Como sobreviver a um semestre

2 Não derrube o unicórnio!


Notas iniciais
Oi, pessoal! Tudo certo? Agora começam os capítulos de introdução às personagens principais da história. Vai ser um capítulo para cada, assim poderemos conhecer melhor cada uma delas. Boa leitura chuchus

—O que você pensa que está fazendo, queridinho?! –Gritou Letícia. -Você por acaso sabe quem eu sou? Sabe com quem tá falando?

—Calma, moça... Foi um erro, sinto muito.

—Você acha mesmo que eu atravessei a cidade inteira e fiquei meia hora esperando feito tonta à toa?! Eu nunca deveria ter gastado meu suado dinheirinho nessa espelunca de lugar! Toda essa muvuca está cansando a minha beleza. Sabe quantas horas eu gasto no salão para ficar maravilhosa desse jeito?

—Mil perdões, madame. Não vamos nos esquecer de colocar os guardanapos na bandeja da próxima vez.

—Próxima vez uma ova, até parece que eu vou colocar meus pezinhos de princesa aqui de novo. Olhe bem para mim! Eu só tenho dois braços; você acha mesmo que vou conseguir levar a bandeja e ainda pegar os guardanapos? I-M-P-R-E-S-T-Á-V-E-I-S, é isso que vocês são! Pois pode ficar com esse lanche de pão queimado, não quero mais saber dessa patifaria. –Saindo do restaurante, Letícia abriu o aplicativo pelo celular e resolveu escrever um comentário de avaliação ao estabelecimento. Lia pausadamente as palavras conforme eram escritas. –Lu-gar hor-rí-vel. Ponto de Exclamação. Fun-ci-o-ná-rios des-res-pei-tam clientes e não sa-bem pre-pa-rar uma re-fei-ção. Emoji bravo. Emoji bravo vermelho. La-men-tá-vel. Exclamação. Pão frio. Três pontos de exclamação. Hashtag melhorem.

Ao sair do local, a garota não percebeu a presença de um degrau e fez um estrondo ao cair. Levantou-se rapidamente, disfarçando.

—Ai, que melda! –Exclamou e arrependeu-se imediatamente, encolhendo-se e olhando preocupada para os céus enquanto tampava a boca e marcava os dedos com gloss sabor morango. –Perdão, Deus, pela boca suja! –Logo depois, voltou ao normal. –Ah, quer saber? Eu não posso perder tempo. Tenho compromisso. –Pegou o lanche que o funcionário ainda segurava, perplexo, e saiu. –Obrigadinha, bye bye.

Letícia correu enquanto comia em direção à igreja. Seus sapatos cor-de-rosa tinham rodinhas, permitindo assim que ela corresse em uma velocidade de 200 km/h e chegasse rapidamente ao seu destino.

Na igreja, todas as crianças correram para recebê-la.

—Oi, tia! Sentimos saudade.

—Que tia, moleque? Eu tenho quase a sua idade.

O garoto, rindo, deu um passo para trás com o intuito de se desviar das enormes unhas cheias de glitter da menina enquanto ela gesticulava.

-Seu cabelo está bonito hoje, tia! –Uma pequena menina admirava o penteado e o conjunto de roupas rosa de Letícia; todas aparentemente de marca. Todavia, os erros no logotipo denunciavam que eram falsificadas.

—Ele está bonito todos os dias, bobinha. –Jogou os longos cabelos castanhos e ondulados para trás, sorrindo. Ao fazer isso, brilhos e purpurina foram lançados pelo ar.

—Tia, qual vai ser a lição de hoje?

Todos sentaram-se no chão e formaram uma roda. Letícia pegou uma das crianças –tomando cuidado para não quebrar suas unhas, apesar de não se importar caso arranhasse a pequena- e a colocou em seu colo.

—A lição de hoje, crianças, é sobre fé. Vamos todos juntar nossas mãozinhas lindas que Deus nos deu e orar com toda a fé possível.

—E se não fizermos isso, tia?

—Se não fizerem isso... –Letícia sorria de um jeito amedrontador A igreja ficou escura e trovoadas muito fortes invadiram os ouvidos de todos, acelerando seus corações e arrepiando os pelos dos lugares mais inimagináveis do corpo. –Vocês vão queimar no fogo do inferno.

Algumas crianças queriam chorar, mas engoliram o choro. Então, o clima voltou a ficar ensolarado e os pássaros cantarolantes. Uma bela música tocada em harpa podia ser ouvida de algum lugar distante.

—Quem quer começar?

Mais tarde, Letícia voltou para seu bairro com a consciência limpa após uma bela tarde de espiritualidade e ensinamentos bíblicos. O bairro em questão era conhecido por ser o mais perigoso da cidade de Pombinas, comandado por traficantes renomados e temido por todos. Era realizado o controle exato de todos que entravam e saíam do lugar, até mesmo dos cachorros vira-latas que passeavam pelas ruas esburacadas. Centenas de mortes aterrorizantes ocorriam frequentemente pela região, sendo que apenas uma pequena parcela era reportada pela mídia para não chocar os moradores próximos dali, impedindo que houvesse um abandono da cidade. Afinal, precisavam da maior quantidade possível de pessoas para girar o capital.

No entanto, Letícia não temia. Por ser mulher do traficante mais famoso da região, ela tinha segurança garantida e passe livre para qualquer lugar que quisesse. Em épocas favoráveis faziam muito dinheiro com a mercadoria ultra solicitada pelos moradores da cidade. No entanto, o produto era frequentemente apreendido, de modo que os traficantes oscilavam entre riqueza e pobreza a todo momento.

Quando chegou em casa, Letícia correu ao encontro de seu bem mais precioso:

—Noel! –Morrendo de felicidade, ergueu o pequeno e senil poodle que acabara de chegar do pet shop e usava uma gravata com a foto da dona repleta de glitter cor de rosa. –Eu estava morrendo de saudades de você, meu bebezinho! –Seu abraço era apertado e demorado, enquanto girava. Parecia que falava com um bebê. -Você ficou com saudade da mamãe? Hein? Ficou? –Noel rosnou. Tratava-se de um cão um tanto antissocial. –Meu amorzinho, como eu te amo! -Quem é o lindo da mamãe, hein? Meu lindinho!

Depois de um longo beijo que deixou os pelos encaracolados do cão pintados de gloss, Letícia se jogou na cama de seu quarto rosa e retirou o celular do bolso. A casa parecia uma papelaria: cheia de papeis coloridos colados na parede com frases muito úteis como, por exemplo, “o Noel é lindo” escrito com tinta neon.

O cachorro se dirigiu à casinha feita de post-its e cochilou. Enquanto isso, Letícia lia as notícias do dia pelo celular. Por descuido, derrubou o aparelho no rosto minutos depois, enquanto conferia as redes sociais e precisou colocar um band-aid — como havia feito na maior parte de seu corpo, já que era comum levar tombos e beijar o chão. Quando olhou para Noel, encontrou um post-it bem no topo da casinha, com um aviso importante.

—Resultado do vestibular. –Leu. –Ah, sim! Hoje é o dia em que saberei se consegui a bolsa ou não.

Ansiosa, Letícia derrubou a cadeira que iria sentar e o estrondo fez Noel correr para a cozinha. Ignorando completamente o incidente, sentada no chão, Letícia procurou pelo site da faculdade e encontrou a lista de aprovados.

—Eu vou ter ganhado essa bolsa em nome do senhor-Jesus-Cristo-todo-poderoso-amém! –Orou apressadamente.

Após atualizar a página diversas vezes seguidas e conferir seu nome oito vezes –para ter certeza de que era aquilo mesmo- estava confirmado: Letícia oficialmente foi selecionada como um dos aprovadores que conseguiram a bolsa da faculdade.

—Glória a Deus! O sangue de Jesus tem poder!–Correu pela casa, apanhando Noel no colo quando o viu. –Obrigada meu Deus! Obrigada mesmo! Olha Noel, sua mamãe vai para a faculdade! Você não está feliz pela mamãe?

Noel rosnou e Letícia, ignorando a resposta do cãozinho, colocou-o no chão e saltitou até seu celular, tomando cuidado para deixar suas unhas compridas longe de qualquer coisa. O celular escorregou de suas mãos e foi parar no chão, mas a garota logo o recuperou. Procurou um nome específico nos contatos e esperou que atendessem sua ligação.

—Amor?! Adivinha! Eu passei no vestibular! –Gritou.- Isso mesmo! Consegui a bolsa integral para a faculdade que eu queria. Medicina? Claro que não, amor! –Riu de nervoso. -Terapia Ocupacional, lembra?

De repente, Letícia ouviu gritos de alegria e sons muito altos pelo bairro. Reconheceu no mesmo instante que era seu namorado e os demais traficantes comemorando a conquista com vários tiros para o alto.

—Awn, amor, não precisava de tudo isso. –Os disparos pararam. -Na verdade, precisava sim, continue. –Letícia ficou satisfeita ao ouvir os novos tiros e gritos de comemoração. Alguns gritos estavam estranhos e pareciam mais de desespero do que de felicidade, mas Letícia preferiu imaginar que era apenas euforia dos amigos de seu namorado. –Ahn? Quando as aulas começam? Ah, amanhã mesmo, eles são bem apressados. O quê? Um presente? Mas só vou poder ver amanhã? Fala logo o que é, desgraça. Tá bom... Só amanhã então. Bem, vou indo, preciso do meu sono da beleza para acordar linda e renovada. Beijos de luz.

No dia seguinte, Letícia foi chamada por seu namorado para o pátio de sua casa.

—O que está acontecendo, amor? –Com os olhos vendados, Letícia mantinha seus braços esticados e tateava o ar.

—Estamos quase chegando.

—Que demora, eu já cansei. –Quando mexeu os braços, uma de suas unhas foi diretamente nos olhos de seu namorado.

—Ai! –Urrou.

—Ai, meu Deus! Está tudo bem, amor?

—Sim, sim, não se preocupe comigo. Ai... Vamos prestar atenção no que importa, ok?

Ao retirar as vendas de Letícia, a garota se deparou com a coisa mais incrível que ela já tinha visto; seus olhos brilhavam. Parecia um cavalo, majestoso, com pelos brilhantes e bem cuidados. Era totalmente branco, exceto pela crina colorida com as cores do arco íris. Além disso, tinha enormes asas com as mesmas cores e um único chifre na testa, rodeado por belíssimas flores. Ele exilava um perfume encantador e soltava brilho, luz e um arco-íris por onde passava.

—Um unicórnio! –Correu para acariciar o animal e quase caiu no caminho, mas não se importou com isso. –Obrigada, amor! Esse é o melhor presente que eu já ganhei! Posso ir com ele na faculdade?

—Claro, amor. –O olho atingido pela unha estava fechado. –Aproveite bem. Eu não sabia mais o que comprar para você. Pensei em uma daquelas fadas engarrafadas, mas você já ganhou uma no natal e ela é bem chatinha.

—O Noel não gosta dela. Um unicórnio é bem melhor!

Letícia brincou e tirou fotos de seu novo bichinho de estimação pelo resto do dia. Em certos momentos, esquecia que o foco era o animal e tirava apenas fotos de si mesma. Ela mal podia esperar para leva-lo para a faculdade no dia seguinte. Com todas as pessoas endinheiradas da universidade, ela naturalmente iria se encaixar no meio de tantos ricos iguais a ela, mesmo que sua riqueza fosse apenas de saúde.

Apesar de ser bancada pelo namorado, nada do que tinham se comparava ao poder aquisitivo dos estudantes da POC. Porém, com todo seu brilho e charme, imaginava que seria fácil fazer amizade com todas aquelas pessoas. Iria ser um grande dia.

Seu namorado, agora com um tapa-olho, perguntava-se onde estaria o cachorro Noel, que se escondeu com a chegada do unicórnio.

Notas finais
Diz aí se uma pessoa brilhante como essa merece ou não uma vaga na nossa ilustríssima POC? u.u Vejo vocês no próximo capítulo!