Como amar Roderich Edelstein
28 Capítulo XXVII
Notas iniciais
Capítulo XXVII
Quanto mais passava novembro, mais frio ficava. A neblina parecia estar, a cada dia, mais densa, como se painas e algodões flutuassem aqui e ali. O bosque sumia atrás daquela cortina branca e felpuda, e por causa disso, os alunos não podiam ir até os limites impostos por uma faixa preta e amarela.
Eu estava esperando no ponto de ônibus mais próximo ao colégio, a observar a paisagem, com as bochechas geladas, um dente a menos, e cicatrizes quase totalmente curadas. E sozinho. Meu irmão se ofereceu para me acompanhar, mas preferi não o envolver no que viria mais tarde.
Meu pai me ligara no dia anterior, me avisando para nos encontrarmos na Estação Central de Berlim. Minha viagem seria longa, pois eu pegaria um ônibus daqui, para ir à rodoviária e passar três horas enfurnado, ouvindo minhas músicas favoritas, aguardando a bronca que meu vati certamente me daria. E eu teria que bolar uma explicação satisfatória, o que obviamente não é fácil. Meu pai raramente brigava comigo ou com o Lud, deixava as repreensões de brandas a moderadas para a minha mãe, que ralhava por causa de alguma nota baixa, bagunça no quarto ou deixar as toalhas jogadas no chão.
O ônibus finalmente chegou e embarquei. Estava cedo e eu preferia passar a manhã na cama, dormindo confortavelmente entre meus edredons quentinhos, a ficar no ônibus gelado. Mal passaram-se vinte minutos e caía uma chuva grossa. As gotas batiam com força na janela, enfurecidas. O céu, negro, mal parecia ser nove da manhã. O coletivo sacolejava pela estrada. A floresta assemelhava-se com as de filmes de terror. Às vezes, o ônibus fazia uma curva brusca, e eu tinha que me segurar para não voar pela janela oposta, cair no barranco e sabe-se lá o que poderia acontecer.
Isso se repetia num looping até a chegada à estação. Meu estômago estava revirado e saí cambaleante pelo terminal, até a tontura passar. Procurei pelo meu pai por um bom tempo, até encontra-lo numa cafeteria. Bebemos um café mocha antes de ir para o carro. Se trocamos cinco palavras até então, foi muito.
Raramente meu pai dirigia o carro quando tinha que sair comigo ou com meu irmão. Mas agora ele me levaria ao dentista, arrumar o meu lindo dente que se perdeu.
O trajeto até lá não foi muito longo. Mas cada segundo pareceu uma eternidade. Reiner Beilschmidt sabe assustar a qualquer um. Meu pai era um típico alemão, forte, louro e claro, e o semblante frio. Gostava de manter uma postura militar perante os outros, mas da porta de casa pra dentro era um amor de pessoa. Eu comecei a me preocupar com a reação dele quando eu contar. E pelo visto, agora não seria uma boa hora. O fim do outono trazia mais frio, e aquela situação congelava a minha alma! Eu não tinha algum argumento para usar, nada em minha defesa! Advogado? Não. Aí que a verdade seria revelada e eu temia perder todos os outros dentes.
Apesar dos pesares, meu pai ficou calado durante o percurso. Chegamos na clínica, dei meu nome e minha ficha. Aguardei uma boa fração de hora até o dentista me chamar e começar os procedimentos para a reconstrução da minha beleza. O doutor até perguntou como me meti numa dessas. Desviei do assunto, reclamando de dor. Tão logo acabado, recebi uma infindável lista de proíbes e permites, se eu quiser ter uma boa recuperação.
Se a ida fora terrível, a volta foi pior. No meio do caminho, meu pai começou a perguntar sobre a briga. Ele parecia desconfiado com a ausência de um motivo. Tive que me conter para não chorar no carro. Não é fácil, convenhamos. Mas uma hora ele vai saber.
–x-
Após o jantar fiquei trancado no quarto, contra a vontade da minha mãe, que resmungava por eu preferir passar um tempo que teria com ela na cama, falando bobagens nas redes sociais.
Não era bem uma bobagem. Depois de tranquilizar um Roderich preocupadíssimo por não ter ninguém disponível para pegar chocolate quente com ele, conversamos sobre coisas aleatórias. As palavras fluíam naturalmente, embora ele parecia chateado com algumas provocações.
Teclamos até tarde da noite, quando ele reclamou de sono. Eu também sentia meus olhos pesando e ardendo pela claridade da tela. Nos despedimos com um boa-noite seguido de um coraçãozinho colorido. O dele, lilás, e o meu, vermelho. Emendei na mensagem, antes que ele capotasse de sono, que eu gostaria de ter uma conversa urgente na segunda-feira. A resposta fora uma carinha sorridente.
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