Complexo de Bianca

1 Hesitação - parte um


Notas iniciais
O start da história

Manhã de outono tranquila demais até mesmo para uma cidade de interior como Extravia. Quando vim morar aqui meus pais me avisaram sobre os dias frios que enfrentaria, porém os subestimei. Trouxe comigo apenas dois casacos, um deles, que visto agora, é um bordô, que me parecia extremamente lindo quando comprei, mas gostaria que ele fosse tão quente quanto agradável aos olhos.

Não sei dizer ao certo como levantei da cama hoje para vir trabalhar, mas acredito que não foi para receber os olhares de um misto entre penalidade e desconforto vindo das mulheres sentadas à mesa que acabo de servir. Até penso voltar em direção à elas e dizer “olhem só, eu trabalho e estudo, pago minhas contas sempre que posso, nunca roubei, nem matei, não faço fofoca e nem espalho fake news, e não sei na verdade se acredito realmente em Deus, mas, se ele existe, não vai me condenar ao inferno por estar saindo com a filha do seu José não...” entretanto me atento a cuidar um jovem prestes a sair do boteco sem pagar.

—Ei. -gritei. -Você não pretende sair sem pagar, certo?

Ao me ouvir seu José aparece de dentro da cozinha com a cara amarrada de sempre desta vez direcionada ao rapaz.

—Ninguém sai sem pagar. -ele diz e faz sanha para o quadro que estava a alguns metros pendurado na parede. Ele, seu José, apertando a mão do delegado da cidade, o qual se orgulhava muito de ser amigo. E o qual também não ia com a minha cara.

Assim que entende o recado, o jovem volta a sentar e procura no bolso do casaco por dinheiro, quando o acha larga sobre a mesa e desvia de mim para seguir rumo a porta de saída. Seu José volta para a cozinha.

O que vocês precisam entender é que uma cidade como esta tem seus costumes muito fortes e qualquer acontecimento divergente deles é notado por todos os moradores, e lograr o estabelecimento do melhor amigo do delegado não passaria despercebido.

Há muitas coisas que não são uma boa por aqui, vocês verão que ser a nova moradora, assumidamente lésbica e que só veio parar aqui por que se envolveu com a mulher do delegado também não é uma delas. Eu sei que, no decorrer da leitura, irão achar que guardo rancor de Clarice, pois confirmo que guardo. Acho que nunca mais conseguirei confiar tanto em alguém como confiei nela.

Outra coisa que vocês precisam saber é que quando o coração manda eu obedeço.

Foi assim que vim parar aqui nesta cidade e foi deste mesmo modo que comecei a namorar Fernanda algumas semanas após o fatídico término com Clarice. Vocês acreditam em almas gêmeas? Por que eu quero tanto acreditar que ela é a minha e que não vim em vão para este lugar, nem tranquei minha faculdade e estou me submetendo ao trabalho de garçonete em um boteco que fica dia e noite aberto, mas que nunca tem dinheiro sobrando no caixa, à toa. Era o destino, certo?

Muita gente cruza por essas mesas, aos poucos vou me familiarizando aos rostos e acertando os nomes. Vez ou outra acabo errando algum, mas consigo me desviar da vergonha e fazer alguma brincadeira a respeito. Gosto de me imaginar como alguém engraçada. Mesmo que muitas vezes acabem rindo de mim e não de algo que eu disse em si. Embaralho-me toda com os pedidos, erro os passos e quase caio; uma vez seu José teve que me socorrer, pois virei a jarra de café nos pés, isso fez de mim a garçonete atrapalhada e engraçada em contraste a outra garçonete da casa, que é de lua. Ainda que tenham pessoas, grande parte conservadores orgulhosos, que se neguem a serem atendidos por mim. A primeira vez que isso aconteceu chorei dois dias inteiros, pensei em voltar para minha cidade natal e largar a pose de durona, mas aquele sentimento passou quando Fernanda me aconchegou em seus braços, parecia que ali tudo estava certo e ninguém poderia me afetar além dela.

—Bia... -escuto me chamarem em uma das mesas.

Ainda que o salário fosse pouco, as pessoas complicadas, os dias frios e o meu maior desejo fosse atravessar o estado atrás de um Big Mac, estar aqui me tornou alguém melhor e isso devo admitir.

—Bianca. -escuto a voz novamente e só então me dou conta de quem se trata.

—Clarice... -digo e caminho em direção a sua mesa, sentindo o olhar de todos sobre meus ombros.

Fazem quatro meses que trabalho aqui. Seis meses que namoro a filha do dono. E oito meses que vim morar nesta cidade atrás de quem achei que seria meu grande amor, Clarice.

—Como vai? -ela pergunta com um sorriso nos lábios, como se eu fosse uma velha amiga.

—Bem e você? -como alguém pode ser tão cínico? É o que desejo perguntar de verdade.

Ela me da uma olha de cima a baixo, solta um suspiro e leva a mão até o seu queixo.

—Tudo bem mesmo, meu amor? -os seus olhos pareciam um oceano em ressaca. As ondas eram turvas e fortes. A serenidade que tentava transmitir em sua voz, não era legítima.

—Posso anotar seu pedido, senhora? -pergunto com tom de exasperação. O que ela fazia ali? O que ela queria?

—Você sabe o que eu quero... -quase como se lesse meus pensamentos, ela diz.

Já ouvi essa frase antes, quase deixo transparecer o calafrio que sinto em minha nuca. Clarice sempre foi assim, confiante e dominante, com seus quarenta e poucos anos, colocaria qualquer um debaixo dos seus lençóis , não só o corpo é de um curvilíneo perfeito como seu charme é quase, ouso dizer (e Fernanda que não escute), irresistível.

-E, você também sabe, que agora é senhorita. —ela continua.

Desvio das memórias. Atendo-me ao pedido. E assim que o consigo, ao me virar para andar até a cozinha e entregar a José, todos que estavam olhando tentam disfarçar voltando a comer e beber.

—José, vou fazer meu intervalo. Diga para Amanda assumir meu lugar. -digo isso e já me encaminho para os fundos do local.

Procuro em meu avental a carteira de cigarros que coloquei ali antes de sair de casa. Abro-a, pego um, acendo e trago. Fumar é um vício desde a adolescência, mas, essa história vou ficar devendo hoje.

Às vezes não consigo organizar meus pensamentos e vocês podem perceber isso ao decorrer da leitura. Digo, pode ficar meio confuso logo logo. Em meus vinte dois anos de existência nunca tive muita certeza de nada, o que quase sempre me leva a crises existenciais. E acabarei transmitindo isso aqui.

Estou no meio do segundo cigarro quando seu José me chama para voltar ao trabalho.

É meio dia e o boteco começa a lotar de gente. Ao entrar olho em direção a mesa onde Clarice estava, ela já foi embora. Por que não consigo deixar passar? Por que ela segue por perto? Tudo bem que a cidade é pequena, e podemos nos encontrar por aí, mas ela está em todo lugar que vou. E quando não está, eu a procuro ou meu pensamento vai até ela. Parece impossível superar alguém que está em tudo.

Notas finais
Comentem o que acharam, please.