterfell. Ele.. costumava gostar de escalar. — Jon respirou fundo — Mas hoje está morto, e a Winterfell como conhecia ja não existe mais. Contudo, ainda posso tentar descrever aquilo de que recordo. Se.. se, for do seu interesse, Majestade.
Jon se interrompeu, ainda sem olha-la.
No entanto, Danny.. Danny não conseguia desviar os olhos da face do Nortenho. Teria sido um lampejo de fragilidade que notará ali? Parecia diferente hoje, mais nostálgico, sim... e melancólico.
Melancolia.
Eis algo que a Targaryen conseguia compreender bastante bem.
Uma súbita onda de empatia a envolveu.
— Lamento por seu irmão. — disse, com sinceridade. — Conte-me mais.
Jon respirou fundo, parecendo desconfortável.
— Desculpe. Tenho certeza de que tem coisas mais importantes a fazer além de ter seu tempo monopolizado por mim. Eu..
— Ah, pare com isso, Jon Snow. — contestou, cruzando os braços sobre o colo, impassível. — Por favor, continue. Eu adoraria saber como já pareceu a você, sua Winterffel.
Jon passou as mãos pelo cabelo volumoso, exibindo uma sutil sugestão de sorriso nos lábios delineados. Danny perguntou-se se ele fazia alguma ideia do quanto era atraente. Certamente que sim. A questão era o quanto usava isso em benefício próprio. Era de se julgar que ninguém nascido com aquela aparência, teria passado por muitas dificuldades na vida. No entanto, ao desviar os olhos para suas cicatrizes, percebeu o quanto eram numerosas. E como seus ombros largos retesados, sugeriam um homem que carregava fardos maiores do que se permitia demonstrar.
— Quando pensar no Norte, tente imaginar florestas antigas de grande extensão. Há muita vida selvagem lá, quase intocada pelo homem. — começou ele, de repente, fitando o horizonte. — Há o silêncio, um silencio rico. O canto de pássaros silvestres vez ou outra interrompido por melodias trazidas pelo vento de uma taberna qualquer. O farfalhar que fazem mil folhas secas, antes de se desprenderem sobre o chão. O atrito vagaroso das rodas de uma carroça em contato com a terra crua, sem pedras. Agora pense num grande caldeirão, cercado por altas muralhas de pedra cinzenta que é exatamente o oposto de todo esse silencio elementar. Seu Castelo tem torres, essas torres fazem eco, em Winterffel a vida se mostra. É barulhenta, funcional. Tem pontes abertas e fechadas, cómodos largos e estreitos, alguns altos e outros nivelados ao chão. Paredões construídos em diferentes tempos, dispostos sem organização para unir dezenas de aposentos através de inúmeros corredores. Embora tudo também se situe na margem de um único grande pátio. Isso é...Winterffel. Como uma cidade que cresceu sozinha, e ninguém quis mudar. Pois, apesar de caótica e disforme, é exatamente como tem que ser. Tão dura e farta quanto o Norte.
Danny mordeu os lábios, totalmente absolvida. Nunca antes ouvira o Nortenho falar tanto.
— Parece simplesmente.. adorável. — disse. Pois parecia. Era como o tipo de lugar que Danny imaginava que um lar devesse ser. — Tem sorte, Nortenho. Não são todas as pessoas que dispõe de recordações assim. Um lar assim. — declarou ela, com um suspiro.
Jon lhe lançou um olhar consternado. E por um instante, outro tipo de emoção surgiu em seu semblante antes absorto.
— Lar? Nunca foi um lar. Não para mim. — esclareceu, num tom afiado. Em seguida, suavizou-se. — Havia uma ponte aberta que cedia espaço ao umbral, onde corvos disputavam a caça que, de vez em quando, algumas corujas das Neves traziam. Batalhas épicas costumavam ser travadas alí — Jon esboçou um sorriso. — E depois eram feitos travesseiros das penas restantes, geralmente comercializados no vilarejo mais próximo. Em Winterfell tudo era reaproveitado, não havia desperdício. E por conta disso, tínhamos o inverno mais bem abastado de todo o Norte. E, no oitavo dia de cada mês, o mestre dos canis abria suas dependências, e por algumas horas Winterfell inteira vibrava ao som do ladrar de dezenas de cães aproveitando a liberdade. Costumavam ser meus dias preferidos na infância. Isso, e disputar corridas a cavalo com Robb. No mais.. quando se olhava ao redor, costumava-se ver extensos campos de plantação, bosques repletos de grandes árvores nodosas, ora cobertas por flores, ora tomadas pela neve. Crianças brincando, homens de armas em treinamento. E mais além, a Muralha.
Danny suspirou fascinada.
— A muralha sem dúvidas possui a vista mais única de todas.
— E a mais desoladora também. — O tom dele endureceu tão repentinamente que lhe causou um sobressalto. — Já tive o bastante dela para uma vida inteira.
— Posso entender isso. — constatou ela, com compressão.
Já tivera o suficiente de desertos, e toda a dor contida em tais memórias quanto toleraria suportar. Mas, nada disse sobre isso. Sentia um gostoso deslumbramento pela maneira dele de descrever as coisas, e flagrou-se ansiando por mais.
Jon no entanto, mais uma vez parecera ter se entregado ao mesmo silêncio intenso que, de maneira tão frequente, também parecia fazer parte dele, como um costume hediondo de franca contemplação. Então, Danny, aguardou. Esperando a iniciativa dele de retomar o assunto, qualquer assunto. E o silencio.. se prolongou.
Ora, que falta de gentileza! Que tipo de homem decide se expressar, começando a falar sobre si, e com a mesma rapidez se fecha, absolvido e impenetrável, tão rapidamente?
Estavam tão próximos, mas conforme os minutos corriam, mais distantes pareciam ficar.
Deveria ela retomar a conversa? Ou talvez, ele pretendesse mesmo demonstrar indiferença, e esperasse agora que ela fosse se despedir?
Em meio às próprias ruminações, Danny decidiu que não faria nada. Ora, que parecessem dois tolos emudecidos diante de um abismo, que mal há? E o silencio perdurava. E perdurava. Até Daenerys descobrir que detestava isso.
Destestava verdadeiramente. A frustração que se origina do silêncio. A pausa incomoda que interrompia o contato, quando ainda havia tanto a se dizer. Conhecer. E de repente, ter constatado o quanto isso, esse emudecer abrupto do Nortenho a afetava, foi demais.
— Se toda a sua gente for semelhante, posso imaginar como passar muito tempo reunidos num único lugar limitado, torna a realidade intragável!
Sabia que estava sendo rude, e seu tom acabou se revelando mais agudo do que pretendera. Mas, instigar uma reação em Jon, qualquer que fosse ela, naquele momento parecia mais atraente do que dar-lhe as costas e ir embora.
Só não esperava aquele tipo de resposta.
De repente, um som lupino ecoou no vazio de diante deles. Como um rasgar estrondoso, espontâneo. E tão que cativante que a fez oscilar.
Jon Snowestava rindo.
— De qualquer modo, são dois lugares que pretendo visitar. — conseguiu dizer, se sentindo por algum motivo, ridiculamente constrangida.
Jon se interrompeu, respirando fundo para recuperar o fôlego.
— Você vai. — falou ele, por fim. Não era uma pergunta.
E pelo canto dos olhos, Daenerys pode perceber esse exato momento em que a atenção dele, se desviou completamente para ela. Os minutos seguintes a isso, pareceram se estender, e se prolongar. Pensou que era quase possível sentir a energia que parecia preencher os pequenos centímetros de distância entre eles.
Recordou-se então, do primeiro momento em que o vira.
Sentada no alto de seu trono em Pedra do Dragão, Jon parecera exatamente como Daenerys imaginava que um Nortenho devesse ser. Alto. Robusto. Resistente. Algo em sua face, inspirava real nobreza.
No entanto, foram os olhos dele que se destacaram para ela. Espantosamente escuros e brilhantes em contraste com a pele clara. E dentro de suas profundezas, Daenerys notara um certo tipo fascinante de selvageria.
Agora, diante a toda aquela imensidão oceânica, tentou lembrar da última vez em que se sentira tão em paz. Não foi possível.
— Parece cansada. – observou ele, por fim.
Daenerys reparou nas olheiras arroxeadas do Nortenho, contente por finalmente poder encara-lo diretamente.
— Você também.
Jon esboçou um sorriso.
— Uma grande tempestade se aproxima. Porque não aproveita essa ''pausa’’ entre guerra e estratégias para descansar?
— Vou aproveitar essa ‘’pausa’’ dedicando meu tempo à eles – Daenerys apontou para uma das torres do Castelo, onde Viserion havia pousado. —Precisam de treinamento.
— Pode ser complicado. – Jon franziu o cenho.
— Ah sim. Treinar Dragões não é exatamente a coisa mais fácil de se fazer. – disse, e foisua vez de sorrir. Um repuxar espontâneo de bochechas, leve, radiante, como não lhe acontecia há bastante tempo.
Naquele momento, o Nortenho se virou, finalmente, para ela.
Estavam agora tão perto um do outro, que a Targaryen pode perceber as pupilas dele se dilatando. Seu olhar era firme, tempestuoso. Repleto de palavras não ditas.
Sentiu que poderia se perder ali, naquela profundidade.
— Eu a esperei aqui. – Sussurrou ele, roucamente.
— Como disse? — Indagou, vacilando.
— Naquela tarde, quando partiram para atacar os Lannister, foi exatamente aqui, onde estamos agora, que eu a esperei.
Daenerys emudeceu.
Jon aproximou-se mais dois passos dela.
Ele cheirava a couro canela e orvalho da manhã
E ela sentiu o próprio coração começar a retumbar em seu peito novamente.
— E então você retornou, e estava bem. – ele parecia querer dizer muito mais do que isso.
— Eu.. – ela não sabia o que dizer.
Afaste-se dele sussurrou sua consciência, num atrito de dualidades. Sentia as pernas moles. Foque-se no que é importante. Danny respirou fundo.Não perca o controle
E recuou.
— Porque se tratando de você, tudo tem que ser tão complicado, Jon Snow? — indagou, subitamente exasperada.
Pode distinguir o lampejo de frustração que irrompeu na expressão do Nortenho.
— Perdoe-me majestade. Eu não quis.. – ele se interrompeu, desviando o olhar para as nuvens pesadas.
Após alguns instantes de um silencio embaraçoso no qual eles não se aproximaram de novo, embora também não tenham se afastado mais, Jon limpou a garganta. E antes que pudesse dizer qualquer coisa, Daenerys se adiantou:
— Hoje à noite teremos uma reunião do conselho Jon Snow, e eu espero que você participe.
— Com todo respeito, vossa graça. Mas não faço part..
— Eu o espero na Câmara da Mesa pintada, hoje à noite. – sentenciou, interrompendo-o.
Jon Snow suspirou.
Por um segundo, eles olharam um para o outro novamente. Parecia algo impossível de não se fazer.
Fogo e Gelo e um mundo de impedimentos
Então Daenerys se afastou em direção ao castelo.
Pode sentir os olhos de Jon seguindo-a por todo o caminho até lá.
''Que medo alegre, o de te esperar.''
Clarisse Lispector.
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