Notas iniciais
Estou com problemas e escrevi pelo celular.... Enfim, longa história. Mas a Amanda lindíssima aceitou de bom grado postar pra mim, essa linda.

Capitulo XXIV

Se tem alguma coisa que me assusta desde criança é como o ser humano pode ser tão perverso e cruel.

Lágrimas desciam teimosamente pelo meu rosto, não de tristeza ou de dor, mais de raiva. Raiva pela minha covardia, por ser tão dependente, por ser fraco.

E raiva da injustiça.

Eu não fazia ideia de que horas eram. Meu celular estava desligado desde o início da tarde, e permaneceria assim até tudo melhorar. Aliás... Eu sequer sabia onde ele estava.

Vai demorar bastante.

As cenas que vivenciei não paravam de se repetir na minha cabeça. Eu posso dizer que ainda sentia o toque daquelas mãos nojentas me apalpando e tentando violentar-me, e quanto mais eu tentava me livrar, mais eu apanhava. Até que um louro grosso perdeu a paciência e desferiu um soco em minha boca, causando-me dor e o característico gosto metálico tomar conta do meu paladar. Sentia agora a tentativa de arrancarem minha calça, e eu já não tinha forças para tentar me defender. Nunca desejei tanto a minha morte.

Os xingamentos ainda me soam nítidos, e as imagens desfocadas pelas lágrimas. O que eu fizera de tão errado? Foi tanto assim para ser humilhado?

Eu seria violentado por aqueles três, como eles diziam, se não fosse pelo meu irmão ter atirado uma cadeira naquele que me ameaçara. Lud estava furioso e não poupava forças ao bater no moreno de cabelo esquisito. Eu ouvia a voz a qual eu costumava ouvir grossa e mansa, urrando histérica. As mãos do louro obtuso tentavam me enforcar, e eu olhava para a cena distorcida de Ludwig arrancando sangue do sujeito.

Eles queriam me matar de qualquer jeito.

Mas outro grito fora ouvido. Francis e Antônio atracaram-se no pescoço do louro, que me soltara; caí inerte no chão. Eu queria fazer alguma coisa, mas o máximo que eu fazia era cuspir o sangue da minha boca. Os gritos pareciam distantes. Liz era um borrão que atacava o mais fraco dos três com um livro de física. Seria cômico se não fosse trágico.

Mas um grito agudo fizera todos ali pararem. Feliciana aos prantos implorava a meu irmão que parasse imediatamente.

– Por favor, Lud... Já chega... — Ela se agarrou ao braço musculoso, às lágrimas. Meu irmão largou o sujeito, que já estava inchado. Meu irmão fizera isso por mim...

Aos poucos, o clima estava ficando menos pesado, se é que se poderia dizer assim. Minha cunhada soluçava ainda, e eu jazia esquecido no chão.

Porra — com o perdão da palavra -, eles tentam salvar a minha linda pele sem melanina e esquecem justamente de mim?!

Ludwig agarrou novamente o moreno pela gola da camisa e disse pausadamente:

– Se você ousar se aproximar um quilômetro do meu irmão... Eu pessoalmente te levo pro inferno, você me entendeu? O mesmo vale pra vocês — disse, ríspido — agora sumam da minha frente, ou vocês vão sentar no colo do capeta hoje!

Atarantados, meus agressores fugiram feito baratas. Eu nunca imaginei que meu irmão diria aquelas coisas... Ele era gentil a seu modo, educado e reservado... Juro que fiquei assustado, ainda mais com a reação da Feliciana.

Finalmente se lembraram de mim e foram me acudir. Lud ergueu meu corpo delicadamente, me ajeitando em seus braços, com a arte de Michelangelo. Todos perguntavam como eu estava ao mesmo tempo, me deixando sufocado. Eu sentia vontade de vomitar o meu lanche da tarde, mais o que estivesse no estômago, mas sequer me movia. Lud apressou-se em me levar à enfermaria, onde me medicaram e limparam as nossas feridas. Liz tinha um corte profundo no braço, aparentemente de uma navalha.

Ela fez isso por minha causa.

Ninguém quisera fazer qualquer comentário que fosse. Me deram uma sopa rala como jantar e me fizeram dormir um pouco. Os meus amigos não saíam de perto.

–x-

Por volta das onze horas, eu já me sentia um pouco melhor. Implorei que me deixassem ir para o meu quarto, que estava tudo ok, obrigado, mas ainda se não deixaram. Meu irmão disse que iria resolver os problemas, pois os diretores e coordenadores exigiam respostas. Afinal, nunca houve uma confusão na qual um dos envolvidos terminasse com um dente quebrado.

Eu acordara diversas vezes apenas para chorar silenciosamente. Exausto, dormi por mais tempo até as dez horas da manhã, olhando para um panda de pelúcia com um pequeno bilhete acompanhando:
"Estou tentando retribuir o carinho :) pandas ajudam muito... Me devolva-o assim que se sentir melhor...
R.E."

A letra elaboradíssima das iniciais denunciava claramente o autor do bilhete, além das outras provas. Abracei o urso e senti o perfume delicado de Roderich nele.

Eu sorri pela primeira vez depois de todo aquele inferno.