Como amar Roderich Edelstein
24 Capítulo XXIII
Notas iniciais
Capítulo XXIII
Roderich acabara por adormecer encostado em meu peito, o que me deixou muito feliz. Eu gostaria de leva-lo ao meu quarto, deita-lo na minha cama para voltarmos ao sono dos inocentes, de conchinha. Eram quase nove horas, a maioria dos estudantes ainda dormiria por horas, mas há quem não havia bebido, e provavelmente estaria descendo para tomar o café agora.
Por outro lado, então acordar Rod era um pecado. Ele dormia como um anjo, de um jeito quase infantil, que dava pena despertá-lo. Mas seria pior se alguém nos encontrasse assim, decidi por realizar meu desejo; com cuidado, ergui o corpo leve do meu Anjo da Música, tomando o cuidado de passar por corredores menos visitados. De fato, não havia ninguém — à exceção de Matthew, sonolento, que olhava curioso para a cena, mas nada disse.
Com certa dificuldade, abri a porta do meu quarto, sentindo o calor humano que exalava. Antônio e Francis não haviam sequer se mexido. Imagino como fora a noite deles, talvez para o espanhol um pouco mais caliente. Eu realmente duvido que ele e Lovina tenham ficado somente em beijos, visto que ambos beberam mais que o previsto.
Deitei Roderich em minha cama e não havia, nunca houve e nem haverá uma cena tão linda como a que meus olhos viam. Devia ser crime uma criatura de personalidade que ia de um extremo a outro mexer tanto com o meu coração. Roddy era fresco, chato, mimado, mas ainda assim eu me sentia atraído por aquele beicinho de contrariedade que fazia quando eu respondia algo que o desagradasse, pela delicadeza de cada movimento seu e, é claro, por seu olhar hipnótico, que sabia me seduzir, me afogar ou me levar à superfície, ora me arrastando, ora me empurrando. Devo dizer que era deliciosa a sensação de estar em alto-mar, embora seu comportamento bipolar me irritasse. Resumindo: meu ficante (posso falar assim?) era duas pessoas em uma, e eu tenho que amar as duas igualmente.
Tranquei a porta e voltei à cama, tentando deixar Rod mais confortável. Tirei o seu casaco, na intenção de cobri-lo com meu cobertor peludo, seus óculos e sapatos. Também tirei meu casaco, deitando-me ao lado do meu músico. Mais uma coisa devo anotar sobre o que conheço dele: era folgado. Mal deitei-me e ele jogou uma de suas pernas para cima das minhas. Como vingança, voltei a enlaçar sua cintura, e ele devolveu abraçando meu pescoço e escondendo um sorriso devasso contra meu peito.
Outra coisa que devo anotar: Roderich era um aproveitador descarado e ótimo ator. Apertei seu corpo contra o meu e sussurrei que ele não precisava mais fingir. Em resposta, ele apenas me deu um beijo, leve e sereno, e voltou a se encolher entre meus braços. O abracei mais forte, beijando o topo de sua cabeça, voltando a dormir.
Definitivamente, estou caído de amores por esse garoto impossível!
–x-
Por volta das duas da tarde, a maioria dos meus amigos já estava acordada. Lud e Feli não se desgrudavam, causando surpresa em quase todos. Lovina teria ficado emburrada, se Antônio não estivesse a entretendo no colo. O sono era claramente visível em cada rosto, fora a ressaca evidente em alguns. O que mais estava reclamando da dor de cabeça era Luciano.
– Eu nunca mais na minha vida invento de ficar pentêbado.
– E o que viria a ser isso? — questionou Alfred.
– Ficar bêbado para cada título de campeão na Copa do Mundo.
Todos se entreolhavam. Luciano amava se gabar pelo país natal ser o que tinha mais títulos na competição...
– Dá próxima vez tenta ficar heptêbado, afinal, tomar sete gols... Só bebendo um alambique para esquecer! – Martín tinha um sorriso sádico no seu rosto. O moreno o olhou de cima a baixo e apenas proferiu:
– A Argentina tem duas copas, uma menos que o Pelé. Pare de choramingar, e aceite a superioridade brasileira.
Mas não foi suficiente para o louro, que começara a gritar o nome do país bem alto, deixando o brasileiro furioso.
Pode parecer estranho, mas desde que Luciano começara a ficar com a Amanda, Martín tem cada vez mais provocado o mulato. Francis dizia que era porque o louro nutria algum sentimento pelo outro. Será que o francês nascera com um gaydar embutido?
Eu e Roddy apenas trocávamos olhares, sendo seus olhos parecendo um lago calmo. Combinamos que ninguém precisava saber o que havia rolado mais cedo, não por enquanto, e os únicos que demos satisfações fora meus colegas de quarto, que, incrédulos, olhavam para um austríaco tímido agarrado a mim.
Antes de me desejar boa noite via mensagem, Roderich disse que precisava falar algo sério comigo, imagino que seja sobre seus segredos. Apesar de ansioso, fora a primeira vez no ano que eu dormia tão bem, com sonhos maravilhosos.
–x-
Finda a última aula de terça-feira, a tarde, quase todos os alunos já haviam saído de sala, incluindo Antônio, que vinha cada dia parecendo mais preocupado depois da festa, e Francis, que precisava acertar uns detalhes com Alfred sobre algum evento próximo. Como eu não tinha pressa, guardei calmamente todos os meus materiais.
Além de mim, outros três colegas, que nunca troquei uma palavra na vida, faziam o tipo valentão, permaneciam na classe. Eu pressentia o perigo, detestava ficar sozinho com desconhecidos. Terminei de guardar os meus livros e pus-me a caminhar para fora do recinto, mas me chamaram pelo sobrenome. Paralisei onde eu estava, a passos do paraíso.
– Beilschmidt? Onde vai tão apressado? Não te ensinaram que deve cumprimentar os amiguinhos quando te chamam?
– Vocês não são meus amigos, com licença – tentei me esquivar, não olhando para eles, mas infelizmente eram muitos e mais fortes que eu. O que falava comigo, um americano alto de cabelos acaju, puxou-me pelos cabelos, arrastando-me até o fundo da sala, seguido pelos outros dois. Eu comecei a transpirar, querendo gritar, mas o pavor me deu pane. Não contente em quase arrancar minha cabeça, atirou-me contra o chão; os sorrisos cruéis em seus rostos.
– Sabe o que leões fazem com veadinhos, Beilschmidt? Nós os devoramos.
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