Como se fosse a primeira vez

3 Tragam as bebidas a noite promete


Eventos familiares sempre são regados a muito entretenimento e às vezes até climões. Mas acredito que é isso que torna esses momentos mais interessantes e marcantes talvez não de um jeito bom.

E como um desses, o jantar em família da família de Edu promete muitas surpresas ao decorrer da noite, além do mais, Rafael está por essas bandas e como ele é uma mochila ambulante de aventuras, os dois não terão com o que se preocupar, pois o rapaz passará horas entretendo o pessoal com suas aventuras pelo mundo.

— Eduzinho, quando tempo. Estou tão feliz de ter ver. Não sabe as histórias que tenho. — disse Rafael a Edu, seguido de um beijo forte na bochecha.

— Hey, seu maluco.— Edu já risonho e sem jeito se esquivava do irmão para lhe impedir que o beijo fosse mais demorado do que estava sendo.

— Desculpa, Tina. Acho que você não beija tão bem assim como eu.— disse a Tina, ainda envolto no pescoço de Edu. Rafael é um jovem abusado demais e não mede esforços para revelar isso.

O trio caiu na risada. Logo em seguida uma jovenzinha adorável se aproximou. Ela era uma convidada ilustre de Rafael e que daqui a pouco, todos iriam saber os detalhes sobre ela. Mas Edu já suspeitava que ela era um possível namoradinha do irmão. Ele estava certo... em parte.

— Não sabe o quanto estou feliz por vê-lo maninho. Senti sua falta. Você praticamente sumiu. Ficamos preocupados. — Edu está feliz por ver o irmão. Já faz um tempo que o rapaz viajou para o Chile e claro, parecia ter sumido do mapa, pois não deixava nenhuma mensagem ou informação de seu estado. Todos já estavam preocupados com o que tinha acontecido com ele. Mas Edu era o único que presumia que ele estava bem. E pelo visto, está.

— Olha, essa é a Camila.

— Olá, Camila. Prazer, sou o irmão de Rafael, esse rapazinho levado. — estendia a mão carinhosamente a garota, que gentilmente respondeu ao aceno.

— O Rafael me falou muito de você, e de Tina a sua esposa. — ela seguiu os olhos gentilmente para a garota, sabia que elas seriam boas amigas se fosse oportuno. Camila presumia uma doçura sem fim de sua futura cunhada. — Olá Tina, é um prazer conhecê-la. — Camila era uma garota muito carismática, e estava encantada pelos modos de Tina os quais ficou sabendo pelas histórias do Rafael.

— Olá!— Tina gentilmente apertara a mão de Camila e seguiu com um abraço afetuoso.

E claro que essa pequena introdução ao casal e principalmente a Tina a deixou muito curiosa por mais histórias sobre ela. Aquela garota doce, de cabelos loiros cacheados tinha um magnetismo adorável.

Enquanto Rafael seguia o encontro cumprimentando os familiares, Edu ficava aliviado por saber que a noite seria tranquila. Até onde ele podia ver, Rafael passaria horas contando sobre suas viagens além dessa ao Chile. Apresentaria essa garota e por fim, a noite seria tranquila demais. E com isso, não viu a hora de confortar a esposa sobre.

— Tina, não esquenta. Está tudo bem. Rafael está por essas bandas e ele vai entreter o pessoal com as viagens dele pelo mundo, além disso, com certeza vai explicar sobre quem é essa garota que o acompanha.

— Sem problemas. Está tudo okay.

— Sério mesmo?

É de suspeitar que Tina esteja tão tranquila por isso, mas talvez porque ela não quer deixar transparecer que as pessoas comentando sobre a vida deles não incomoda. Mas cai entre nós, incomoda sim. Tia Ana é o carro chefe dos comentários indiferentes, indelicados, e Edu está feliz em não vê-la por aqui. E ele completa.

— Bom, além disso, Tia Ana não vem pelo visto e isso é um bom sinal.

Reunidos à mesa, os familiares riam, cochichavam e olhavam com curiosidade para a moça que Rafael veio acompanhado. Tina era a única que sabia do que se tratava, e era percebida com muita gentileza pela garota. Pois, é claro, Rafael sempre falava bem dela e de Edu. Mas como os outros não sabiam sobre a garota começaram as perguntas. No entanto, Edu se depara com ninguém mais ninguém menos do que a tia Ana dando as caras no jantar.

— Pensavam que eu não viria?

— Tia Ana? — pensou Edu consigo mesmo. A emoção foi tão forte que ele quase se engasgou com o suco que tomava. Tossia e era amparado pela esposa que percebeu que ele não estava bem.

— Edu!! Cuidado.

— Céus, essa mulher aqui. — disse baixinho.

— Calma. Ela não vai encher seu saco. Ela estará muito ocupada com Rafael e suas histórias.

— Quem é a moça? — indagou uma das tias de Rafael.

— Camila — Rafael falou animado e com muita firmeza. E nesse momento, todos descobriram um lado afetuoso dele que ninguém tinha assim se dado conta que existia. Ele finalmente estava apaixonado e decidido a viver uma vida ao lado de alguém. Por mais que isso pudesse não ser compreendido pela familia, estava certo do que estava fazendo.

— Namorada? — perguntou dona Deyse.

— Minha noiva.

Por um momento, a mesa ficou em silêncio. Edu ficou surpresa com o acontecido. Tina não estava tão surpresa assim, pois já tinha ouvido isso com antecedência. A mãe de Edu, dona Deyse, não gostou muito da ideia, esboçou um certo desconforto com essa coisa repentina. Ela tinha seus motivos. Rafael sempre esteve longe das discussões dos negócios da família, assumir alguma responsabilidade estava fora de cogitação para ele e agora, assim, repentinamente, depois de uma viagem ao Chile, ele volta, só que agora noivo.

— Estou surpresa pela notícia — Disse a mãe de Rafael, um pouco indiferente e ao mesmo tempo controlando sua verdadeira opnião do caso. Pois se sabe bem que ela desejaria que ele fosse mais prudente quanto as suas andanças pelo mundo e se tornasse mais responsável com a sua vida. Um casamento agora, tão assim repentino, não é uma coisa prudente. Ainda mais que o mesmo não comunicou nada. Mas quem sabe não era essa a intenção, que ninguém viesse palpitar sobre o que ele bem fizesse da vida.

— E como se conheceram?— O climão estranho se esvaiu com uma pergunta descontraída que surgiu no meio do público

— Pois é, nos conhecemos esquiando. Nos atropelamos e nesse instante que cai perto dela, olhei nos olhos e me apaixonei. Então, começamos a sair bastante. Desde aí passou uns dez meses nos conhecendo. Mas eu senti que ela era a mulher da minha vida. E foi quando estávamos subindo a montanha que eu senti que estava na hora de dar um passo adiante. Me ajoelhei e a pedi em casamento.

É uma ótima pergunta. Todo casal tem uma história engraçada, interessante de como se conheceram. E com Rafael não seria diferente, provavelmente seria até melhor dado ao seu bom histórico de viagens pelo mundo, ele tinha uma boa história para contar. E ficaram ainda mais maravilhados pelo lindo anel de casamento que ele deu a ela. Nesse instante, pareceu que as pessoas da mesa, por unanimidade, decidiram ressuscitar suas boas histórias. Uma mais interessante que a outra.

— Conheci meu marido em um jantar da empresa.

— O meu, em uma festa de gala.

— Imagina, conheci minha esposa em um Iate.

Diziam um após outro, na intenção de se igualarem a incrível história de amor de Rafael e Camila, ou menos chegar perto. Mas nem todos tinham uma história assim ou perto dessa para contar. Tina suspirou pela conversa ter acabado e não ter chegado nela. Edu ficou preocupado, por ver a esposa um pouco nervosa e apreensiva. Mas tinha alguém curioso para saber mais sobre ela, Camila. Edu notava que Tia Ana estava quieta e é incrível como ela nao ousou fazer piada com ele na oportunidade que teve, pois ela sempre arranja uma.

Aliviado e um pouco inseguro, era como Edu se sentia em meio aquela multidão e suas boas histórias, ainda mais por saber que quem estava na fila de falar era sua esposa.

O jantar chegou ao fim, o pessoal se deslocava para casa enquanto alguns permaneciam para ajudar com as louças. Tia Ana estava quietinha, tao quietinha que o deixou com uma pulga atrás da orelha. Não fizera nenhuma pergunta constrangedora, desnecessária ou menos uma piada de mal gosto. Tia Ana odeia Edu tanto por ele ser um rapazinho metido — não sei de onde ela tirou isso — e muito levado. Aquela janela ainda a assombra. Esse é o preço dele ter levado a culpa no lugar do irmão mais novo quando criança.

Os meninos de Edu estão junto a ele. Como um pai super zeloso, se mostra interessado nas histórias mirabolantes que os pequenos tiveram por hoje brincando com outras crianças. Ele se diverte. Aproveitava também para limpá-los dos resíduos de comida que eles deixaram cair na roupa.

— Olha quem está aqui.— Rafael se aproximava, estava encantado com aquela cena em que via, Edu e seus pequenos.

— Tio Rafa!— disse um dos filhos de Edu.

— Tio Rafa? Já tem apelidinho fofo?— dizia Edu a Rafael enquanto de cócoras limpava o pequeno Heitor que fazia bagunça com uma sopa que estava rendendo a horas e ele nunca terminava.

— Sim, não tem? É bom conversar com Tina para ela lhe dar um. Eu tenho um, ganhei da minha gata — lhe dá um tapinha de leve nas costas.— Seus meninos estão gigantes. Sabe, nem imagino que isso tá acontecendo, logo vou me casar e vou ter filhos como você.

— Claro, mas tem que conversar com Camila se ela quer ter filhos.

— Ah, você é um chato.

— Sou sim. Mas caso ela queira ter, acho que vocês serão bons pais. Espero que voce tome juizo.

— Você acha?

— Acho.— disse Edu, gentilmente ao irmão.

— Sabe, eu nunca imaginaria que isso aconteceria. Eu me casar... quem sabe daqui pra um tempo, nos não levemos nossos filhos para brincar juntos. Além disso, você tem tanta sorte de se casar com a Tina, ela é uma mulher linda e vocês tem dois lindos bebês.

— Oxi, quando tu fala assim parece que se nao fosse pela forma que o meu casamento ocorreu eu nunca casaria com ela.

Edu não esperava a resposta de Rafael e na verdade, nem foi uma reposta, ele ficou em silêncio e se pos a rir. Então, Edu deduziu que só conseguiu casar como uma mulher como Tina porque foi por conveniência familiar.

— Seu idiota, tu é muito cruel.— disse a Rafael, seguido de uns tapas leves para ele tomar jeito. Inofensivo, mas aquilo acendeu uma coisa diferente e nova que se somou a uma insegurança de Edu. O tom era de brincadeira, mas não deixava de ser verdade. — Eu vou ver se Tina precisa de ajuda. Cuida dos meninos aqui, por omenos você já pode ir treinando em como ser pai.

— Pode ir. — risos.

Do outro lado, na cozinha estava Tina arrumando alguns talheres. E no caminho de onde estava para a cozinha, Edu teve a infeliz oportunidade de ouvir uma conversa que corria entre Camila e Ana. A princípio, era um papo bom, leve e solto que estava rolando alguns minutos antes e parecia que as duas estão se dando super bem. Era intrigante que a tia Ana tinha essa pele de boa moça, mas era questão de tempo que ela voltasse para sua configuração original. Vamos deixar claro, não era maldade de Camila. A coitada estava apenas curiosa curiosa para saber mais sobre Tina e quando a viu por agora, passeando pela cozinha e rindo com a sogra, Camila ficou enfeitiçada pelo magnetismo da moça, gostaria de saber mais sobre ela. As coisas que ouviu sobre de Rafael nao eram suficientes. Ela a adorou. Seus modos gentis e delicados a conquistaram, ela desejava sua amizade, só que perguntou para a pessoa errada.

— Aquela ali é a esposa do Edu, não é? Achei ela uma fofa. Pena que não conversamos muito. Tina tem muita sorte de ter Edu. — Camila falava com um encantamento por Tina, e foi logo tocar no nome de Edu que as coisas mudaram.

— Acho que foi ao contrário. Ele quem teve sorte de se casar com aquela mulher maravilhosa e se não fosse por isso, nunca teria uma mulher assim.— Tia Ana falava enfurecida mas de uma forma contida. Ela não via a oportunidade de destroçar Edu nos dentes.

— Como disse? O que quer dizer?

— Edu e Tina são casados por conveniência familiar. Você acha que Tina, uma mulher como aquela, iria querer um cara como ele em sã consciência? Claramente não.

No meio tempo que Tia Ana falava atrocidades contra a autoestima de Edu, aquela insegurança foi tomando mais forma dentro dele. Como um flashback, asnpalavras de Rafael e agora as da sua tia. Por mais que fosse maldade dela, mas aquelas palavras pareciam fazer tanto sentido.

— Edu, querido está bem?— disse Tina a Edu, após vê-lo perdido em seus pensamentos. — Quer me dizer alguma coisa?

— Eu vim ver se está precisando de ajuda.

— Ah, eu já estou terminando.

— Terminando e você ainda tem esses talheres. Vai descansar um pouco, toma um vinho eu cuido disso aqui.

— Não Edu, não precisa.

— Eu insisto.

Camila teve a oportunidade de vê-los de longe, naquela cozinha um ajudando o outro com as louças, e pensou consigo mesma.

— Acho que sim, Edu conseguiria se casar com uma mulher como Tina. Ele é tão gentil e prestativo.

Edu ainda estava a pensar naquelas palavras, coisa que o fez olhar por um instante para Tina quando ela ria enquanto tentava desligar a torneira. Por mais que ele estivesse rindo junto com ela, seu coração sangrava de pouquinho, percebendo que não era um homem a altura e que talvez possa ser verdade que ela não tenha amado. Poderia ser assim? Precisaria ser asssim, um casamento arranjado? Essa insegurança por eles não terem uma história, somada a essa imagem recém descoberta que os outros tem deles. Ele se lembrou porque odiava esses eventos familiares. Pensou que seria diferente pela chegada do irmão, mas não. Não ocorreu como ele pensava ser.

Talvez essa insegurança revele uma verdade que os dois estão tentando evitar, de que eles, lá no fundo, não se amam de verdade. Ele não ama ela na perspectiva dela, e ela não ama ele na perspectiva dele. Que coisa! O que os resta agora? Tina percebeu o olhar triste de Edu e ficou curiosa pelo que poderia ter acontecido com ele. E tinha motivos sérios para desconfiar, pois em um momento estando descontraído, percebeu seu olhar para tia Ana de uma forma pesarosa.

— Edu, você está bem?

— Estou.

Tina não sabia como demonstrar um nível afetuoso de compaixão e ocolhimento para com a situação do marido, mas decidiu, ainda hesitante, acolhê-lo com um leve toque na cintura.

Eventos familiares tem de tudo um pouco. E no caso de Edu, serviu para reforçar uma das inseguranças que ele não tinha dado conta que tinha. Talvez seja por isso, esse desconforto de ir para eventos como esse, de ouvir as pessoas palpitando sobre o casamento dele. Sim, ele não teve uma história maravilhosa para se contar de como conheceu a esposa, mas não precisa que seja assim.