Como dizer adeus em robô
20 Como dizer adeus em robô
Notas iniciais
— Isso tudo é ridículo – Pansy resmungara.
— Sim, Pamela, política do pão e circo e tudo mais… Agora pare de se mexer! Eu não quero te machucar — respondo enquanto tentava me concentrar em consertar a barra do vestido que Pansy usaria naquela noite.
— Eu não me importo — ela cruza os braços — McGonagall não se importa. Dumbledore não se importa. Ninguém se importa. Parece que agora está tudo bem. Hogwarts sempre vai ajudar aqueles que precisam… como se eles não tivessem nos criado para o campo de batalha desde pequenos!
— Pansy, eu que vou te estrangular se você não sossegar. Estou quase acabando…
— Francamente, Hermione, como concorda com isso?
Era noite da estreia da nossa peça e, mesmo que o discurso de Sutcliffe alguns dias atrás tinha nos motivado a trabalhar juntos pelo menos uma última vez, era evidente que a ideia era ter um entretenimento para que todos tirassem a atenção do clima de abandono em Hogwarts.
De certa forma, era como nos sentíamos.
— Fui excomungada – simplesmente respondi, como se não fosse nada. Pamela me olhou irritada, e eu suspirei... tinha que pegar leve com ela. – Estou esperando notícias de Harry. Não posso fazer nada até lá... É frustrante.
Ela então ficara quieta, finalmente.
Os últimos dias também não foram nada fáceis para Pansy – se bem que não tinha sido fácil para ninguém desde o ataque. Pansy tinha descoberto recentemente que estava grávida e vivia em uma sequência de enjoos, noites mal dormidas e picos de humor, e ainda não tinha criado coragem para contar para Zabini.
— Estou cansada daqui, mas não quero ir embora – ela dissera de repente. Tirei a atenção do vestido para olhá-la.
É verdade que Hogwarts estava um inferno desde o ataque, mas ninguém conseguia pensar em outro lugar para estar naquele momento. As coisas lá fora estavam piores e não tendiam a melhorar.
— Eu sei, eu também não quero ir e envolver meus pais nisso tudo… — eu falo.
Pansy me olha, triste.
— Você pode ir para minha casa, se quiser — ela brinca, tentando quebrar o gelo. Nós duas rimos.
As coisas entre nós duas aconteceram muito rápido, mas eu não me lembrava mais de episódios da minha vida em que Pansy não estava ou poderia não estar mais.
Mas ela me fazia sentir falta de como as coisas eram com Lilá e com Gina, que se afastara aos poucos por conta de Harry e uma série de motivos compreensíveis.
Fora que Pansy me inseriu de um jeito muito louco na sua dupla vida e na dos outros sonserinos.
— O que você vai fazer quanto a... – apontei para sua barriga.
— Boa pergunta – ela respondeu, fazendo bico – Se eu parar para pensar, consigo ouvir perfeitamente os berros do meu pai. Mas por enquanto quero ficar nesse meu mundo em que eu imagino que está tudo bem e eu e Zabini estamos bem.
— Não vai falar para ele, não?
— Não sei como falar para ele. Não aceitei muito bem ainda.
— Você não devia passar por isso sozinha.
Ela deu de ombros:
— É o que nós fazemos – e então disse, o que, eu juro, até hoje me causa embrulhos no estômago. Onde, afinal de contas, eu fui me meter? – Vá se acostumando. E, além do mais, não estou sozinha... Tenho você.
Eu ia responder, mas no vai e vem de pessoas que entravam e saiam do camarim que estávamos, Draco entrou e bastou uma troca de olhares com Pansy para ela bufar e arrumar a postura, ficando ereta.
— Vestido bonito — ele diz, se aproximando de nós duas.
Com qual Draco eu falaria aquela noite? Malfoy já tinha adotado tantas versões e tantas personalidades que era sempre uma surpresa encontrá-lo.
— Você acha que eu não sei que tudo isso foi ideia sua para me manter ocupada, Malfoy? – ela diz, firme. Bem, aquela informação era nova pra mim.
— Foi pela sua segurança, Pamela.
— Pois você que enfie sua segurança no…
— Pamela… — eu falo, fazendo ela revirar os olhos.
— Você sabe que eles vão querer nossas cabeças, não sabe? – ela dissera para Draco – Dumbledore fala como se tivéssemos escolhas e você compra o discurso… Nossos pais vão presos e nós vamos para onde? E sabe o que Dumbledore faz? Ele some! Ele faz a gente achar que não é nada, com aulas normais, peças de teatro… pelo amor de Merlin! E você está envolvido em tudo isso!
— Você vai me agradecer depois, Pamela, e eu não vim aqui para discutir com você — Draco apenas responde, sem se deixar levar.
Pansy cruza os braços, visivelmente nervosa.
— O que você quer?
— Eu vim para falar com Hermione — ele diz, firme.
Os dois me olham no canto do camarim, enquanto eu fazia um grande esforço para fingir que não estava lá, vendo aquela briga de serpentes.
— Você não vai falar com Hermione. Não quero que você chegue perto dela desse jeito — ela briga, de braços cruzados.
Draco ri, debochado. Provavelmente pensou na mesma coisa que eu, o que envolvia nossas roupas no chão, nossos corpos suados e vários erros na Sala da Presidência na noite do Ano Novo.
Pansy revira os olhos, ela tinha entendido.
Draco se aproxima dela, calmamente.
— Eu apoiei suas escolhas, Pan, preciso agora que apoie as minhas.
Pansy diz, com a voz baixo e ameaçadora: — Você não cansa de machucar as pessoas que te amam?
— Ela sabe onde está se metendo, é uma garota esperta. E eu nunca machucaria Hermione — ele responde, no mesmo tom.
Pansy o fuzila com o olhar e eu solto um suspiro.
— Poderiam não falar de mim como se eu não estivesse aqui? — eu falo olhando os dois.
Ela me olha, como se lembrasse que eu estava ali. Ela não parece feliz, parece que a presença de Draco a tinha irritado mais ainda.
— Hermione, você terminou?
Tínhamos conseguido aquele vestido às pressas; era preto, medieval e cheio de aplicações e costuras góticas. Pansy ficou incrivelmente linda, não era de se esperar, mas, por conta da barriga, precisou de ajustes.
— Sim – respondi cortando a linha.
— Tudo bem, obrigada.
Pansy nem me deu tempo de ver como ficara meu incrível trabalho e saiu da sala, me deixando sozinha com a serpente. Eu bufei derrotada, sem vontade alguma de trocar farpas com Draco e fingir que estamos resolvendo alguma coisa.
— Achei muito corajoso bater de frente com Pansy logo hoje – eu falei, irônica, assim que Pansy fechou a porta.
— Sabe, de tudo que já aconteceu, me surpreende você não ter sido a pessoa racional nessa história toda. Nossa relação te deixou muito fraca — ele responde.
Eu balanço a cabeça, tentando entender se eu tinha escutado direito e percebendo que naquela noite o Draco que estava na minha frente era o Draco que tinha se entregado às trevas e o menino loiro apaixonado que tinha feito promessas no Ano Noivo parecia que não estava mais lá.
Respondi, sem hesitar:
— Nossa relação realmente me trouxe muitos prejuízos, que eu duvido que vou conseguir me recuperar tão cedo. A começar pelo alvo que você marcou na minha testa porque se apaixonou por mim, lembra?
Draco bufa: — Você não precisou de mim para irritar tantos comensais.
— Mas você precisou de mim para negociar sua vida com a Ordem da Fênix — rebati, sem pensar duas vezes.
Draco me olha, surpreso. Não esperava por essa. Não esperava que eu respondesse às suas provocações.
Estava cansada de ser tão compreensiva com Draco e sempre acabar machucada.
— Uau, fazia quanto tempo que estava guardando essa para jogar na minha cara?
— Não torra minha paciência, Draco…
— É verdade que eu te devo a vida, Hermione, sei disso — ele diz, mas sem abaixar a guarda. Ainda estou falando com um Comensal.
— Quer mesmo discutir a relação?
— Não, apesar de adorar estar com você, não foi para isso que vim.
— E veio por quê?
— Para me despedir.
Meu coração parou. Ele percebeu, mas eu não esbocei nenhuma emoção.
— Agora? — eu perguntei.
Draco fica confuso: — Você quer marcar um horário para isso? Quer dizer, sabíamos que uma hora isso aconteceria. Terminamos por causa disso — ele diz, tentando não parecer rude.
— Não sabia que seria hoje. Achei que ficaria mais um tempo aqui.
— Eu gostaria.
Revirei os olhos: — Podemos fazer de um jeito melhor?
— Tudo bem — ele concorda — Antes da peça, na Torre de Astronomia. Eu te espero lá.
Balancei a cabeça, concordando.
— Por que ela disse que isso tudo foi ideia sua? — perguntei por fim. Ainda que estivesse contando os minutos para aquela conversa com Draco acabar, queria saber.
Draco suspira, me fitando. Finalmente, era meu Draco ali.
Sentia falta de Draco. Sentia falta de quando meu maior problema era tentar não me apaixonar por ele e lutar com o desejo de querer beijá-lo toda hora.
Mas sempre soube que amar Draco me destruiria.
Só não sabia em que proporção.
— Foi ideia de Dumbledore… Quando ele voltar, quer que os alunos estejam ocupados demais para perceber o que está acontecendo — Draco conta.
Eu arqueio as sobrancelhas. É a primeira vez que ele fala de Dumbledore para mim.
Uma parte de mim sabia que era pela minha segurança e que era melhor assim, mas por outro lado me doía sempre que ele agia pelas minhas costas.
— E você está envolvido nisso — eu concluo.
— Até o pescoço — ele admite. — Não tenho escolha, nunca tive.
Bufei: — Continua repetindo, um dia você se convence.
— Em outras circunstâncias, eu correria direto pra você.
— Não vamos brincar de faz de conta — respondi.
— Sim, vamos deixar isso para Pansy e Blaise… — ele revira os olhos, me dando as costas.
— Idiota... – murmurei, e então lembrei: – Espera, sua roupa – falei procurando no meio da pilha de roupas que tinha organizado para a peça.
Ele parara na soleira da porta, sem entender. Eu suspirei.
— Para a apresentação de hoje...
A roupa de Draco era preta e bonita. Eu consegui aquela roupa alguns dias antes, fiz até ajustes e estava orgulhosa de mim por arruma-lá a tempo da estreia.
— Ah – Draco passou a mão no cabelo. – Eu não vou apresentar hoje à noite... Tenho que fazer uma coisa. Já falei com Sutcliffe... Alec vai me substituir... O que é uma pena, porque eu daria um bom Ripper... Ninguém te avisou?
— Oh... Não.
Eu não queria ter parecido tão decepcionada. Meu ombro caiu e foi muito involuntário, tanto é que Draco percebeu e me olhou daquele jeito que olhava antes, quando percebia que tinha feito ou falado coisa que não devia. Olhar de desculpas, vou me redimir.
— Desculpa, Hermione…
— Tudo bem – respondi colocando a roupa de volta na arara — E você realmente seria um ótimo Ripper.
Ele sorri.
— Nos vemos à noite? — pergunta, parado na porta.
— Ridículo – revirei os olhos. Ele ficou lá parado, esperando uma resposta. E eu quase dissera não, porque não tinha imaginado que seria logo.
Eu suspirara. — Nos vemos à noite.
— Nos vemos à noite – e ele se virou para ir embora.
[...]
— É muito tentador pular – falei entrando na Torre de Astronomia. Draco, debruçado no parapeito, se virara para mim com um sorriso debochado — Então, vamos logo terminar isso.
Ele frangiu o cenho: — Por que a pressa? Tem compromisso?
— Não abusa, Malfoy – respondi.
— Já percebeu uma coisa? Somos tão parecidos. Você e eu. Eu e você. Nós — começara falar.
— Exceto pelo senso de honra, decência e moralidade, é claro — rebati, com a estranha sensação de já ter tido essa conversa. Na minha cabeça.
— Você vai vir para o meu lado. Eu sei disso — ele soltou, sem grandes cerimônias, e a naturalidade daquilo quase me assustou, como se ele estivesse certo.
— Você parece ter certeza — respondo, debochada.
— Uma palavra, amor: curiosidade – Draco respondera. Eu arqueei a sobrancelha, ele sorriu e continuou — Você deseja a liberdade, deseja fazer o que quer porque quer. Você quer agir sob um impulso egoísta. Você quer ver como é. Um dia, não vai conseguir resistir. E sabe que não vai encontrar isso na Ordem da Fênix.
— Vou encontrar com você? Na Mansão Malfoy? Com Voldemort? — eu falo, retoricamente — Ele vai ser nosso padrinho de casamento?
Draco riu, sarcástico, maléfico.
— Sabe que queria que estivéssemos do mesmo lado.
Eu fiquei quieta, só absorvendo a informação. Por dentro, conseguia me ouvir gritando NÃO, NÃO, VOCÊ ESTÁ COMPLETAMENTE ERRADO. Mas agora, aqui, até consigo dizer que era a mais pura verdade. Ver como é.
Draco me olhara, esperando. E então eu soltei:
— Por que ainda está em Hogwarts? Por que demorou todo esse tempo para ir embora?
— Eu não podia – ele respondera, quase ofendido.
— Oh, é mesmo? – falei e ele me olhara sarcástico.
— Por que acha que ainda estou em Hogwarts, Hermione? Consegue me dizer? — ele pergunta debochado, quase revirando os olhos, extremamente ofendido.
— Porque você e eu somos parecidos – respondi, com um sorriso sarcástico. — E chegará o dia em que você terá a chance de mostrar e fazer a coisa certa.
— Adoro esses momentos. Adoro acenar para eles quando passam.
— Você vai ter a chance de fazer a coisa certa e, quando fizer, descobrirá uma coisa.
— E o que vou descobrir, meu amor? — ele me olha. Sei que está ficando irritado, mas eu ainda gostava de bater de frente com Draco.
Eu sorri: – Vai descobrir que é uma boa pessoa.
— As evidências são contrárias — ele ri.
— Não, eu tenho fé em você. Quer saber por quê?
— Porque você é estúpida – ele revirou os olhos.
Ignorei. Incrivelmente, nada ofensivo que vinha de Malfoy me abalava mais. Era de se esperar. Pansy me avisou e estava certa; Draco vai mudar e não vai ser para melhor.
— Curiosidade — falei. Draco revirara os olhos. – Você vai querer a chance de ser admirado, e a recompensa que vem depois... Draco, você quer tanto isso. Você quer ver como é. Um dia, não conseguirá resistir e vai vir para o meu lado. E sabe que não vai conseguir isso como Comensal da Morte.
Então, ele não disse mais nada, e eu quase achei que terminaríamos ali, daquele jeito, mas ele respirou fundo, quase convencido. E, acredite, se tem uma coisa que nós dois sabemos é que Draco até pode ser bom com argumentos, persuasivo do jeito que é, mas eu sou mais, muito mais.
Estava quase indo embora, quando ele dissera, se aproximando.
— Sua mala já está pronta?
— Está. Há dias — contei triste, lembrando que ainda não tinha notícias de Harry.
— Você vai voltar para sua casa? — ele me pergunta.
— Não sei se é seguro te dar minha localização nesse momento… — eu provoco, rindo. Draco dá risada.
— Você está certa… Mas me dê notícias, está bem?
— Você também — respondo — Mas nós dois sabemos que isso não vai acontecer.
Nós nos sentamos no chão, encostados na parede.
— Estou tentando ter uma despedida normal.
— É impossível, Draco. Nunca fomos normais — eu ri.
Não tinha estrelas naquela noite e as nuvens eram de chuva, o que tornava tudo ainda mais dramático.
Meu coração disparava. Quando veria Draco de novo? Eu não queria me despedir. Eu não sabia me despedir.
— Hoje podemos ser normais... – ele dissera. Eu balancei a cabeça, quase, quase chorando na frente dele. Ele olha e me toma em seus braços sem muito esforço. Eu o olhei, sarcástica, mas também muito aliviada por ele também tentar fazer alguma coisa entre nós parecer normal. Mas como funcionavam essas despedidas? Nem Lilá me prepara para isso.
E entendi por que ela tinha feito tudo aquilo sem se despedir, pois de certa forma parecia muito mais fácil.
Uma lágrima escorre do meu olho e eu passo a mão, rápida.
— Hermione Granger, parece que você ainda tem sentimentos...– ele dissera, brincando e beijando minha bochecha.
— Eu sei, inacreditável, não? E você acabou comigo de tantas formas… — respondi, irônica.
Draco me fitou. Estava rindo até aquela hora, mas parecia realmente triste.
Então, acontece.
Despedidas são assim mesmo.
Mas quando ele fala, eu não aguento. As lágrimas vêm. Dificilmente a gente consegue fazer alguma coisa para evitá-las quando coisas assim acontecem.
Ele me dá um beijo na testa, passando a mão nos meus cachos.
— Você foi a melhor coisa que me aconteceu. Talvez eu tenha sido um idiota por afastar você ao invés de ter contado a verdade desde o começo. Talvez seja por isso que eu não pude admitir que te amava, porque, por algum motivo, eu não podia aceitar que talvez você podia me amar também.
— Draco...
— Quem poderia imaginar que chegaríamos aqui, ahn?
Draco passava a mão no meu cabelo enquanto lembrava das vezes que ele falava que eu o amava, e eu insistia que ele estava louco, tinha sido acertado por balaços. Eu tinha parado de chorar, por Merlin, e nós dois, mais calmos, conseguimos ter a conversa que queríamos.
— Onde nós estamos? – perguntei logo de cara.
— Na Torre de Astronomia — ele responde, despretensioso. Ele sabe o que quero dizer, apenas está fingindo que não porque talvez igual eu, ele não consegue colocar um final naquilo.
— Onde – repeti – nós estamos?
— Eu não sei — ele assume.
— O que vamos fazer?
— Eu acho que nós não podemos fazer nada – Draco respondeu – Você vai estar com o Potter e o Weasley e vai ter que dar tudo que tem.
— E você? Vai fazer o quê?
— Eu? – ele dera um sorriso de lado – Eu vou para casa. Não se preocupe comigo. E depois… Nós vamos ter que esperar para ver… Mas não quero perder você, Hermione.
Eu balancei a cabeça: – Não vai.
— Fique viva, por favor.
Eu dei risada, triste.
Aquele era nosso adeus de verdade, e eu não sabia como dizer adeus em robô.
— Eu sempre vou te amar – falei sem olhá-lo.
E ele respondeu: – Eu sempre vou te amar também.
Eu diria que amar Draco Malfoy foi o mesmo que atirar no peito dele e pedir desculpas sorrindo, para depois dizer "já já o sangue estanca". Era como andar na corda bamba, de olhos vendados.
Amores assim doem muito, porque são amores que se alimentam do caos.
Meu coração está aos pedaços. Eu me levanto e caminho em passos dolorosos até a porta, fazendo um esforço para não olhar para trás e perder toda a coragem que reuni, mas ele vem andando na minha direção e eu sou tomada pelos braços daquele loiro em um beijo que nós dois guardamos para aquele momento.
Um beijo demorado, um beijo cheio de promessas. Eu poderia congelar aquele momento, triste e melancólico. Mas importava? Apesar de tudo que passamos, ainda me lembraria de Draco daquele jeito...
Draco encosta sua testa na minha. Estamos ofegantes, ainda amava os beijos dele, ainda era louca por aquele homem.
— Quando tudo acabar, Hermione… Eu vou atrás de você. E não vai ter um dia que eu não vou lutar por você. Não vai ter um dia que eu não vou desejar você, estar com você, pensar em você, porque você é minha, entendeu? E eu sou seu, sempre fui, sempre vou ser.
Nos afastamos aos poucos, até que eu tomara coragem e deixara a Torre de Astronomia. E Draco.
——
[Ripper] Você está fugindo.
[Arabella] Eu não estou fugindo. Eu estou indo encontrar meu amor no meio do caminho… antes que o destino nos obrigue a nos encontrar em outra vida.
[Ripper] Está delirando.
[Arabella] Não, eu estou amando
[Ripper] Mesma coisa!
[Arabella] Vem comigo, meu irmão.
[Ripper] De forma alguma.
[Arabella] Você não quer saber? Você não quer mesmo saber o que tem além dos muros?
[Ripper] O seu lugar é aqui. No submundo.
[Arabella] O meu lugar é onde eu quero estar. Pode apostar que não é aqui.
[Ripper] Está dando as costas para seu povo! Para quem te ama! E pelo quê? Por uma aventura! Por uma paixão. E com um deles, Arabella!
[Arabella] Eu me apaixonei por mim mesma, Ripper. E eu quero alguém para compartilhar isso comigo.
——
Foi muito rápido.
As cortinas se fecharam e Pansy veio me abraçar na coxia. Atrás dela, Mark. Depois Zabini e Alec. Estávamos todos abraçados quando os gritos começaram e as cortinas caíram.
Comensais e aurores por toda parte. Alunos em pânico e professores indicando a saída.
Mas lá estava ela. Linda e louca, com Amico e Greyback de prontidão, do mesmo jeito que eu a via nos meus piores pesadelos. Bellatrix Lestrange em Hogwarts.
Fiquei ali parada, sem conseguir reagir. Pansy precisou me puxar para fora do teatro ou um feitiço nos acertaria.
— Que merda, por que agora? – Pansy reclamou.
— Ela nos viu. Precisamos ir — Zabini dissera.
— Eu não vou sem o Draco — Pansy retrucou.
— Draco deve já deve estar na mansão — Alec respondeu.
— Não posso ficar aqui, preciso encontrar Ronald — eu falo.
— Não é hora para seus dramas, Hermione — Alec respondeu, rude.
— Não fale assim comigo, Alec… – falei.
Ele abre a boca para responder, ma Zabini me defende:
— Vai com calma, Alec… Hermione é uma de nós — Zabini se intrometeu puxando Alec, que passou a mão na cabeça e não disse mais nada.
Antes que alguém dissesse alguma coisa, a porta se escancarara. Pegamos nossas varinhas, mas Rony entra na sala com o Mapa do Maroto na mão, que ele fez questão de guardar no mesmo instante.
— Era esse o plano o tempo todo? Atacar Hogwarts? — Rony explodiu apontando a varinha para os sonserinos.
— Temos um acordo, Weasley! — Zabini lembrou.
— Vocês têm um acordo com Harry! Eu não fiz Voto Perpétuo nenhum! — ele vociferou.
— Agora não é hora para isso, Rony! — falei e Rony me olha, confuso, mas abaixa a guarda e me puxa para seu lado.
— Dumbledore está morto — ele fala para mim, mas os sonserinos atrás conseguem ouvir e soltam um “oh” em conjunto.
Silêncio mortal. Silêncio perturbador.
Era possível ouvir um alfinete caindo.
Eles se olham e me olham tristes. De repente, sinto que vou vomitar.
É quando eu finalmente entendo tudo. Harry fizera um trato com Malfoy, mas nunca soube de fato do que se tratava a missão do Comensal e talvez o Voto Perpétuo tinha acabado ali.
Olho para Pansy e Zabini. Eles sabiam. O tempo todo.
As coisas começam a fazer sentido na minha cabeça e eu consigo ouvir meu coração se rachando. Todos os acontecimentos bizarros em Hogwarts depois que voltamos, o comportamento de Draco, todo o tempo que ele passava na Sala Precisa, as promessas, a troca de personalidade, nosso término…
Ninguém sabia o que falar. Rony me puxa para mais perto, me dando um beijo na testa.
— Harry está machucado? — perguntei. Foram as únicas palavras que consegui reunir.
— Harry está bem — ele respondeu — Vamos embora daqui.
Troco um último olhar com Pansy. Ela se aproxima de mim, calmamente.
— Eu sinto muito por você estar sabendo desse jeito — ela diz. Consigo ver que está triste, consigo perceber que também não era fácil para ela, mas eu estava com tanta raiva e eu queria tanto chorar. Eu me sentia tão traída.
— Tudo que passamos e você nunca pensou em me contar? — questionei, retoricamente.
— Eu queria, mas eu não podia… — ela tenta se explicar.
— Eu fui sua amiga! Eu fui sua única amiga, Pamela! — discuti.
Antes que ela pudesse responder, ouvimos uma explosão no corredor. Dois comensais entraram na sala e Rony os desarmou rapidamente, me puxando para a saída, no meio dos gritos dos alunos e várias explosões que os Comensais deixavam como rastro.
Passei pela porta sem coragem de deixá-los para trás. Na soleira, eu olhei Pamela, me perguntando quando nos veríamos de novo. Se nos veríamos de novo. Nenhum deles disse nada, mas também não precisava. Eu não conseguiria me despedir deles, de qualquer jeito.
Lilá realmente não me preparara para despedidas.
Zabini acenou com a cabeça e eu fui atrás de Rony.
Draco matou Dumbledore naquela noite. Era o que pelo menos todos falavam em qualquer corredor que passávamos. Os comensais destruíram qualquer coisa que puderam no castelo e depois fugiram, deixando uma memorável Marca Negra no céu.
Tudo aconteceu na Torre de Astronomia, onde eu tinha visto Draco pela última vez. O impacto e a força da Maldição da Morte que Draco lançou em Dumbledore fizeram com que o corpo sem vida do diretor fosse lançado no ar, onde seu cadáver caiu da Torre para o pátio da escola, complementando o cenário macabro sob a luz da Marca Negra.
A invasão dos Comensais e a morte de Alvo Dumbledore abalou todo Mundo Mágico porque o único bruxo que Voldemort temera e que era poderoso e habilidoso o suficiente para derrota-lo havia sido assasinado por um aluno, por um Malfoy, provando para todos nós que já não havia um lugar seguro para estar e tudo que sobrou de Hogwarts foram as memórias e as histórias.
No meio da batalha, eu me perdi de Rony e minha cabeça estava bombardeando informações. Não sabia o que fazer e apenas fui para casa, deixando o Mundo Mágico para trás.
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