Como se fosse a primeira vez
2 Mudança de planos
Já era tarde e perto de Tina sair do trabalho e voltar para casa quando o celular tocou por alguns minutos. Não imaginava que depois disso os planos deles estavam prestes a mudar, aquele bendito plano de não comparecer ao jantar em família da dona Deyse, sua sogra.
— Olá, quem fala?
— Tina? — O irmão de Edu, Rafael, está do outro lado da linha.
— Quem tá falando?
— Sou eu criatura, o Rafael. Não reconheceu a minha voz? Eu até entendo, faz um tempo que não nos falamos.
— Rafael... quanto tempo. Como vão as coisas? O Edu, com certeza, vai gostar de ter ver.
— Isso é bom. Sabe que vai dar certinho?
— O quê?
— Vou aparecer no jantar que mamãe tá organizando, hoje. Quero ver vocês lá, aí eu conto as novidades. E fique sabendo que tenho muitas...
— Jantar de família?
— É, vocês não vão? Vou aparecer por lá. E mais uma coisa, não conta para o Edu. Eu tô noivo... vou me casar. Quero que seja surpresa — Rafael estava empolgadíssimo para contar para o irmão mais velho o que ele tinha aprontado nessa aventura dele para o Chile.
— Isso é ótimo, que maravilhoso.
— Sim, estou muito empolgado. Eu encontro vocẽs por lá. Ok?
— Ok.
Tina se deu conta do grande problema que ela e o marido iriam causar, no caso deixar o Rafael um pouco triste, se não aparecessem nesse temido jantar em família. Dessa forma, não hesitou, não guardou o telefone ou parou para respirar, já foi ligando para Edu a fim de lhe contar o que acabara de acontecer com ela. No escritório onde Edu trabalha, o ambiente costuma ser um pouco barulhento, telefones tocam de uma lado e de outro, além das pessoas conversando aos montes. Fica bem difícil ouvir alguma coisa assim sem que esteja focado. Edu conversava com alguns colegas quando Tina ligou. Ele nem ligou a princípio, como estava aquele barulho mesmo, era quase impossível de perceber algum som nitidamente sem que a pessoa foque pra valer.
Até então não dava para imaginar que fosse ser alguma coisa extremamente séria, o que eles tinham de mais complexo essa semana foi resolver essa ida ao jantar em família da dona Deyse e pelo visto eles tinham se safado, ou não, pois agora as coisas terão reviravoltas.
Estava lá o Eduzinho despreocupado, conversando plenamente com os colegas sobre deus sabe o quê, quando viu o celular e as notificações caírem com chuva no aparelho. Ele até então ficou curioso para saber quem tanto estava lhe incomodando naquele momento, jurou que deveria ser a mãe, talvez ela não estava satisfeita com a desculpa que deu ou alguma coisa do colégio dos meninos. Mas não era isso o caso.
— Atende Edu… atende... — dizia Tina já impaciente pela demora dele em atender.
Sua demora tinha um motivo, estava entretido em uma boa conversa com os colegas e foi aí que viu que era a sua esposa, umas cinco ligações perdidas dela. Imaginou o pior, quem sabe era alguma urgência com os filhos.
— Tina, oi. O que foi? Vi que tem umas ligações perdidas aqui.
— Sim, edu. Cinco ligações perdidas. Onde você tava?
— Eu estava ocupado.
— Ok. Voltando ao assunto... Querido... temos um problema.
— Querido?Um problema? — pensou consigo mesmo, e de fato haveria algum problema bem sério para ela o chamar dessa forma.
— Sim, o seu irmão. Ele tá querendo te ver, eu e as crianças. Hoje... no jantar.
— Como assim? — respira profundo e penteia os cabelos com as mãos expressando preocupação.
— O que foi Edu, parece que deu ruim alguma coisa. — disse o colega Kevin ao passar por ele.
— Pior que deu ruim mesmo, eu vou ter que ir para aquele bendito jantar em família.
— Mas o que tem de ruim nele assim?
— É um longa história.
Parado na frente do prédio em que Tina trabalha, Edu esperava ansiosamente para que a esposa aparecesse. Ela vinha em sua direção e ambos se olham como se já soubessem que não tem mais escolha senão enfrentar esse jantar em família tão temido.
— E aí, como você tá? Preparada?
— Acho que não temos escolha!
Eles chegam no jantar, descem do carro com as crianças e respiram profundamente para dar os primeiros passos para entrar na casa. Mas são percebidos de longe pela dona Deyse.
— Eles disseram que não viriam! O que os fizeram mudar de ideia?
Dona Deyse já os tinha olhado de longe, aquele carro vermelho pequeno chegando no estacionamento da casa, eram os dois em família. Mas ela estava curiosa para saber o que tinha os feito mudar de ideia para vir assim repentinamente, depois dos mesmos terem ligado informando a ausência. É um pouco interessante e curioso.
— Ah, não acredito. Vocês resolveram vir? Estou curiosa para saber o porquê. Estavam me enganando não era?
-— Não mamãe, tínhamos sim questões do trabalho para resolver. Mas o Rafael... — Rafael?
— Edu...— Tina deu um leve beliscão nele. Pois ela claramente não sabia que o Rafael apareceria por essas bandas.
— Ai.— Edu se contorceu, entendendo o lembrete.
— O que tem o Rafael? Aquele menino é um tanto irresponsável. Depois dessa viagem ao Chile nunca mais deu notícias. Será que ele ainda está vivo?
— Mãe não pense assim. Ele deve estar bem e com muitas novidades.
— Espero que sim. Vamos entrar... — ela segurou uma das crianças— Porque os meus amores não vão brincar com os outros lá fora? Tem uns coleguinhas legais lá.
— Brincar? Vamos Antônio.— disse o pequeno Heitor para o irmãozinho, que logo segurou a sua mão e correram para brincar com os outros meninos e meninas que estavam por lá.
— Cuidado crianças! — disse Edu, extremamente preocupado em deixar as seus filhos correrem soltos com os outros meninos.
— Aí Edu, eles são crianças, eles vão se divertir — Disse dona Deyse, e completou empolgada — Hoje o jantar promete. Temos um belo cardápio.
A mesa ainda estava sendo preparada, o pessoal andava e bebia um pouco, conversava enquanto os outros chegavam. E Edu é claro, preocupado com os meninos, olhando para o quintal tentando encontrar os meninos em meio aos outros que corriam desgovernados. Tina o observava gentilmente, olhando para fora preocupado com as crianças.
— Edu o que está fazendo aqui? As crianças estão bem.
— Espero que sim, olha o jeito que eles correm. É arriscado caírem e se machucarem.
Quando menos esperavam, um burburinho que se transformou em uma agitação repentina, ocorria lá fora.
— O que já foi? — disse Edu preocupado com o burburinho que formava entre os meninos. Foram ver o que era, e olha quem estava por lá, o então misterioso e sumido tio Rafa. Ele foi apelidado assim pela criançada. Pois é, lá vinha ele, daquele jeito, descolado carregando o Heitor nos braços como se a criança fosse uma brinquedo, Edu temeu pelos ossos seu filho. Rafael avistou o irmão e não pensou duas vezes em ir ao seu encontro.
— Edu? Quanto tempo? — deu um abraço forte em Edu, o suficiente para o levantar um pouco.
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