Como dizer adeus em robô
21 O aniversário de Ron que Hermione não estava
Quando cheguei em casa, mamãe e papai estavam dormindo. Fiquei aliviada por não precisar pensar em uma boa desculpa e explicar o que estava acontecendo, mas logo pela manhã as cartas começaram chegar.
Cartas de McGonagall, explicando que as aulas tinham sido suspensas, de Molly Weasley oferecendo A Toca para que eu pudesse passar os dias, e até mesmo de Lupin, com estratégias para proteger a mim e a minha família.
Mamãe e papai não fizeram muitas perguntas. Eles já tinham entendido.
— Como aquela escola vai ficar sem Dumbledore? — mamãe diz, lendo as cartas do Mundo Mágico como se fossem o jornal matinal.
Como o Mundo Mágico vai ficar sem Dumbledore?
— O funeral é amanhã, em Hogwarts. Está escrito nessa carta de Gina Weasley — papai lê, mostrando o pergaminho de Gina, que eu pego com cuidado preocupada com o que ela poderia estar falando além disso.
— Eu não vou — concluí.
— Se não for, se arrependerá depois — papai disse.
— Eu corro o risco — respondi, guardando as cartas. Eles me olharam, tristes. — Desculpa, mas muitas coisas aconteceram em Hogwarts.
— Mas agora você está em casa. E está tudo bem – mamãe disse, com um sorriso fraco. — Molly e eu trocamos cartas, eu sei das coisas... Malfoy, não é?
— Mãe... — eu fiquei com vontade de abrir um buraco no chão para enfiar minha cabeça.
— Deixe a menina em paz – papai se pronunciou, calmo.
Estar em casa era muito bom, voltar às raízes. O Mundo Mágico, por mais que o amasse, fazia com que eu esquecesse desse meu lado. Aqui eu era filha dos meus pais, não uma nascida trouxa, sangue ruim. Aqui eu era eu.
Não sei dizer o que faria sem Harry e os Weasley, mas pela primeira vez em anos senti paz e vontade de estar em casa. E ficaria nela por um bom tempo, num limbo que, nem se a Ordem da Félix arrombasse minha porta e me tirasse de casa a força, eu sairia.
Acho que era isso que Lilá estava pensando aquele tempo todo.
[…]
— Você não vai voltar? É isso mesmo que eu ouvi? PAI, acho que seu telefone está com problema, porque NÃO É POSSÍVEL! Hermione Granger não pode estar falando isso para mim!
Eu revirei os olhos e respondi, calmamente:
— Gina, já decidi. Vou ficar.
— Ronald ficou te esperando a noite toda! Era aniversário dele, Hermione… Eu fiquei te esperando a noite toda!
— Rony sobreviverá — respondo, indiferente.
— Hermione, não estou para brincadeira – ela dissera.
— Okay, tenta me tirar daqui – provoquei.
— É o casamento do Gui – ela disse, e eu consegui sentir a doçura na voz dela, como se não entendesse o motivo para eu não aparecer no casamento do irmão.
— Felicidades ao casal – respondi.
— Hermione Granger! – sabia que ela queria me matar. Sabia que, se ninguém tivesse impedido (o que deve ter acontecido), ela já estaria na minha casa, me puxando pelos cabelos.
— Fleur me entendeu! Por que você não consegue fazer o mesmo? – protestei.
— Você é minha melhor amiga! Não podemos nos separar nesse momento! — ela brigou.
Eu suspirei e, sem pensar duas vezes, apenas soltei o que estava guardado desde Hogwarts:
— Por que não me disse sobre o Malfoy, Gina? É o que uma amiga faria.
— Eu não podia! Tínhamos um pacto com ele! — ela defendeu.
— Não era para ter feito um pacto com aquela cobra! — briguei, mais uma vez, como uma criança — Vocês agiram pelas minhas costas!
A culpa não era dela.
Mas eu queria que alguém tivesse a culpa. Queria que mais alguém sentisse a raiva e a dor que eu estava sentido. Queria compartilhar com alguém aquele sentimento horrível de ser traída.
Até porque Harry Potter havia me avisado desde o começo. Apenas não dei ouvidos.
— Então é por causa disso? Está trancada na casa dos seus pais porque acha que agimos pelas suas costas?
— Estou na casa dos meus pais porque não sou mais capaz de lidar com o caos do Mundo Mágico!
— Hermione... — ela suspira, quase impaciente — E se alguma coisa acontecer com você? E se alguma coisa acontecer com algum de nós? Hermione, precisamos estar juntas.
— Eu estou bem aqui.
— Tonks me contou, Hermione – ela disse, baixinho – Sei que têm Comensais no seu bairro.
Sabia que a conversa uma hora chegaria em Gina, porque eu era vigiada vinte e quatro horas, pela Ordem da Fênix e por Comensais da Morte
Era desse tipo de coisa que Blaise estava falando quando brigou com Alec, na noite do ataque. Hermione é uma de nós.Como se eu precisasse de Comensais da Morte me vigiando.
Eu costumava ver quatro bruxos, mas dificilmente eram os mesmos todo dia. Eram pouco mais velhos que eu e nenhum simpatizava com qualquer membro da Ordem da Fênix. Na verdade, não simpatizavam com ninguém.
Uma noite, eles travaram um duelo no meu quintal e eu vi eles esconderem o corpo na floresta. Eles me disseram, Hermione, vá para dentro. Eu não usava Magia desde Hogwarts, mas eu teria ficado se minha mãe não tivesse me puxado para dentro de casa.
— Lupin pediu para Zabini tirá-los da sua casa, mas ele se recusou. E eles estão nessa briga desde então — Gina contou.
— Lupin agora negocia com Blaise? — perguntei, confusa.
— É o cérebro de toda operação. Ele disse que é para sua segurança.
Sempre me fazia pensar, de novo, de que lado os sonserinos estavam?
— Esconder corpos no meu quintal é para minha segurança? — perguntei, retórica.
— Você precisa de mais um motivo para voltar? Além do fato de que corre perigo? — Gina tentou novamente.
— Isso é coisa do Malfoy, está fazendo de tudo para que eu não fique aqui – respondi para ela, mais uma vez, como se fosse nada.
— Qual versão do Malfoy? Aquela que queria te proteger a todo custo ou aquela que mandaria te caçar até os confins do inferno?
— E eu iria para o inferno? — falei, irritando-a.
— Se envolveu com o diabo em pessoa, não se envolveu? — ela diz na vã tentativa de lembrar qual de nós duas tinha mais débitos com a cobra.
— Até onde eu sei, foi você que fez um pacto com ele — retruquei.
Ela bufou.
Mas era verdade. De todas as promessas, juras de amor, palavras ao vento, não havia nenhum pacto com Malfoy. Gina, Harry e Rony não poderiam dizer o mesmo.
— Hermione, a Armada inteira está aqui... Precisamos de você – ela disse desistindo de bater de frente e decidindo partir para o emocional.
— Armanda Dumbledore existe ainda?
— Granger, porra, você é da Ordem! – ela voltou a erguer a voz. Imaginei Gina, do outro lado da linha, batendo e batendo o pé n’A Toca.
— Olha, Gina, foi muito bom falar com você, mas eu preciso ir... minha mãe está chamando... – afastei o telefone – ESTOU INDO, MÃE!
— Não me faça ir até Londres te puxar pelos cabelos!
— Tchau, Gina, amo você... Mande um beijo para Molly.
E desliguei.
[…]
— Quando vai querer conversar sobre o que aconteceu? — mamãe perguntou um dia para mim, no seu quarto. Eu estava arrumando meu quarto, tentando me livrar de tudo que tinha magia. Ela me olhava da soleira da porta, esperando uma resposta.
Suspirei entediada, jogando meu livro de feitiços na cama.
Os elfos tinham me feito aquele favor; haviam mandado todas as minhas coisas para casa, e agora eu tinha pilhas de livros mágicos para enfeitar meu quarto, poções que nunca cheguei terminar, objetos do Mundo Mágico que eu não saberia explicar para um trouxa, presentes que ganhei, capas, uniformes.
— Não sei se quero falar sobre isso, mãe — respondi, tentando entender o que eu faria com tanta planta das aulas de Herbologia.
— Eu gostaria de saber — ela diz, paciente.
Eu me sentei na cama, pensando no melhor jeito de falar que me envolvi com um bruxo, herdeiro, sonserino, que a fíamlia entregaria minha cabeça em uma bandeja se tivesse a oportunidade. E também com um pouco de receio de falar, em voz alta, o que me atormentara por dias, desde que fui embora de Hogwarts.
— Promete não fazer perguntas difíceis? — perguntei. Meu coração parecia que ia sair pela boca. Não por ela saber a verdade, mas por lembrar dele.
Dele. Dele mesmo na Torre de Astronomia, falando de que lado estava jogando, falando que me amava.
Daquele grande filho da puta.
— Prometo fazer as perguntas certas – ela respondeu, se aproximando.
Suspirei. Vamos lá...
— Eu me apaixonei e me ferrei, foi isso que aconteceu.
— Preciso de mais detalhes — ela disse.
— Nós dois... em alguma parte da história, começamos a ficar... digamos assim... bem próximos?
Ela riu: — Como isso aconteceu?
— Eu me apaixonei, mãe. Sem calcular nenhuma consequência — respondi, com os olhos quase enchendo de lágrimas. — Eu fui burra. Aconteceu porque eu fui burra.
— Minha filha, não pode se culpar por isso.
— Mas é culpa minha! Todos os meus amigos acobertaram ele por minha causa e ele fez uma coisa horrível.
— Você não tinha como prever nada, Hermione... — ela disse passando a mão no meu cabelo.
— Eu coloquei a minha vida em risco, dos meus amigos, de vocês... E agora não consigo voltar e encará-los, e lembrar que todos eles sabiam e eu não — respondo, começando chorar no colo ca minha mãe.
— Hermione, se isolar e ignorar toda a história que tem com seus amigos não vai ajudar você em nada....
— Eu me sinto traída, mãe.
— Você devia escutar o que eles tem para dizer. Devem ter tido seus motivos. As pessoas não são ideológicas, Mione. Elas agem de acordo com as suas necessidades. Vai ser muito melhor para você resolver isso com seus amigos e com Draco.
— Ele nem se deu ao trabalho de me procurar. Sinto que esse tempo que passei com Draco me desligou de tudo. Sinto que fiquei à deriva, só deixando as coisas acontecerem... Agora o alarme despertou, me acordou no meio da minha vida e eu preciso fazer alguma coisa porque agora eu lembro todo dia de que lado ele está. E no meio disso tudo, eu não faço ideia de quem sou ou o que eu quero, ou o que está realmente acontecendo... Entende, mãe?
Mamãe sorri, triste, e volta a me abraçar.
— Mione, estou muito feliz por você estar aqui, mas eu sei o quanto você ama aquela escola e seus amigos. Aqui é sua casa, mas lá também é. Não dê as costas assim aos seus amigos. Vocês já passaram por coisa pior, mas estavam juntos. Qual a diferença agora?
[…]
— Adoro quando os lacaios do Malfoy aparecem aqui.
— Você precisa voltar, estou cansado de recrutar tanto comensal para vir aqui. Você acha que é fácil? Você acha que eles gostam de pisar fora do Mundo Mágico? — Zabini respondeu.
— Eu sei que não estão aqui por vontade própria, Zabini — respondi, revirando os olhos, sem precisar falar em voz alta que Zabini usava Imperius para mantê-los sob controle.
— Era isso ou seu pescoço. É muito difícil não deixarem eles te matar, Hermione — ele diz, seco.
Zabini veio me visitar por causa do duelo da outra noite, mas estava alguns dias atrasado. Ele chegou com mais comensais que se instalaram em fileira no meu quintal, obedecendo as ordens de Blaise, que naquele momento mais pareia um general.
Blaise entrou pela porta da frente, como quem é convidado, sentou na mesa de jantar, comeu e bebeu, contou as novidades do Mundo Mágico, jogou conversa fora com meus pais, riu, lembrou de histórias de Hogwarts, enquanto eu podia ver todo o medo nos olhos dos meus pais e todo o pânico se instalando em mim.
Ele não faria nada com meus pais.
Ele não faria nada comigo.
Mas ali ainda era um Comensal da Morte. E um Comensal da Morte muito poderoso.
Depois de todo teatro, conversamos no quintal, sentados na escada da varanda.
— Ele está fazendo de tudo para eu voltar, não é? — cruzei os braços.
— Estou fazendo de tudo para você ficar segura — ele corrige.
— Qual é, Blaise, nós dois sabemos que eu sei me virar muito bem sozinha.
— Bem como? Você nem usa mais sua varinha — ele ri, debochado.
Eu fechei a cara: – Não quero Comensais me espionando, tá bom? – e continuei: — Não quero eles aqui. Mande-os embora.
— Eles só vão embora quando você voltar, Hermione, é a minha condição.
— Zabini...
— Hermione, serei pai em poucos meses e não acredito que vai perder o nascimento do meu primeiro filho — ele diz, dissimulado — Eu acho que não iria querer nascer em um mundo que Hermione Granger não esteja.
— Eu acho que não iria querer nascer filho de um Comensal — respondo.
Zabini revirou os olhos, rindo.
— Eu não sou um Comensal. Sou um agente duplo.
— Claro, o melhor dos dois mundos — respondo, sarcástica.
Podia dar um crédito para Blaise. Até que estava se esforçando para manter tudo nos eixos, inclusive sua cabeça.
— Granger — ele dissera, pausadamente —, se você não vir comigo, vai acabar indo com Pansy. E disso você não vai gostar nenhum pouco, eu te garanto... E também é uma questão de honra, eu gostaria de ganhar dela dessa vez.
— Manda ela vir — respondi, indiferente. Blaise passou a mão no cabelo curto, de novo, impaciente.
— O que eu preciso fazer, Hermione? — ele pergunta por fim. Draco já tinha falado a mesma coisa em um passado não muito distante.
Olho para ele e suspiro. Blaise era bonito. Sempre foi. E, com tudo que estava acontecendo, parecia mais confiante e mais maduro. Dava para perceber no andar, ou no jeito que falava, o quanto ele tinha deixado de ser o moleque sonserino dos corredores de Hogwarts.
Mas qualquer um deles faria meu coração lembrar que estava despedaçado.
— Blaise, nada disso é para minha segurança. É só um jeito do Malfoy me mostrar que agora ele tem poder. Nenhum de vocês me perguntaram o que eu quero, onde quero estar e como eu estou. Draco matou Dumbledore, eu não tenho certeza se eu consigo perdoar, Zabini. Não tão rápido assim — falei, sincera — Vocês sabiam o tempo todo, Zabini. Não venha pagar de meu amigo.
Achei que não diria nada, achei que continuaria insistindo e batendo o pé, defendendo Draco, mas ele parecida sincero quando respondeu:
— Eu também ficaria puto no seu lugar, não te tiro a razão. Não sou eu que vou falar o que Hermione Granger tem que fazer, mas você não deveria deixar sua raiva comprometer sua segurança. Você não está segura aqui e eu estou ficando sem opções. Coisas horríveis podem acontecer com você, Hermione... E não venha me falar que sempre foi um alvo — ele me corta quando abri a boca para falar — Você sabe que agora é muito diferente, não é uma boa hora para ser orgulhosa.
Com a cara fechada, apenas digo: — Eu não vou voltar.
Ele dá de ombros e se levanta.
— Tudo bem, linda. No seu tempo... Eu não volto mais aqui, eu prometo. E pode achar o que quiser porque sei que está nervosa com tudo que aconteceu, e acha que agimos nas suas costas, mas eu fui seu amigo e ainda sou. E me importo com você, Hermione, independente de Ordem da Fênix, pacto com Potter, Draco... Quando estiver pronta, estarei aqui para te levar de volta.
E aparatou junto com seu exército de Comensais.
[...]
Eu sabia que Pansy Parkinson, uma hora ou outra, aparecia também. Era de se esperar, por isso quando ela invadiu meu quarto, eu não fiquei surpresa.
Eu estava com uma toalha na cabeça e tinha acabado de sair do banho. Pansy me olhou e não disse nada por um instante.
Ela usava um longo vestido preto e por cima um sobretudo preto comprido, o que fazia ela parecer mais velha. Usava luvas verde-escuro de couro legítimo e uma bota cano alto de salto, da mesma cor. O cabelo castanho estava preso num coque tecnicamente despojado, mas lindo demais porque se tratava de Pansy.
Não sei o que Pansy estava pensando, mas com certeza não passava despercebida.
Olhei para sua barriga no mesmo instante. Mesmo com a capa, dava para perceber. Fiquei pensando como Pansy fez para levar aquela história a diante, mas também não parecia que tentava esconder a gravidez.
— Sério? Vai me receber assim? – ela dissera, interrompendo meus pensamentos.
— Olá, Pamela, faz tempo – respondi, sentada na penteadeira.
— Espero que você tenha uma boa desculpa – ela começou, tirando as luvas e o sobretudo e jogando-os na cama – Se bem que quando contaram, não achei que tivesse sido tão burra de voltar para casa dos seus pais.
— Achou que estaria onde? Tirando férias no Caribe? – perguntei, sarcástica.
Pansy me olhara debochada.
— Zabini me avisou que seu humor estava mais ácido que o normal, e eu vim preparada. Pode descontar todo seu ódio e destilar todo seu veneno em mim, Granger, estou blindada — ela disse, divertida com a situação.
Eu revirei os olhos.
— Eu acho que deveria ter ido para outro lugar. A casa dos meus pais ficou muito óbvio e o pior é que vocês acham que podem fazer visitas assim sem avisar… Nós trouxas odiamos visitas — falei.
— Você é procurada, paixão. Seu pescoço está valendo muito – Pansy diz, encosta na parede – E Draco Malfoy só vai descansar quando tiver certeza de que Hermione Granger está pisando no Mundo Mágico de novo.
— E ele mandou logo você? Que merda tinha na cabeça?
— Ah, mas é um prazer te reencontrar – ela respondeu, jogando os cabelos para trás. Tão.Bonita.Tão.Não.Mexa.Comigo.Ou.Já.Sabe — Quer saber dele? Ele está muito pior do que antes, e ele tira o descanso de qualquer um só de saber que você ainda está aqui. Só de saber que não está seguindo o roteiro.
— Primeiro, ele me manteve por perto para se livrar de qualquer julgamento. Agora, quer me manter por perto para quê?
— Você sabe que ele não te namorou por causa disso.
— Ah, eu sei? — dei risada, sarcástica. — Me parece que ele me usou.
Ela bufa: — Para ser sincera, adoraria que sua versão fosse a verdadeira, iria me poupar de te levar com segurança para o Mundo Mágico.
— Você sabe que eu não vou voltar com você — respondi, me virando para o espelho.
Pansy, atrás de mim, se apoiara na penteadeira, me fitando no espelho.
— Eu sei que você é uma covarde que fugiu e não teve coragem nem de ir no funeral.
— Você nem tinha que estar lá, é praticamente cúmplice — acusei.
— Hermione, seu romance com Draco não foi o único motivo para a Ordem decidir poupar Draco, não é uma boa hora para achar que tudo e todos estão contra você — ela disse, calmamente.
Eu suspirei. Queria apenas me afundar na melancolia, tentando entender por que tudo aquilo tinha acontecido. Como tínhamos chegado até ali daquele jeito?
— Eu não tenho mais forças para estar no Mundo Mágico, Pam — respondi, sincera, o que a pega de supresa, porque talvez não esperasse que eu fosse, de fato, falar.
Pansy se aproxima de mim, cautelosa. Deve estar achando que é uma armadilha.
— Mione, é a bruxa mais poderosa e corajosa que conheci. Eu só preciso que lembre de quem você é, e que você não está sozinha.
— Eu não pedi nada disso. Ficar sozinha é o que mais desejo agora — resmunguei.
— Eu também não pedi nada disso, e olha onde estou — ela revirou os olhos — Eu nunca achei que teria que ser sua babá. Por que você está complicando tudo?
Me irritei, lembrando que toda minha energia estava esgotada:
— Por que, de verdade, você está aqui, Pamela? – retruquei.
— Porque eu sou sua amiga, sua imbecil! Podia ser pior.
— Não consigo imaginar...
— Você é uma ingrata! – ela me cortara – Todo mundo fez de tudo por você e é assim que nos trata, Hermione? – Pansy explodiu.
— Ninguém fez nada por mim! Tudo que vocês fazem é por vocês mesmos!
Pansy me dá deu um tapa. Um tapa forte o suficiente para me fazer revidar metendo a mão na sua cara. Talvez eu tenha merecido, mas mesmo assim... por que, Merlin, por quê? Ela me olhou boquiaberta, provavelmente pensando a mesma coisa que eu. Nunca tínhamos brigado assim, nem quando nos odiávamos.
Sem pensar duas vezes, Pansy me apontara a varinha, com um ódio mortal que me faria sair correndo se não a conhecesse tão bem. Então, pensei, era naquilo que Pansy se tornara? Conseguia facilmente ver a Comensal da Morte nos seus olhos carregados de fúria e irritação.
Mas não sei por que estava surpresa; Pansy e todos eles tinham sido praticamente treinamos desde pequenos para saírem por aí desfilando e agindo como fiéis escudeiros de Voldemort.
Não hesitei e peguei minha varinha. Naquela hora, tive certeza de que Pansy era capaz de me matar.
Quer dizer, eu seria capaz de atacar Pansy? Eu seria capaz de atacar qualquer um da Sonserina? Da mesma forma que Pansy tinha sido criada para matar, eu tinha sido para lutar e me defender todos esses anos em Hogwarts.
— Estupefaça— Pansy atacou e uma luz vermelha saiu da sua varinha, em minha direção.
— Rennervate— soltei antes que pudesse pensar. Meu quarto parecia um concerto de rock, com tantas luzes saindo das nossas varinhas. Pamela fazia feitiços não-verbais, e era muito difícil me defender de feitiços não-verbais – Expelliarmus.
Ela não era desarmada por nada, o que me fez pensar que deve ter tido muita prática nos últimos meses, enquanto eu mal conseguia conjugar um feitiço sem esgotar minha energia.
— Você está passando vergonha, Hermione – Pamela provocou.
— Te deixam usar esses feitiços assim? O Ministério não foi atrás de você ainda?
Pamela já andava de mãos dadas com a Magia das Trevas e eu não estava nem um pouco perto de ter um embate justo naquela hora.
— Que autoridade o Ministério tem agora? Só tem Comensais naquela merda. Scrimgeour está com os dias contados – ela revirou os olhos. Realmente, eu estava muito alheia do Mundo Mágico. Se bem que não era de se esperar que Rufus Scrimgeour levasse um golpe, mais cedo ou mais tarde.
— Vou adorar aprender a Arte das Trevas com você, Pamela — falei, o que a fez revirar os olhos.
— Você vai direto para A Toca, Hermione! Isso é inegociável.
— Eu volto para o Mundo Mágico dentro de uma urna, Pamela — discuti.
— Infelizmente, preciso te devolver viva.
— Eu não sou uma carga!
— Mas está me dando trabalho como uma!
— Eu fui sua amiga, Pamela — briguei apontando a varinha, sentindo aos poucos minha magia despertando no meu corpo.
— Você ainda é minha amiga, Hermione — ela disse, enfurecida — Abaixa a porcaria da varinha.
Ela me encarou de novo, devia estar se odiando um pouco, se a conheço bem. Mas aí ela falou e eu tive vontade de atirá-la pela janela, de tanta raiva:
— O que vocês dois fizeram de tão louco em Hogwarts pra você se isolar aqui?
Sabia que ela falava de Draco, e a lembrança daquela noite me causou um embrulho no estômago.
— Onde quer chegar, Pamela?
— Não consigo imaginar outro motivo para você estar sendo tão idiota. Um que não envolva Draco.
— Cala a boca, você não sabe de nada... Vocês me traíram! É isso que está me fazendo ficar aqui — falei, ainda apontando a varinha para ela.
— Era para você voltar para o funeral! Não foi porque não quis, e tá querendo ME culpar pelas SUAS decisões? — ela discutiu. Eu não respondi, e Pansy, cuidadosamente, guardou a varinha, relaxou os ombros, amoleceu um pouco a voz e deu uma de Pansy: – Hermione, não faz isso... O que quer que tenha acontecido entre você e Draco... Precisamos de você.
Um nó se formou na minha garganta. Pansy teria me ganhado aí mesmo, mas não aconteceu.
Sei que, por um lado, eu que estava sendo idiota.
— Aqui é meu lugar – concluí, ríspida. Poderia ter sido mais gentil, eu sei, afinal Pamela tinha baixado a guarda, e parecia que íamos ter progresso, mas eu fiz merda, e ela voltou a defensiva quando eu dissera: – Você conseguiu deixar claro que aqui é o meu lugar desde o primeiro momento que nos vimos. Estou em casa, onde eu não deveria ter saído. Eu já fiz MUITO por vocês. Eu tentei ajudar Harry, eu tentei ajudar Ronald. Eu tentei falar "Draco, você não precisa fazer isso". E eu tentei te ajudar, sua idiota. E o que você fez?! Me deu as costas.
— Você não entendeu nada, Hermione, você não entendeu nada do que aconteceu.
— Quer saber? Eu cansei. Harry é grandinho, sabe se virar.
— Hermione – ela falou, calmamente –, se alguma coisa acontecer com algum deles, você vai se arrepender demais... Não faça isso, por favor. Você não está sozinha... Você nunca vai estar sozinha.
— Chega, Pamela. Eu já decidi.
Ela me olhou daquele jeito de novo; mais do que disposta a me atacar. E eu achei mesmo que faria, mas Pansy pareceu pensar bem a respeito. Tipo, os Weasley achariam ruim se eu aparecesse com Hermione desacordada para o casamento de Gui e Fleur?
Pamela Parkinson fez questão de sair pela porta.
Mas antes, ela se virou e me apontou o dedo:
— Você está louca se acha que eu vou te deixar. Fique sabendo que eu volto.
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