Como amar Roderich Edelstein
16 Capítulo XV
Notas iniciais
Capítulo XV
A semana de provas carrega consigo uma bagagem repleta de preocupações. Três grandes provas são aplicadas, dividindo-se em humanas, exatas e linguagens, sendo esta composta por 15 disciplinas (!). Tem-se a tarde toda para realiza-las, e passar a limpo no gabarito. Na sexta-feira, há uma prova de redação, onde dissertamos sobre política, meio-ambiente, sociedade, entre outros. Temas muito chatos, convenhamos. Ah, é obrigatório escrever na sua língua natal e em inglês, ou seja, duas redações. Quem for falante de inglês fica livre para escolher outra língua.
Você pode notar uma semelhança com o vestibular, uma prova que se tem que fazer para ingressar numa faculdade (o Luciano me explicou o sistema de ensino brasileiro). Acontece que nós não fazemos este vestibular. Conseguimos ir para a universidade através de nossas notas ao longo do ensino médio. Ou seja, minha vida universitária depende bastante dos resultados, ainda mais agora que é meu último ano.
Mas quem disse que estou conseguindo estudar?
Estou com o livro de física aberto na página 189 há, no mínimo, três horas, e não consigo passar do primeiro exercício. Mal pego no lápis e minha mente se concentra em Roderich. Das duas, uma: ou ele é muito desastrado e cai toda hora, ou apanha em casa. Eu gostaria muito de acreditar que fosse apenas desatenção dele, mas os fatos apontam para a segunda opção.
“Difícil de acreditar” Lovina comentou, quando discutíamos o assunto com ela “mas infelizmente isso é comum, tanto em famílias de classe baixa, quanta as classes mais altas”.
Não tínhamos muitas informações sobre Roderich, apenas que era austríaco e o sobrenome estava ligado a uma famosa empresa de joias, sendo algumas clientes pertencentes às nobrezas e governos, celebridades internacionais, empresárias, etc. No site, afirma ser uma corporação de classe e tradicional, respeitando a delicadeza e vaidade da mulher e proporcionando elegância aos homens. Dei uma olhada na última coleção, cujos preços são bastantes salgados, mas fazem jus às joias. Lindíssimas, devo dizer, havia relógios, pulseiras, anéis, colares, joias que eu nem sabia onde colocava-se, além de bolsas e luvas estilizadas. Reconheci uma gargantilha de ouro e pérolas que minha mãe usou na última vez que a vi.
Além de toda a propaganda, contou-se uma pequena história da fundação, data-se do século retrasado, com a matriarca Edelstein, que tinha uns doze anos na época, “sempre fascinada pelo brilho do ouro”, resolveu que um dia, desenharia joias. Os pais, cheios da nota, apoiaram o sonho da filha (eu até transcreveria o que estava no site, mas é tão sofisticado que me deu sono). Desde então, a chefia era passada de geração em geração, o que quer dizer que Rod iria herdar o ouro todo. Depois vou passar na seção de alianças para escolher a nossa.
Brincadeiras à parte, tentei mais uma vez realizar aquela questão sobre eletricidade, mas não consegui. Eu ia me dar muito mal na prova de exatas, porque além de física, tem outras sete matérias no mesmo dia. Era melhor eu resolver logo – ou pelo menos descobrir – esse problema do Roderich. Mas seria difícil um mero colega de escola, que parece dormir em alvejante, chegar e dizer:
– Olá! Você apanha em casa ou é algo assim?
Se eu tivesse coragem de conversar sobre o assunto com a Liz... quem sabe seria mais fácil.
Decidi jogar o sobrenome Edelstein mais uma vez no Google. Vários blogs e sites comentavam da beleza das joias, dicas de como deixar o ouro mais brilhante, a prata mais lustrosa, ou como escolher as pedras de acordo com o seu estilo. Nas imagens continha apenas as fotografias dos acessórios, e algumas famosas ostentando-os em premiações. O tédio me fez sair clicando em todas as abas do Google. A última era notícias, a única que me dei ao trabalho de descer a página. “Princesa de tal lugar se casa com as famosas joias da marca Edelstein”, “Em premiação do Oscar, a estrela do filme cujo o sucesso foi global, desfila no tapete vermelho exibe bolsa cravejada de pérolas da Edelstein”, os títulos variavam pouco, e olhei em quase todas as páginas. Eu estava quase babando de sono no teclado, quando vi uma manchete que me chamou a atenção:
“Empresário morre em acidente de automóvel”
Imediatamente, cliquei no link. Eis o texto:
“Na tarde do último sábado, o carro do empresário Franz Edelstein, atual dono da marca de joias luxuosas de sua família, foi jogado de uma ponte.
Por volta das 14 horas e 30 minutos, Edelstein trafegava na ponte, quando um outro veículo, desgovernado, o atingiu em cheio. O transito estava caótico, mas normalizado em pouco tempo. O empresário era o único ocupante do veículo, modelo Königs, que neste dia havia dispensado o motorista para comprar um presente ao seu filho.
Franz deixa a esposa Anneliese e seu único filho”
Fiquei chocado. A notícia data de nove anos, e o fato aconteceu no dia 25 de outubro, um dia antes do aniversário de Roderich, e por coincidência, o modelo pertencia a empresa do meu pai. Meu coração se apertou e tive vontade de sair correndo e abraçar o austríaco. Mas tive que me conter. Mandei uma mensagem para Lovina, que respondeu com vários emojis surpresos. Mostrei a Tônio e Francis, que esboçaram a mesma reação.
– E agora, Gil? O que você acha? Não acredito que Roderich se machuque por causa disso. – o louro ponderou.
– Faz muito tempo, talvez tenha superado... – o espanhol emendou logo.
– Eu concordo com vocês... E aquelas manchas... Duvido que ele consiga fazer aquilo. Lud observou que ele tem muitos machucados nas costas e nas pernas... Não quero nem imaginar... Vou fazer com quem tenha ferido meu Rod pagar, com juros e correção monetária!
– O que falar desse pronome possessivo, hein, Gil? – Francis alfinetou.
– Que bonitinho, Gil! – o moreno exclamou – se eu fosse gay também, iria namorar você – e fez um coração com as mãos, sorrindo.
Olhei para os dois, incrédulo.
– Ok. Obrigado pelo apoio. – revirei os olhos.
–x-
Estava decidido a voltar a me dedicar a tocar guitarra. Quando toco, fico mais disciplinado, mais concentrado e posso estudar melhor. Como proibiram o uso de instrumentos musicais nos quartos, tive que ir a sala de música. Nesse período, a sala fica vazia quase o tempo todo, o que me dá a oportunidade de tocar livremente.
Estava pensando se tocaria Bad Romance ou Heavy Metal Lover, quando me aproximei da sala. A porta estava fechada. Provavelmente tinha alguém lá dentro. Me virei para voltar ao quarto, desanimado, mas um estranho barulho me prendeu. Parecia um gemido. Colei o ouvido à porta; outro gemido. A voz era de Roderich.
Eu me tornei a personificação do espanto, e decidi abrir a porta, que ao chocar-se na parede, fez um tremendo barulho. Para meu alívio Rod estava vestido e sozinho.
– Com licença – sorri, procurando abafar a situação. Roderich estava surpreso.
– Toda... – respondera baixinho. – o que faz aqui?
– Eu vim treinar, oras.
– Você vai tocar... isso? – ele apontou com desdém para minha linda Les Paul.
– Não é isso, é uma guitarra.
– Eu sei que é uma guitarra, idiota – ele se exaltou um pouco. GROOOSSOOO – Mas faz um barulho horrível. E você nem deve saber tocar direito! – Ai! Como queria eu mesmo machuca-lo, acerta-lo na cabeça com um violoncelo! Melhor, um piano!
– Já que você é O músico, – reparem a ênfase no artigo – faça o favor de tocar essa coisa – olhei para o violino que carregava, estava um pouco velho, mas tinha um charme vitoriano. O austríaco fez uma careta e demorou algum tempo para decidir o que tocar. Posicionou o violino entre o queixo e o ombro e levou o arco em direção ao instrumento. Mal a peça tocou nas cordas e ele arfou.
Ergui uma sobrancelha:
– Está tudo bem?
– Está... – ele tentou de novo; dessa vez um gemido de dor escapou de seus lábios.
– Não tá, não, Roderich. – me aproximei – o que houve?
– Nada, Gilbert. Vá tocar sua guitarra! – Ele gritou, com os olhos marejados.
– Não vou tocar porcaria nenhuma enquanto você não me contar o que aconteceu!
– E você se importa? – questionou, escondendo o antebraço.
“Até demais, seu imbecil”.
– Não deveria, mas não costumo seguir as regras que me mandam não ajudar quem precisa – sorri, mas não fui correspondido.
– Confuso... E-e não preciso de ajuda, estou bem.
– Não está! Vou te levar à enfermaria.
– Não! – se exasperou – é-é sério, Gilbert! Estou bem – ele se afastou e tentou se apoiar na bancada com a mão dolorida, o que obviamente resultou em um grito de dor mais alto, e lágrimas escorrerem pela face delicada.
Larguei minha postura de desafiador e o orgulho, mas ainda assim me segurei para não lhe fazer carinho. Levantei o seu rosto e sussurrei que ele não precisava se enganar, e o convidei para visitar a enfermeira (eu acho que ele foi depois que ameacei arrasta-lo até lá).
Não tinha ninguém na enfermaria, então tivemos que esperar um bom tempo. Rod e eu não conversamos, apenas fitávamos o relógio que fora posto na parede azulada a nossa frente. A cada dois minutos eu apertava a campainha, esperando que alguém aparecesse. Já estava irritado, quase quebrando o sininho, quando Rod se levantou, num lamento mesclado com alívio, que era melhor deixar pra lá.
Mas antes que ele pudesse sair, uma moça loura de olhos castanhos apareceu na porta, vestindo branco dos pés à cabeça.
– Pois não? – perguntou, sorridente.
– O jovem aqui está com o braço machucado – apontei com a cabeça.
– Oh... Vamos entrar, sim? – ela abriu a porta do quarto. Havia uma maca, uma mesa, aparelhos de medir pressão, diabetes, e toda essa parafernália médica.
Acompanhei o austríaco, que se sentou na maca. A enfermeira examinou o seu punho, não gostando muito do que via.
– Bem, meu querido...
– Roderich.
– Roderich, acredito que você tenha fraturado a extremidade distal do rádio, ou seja, o punho. Eu queria tirar uma radiografia, mas o colégio não dispõe do equipamento no momento. Onde se machucou?
Ele abaixou a cabeça.
– Em casa.
A enfermeira se virou para mim; levantei os ombros, demonstrando não saber.
– E foi como? – ela já mostrava suspeita em seu olhar.
– Caí. Da escada.
– Ah... Eu acho melhor ligar para os seus pais, você precisa ir a um hospital imediatamente.
Rod fez uma expressão de pânico.
– Não! Por favor... E-eles... Quer dizer...
– Estão viajando para a Ásia – inventei – Mas eu poderia acompanha-lo, meus pais autorizariam.
– Mas não tem como entrar em contatos com seus pais, Roderich? – ela estava desconfiada.
– N-não... Mas eles ficarão cientes, posso mandar uma mensagem para eles depois.
Ela não acreditou muito na nossa mentira. Mas pareceu deixar estar.
– Certo, chamarei um carro do colégio que os levará até o hospital mais próximo. – se retirou do quarto-consultório.
Rod suspirou de alívio.
– Obrigado, Gilbert. Muito obrigado.
– Foi uma ironia?
– Não, você me salvou. De onde tirou que meus pais estariam na Ásia?
– Sei lá, só lembrei-me do nome da cadelinha nova da Gaga, Asia.
– Ah.
Passou dois minutos.
– Roderich?
– Pois não?
– Por que não podem saber que fraturou o punho?
– Bem, Gilbert... – a enfermeira voltou, nos chamando. – depois eu te falo...
–x-
A viagem de ida durou quase uma hora. Não nos falamos durante o trajeto, e ele só abrira a boca para dizer o nome e seu número da identidade. A consulta levou meia hora, fora as radiografias. Saímos do hospital no fim da tarde, e Roderich trazia no braço o peso de um gesso. Três semanas sem violino nem piano. O austríaco estava abaladíssimo. Na volta pra escola, enquanto ele dormia encostado na janela do carro, enviei uma mensagem a Francis contando rapidamente do ocorrido. Enquanto esperava sua resposta, acariciei a bochecha do dorminhoco ao meu lado, sussurrando bem baixinho.
– Juro, solenemente, cuidar de você pra sempre.
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