Complexo de Bianca

3 Clarice: o perfume dos livros - parte um


Notas iniciais
Como o relacionamento das duas se iniciou, em resumo.

Há dois anos conheci Clarice em um web site sobre literatura, sempre fui muito fã do tema, pensei em cursar Letras após terminar o ensino médio justamente por ele. Mas, acabei desistindo em decorrência de algumas pesquisas de mercado, em resumo, uma professora ganha muito pouco. Todavia, segui a admiração pelo curso, o que fez com que eu retornasse a faculdade anos depois para iniciá-lo.

Sabia que na internet, especificamente neste web site, encontraria muitas professoras e talvez este tenha sido um das consequências favoráveis, obviamente, além do meu interesse por literatura saciado. Entretanto, nunca tentei uma aproximação fora dos interesses em comum com o gênero textual. Acabei me tornando amiga de algumas senhorinhas, professoras aposentadas que compartilhavam leitura e algumas mensagens de “bom dia” no Facebook.

Quando conheci Clarice sabia que me apaixonaria, ela possuía um carisma enorme que conseguiu ultrapassar as barreiras da comunicação meramente digital. Trocamos números de celular e a partir disso não paramos mais de conversar. O clima, a próxima leitura, o simples roteiro do dia a dia já era start para debates incansáveis, sempre com um jeito ambíguo de ser; ora malícia, ora inocência. Algumas semanas depois marcamos de nos encontrar em um grande evento de literatura organizado pelo meu curso. Eu não acreditei que ela apareceria, eram duas horas de viagem até minha cidade, mas fui do mesmo modo, com altas expectativas, perplexa por todas as possibilidades do que poderia acontecer.

Vocês deveriam saber que desde adolescente tive uma queda por mulheres de meia idade com aparência de intelectuais. Com todo certeza vocês conhecem o tipo, aquelas que poderiam facilmente lerem livros enquanto bebericam uma taça de vinho tinto deitadas ou sentadas sob seu sofá de frente à uma lareira no inverno e dentro de uma banheira com pétalas brancas no verão. Em suma professoras.

Centenas de pessoas participaram do evento o que fez com que sumir despercebidamente de minhas amigas fosse fácil. Difícil mesmo foi controlar o nervosismo. Cada passo dado parecia em direção ao precipício. E de certa forma, foi mesmo.

Vesti minha roupa mais madura. Se é que se pode dizer que uma roupa dê ou tire de alguém a maturidade. Mas, tentei, de todo modo, parecer mais velha, afinal Clarice tinha trinta e nove anos, e sempre pareceu bastante confiante de si, ao contrário de mim.

Já estava na hora de encontrar com ela no restaurante da praça em frente a faculdade quando me ponho a atravessar a rua e um carro vem em minha direção, o meu nervosismo não deixara que eu percebesse tal aproximação, acabei sendo puxada por um braço feminino antes que pudesse sequer notar o veículo.

-Meu Deus, você não olha para os lados não? -perguntou a mulher que salvou minha vida. Talvez fosse exagero dizer “vida”, no máximo aquele carro quebraria alguns ossos meus ao ir de encontro com meu corpo.

Estava incrédula com o que acabara de acontecer, porém me atentei a conferir minha roupa, não podia desmanchar meu traje de mocinha madura.

-Ei, estou falando com você ... -ela chamou minha atenção novamente. –Bianca.

Somente ao ouvir meu nome que olhei para seu rosto e só então notei já ter escutado aquela voz. É Clarice.

-Clarice? -perguntei tentando focalizar seu rosto embaçado. Por que decidi ir sem óculos?

Ela tem a minha altura, não sei por que sempre a imaginei menor. Seus ombros são estreitos, suas pernas longas em uma calça social, ela está usando salto? Lembro de pensar ao olhar para seus pés escondidos pela boca da calça. Magra, porém não tanto ao ponto de ver seus ossos, talvez eles estivessem escondidos pela blusa preta. Um belo corpo. Um corpo desenhado, com longas curvas. Como ela podia ser ainda mais bonita do que as fotos que vi dia e noite nas semanas anteriores?

-Eu mesma. -respondeu com um longo sorriso.

Devo admitir que ali mesmo eu me derreti, foi ali e não há por que negar, que eu me apaixonei à primeira vista por ela. O seu sorriso era o mais lindo que havia visto, seu olhar azul da cor do mar e nada daquele sentimento, naquele momento, parecia errôneo até que os ventos mudaram momentos depois.

-Meu Deus.-voltei a mim. Abracei-a.

-Você está bem? -perguntou ainda segurando meu braço.

— Sim, eu... -tentei encontrar palavras mas não conseguia.

-Certo, acho que você precisa sentar um pouco. Vamos para o restaurante.

Assim que terminou de falar me segura com seu outro braço pela cintura e caminhamos até o restaurante. Seu perfume era um misto doce com um toque amadeirado, nunca esqueci aquele cheiro, e por muitas vezes, depois de tudo que aconteceu, o vento o traz até mim como um deboche da vida.

Ao sentarmos à mesa reservada ela me encarou como quem observa um bicho através do vidro no zoológico, parecia intrigada com cada movimento que eu efetuava.

-Beba um pouco mais de água. -ela disse com o semblante sério.

Consigo visualizar a cena de fora agora, e eu estou com um olhar apaixonado e adolescente encarando a beleza de Clarice. É impossível que ela não tivesse percebido tamanho encanto indo em sua direção.

-Estou bem, obrigada. -disse após recuperar o fôlego.

Logo uma garçonete se aproximou e ofertou o cardápio. Eu até tentei olhar os pratos para escolher o que pedir, mas seu olhos me hipnotizaram e enquanto os dela passeavam pelos nomes no cardápio os meus a admiravam. Quando os dela vieram de encontro com os meus senti um frio na barriga do qual não me recuperei até hoje.

-Fez uma boa viagem? -perguntei tentando disfarçar.

-Sim, ótima. -ela respondeu e fechou o cardápio apoiando sua mão sobre ele e foi então que pude perceber em seus lindos dedos, uma aliança. Engoli em seco, sentindo o frio na barriga ficando manso. Ninguém é mais fiel aos laços do matrimônio quanto eu, minha terapeuta diria ser consequência de um casamento frustrado dos meus pais. Clarice percebeu meu desconforto com aquilo, mas seguiu falando com a garçonete sobre seu pedido.

Apesar das minhas idealizações românticas terem ido dos 200km aos 10km, quase parando, o almoço foi bastante agradável. Falamos sobre a cidade, seus planos para hoje, discutimos Fernando Pessoa e Machado de Assis, mas empacamos ao falar de Vinícius de Moraes e seus verbos no infinito. Discutir autores que, em sua maioria, se destacam pelo sentimentalismo e romantismo, seria uma oportunidade de flerte perfeito, mas deixei passar por não querer estragar a aproximação recente que, pelo anel em seu dedo, não passaria de amizade. Resolvi não me atentar a status de relacionamento e esperava que ela fizesse o mesmo, mas assim que saímos do restaurante em direção a faculdade, ela se propõe a perguntar o que eu me neguei.

-Você namora? -perguntou direto. Ao notar minha surpresa com a pergunta, retoma a fala. -É porque julgar o sentimentalismo alheio quando não se é fiel ao seus… Não parece justo.

Encarei seu rosto, ela tinha razão.

-Não. Eu não namoro. -respondi tentando parecer o mais serena possível.

Ela sorri de canto e segue caminhando em silêncio, parecia surpreendentemente contente com a resposta.

O dia estava quente e eu escolhi um vestido muito fechado, abafado, estava suando. Apontei para um banco no meio da praça, entre as árvores, precisava sentar um pouco.

-Vamos sentar. -disse já pousando sobre o banco.

Clarice se sentou ao meu lado, seu perfume grudou em meu nariz, era algo parecido com o cheiro dos livros que foram recentemente penetrados pelo vinho esparramado de uma taça caída. Lembro-me de fechar os olhos para sentir o perfume por alguns segundos e assim conseguir guardar aquele momento nas memórias olfativas. Abri os olhos ao ouvir o revirar de Clarice em sua bolsa.

-Droga! -ela exclamou irritada.

-O que perdeu? -perguntei.

-Minha carteira de cigarro. Devo ter deixado no carro. -ela fuma, lembro de pensar que ela conseguia se encaixar em todos os aspectos que me atraem.

-Aqui, pegue um dos meus. -disse ao tirar do bolso uma carteira de cigarros mentolados.

-Mentolado? -ela perguntou ao erguer uma sobrancelha.

-É o que temos no momento. -brinquei.

Fitou os cigarros por um tempo, mas cedeu e pegou um. Acendeu-o com seu próprio isqueiro e me emprestou para que eu acendesse o meu.

-Então, você fuma cigarros mentolados? -perguntou após algumas tragadas.

-Então, você é casada? -perguntei, os cigarros me deram a coragem para interrogá-la.

Soltou a fumaça e me olhou, deu um riso que até hoje não sei dizer se fora deboche ou vergonha, e respondeu em tom de indiferença.

-Eu sou.

Segui fumando em silêncio, sem saber o que dizer, se Clarice era casada não poderia ter vindo até aqui para algo além do evento, uma chance de conhecer uma nova cidade, novas pessoas, novas amizades.

-Quanto tempo? -ela perguntou quebrando o clima denso no ar.

-O que? -fui pega de surpresa.

-Que você fuma…

-Comecei no último ano na escola… Então, talvez cinco anos. Não tenho certeza. -respondi tentando forçar a memória, mas sem querer lembrar quem me apresentou o vício.

-Um último ato de rebeldia? -ela perguntou em tom de ironia.

-Algo do tipo… -respondi.

Tinha dezessete anos quando comecei a fumar, queria me enturmar com… a professora. Mas, esta fica para mais tarde.

Ofereci outro cigarro à Clarice, que recusou. Olhei para o relógio e já estava perto das duas horas. Logo começariam as palestras.

-É melhor irmos. -disse levantando. -As palestras já irão começar.

-Bianca… -Clarice se levanta, pondo-se a minha frente, segurou uma de minhas mãos. -Acho que não ficou claro, mas eu vim até aqui por você, não pelo evento.

Senti minha barriga gelar novamente.

-Mas… -antes que completasse minha frase, ela me calou ao tocar meu rosto com sua outra mão. O inesperado beijo fez com que toda minha oposição a quebra dos votos matrimoniais sumisse assim que ela selou meus lábios com os seus.

Ao lembrar da sensação que foi ter pela primeira vez os lábios de Clarice juntos aos meus sinto Fernanda se mexer na cama. É tarde da noite, e eu acordei há alguns minutos e inevitavelmente acabei me perdendo em pensamentos.

-Ainda acordada? -ela perguntou abrindo os olhos.

-Não, meu bem. Acordei agora. -digo a envolvendo com os braços. -Vamos voltar a dormir.

Fernanda beija levemente minha testa e adormece em seguida. Ainda demorou um tempo para que eu conseguisse afastar Clarice dos pensamentos, mas logo adormeço também.

Notas finais
Próximo vai abordar como ele terminou.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.