Como sobreviver a um semestre

10 Dica número 3: Conheça alunos de outros cursos


O segundo dia de aula estava sombrio pelo ocorrido do dia anterior. Todos sussurravam pelos corredores, com medo de serem os próximos. Muitos pais tiraram seus filhos da universidade, de modo que o local ficou um pouco mais vazio — pelo menos para andar sem trombar em cinco pessoas a cada passo.

As seis garotas, que em pouquíssimo tempo se tornaram muito unidas, caminhavam juntas para a sala de aula.

—A Mari caminha bem devagar quando está com sono. –Thatiane conferia qual seria a sala, aula e professora em seu aplicativo. Já havia visitado o perfil do melhor amigo do filho da prima de segundo grau da professora, que tinha um papagaio de estimação muito engraçado. –Ela está ficando para trás.

—Na verdade, ela está dormindo. –Observou Ju. –É um dom muito impressionante: andar enquanto dorme.

—Ou dormir enquanto anda. –Noemi estava muito feliz com um saquinho de pães de queijo quentinhos e apetitosos. Abraçou Juliana enquanto a mesma andava, demonstrando carinho e confiança. –Sabe, pessoas altas são muito legais de abraçar.

—Boa tentativa de ciúmes, Noemi-san. –Nathalia jogou seus cabelos para trás dramaticamente com uma das mãos, enquanto a outra carregava uma enorme pilha de livros pesados como se fosse uma pena. –Mas saiba que eu não estou mais apaixonada por você.

—Isso foi rápido. –Juliana se impressionou.

—Cara, eu não quero namorar ninguém agora. –Arrumou os livros, que, embora “leves”, estavam difíceis de equilibrar. –Vou me dedicar aos estudos e serei a melhor aluna que esse curso já viu! –Nath, distraída e sonhadora, parou de prestar atenção nos livros que pegou na gigante biblioteca da universidade. –Eu vou estudar pra caralho!

—Não se engane, amiga. –Noemi não sabia se estava aliviada por não ser mais o alvo de amores de Nath ou ofendida por não se importarem mais com seu corpo fenomenal. –Sabemos que você está desesperada por um romance.

—Eu sou assim, tá legal?! –Ficou em prantos. –Eu amo o amor! Não posso fazer nada quanto a isso. –Secou as lágrimas. –Mas uma coisa eu digo: eu vou encontrar um namorado rico e bonito nessa faculdade nem que seja a última coisa que eu faça!

Tamanha foi sua empolgação que a pilha de livros inclinou-se para trás, fazendo com que a garota perdesse o controle da situação. Quando caiu, sentiu uma chuva de livros se esparramar pelo chão, junto com ela. Porém, não era apenas isso que havia caído: Nathalia acabara de derrubar alguém. Quando abriu os olhos depois do susto ocasionado pela queda, se deparou com nada mais nada mais nada menos do que um estudante de medicina.

—Nath! -Gritou Thatiane.

—Eita, caralho! –Gritou, desesperada. –Perdão, perdão, perdão! Mil vezes perdão! Eu não queria fazer isso, moço! Por favor, não processe a minha família, nós somos pobres! Eu não queria ter estragado seu jaleco de luxo, não queria mesmo...

—Ei, está tudo bem. –Falou com um sorriso sincero e voz muito doce, ainda tentando esconder uma careta de dor que fazia quando encostava a mão em sua testa latejante que sofreu com a queda.

As amigas de Nathalia observavam à cena sem interferir. Estavam curiosas sobre o modo como o estudante fora tão legal com a garota. Mariane se encostou a um pilar e começou a roncar.

—Está tudo bem, não se preocupe... Nath, certo? Pelo que ouvi sua amiga gritar. –Enquanto Nathalia tinha lágrimas nos olhos, ele recolheu os livros e, fazendo força, os carregou com uma mão, apoiando-os no abdômen. –Estendeu a mão livre gentilmente para a garota, que aceitou sua ajuda.

Agora que ele estava em pé, Nathalia pôde observar melhor os detalhes do bondoso estudante de medicina: alto e com corpo atlético, o futuro médico usava jaleco branco bem passado e um estetoscópio pendurado no pescoço que o deixavam com ar de gente importante. Sua postura era correta e o deixava ainda mais elegante, principalmente com o sorriso discreto em seus lábios finos e delicados. Os cabelos louros e curtos lembravam uma quente, ensolarada e convidativa tarde de verão. Os olhos azuis contribuíam para essa imagem, parecendo águas límpidas de uma piscina refrescante, que molhavam os pés de Nathalia em sua imaginação e outra região na realidade. Nath estava pronta para mergulhar de cabeça nesse sonho.

—Obrigada. –Sorriu envergonhada. Seus olhos não conseguiam encará-lo. Thatiane fotografou o encontro.

—Disponha. Acidentes acontecem o tempo todo, estudo muito isso no curso de medicina. Se quiser se encontrar comigo no almoço, posso explicar mais detalhadamente.

—A-Almoço...? –Seus olhos brilharam e finalmente conseguiu olhar diretamente nos olhos daquele deus grego para conferir se o mesmo dizia a verdade. Ela estava desacreditada.

—Estamos combinados? -Piscou, derretendo o coração da pequena e fazendo-a cair no chão graças às pernas amolecidas.

—Um homem! –Um grito histérico fez com que todas as garotas (que não eram poucas) olhassem para o rapaz como se ele fosse um pedaço de carne jogado para um bando de leoas famintas.

—Eu preciso ir. –Ajustou seus sapatos de marca internacional e ergueu as barras da calça. –Te vejo mais tarde!

Quando o mesmo saiu correndo, foi perseguido por centenas de mulheres gritando loucamente como se ele fosse um astro de cinema. Thatiane se perguntou se elas já sabiam que em sua turma havia garotos.

Nathalia, ainda olhando fixamente para as escadas que seu futuro marido subia, levantou-se devagar.

—Eu estou apaixonada.

—Ela é mesmo rápida. –Concluiu Ju.

Letícia já estava na sala de aula quando elas chegaram.

—Oi, meninas, tudo bom? –Embora tivesse poucos seguidores, Letícia era a blogueirinha e agia como tal.

—Se está tudo bom? Porra!... Tenho um encontro, caralho! -Sarrou no ar.

—Encontro? –Mari estava acordada. Não fazia ideia de como isso havia acontecido (como Nath tinha um encontro e como ela estava acordada).

—Ele é bonito? –Perguntou Letícia. –E rico? Você precisa de um boy rico que pague lanches para as suas amigas. –Sorriu descaradamente. –Principalmente para mim, que sou a mais bonita e a que mais merece.

—Aparência não é tudo o que importa, Letícia.

—E o que mais importa então?

—Caráter. –Mari comia suas bolachinhas salgadas que trouxera em uma marmita.

—Fidelidade. –Noemi, ocupando a maior parte da mesa dos professores com seu popotão, limpava os óculos na camiseta trevosa de Ju.

—Gosto musical. –Acrescentou Juliana, que colocava seus fones para ouvir um pouco de Death Rock antes da aula começar enquanto Nonô fazia bom uso de sua blusa do Iron Maiden.

—Pênis grande. –Respondeu Thatiane.

Todas ficaram em silêncio e Mariane tentou acudir Letícia, que havia desmaiado e soltava fumaça pela boca.

—Isso é verdade. –Analisou Nath. -Bom, ele é bonito e tem cara de gente rica. Vamos almoçar juntos hoje, talvez ele me dê caviar.

—Olá, bebês! –Uma professora muito animada adentrou a sala, fazendo com que Noemi se levantasse. –Estão todos bem? Vamos começar a aula, temos muito trabalho a fazer!

Agora sim, o espírito universitário penetrou os corpos de todos os estudantes da sala, que ansiavam por conhecimento. Estavam todos prestando muita atenção na professora, preparados para racharem seus crânios de tanto estudar. O ensino superior estava mesmo ali e os chamava para um árduo ano, repleto de sacrifícios e muito estudo. O sangue iria jorrar por suas bocas e ouvidos, entre lamentos e murmúrios de dor agonizante ecoando pelas trovejadas macabras das noites mais gélidas e fatais. Estavam preparados para os problemas atordoantes que os esperavam. A aula de terapia ocupacional estava começando.

—A aula de hoje será muito importante, não vamos perder tempo! -Sorriu. -Minha sacola está cheia de revistas coloridas. Quero que todos peguem uma e recortem as imagens que acharem mais bonitas.

—Duvido que vá ter uma foto minha. –Letícia cruzou os braços.

—Duvido que vá ter a foto de um caixão. –Juliana também parecia desapontada.

—Professora... –Uma aluna interrompeu. –Sei que essa atividade é muito interessante e tal, mas... Quando vamos ter aulas de verdade?

—Ah, já entendi tudo. –Disse com o olhar de uma mãe que analisa as ações do filho. –Vocês não se contentam com pouco; estão loucos para demonstrar seus valores. Não se preocupe, bobinha, as lições não acabam por aqui. –Dirigiu-se à turma. –Vou passar entregando uma folha com desenho para todos e como dever de casa quero que pintem com suas cores favoritas.

As alunas ficaram relutantes. Não haviam percebido que a grade curricular do curso era exatamente a mesma da pré-escola, exceto pelas aulas de anatomia, que eram cortesia de um professor que adorava sentir o tormento de seus alunos. Talvez tudo melhorasse com as aulas de cinesiologia.

Enquanto Thatiane recortava imagens de homens sarados da playgirl, Nathalia pegou uma revista de culinária e colava suas imagens tranquilamente, sem perceber que algumas estavam babadas. Estava concentrada e por um minuto se esquecera do encontro. Noemi se distraíra com os textos e lia tranquilamente curiosidades sobre hotéis coreanos, sendo que na verdade prestava mais atenção nas fotos dos modelos asiáticos. Mariane mexia no celular ao seu lado enquanto apoiava suas costas na garota.

—Cara, como uma pessoa pode gastar tanto dinheiro para outra arrancar seus pelos? –Nathalia recortava a figura de um bolo colorido. –Vocês já pararam para pensar nisso?

—Sua figura fala sobre pelos? –Questionou Mari, com uma careta.

—Não, eu só estava pensando nisso mesmo.

—Oxê! Que menina aleatória.

Nathalia deu de ombros e continuou seu trabalho.

—Vocês viram minha aliança? –Letícia aproximou-se tanto de Mariane que sua unha quase cegou a mulher. -Eu ganhei quando casei com o meu marido. É linda, né?

—Muito bonita. –Mariane segurou sua mão com a ponta dos dedos e a afastou delicadamente.

—Ah, que isso, não precisa elogiar. Ah, quer saber? Precisa sim. Vamos, elogiem!

—Parece cara. –Analisou Thati com uma lupa que ninguém sabia de onde surgira.

—É do camelô, querida. Meu marido pagou uma mixaria.

—Pensei que você fosse rica.

—Tem altos e baixos, tudo depende da demanda do serviço do meu marido.

Depois da aula, as garotas decidiram acompanhar Nathalia até a porta do refeitório, onde seu príncipe de jaleco branco estaria esperando por ela. Juliana passou ao lado de uma máquina de salgadinhos e doces e, tranquilamente, deu um murro na mesma. Em seguida, seu salgadinho favorito caiu e ela o pegou.

—Obrigada por me acompanharem, meninas. Já estou vendo ele.

—Não é aquele idiota acenando feito bobo, é? –Noemi o avaliou de cima a baixo, por cima dos óculos.

—Para, amiga. –Protestou. -É ele sim. Desejem-me sorte.

—Vai que é sua, amiga. –Disse Thati. –Espero que tenha pinto grande.

—Valeu, gente. Amo vocês!

—Ela se apega fácil, não? –Comentou Mari observando a garota pular degrau por degrau ao descer as escadas.

—Tá perdida, tadinha. –Disse Letícia.

Após todas partirem, Nathalia arrumou seus cabelos e puxou a barra no vestido. Sentou-se de frente para o homem que parecia ter sido tirado do elenco de Malhação e sorriu desajeitada.

—Que bom que conseguiu vir, Nath! Tomei a liberdade de esquentar sua marmita, espero que não se importe.

—Não, não me importo! Mas como você sabe qual é a minha marmita?

—Sua mãe escreveu seu nome aqui. –Apontou. –E uma mensagem falando para você ser casta ou algo do tipo.

—Ah, muito obrigada pela gentileza. –Agarrou o recipiente, constrangida. –Mas e então, o que você faz da vida... –Conferiu o nome no jaleco. –... James?

—Eu estou na faculdade de medicina para ser médico. Na verdade, já sou quase 0,0002% médico. –Orgulhou-se. –Quando tenho tempo livre leio livros de medicina que falam sobre medicina e assisto vídeos de medicina em canais de medicina na minha sala de medicina e visito hospitais de medicina com médicos que estudaram medicina e trabalham com medicina e atrapalho o trabalho deles para conversar sobre ramos de medicina e técnicas de medicina usadas nos procedimentos de medicina. Já te falei sobre o curso de medicina?

—Ok, entendi... –Disfarçava o constrangimento alheio, até que se lembrou de algo. –Ei, você pode usar jaleco aqui? Isso é, tipo, contra as leis.

—Não, não é. –Sorriu, enchendo seu garfo de comida.

—Cê tem demência? O papel de parede da POC são cartazes com essas leis impressas.

—Os estudantes de medicina estão acima da lei. Mas me diga mais sobre você, Nath. O que gosta de fazer? Tem uma dieta balanceada? Toma bastante água? Não fuma? Come vegetais? Pratica exercícios regularmente – ao menos três vezes por semana — na academia?

—Ah, não. Esse corpinho que Deus me deu é resultado de muito exercício, mas não na academia, se é que você me entende.

—Suas pernas parecem bem fortes. Você tem uma anatomia muito interessante, Nath. –Olhou-a fixamente, como um leve sorriso.

—Isso é por causa dos agachamentos que eu pratico. –Sorriu imaginando se ele havia entendido o duplo sentido e percebeu que sim, quando ele soltou um ar de riso pelo nariz e encarou seu prato com os lábios esticados para cima, envergonhado.

—Eu estava pensando... Será que você gostaria de passar na minha casa depois do almoço?

—Sabe, é que eu não sei se vai dar...

—Eu tenho um carro.

—O que você está esperando? –Levantou-se, guardando sua marmita imediatamente na mochila. –Vamos logo!

Após um adorável passeio no banco da frente de um carro chiquérrimo com o vento balançando seus cabelos, Nathalia chegara à mansão de James. O lugar era deslumbrante: com uma ponte feita de pedras que cortava um pequeno lago no jardim decorado com arbustos em forma de animais.

—Chegamos. –Avisou, guardando as chaves do carro no bolso do jaleco.

—É uma casa encantadora, James! –Nathalia estava admirada com os objetos decorativos tão bem polidos que era possível se enxergar neles.

—Mas a melhor parte não está aqui. –Curvou-se e aproximou seu rosto de Nath, esticando o braço para trancar a porta de entrada na qual ela estava encostada. –Vamos para o porão. –Sorriu maliciosamente.

A imaginação de Nathalia foi a mil enquanto ela o seguia lentamente para o quarto da perdição. O que será que teria lá? Um cômodo feito especialmente para práticas de BDSM, cheio de móveis e objetos especiais? Seu nariz sangrou enquanto ela imaginava todas as loucuras que poderia fazer com aquele homem incrivelmente sarado.

Chegando lá, a sala estava escura e Nathalia ouviu-o fechar a porta mais uma vez. Quando as luzes se acenderam, os olhos de Nath ficaram arregalados. Ela estava surpresa, porém, não de uma maneira boa. O local que cheirava formol estava cheio de partes humanas. Sangue seco pintava o chão como tinta e objetos peculiares do que seriam as possíveis vítimas estavam amontoados em uma pilha. No centro do porão, uma enorme mesa metálica aguardava por ela.

—Venha, Nath! –Convidou James com um sorriso maníaco de orelha a orelha em seu rosto que já não estava tão bonito quanto antes. Usava luvas, um capacete com luz e segurava um bisturi anormalmente grande. –Eu quero conhecer cada pedacinho do seu corpo!

—Não! –Gritou, correndo para a porta. –Fique longe de mim!

—Achei impressionante como você carregou aqueles livros pesados, mesmo sendo tão pequena. Eu quero estudar sua anatomia, Nath! Pense nos progressos para a humanidade que podemos fazer juntos.

—E eu por acaso tenho cara de cobaia? Miseriqueima! Me deixa em paz, seu nazista arrombado do caralho!

—Nath, Nath... Não precisamos desse escândalo...

—Você é o Assassino de Pombinas, não é? – O desespero e a angústia saíam misturados à sua voz, porém com a coragem necessária para enfrenta-lo. — Era você esse tempo todo. Você não vê o que está fazendo com essas pessoas?

—Não tenha medo. –Ignorando-a, aproximou-se curvando-se como se ela fosse um gatinho assustado. – Venha comigo e...

Antes que ele pudesse terminar a sentença, Nathalia lhe deu um soco que causou desmaio imediato. No entanto, a porta era pesada demais para ser quebrada, mesmo com sua super força.

—Maldita gente rica que tem segurança reforçada em casa. –Andou em círculos, desesperada. – E agora, o que eu faço? O que eu faço?! Preciso chamar ajuda. Socorro! – Gritou, empurrando a porta com toda a sua força. – Droga, ninguém vai me escutar daqui!

Nathalia, sem saber o que fazer, sentou-se no chão. Mesmo que seus pais sentissem sua falta, dificilmente a polícia iria mover um palito para procurar uma garota pobre. Sozinha na sala fria e sombria pensou nas únicas pessoas com quem poderia contar: suas novas amigas.

Notas finais
E agora, quem poderá me defender?