Como sobreviver a um semestre

11 Dica número 4: trabalhe em grupo


—Caralho, eu não aguento mais ficar nessa porra!

Nathalia não aguentava mais ficar naquela porra. Suas mãos doíam por ter empurrado a porta pesada e metálica, mesmo com sua força sobrenatural – tanto que seu sequestrador permaneceu desmaiado o tempo todo. Aquela maldita porta deveria pesar toneladas e, como não havia janelas, nada poderia ser feito. Começava a se acostumar com a ideia de morrer naquele exato local, cercada por dezenas de outros corpos emergidos por formol, até que um barulho a despertou de sua tristeza profunda. Afastou-se da porta, que agora deixava a luz externa invadir o local.

—Finalmente, né, querida? –Disse Letícia, tampando as narinas com a mão. As outras integrantes do grupo estavam logo atrás. –Foi um porre te encontrar aqui. Vem, vamos embora. O cheiro desse lugar está pior que o esgoto do meu bairro e olha que poucas coisas são piores do que isso.

—Carai, esse cheiro está pior que cachorro molhado, amiga! –Noemi espiou a sala.

—Meninas! –Os olhos de Nath se encheram de lágrimas. Gritando, ela correu para um longo abraço em Letícia, que a empurrou imediatamente para sair daquele local o mais rápido possível. –Vocês conseguiram. –Com os braços abertos, procurava outra pessoa para abraçar.

—Não foi difícil. –Explicou Thati. –Baixei um aplicativo que mostrou sua localização usando a foto de um fio de cabelo seu que ficou preso na minha blusa. O foda foi chegar nesse bairro de rico; não tem ônibus aqui.

—Onde você conseguiu isso, aliás? –Perguntou Noemi.

—Deep Web. –Deu de ombros.

—O unicórnio da Letícia foi bem útil. –Ju sorriu levemente, encostada na parede do corredor e Nath correu para abraçá-la.

—Ele é grande o bastante para três pessoas, você pode voltar com a gente. –Completou Mari. –Eu posso criar pontes de gelo. Além disso, a Nonô não precisa, ela vai correndo pelas árvores e a Ju flutua.

—Eu senti falta de vocêeees. –Chorou.

—Também sentimos, miga. –Thati acariciou seu ombro, confortando-a.

—Ou estamos fingindo que sentimos. –Noemi observava a cena com braços cruzados.

—Ah, fiquem aí então! –Letícia, impaciente, saiu do porão. –Eu vou é aproveitar essa casa pra tirar umas fotos e fingir que sou rica.

—Como descobriram que eu havia sumido?

—Criamos um grupo, lembra? –Ju ainda a abraçava.

—E como a senhora é a mais faladeira, nos preocupamos depois de ficar sem notícias por 15 minutos inteiros. –Explicou Mari. –Então ligamos e ninguém atendia. Não conseguimos localizar seu celular logo de início.

—E como vocês abriram essa porta? –Nathalia erguia seu queixo para olhá-las nos olhos. –É toda fodida, nem eu consegui.

—Não estava trancada, era só empurrar. –Mari demonstrou com naturalidade. –Do lado de dentro basta puxar.

Enquanto Nathalia, que empurrou a porta esse tempo todo, processava a informação em choque, um movimento surgiu no centro da sala. Imediatamente, Noemi correu em direção ao homem que acordava atordoado e chutou com força sua bochecha. A queda provocou mais um ferimento em sua cabeça, que o fez dormir novamente.

—É bom jogar seu lixo fora, amiga. –Colocou uma mecha atrás da orelha. –E que lugar é esse? –Observou. –É assim que estudantes de medicina estudam em casa?

—É, galera... –Disse Nathalia, observando a sala como se ela já fosse uma coisa do passado. –Parece que pegamos o Assassino de Pombinas.

Apesar da tarde estressante, Nathalia conseguiu ter uma boa noite de sono após comer coxinhas e chocolate. Estava ansiosa para as aulas do próximo dia, em que aprenderiam o verdadeiro significado da profissão.

***

—Eu preciso de uma camiseta nova. –Enquanto a professora não chegava, Mari analisava a roupa que vestia há algumas décadas.

—Por que não pede para alguém com cara de rico comprar para você? –Questionou Ju.

—Por que eu faria isso?!

—Funciona comigo. –Deu de ombros.

—Eu vendo blusas. –Thati desviou os olhos do celular.

—Não apenas blusas... –Com uma expressão de desaprovação no rosto, Mari analisou suas próprias pernas. -Uma calça também. Talvez um tênis.

—Vendo também. Sapato, calça, blusa, acessórios, absorventes...

—O que mais você vende?! –Mari se impressionou.

—Eu vendo tapouér!

—Vende vibradores? –Nathalia entrou na conversa.

—Amiga, eu estou com uma promoção top de linha, dá uma olhada nas fotos. –Nath se aproximou quando ela abriu seu aplicativo de vendas. -Os usados saem mais baratos, mas a coleção que está chegando agora vale a pena se levar o lubrificante anal junto.

—Eu mereço... –Mari, rindo, decidiu que seria melhor conferir suas novas redes sociais em um aparelho chamado celular em que aprendera a mexer recentemente.

—Isso é uma arma laser? –Letícia observava o celular de Thati.

—Amiga, não...

—O que você acha, Ju? –Perguntou Nath.

—Que os fãs de Star Wars estão indo longe demais. –Sem prestar atenção no assunto, olhava imagens engraçadas sobre filmes na internet, sem perceber que estava usando uma camiseta da saga.

—Isso porque tu não viu a coleção de Dragon Ball.

—Perai, isso quer dizer que existe uma coleção erótica de Star Wars? -Encarou Thati, agora sim prestando atenção.

—O quê?! –Mari também se interessou pela conversa, mais pela bizarrice do que pela função dos produtos.

Letícia tentava não morrer de vergonha alheia, fingindo que estava estudando, enquanto o resto da sala se assustava com as conversas e risadas altas que vinham do grupinho reunido na fileira da frente.

O silêncio tomou conta do lugar quando a professora finalmente chegou, no entanto, Nathalia continuou a falar.

—... e é por isso que a massagem anal não pode ser feita com uma shuriken de argamassa orgânica.

A professora parou na sala, encarando-a com dúvida estampada no olhar. Ao seu lado estava Noemi, que acabara de chegar na sala de aula.

—Ela quis dizer mensagem banal, professora.

—Ahn... Bom dia a todos. –Sacudiu a cabeça enquanto espremia os olhos, tentando espantar a imagem de sua mente. –Bem, -Suspirou. –Depois tantas informações novas, está na hora de começar a aula. –Sentou-se na mesa dos professores. –Vamos fazer um círculo e sentar no chão. Hoje estudaremos o significado de Terapia Ocupacional, ou, se preferirem: T.O. Alguém sabe o que é?

Algumas alunas levantaram as mãos e a professora apontava uma após a outra para ouvir todas as respostas.

—Para ocupar o tempo.

—É uma mistura de fisioterapia e psicologia.

—Tem crochê, eu só vim por causa disso.

—Sério? –Uma aluna perguntou, curiosa. –Eu vim porque não passei em mais nada.

—Eu não sei explicar direito... –Noemi se arriscou. –É alguma coisa... Mas tem algo, sabe?

—...Sei. –A professora mais ignorou sua resposta do que de fato a entendeu. –Foram ótimas respostas, mas a verdade é que... ninguém sabe o que é! –Animou-se ao dizer.

—Como assim? –Embora tenha sido Letícia quem perguntou, todos os alunos da sala pareciam ter dúvidas.

—Somos seres únicos, toda pessoa entende de um jeito diferente. Basicamente cada um atua onde quiser, com quem quiser, fazendo o que quiser, como quiser e quando quiser. Não há regras.

—Isso quer dizer que posso fazer crochê o dia inteiro?

—Exato!

—Yes! –Comemorou fechando o punho e dando uma cotovelada no ar.

—Agora que as dúvidas já foram esclarecidas, está na hora das lições. A matéria de hoje é com tinta guache: pintem suas mãos e carimbem um papel para enquadrarmos e enviarmos para os pais de vocês. Depois iremos fazer um lanchinho, não se esqueçam de lavar as mãos!

Mais tarde, enquanto Juliana posicionava seu quadro na parede da sala, uma garota baixinha que ela não conhecia aproximou-se timidamente.

—Com licença... Será que você poderia assinar meu desenho?

—Claro. –Sorriu gentilmente, pegando a caneta que ela estendera.

—Obrigada! –Com um sorriso de orelha a orelha, correu risonha e saltitante para observar seu precioso desenho autografado.

—Suas fãs brotam igual praga do chão. –Comentou Thati. –Não sabia que tinha um fã clube.

—É a primeira vez que se aproximam tanto. –Ju observou a garotinha feliz e risonha. –Talvez meu raio de hipnose esteja mais forte, não consigo controlá-lo.

—Ou são essas fãs loucas de crepúsculo que perseguem vampiros . –Sugeriu Noemi.

Enquanto conversavam, Nath pedia conselhos para Letícia.

—Ai, amiga, eu não sei mais o que fazer. Nunca consigo encontrar uma pessoa legal que satisfaça todas as minhas necessidades.

—Nathalia, o segredo é a fé que você coloca na sua oração. A luz do coração de Cristo vai iluminar suas escolhas.

—Ou eliminar. Seria tão mais fácil se eu já soubesse o que fazer para evitar as merdas que acontecem. Precisa conhecer a pessoa, puxar assunto, saber dos hobbies... E mesmo assim ainda pode ser uma pessoa bosta. Isso é tão cansativo.

—Porque você não baixa um aplicativo de namoro, miga? –Sugeriu Thati. –As principais informações sobre a pessoa já vão estar no perfil e você só precisa selecionar quem quiser. É bem mais fácil encontrar alguém assim.

—Ai, será?

—Sim, vem cá. Vou instalar um que eu conheço no seu celular e só não instalo porque já sou comprometida.

—Eu não confio muito nessas coisas não. –Alertou Mari. –Como vou saber quem são esses caras de verdade? Eu, hein.

—É a minha melhor chance. –Nath deu de ombros.

—Relaxa, amiga. –Tranquilizou Thati. –Vamos encontrar a pessoa ideal para você.

Depois de muito tempo brincando com tinta guache e comendo bolacha recheada, sanduíches e tomando leite com sabor de morango, os alunos fizeram uma pausa. Todos saíram da sala de aula e caminharam para diferentes destinos: banheiro, pátio, biblioteca ou cantinhos escuros.

Um grupo de alunos com uniformes e bandeirinhas de guias turísticos estava reunido e sua líder, uma garota usando roupas de safari, parou para falar com o grupo de meninas de TO – as últimas a saírem da sala.

—Olá, vocês, gostariam de participar da nossa excursão pela floresta?

—Floresta? –Perguntou Nath.

—Sim. –Sorriu gentilmente. –Nós temos uma floresta aqui na POC, atrás da biblioteca. Eventualmente realizamos passeios por lá.

—Bem, ainda temos um tempinho antes da última aula. –Mari conferiu seu relógio de pulso feito de gelo que derretia conforme as horas passavam.

—Eu topo. –Juliana aceitou um chapéu de safari que estava sendo distribuído. –Adoro trilhas, principalmente se forem em uma floresta sombria e escura cheia de animais esquisitos.

—Perfeito! -Sorriu a guia turística. -Oferecemos o pacote completo.

—Vamos, queridas! –Letícia já estava liderando uma parte do grupo a frente delas. –Vocês estão demorando demais, vamos logo!

—Se todo mundo vai eu vou também. –Thati pegou um chapéu.

—Esperem por mim! –Nathalia animou-se.

Noemi fez uma careta. Ela não queria gastar energia por uma coisa tão banal quanto caminhada. No entanto, decidiu acompanhar suas amigas.

A floresta era um pouco longe dos prédios da universidade. De fato era um local sombrio e cheio de barulhos estranhos devido à ampla fauna. Ninguém, exceto o grupo de excursão das alunas aventureiras adentrava aquela floresta.

—É bem escondido. –Analisava Thati. –Bom para fazer coisas erradas.

—Que nojo! –Exclamou Letícia. –Aqui está cheio de insetos.

Por um segundo, Thatiane esqueceu da patricinha. De repente, todos se assustaram quando ouviram o barulho de um galho se quebrando. Ao olharem para trás tudo o que viram foi Mariane caminhando normalmente e a encararam.

—Sorry, foi só a minha perna estalando. –Mari usava uma enorme mochila de trilha laranja, sua cor favorita.

—Ah, que bom. –Noemi caminhava devagar por conta de sua mochila pesada que insistiu em levar junto. –Pensei que fosse a Nathalia peidando.

—Para, amiga! –Nath corou e Noemi riu debochadamente.

—Essa mochila não tá muito pesada, não? –Perguntou Thati.

—Nem está, imagina... –Noemi tentava esconder a expressão pelo desconforto em sua região lombar, que latejava de dor.

—O que tem aí, afinal? –Questionou Juliana.

—Nem queira saber.

—Esperem! –Letícia gritou. –Ela estava com a outra metade do grupo, que caminhava alguns metros à frente.

Vendo que todas pararam o percurso, a líder correu até elas para verificar o que estava acontecendo e as outras a seguiram. Estava boquiaberta ao ver o cenário que lhes aguardava.

—O que... O que está acontecendo?

Bem ali, do alto de uma árvore, uma corda pendia de um dos grossos galhos. Em seu final havia um nó que passava pelo pescoço de uma jovem garota, cujos olhos esbugalhados e a língua inchada para fora causavam arrepios e extremo horror. Seu pescoço estava roxo e muito apertado. Embora parecesse um suicídio, o corpo estava repleto de cortes frescos, demonstrando que alguém mais participou do ato.

O Assassino de Pombinas estava a solta.

***

—Isso não é possível. –Comentou Nath enquanto tentava acessar um site pornô pelo computador da universidade. A aula de metodologia científica, no laboratório de informática, era mais livre do que imaginava. –James está preso. Nós o mandamos para a cadeia. Se ele não é o Assassino de Pombinas... –Engoliu uma boa quantidade de saliva.

—Isso é preocupante. –Mari, assim como a maioria dos alunos, jogava jogos online. –Agora não fazemos a mínima ideia de quem é o responsável por toda essa tragédia.

—E o pior: ele está aqui na POC. –Juliana, que recebia dicas e estratégias de Thati, jogava contra Noemi no mesmo computador.

—Pode ser até alguém que conhecemos. –Nonô não tirava os olhos do monitor.

—Pode ser um aluno ou até professor. –Letícia lixava as unhas, acessando um blog de moda feminina. –E se já encontramos ele e nem sabemos? Miseriqueima, Senhor!

—Isso não tá me cheirando bem. –Thati estava pensativa. –Sabe o que eu acho? Que nós deveríamos investigar.

—Ora, ora. –Ironizou Juliana. –Parece que temos um Xerox Holmes aqui.

—Um, não. –Corrigiu Mari. –Seis.

As garotas se olharam com sorrisinhos em seus rostos. Estavam determinadas e iriam atrás desse mistério até o fim.

—É isto, meninas. –Noemi arrumou os óculos, determinada. –Nós vamos encontrar o Assassino de Pombinas.