Complexo de Bianca

2 Hesitação - parte dois


Alguns clientes diários se tornaram meus amigos. E fazem desse trabalho horrível, um pouco mais tolerável.

-Bom almoço, meninas. -digo largando sobre à mesa dois pratos do dia para Alice e Vitória.

-Obrigada, Bia. -diz Alice encarando o prato pronta para o devorar.

-Fernanda ainda não chegou? -pergunta Vitória.

Checo meu relógio, quinze para uma da tarde.

-Logo ela chega. -respondo ignorando minha preocupação, e um resquício de ciúmes, pois ela deve chegar junto a Catarina, uma colega de trabalho, para o almoço.

Odeio sentir ciúmes, e elas são amigas há muito tempo, mas nada consegue fazer com que eu goste de Catarina. Sinto-me extremamente desconfortável perto dela. Talvez tenha acontecido algo maior que amizade entre ela e Fernanda, talvez não. Só saberei quando perguntar, e, como não quero parecer ciumenta, não vou fazer isso tão cedo.

Ao começar me afastar da mesa, Alice segura meu braço e tenta sussurrar de boca cheia.

-É verdade que Clarice esteve aqui hoje mais cedo?

Não preciso nem perguntar como ela ficou sabendo, é óbvio que metade cidade já deve estar comentando o ocorrido.

-É sim. -respondo e sento ao seu lado.

Logo que vim para cá conheci Alice, ela vagava pela rua de Clarice procurando uma senhorinha que faz bolo recheado. Eu não sabia aonde era, mas fui com a cara cheia de sardas dela e lhe ajudei a procurar. Desde então nos aproximamos e viramos amigas. O que foi ótimo, pois meus amigos anteriores não concordaram com a minha mudança para cá e fomos perdendo a intimidade e o contato com o tempo.

-O que ela queria? -pergunta após engolir a comida que estava em sua boca.

-Eu não sei. Talvez nada, deve ter vindo só para me atormentar. -digo e rio a fim de disfarçar o quanto aquilo me afetou de fato.

Alice me encara ciente de que eu estava surtando internamente, mas não queria dizer.

-O que ela tem de gata ela tem de maldosa. -diz Vitória quando o silêncio toma conta da mesa.

Rimos.

-Infelizmente, tenho que concordar. -digo levantando. -Preciso voltar ao trabalho. Qualquer coisa me chamem.

Saio em direção a cozinha.

Já se passa da uma da tarde quando Fernanda aparece, sozinha. Ela passa por mim e sorri, caminha até o caixa e senta a minha espera. Logo que me livro das mesas vou a sua procura.

-Ué, não vai comer não? -pergunto a envolvendo com os braços.

-Fui almoçar na casa de Catarina. -responde e me beija.

Óbvio que tinha dedo de Catarina nessa demora para chegar. Engulo meu ciúme e apenas sigo a conversa.

-Ah, que bom. -sorrio.

Em que momento do namoro se pode deixar ser a maluca ciumenta sem se importar se a outra pessoa vai te largar? Gostaria de saber a resposta. Só sei que por agora seguirei sendo a namorada leve e cheia de amor.

Solto-me dela e vejo um homem acenando para que eu vá até a mesa, ela também percebe.

-Parece que você tem que ir. -ela diz.

Acento com a cabeça e vou me afastando.

O resto do dia passa sem muita pressa. O frio chegou rápido ao entardecer. E o Boteco foi ficando vazio. Logo que as mesas se esvaziam vou até Fernanda confirmar o jantar desta noite.

-Vai mesmo cozinhar para mim hoje?-pergunto tentando não parecer empolgada.

Ela sorri e levanta do banco atrás do caixa.

-Vou sim, meu amor.

Fernanda cozinha melhor que muita gente. Até mesmo que Clarice.

-Qual vai ser o prato? -me aproximo do balcão.

-Uma receita de massa legitimamente italiana que descobri dia desses.

Existe algo mais bonito do que uma italiana? Uma brasileira cheia de curvas. Não. A resposta é NÃO.

-Ela quis dizer “que meu pai, um italiano legítimo, me ensinou”. -seu José surge da cozinha com um avental sujo e um pano de prato no ombro.

-Estava querendo tirar o crédito do seu pai? -pergunto entre risadas.

-Pai... -ela diz e sai em direção à ele. Abraça-o e lhe da um beijo na bochecha.

Seu José é um sogro complicado. Quando Fernanda me levou na casa deles pela primeira vez fiquei muito nervosa. A mãe dela morreu após ela completar onze anos e desde então são só os dois. A opinião dele importava muito, pois, apesar da casca durona, ele a apoia em seus relacionamentos, independente do gênero. Porém, surpreendentemente, me dei bem com ele.

Poucas horas depois fechamos o Boteco.

Cheguei em casa exausta, mas animada para o jantar com Fernanda. Tomei um banho e fiquei a sua espera. Quase uma hora depois ela chega.

-Desculpe o atraso. -diz ela tirando o casaco e largando sob o sofá.

Dou-lhe um beijo demorado e a solto. Ninguém além dela para me trazer paz após um longo dia.

-Achei que não viria mais. -brinco.

-Acabei me atrasando procurando uma roupa adequada para a ocasião. -ela diz e faz uma cara como se não devesse ter dito aquilo.

-Ué?! Iremos apenas jantar, como sempre. Você não pretende me pedir em casamento nem nada do tipo, certo? -rio, mas se existe alguém capaz de me pedir em casamento após seis meses de namoro, é Fernanda. Algo que Clarice nunca faria.

O silêncio permanece nos cercando por longos segundos.

-Não. Óbvio que não. -ela responde quase sem jeito e caminha até a cozinha.

Difícil dizer o que esperar de Fernanda as vezes. Ela consegue ser totalmente previsível ao mesmo tempo em que poderia me pedir em casamento realmente agora.

Os ingredientes, que ela me mandou por sms mais cedo, estão na bancada da cozinha a sua espera. Observo-a de longe, prende o cabelo, lava as mãos e começa os preparativos. Ofereço-me a ajudar por muitas vezes, mas ela recusa em todas. Prefere cozinhar sozinha.

-Como foi seu dia? -pergunto para quebrar o silêncio.

-Foi... Agradável. -ela responde parando de cortar a cebola sob a tábua por alguns segundos. Logo retorna a atividade.

Fernanda dá aulas em uma escola, durante o turno da manhã, para as crianças do primeiro ano.

-Nada muito detalhado, mas que bom. -digo.

Fernanda me encara.

-Bom, minha ex não apareceu por lá. -diz em tom de deboche. Ela sabe.

O fato de Clarice ter aparecido no boteco não escaparia dos ouvidos de Fernanda, entretanto achei que teria mais tempo para absorver a situação e superá-la para depois lidar com mais esta complicação.

-Você ficou sabendo, não é mesmo? -digo e me jogo no sofá.

-A cidade é pequena. E a escola menor ainda.

Clarice também da aulas, na mesma escola que Fernanda. Raramente se encontram, pois trabalham em turnos inversos, mas nada impede que a fofoca encontre ambas as duas, que possuem somente uma coisa, além das aulas em comum, eu.

-Eu sabia que ficaria sabendo. Não comentei por que esperava que partisse de ti. – digo com calma, ciente da tempestade em copo de água que ela poderia fazer se quisesse.

-Tudo bem. -ela diz e segue com suas cebolas.

Após esta conversa dramática nada mais afetou a noite. Estava tudo perfeito. A música, o vinho e a comida.

Ah, sim. A companhia também era ótima.

Enquanto Fernanda cozinhava a observava em silêncio. Seu um metro e cinquenta parecia bem maior dentro da cozinha, lá ela ganha ainda mais vida. Não dizer por que não quis trabalhar com seu pai, mas sem dúvidas foi uma grande perda para ele e para todos que frequentam o estabelecimento.

Existem muitas coisas que me atraem em uma mulher, e, curiosamente, Fernanda possui apenas algumas delas. Ao contrário de Clarice. Uma delas são os cabelos indecisos, ora lisos ora ondulados. De cor Clara, mas sem se tornar um loiro por assim dizer. Seu corpo é frágil, magro, com poucas curvas, as vezes ela me parece tão pequena que tenho medo de quebrá-la.

Tivemos inicialmente uma ligação sentimental, bom, o tanto que se espera ter em um banheiro de festa enquanto ambas estão bêbadas, dez minutos antes de se beijar. Mas, eu contarei essa história mais à frente.

-Está bom? -ela pergunta, me encarando como quem espera o resultado de uma grande prova.

-Está maravilhoso. -digo sorrindo.

Estico minha mão sob a pequena mesa para conseguir alcançar a sua, que está quentinha mesmo após o grande esforço de lavar a bagunça da cozinha.

-Que bom. Queria que tudo fosse perfeito hoje. – ela sorri e abaixa a cabeça como se estivesse com vergonha, mas ela não tem vergonha.

-Sempre está perfeito com você. -digo lutando com o meu eu interno que não acredita em como fui melosa. Não é algo que gosto de fazer. Porém, sei bem que é algo que Fernanda aprecia.

Escuto sua respiração quase ofegante por um longo minuto e me preocupo com o que vem pela frente.

-Bianca... -ela ergue a cabeça e está com um olhar fofo ao mesmo tempo que tenso

-Ai meu Deus. Você vai terminar comigo, é isso? -pergunto a interrompendo.

-Não! -ela leva a mão que eu segurava a cabeça. -Muito pelo contrário.

-Você vai me pedir em casamento? MEU DEUS. Já conversamos sobre isso...

-Fica quieta, por favor. Não é isso também. -ela volta sua mão a minha.

-Certo, certo. Ficarei quieta. -digo sinalizando a mão na boca.

-Eu queria que... O que você acha de morarmos juntas? -pergunta em um tom alto demais. Parece empolgada e nervosa.

-Eu...

Fui pega de surpresa. Como dizer não? Ou pior, como dizer sim? Há pouco tempo sai de um relacionamento. Um relacionamento que fez com que eu mudasse toda a minha vida. Um relacionamento que deu errado, que reduziu a mim e a minhas idealizações á pó.

Em poucos momentos da minha vida existiram situações de tudo ou nada, e sei que com Fernanda seria assim. Se eu disser sim, moramos juntas e logo ela irá querer casar, e se eu disse não logo ela irá terminar tudo. Tamanha incerteza poucas vezes me foi sentida. A última vez foi com Clarice e o convite de vir morar com ela, e veja onde estamos agora.

-Bianca? -ela me encara esperando a continuação da frase.

Preciso ser fiel aos meus sentimentos e preciso ser honesta com Fernanda. Dessa vez não posso me jogar sem pensar nas consequências. Dessa vez, não posso quebrar de novo, não irá sobrar nada.

-Eu te amo. -retomo a fala. -Mas, eu preciso pensar à respeito. Você sabe que recentemente consegui me reerguer, e foi graças a ti. Não quero te perder, mas preciso ser honesta comigo mesma e contigo.

Gentilmente ela acaricia minha mão, me olha com seus olhinho verdes perfeitos e não fala por algum tempo, não sei dizer o que ela sente, mas deve estar decepcionada. E eu a entendo.

—Eu te amo. E sei que precisa pensar a respeito. Mas, precisa lembrar que eu não sou ela e nada nesse mundo me faria te magoar.

Ouvir tais palavras me faz chorar, odeio chorar. Mas, não me contenho e não irei impedir as lágrimas de caírem. Amo Fernanda, mas não quero ser despedaçada de novo.

Não deveria deixar um antigo relacionamento afetar um novo. Mas, parece tudo tão recente, eu sinto o cheiro de tinta fresca vindo do meu coração recém reconstruído. Assim como escuto a risada de Clarice em um quartinho escondido e trancado à sete chaves lá dentro.

Se o amor não deixa de ser amor, só se ressignifica, o que sinto em relação à ela agora? É amor em qual de suas definições?