Notas iniciais
Capítulo postado mais cedo /o/

Capítulo XXVI

Crescer é, de fato, maravilhoso. À medida que nos tornamos mais velhos, descobrimos o mundo e seus segredos, e criamos nossos pequenos universos, que regem com nossos gostos e ideias.

Até que encontramos pessoas de universos diferentes e começamos a trocar experiências, às vezes integrando algumas de suas estrelas as nossas galáxias, expandindo assim nosso conhecimento e nosso universo.

Dessas interações podem surgir tanto amizades, quanto inimizades. E bem, a maioria das garotas se maquiam, e a maioria dos meninos preferem games. No começo, se odeiam, mas começam a trocar mais ainda as estrelas, e como diria a música “Somos todos muito adoráveis/ Até começarmos a conhecer uns aos outros/ A medida em que paramos de nos tornar amigos/ E começamos a nos tornar amantes”.

Que vários casais nasceram de brigas isso é fato. Alguns, de longa data, outros de poucos meses; mas um dos mais bonitos jeitos de se amar é silenciosamente.

Feliciana deixou de ser uma garota tímida e rechonchuda para tornar-se a encantadora Feli, dotada de curvas e uma personalidade alegre. Fazia amizades com facilidade e continuava amante das tintas e dos pincéis. Era vaidosa, vivia arrumada, penteada e maquiada, com as unhas sempre caprichadas. Gostava de massas, como uma típica italiana, e junto com a irmã, passavam os finais de semana no shopping, experimentando as roupas de todas as lojas.

Mas quando era questionada se gostava de alguém, sua língua enrolava, a respiração ficava pesada, o coração aos pulos, dizendo que não. Mas sempre que entrava na sala, suspirava ao ver certo loiro. Era um garoto magrelo, que gostava de jogar futebol com outros garotos, cheio de espinhas, e talvez pelo fato de ser um típico alemão, as garotas gamavam nele. Mas ele não ligava.

Ludwig também crescera, mas não se tornou popular nem nada. Vivia acompanhado do irmão mais velho, que já era escandaloso o suficiente. Ao contrário do albino, preferia ler livros dos mais diversos gêneros, jogar alguns RPG’s no computador, e claro, futebol.

Garotos são mais lentos em relação ao amadurecimento, e apesar de ser mais sério que o irmão, Ludwig não era exceção da regra. Somente por volta dos quinze anos começou a perceber que seu corpo não o agradava. Parecia um esqueleto com um chumaço amarelo no crânio e decidira que era hora de fazer algo além que um simples futebol. Corria nas quadras todos os dias, praticava natação e passou a frequentar a academia do colégio.

... Talvez assim chamasse a atenção daquela italianinha.

–x-

A coisa mais chata que existe é ficar trancado no quarto com alguém. Quer dizer, ser perseguido, sequer ser deixado em paz a uma ida ao banheiro é pedir pra morrer (Antônio se ofereceu para entrar no box comigo). Sequer posso cantar, ouvir música, assistir vídeos ou ler, porque sempre meu acompanhante insiste em conversar. Muitas vezes assuntos idiotas, apenas para ser boa companhia.

Eu adoro mesmo os meus amigos, mas realmente... Eles são mais legais quando não querem me proteger. Até a minha comida eles vão começar a colocar na minha boca!

Eu não frequentava as aulas mais, pelo fato do meu olho ainda estar muito roxo e minha boca machucada. A base mais clara da paleta de maquiagem da Lovina ficara muito escura em mim, e sequer cobria o hematoma. O Francis sugeriu que passassem corretivo de caneta em mim, e eu o mandei ir plantar batata. Enfim, quando todos estão em aula, eu fico na sala dos professores, com algum professor, fazendo trabalhos para compensar as faltas.

Uma forte chuva caíra na região, e ventos derrubaram alguns postes ao longo da estrada, cortando a distribuição de energia para o meu colégio. Devido a isso, não tivemos aula.

Aproveitei o sono estendido de Francis e Tonio para fugir. O tempo frio e o céu escuro pelas nuvens de chuva era um cenário perfeito, pois dependendo de como o céu está nublado, não posso dar as caras.

Subi no telhado, me aproveitando de janelas e fios pelas paredes, para admirar a paisagem. O silêncio era supremo e a floresta, molhada e amarelada, davam um ar sepulcral. Eu gostava disso, e o ar úmido enchia meus pulmões... Como é bom sentir a liberdade!

Eu sentia vontade de me perder na floresta, mas era capaz de não voltar mais, e apesar de querer meus amigos como antes, eu precisava tê-los próximos.

Uma garoa fina começara a cair quando eu mal acabei de me sentar em cima do meu casaco preto (o vermelho está na lavanderia), me deixando frustrado por ter que ficar ensopado e com frio. Mas não tinha problema. O que era uma gripe, afinal?

– Você realmente não tem mais o que fazer, não é? – a voz repreendedora de Roderich quebrou o perfeito silêncio.

– Como soube que estou aqui? – me virei, o fitando. Ele estava com um guarda-chuva aberto, vestido de jeans, uma camiseta preta e um casaco azul que tinha o dobro do seu tamanho.

– Eu te vi subindo. Tentei te impedir de se jogar do prédio e- — ele se aproximou – dói muito? – questionou, apontando para meu rosto.

– Depois de um tempo, a gente esquece... Não dói muito agora...

– Certo. Com licença – ele se sentou ao meu lado, ficando extremamente próximo a mim. Enrubesci com o contato e tentei não o encarar enquanto meu coração não parasse de palpitar. Roderich também permanecia em silêncio, cobrindo nós dois com o guarda-chuva.

Ficamos cerca de dez minutos encarando a paisagem, enquanto a chuva aumentava. Era a segunda vez que observávamos a precipitação pluviométrica, e eu gostava disso. Gostava de ficar em silêncio ao lado dele, gostava de tê-lo ao meu lado, sem resmungar ou falar mal da Gaga. Principalmente essa última parte.

Mas era angustiante tê-lo ao meu lado sem saber o que ele estava realmente fazendo aqui. Jurava que ele não falaria mais comigo depois que soubesse do episódio – e a essa altura todo o colégio já sabia – mas até que nossa conversa pelo WhatsApp estava normal, entre uma briga e outra, eu mandava emojis de beijo, ao que ele respondia com os zangados.

– Estava passeando pela escola com um guarda-chuva, Roderich?

– Não, idiota. Eu te vi subindo, fui para o quarto, peguei o guarda-chuva e o casaco do seu irmão, e vim para cá.

– E como a bela dama subiu? E por que pegou o casaco do meu irmão – sorri, provocando-o. Roddy ficou vermelho e desferiu um tapa no meu braço.

– E-Eu subi como você, imbecil! E foi o primeiro o que achei! Você sabe que não pode ficar sozinho, ainda mais nessa chuva!

– Tá certo... – sorri. – obrigado por se preocupar comigo.

– D-De nada, idiota.

Ficamos mais um tempo em silêncio. A chuva aumentara e o guarda-chuva era inútil. Seria bom beija-lo, mas meu coração lembrava ao meu cérebro outra coisa.

– Você tinha comentado que ia me contar alguma coisa...

– Ah... É verdade.

– E sobre o que é?

– Sobre mim. A Liz disse que eu deveria contar.

“A Liz, hum...”

– Pois conte! Adoro ouvir histórias!

Ele hesitou um tempo, mas logo deitou a cabeça em meu ombro, se encolhendo por causa do frio. Automaticamente, o enlacei com o braço e o apertei contra meu corpo.

– Como sabe, sou da Áustria, e meus pais cuidavam dos negócios da família, que são as joias... – assenti – cuidavam... Agora meu padrasto que toma conta.

– Por quê?

– Meu pai faleceu quando eu era pequeno – sua voz parecia triste – e no final do ano retrasado, minha mãe bateu a cabeça num acidente de carro e agora... Está em coma. – arregalei os olhos. Ele vive a vida no nível hard! – mas antes do acidente, ela se casou com um homem chamado Lotzen. E ele me odeia. Meu cérebro ligara o pisca-alerta.

– Como assim, Roddie?

Ele suspirou, sua voz começara a ficar embargada.

– Ele me odeia e odeia homossexuais, Gilbert. Ele não sabia de nada, até me ver beijando meu ex-namorado, na saída do meu antigo colégio. Eu achava que não daria nada, e minha mãe sabia já... Mas eu mal cheguei em casa e ele... – senti o estremecer – ele apenas me mandou ir para o quarto... Ele me jogou no chão me chutou, e me mandou não chorar, para ver se eu era homem mesmo. Foi a primeira vez de muitas. Ele mal pode me ver e já me bate. E agora não importa o lugar.

– Mein Gott... – o abracei mais – e sua mãe já estava acidentada na época?

– Já... – senti as lágrimas quentes dele caindo em minha mão. Ficamos mais tempo abraçados, em silêncio. O ouvia chorar baixinho, e acariciava suas costas, onde sabia estar mais machucadas.

– E a Liz?

– A Liz... Eu a conheci há certo tempo na Escola de Música, e ela me apresentou o Daniel, que é meu ex...

Preciso descrever o ciúme em que me encontro?!

– Ele era um bom rapaz – hum – era carinhoso – Hum – e não gostava da Lady Gaga. – QUÊ?!

– Já deu de falar dele, não é?!

Ele levantou a cabeça; encaramo-nos e ele sorrira.

– Já. Ele terminou comigo por que eu era muito chato – ele tornou a deitar a cabeça.

– Faz sentindo – mal respondi e já senti outro tapa no meu braço.

– Idiota...

O puxei para meu colo, na tentativa de me esquentar.

– Eu acho que ele não sabe a fórmula de como se ama o Roderich – eu disse, enquanto limpava as gotas d’água e as lágrimas de seu rosto vermelho.

– E qual é mesmo a fórmula? – ele sorriu.

– Ser muito paciente, é a primeira regra.

– E as outras?

– Eu vou descobrindo – acariciei seus lábios com os dedos, e ajeitara a franja molhada, que caía teimosa em seus olhos. Como alguém conseguia judiar de alguém tão lindo assim? – e vou cuidar de você – o beijei. Ele logo correspondera; o beijo era calmo, e Roderich me puxava mais para si. Aproveitei para pedir passar para a língua, e embora relutante, ele permitiu. Mas logo entendi porque ele não aprofundava o beijo: ele beijava muito mal. Liz e Mathias beijavam muito bem, mas sentia que a língua dele tinha rotação de liquidificador enguiçado.

Quando nos separamos, nos encaramos, os dois rubros e arfando.

– Roddy... Você beija muito mal.

– C-como?! – sua voz denunciava frustração

– Não tem problema, eu te ensino – beijei sua testa.

– Imbecil – ele respondera, sorrindo.

Notas finais
A música citada é da Marina and The Diamonds, Homewrecker